terça-feira, março 05, 2019

O inferno de Noturno



O inferno de Noturno é uma HQ publicada na revista Uncanny X-Men Annual n° 4 de1980 e republicada aqui em Superaventuras Marvel 35. É uma das histórias injustamente pouco lembradas dos mutantes.
A trama se passa pouco depois da morte da Fênix, quando Kitty Pride ainda era uma novata na escola. Na HQ, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de John Romita Jr, Noturno está fazendo aniversário e recebe um presente que, aparentemente, provoca sua morte. Desconfiado de que o episódio tem fundo místico, o professor Xavier chama o Dr. Estranho, que descobre que a alma de Kurt Wagner na verdade foi sequestrada. Ele, Ororo, Wolverine e Colossus são transportados ao local onde se encontra a alma de Noturno, o inferno – e precisam escapar dali.
O interessante aí é que Claremont estruturou o roteiro todo a partir da Divina Comédia, de Dante, inclusive com citações da obra e descida aos círculos do inferno.
Essa é uma história que se diferencia muito da fase Claremont-Byrne, que tinha um enfoque mais realista e até de FC. Aqui é fantasia pura. Mais à frente essa ênfase na fantasia provocoria um esgotamento nos roteiros de claremont, mas funciona bem aqui, apesar de alguns problemas. Por exemplo: onde a feiticeira Margali conseguiu tanto poder a ponto de rivalizar com o Dr Destino? 
Um dos pontos positivos da HQ foi apresentar a obra de Dante Aleguiere aos leitores e justificá-la adequadamente dentro do universo dos x-men. Aliás, meu primeiro contato com a divina comédia foi com essa história, publicada quando eu tinha 14 anos.
Os desenhos de Romita funcionam bem. Ele ainda não tinha seu traço pelo qual ficou mais conhecido e na época ainda imitava o pai. Há quem goste só da fase antiga, há quem goste só do traço novo. Eu gosto dos dois, dependendo do trabalho. Neste, o Romitinha mandou bem.

segunda-feira, março 04, 2019

Arte é entropia

Aquelas pessoas que se interessam por arte devem ter ouvido falar do garoto de 21 anos que pregou uma peça no público e nos organizadores da 25ª Bienal de São Paulo. Cleiton Campos, estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, pintou um navio pirata em um quadro pequeno. No dia 31 de março, um mês após a abertura da Bienal, ele colocou uma bermuda folgada, enfiou o quadro no bolso e, com a ajuda da namorada, infiltrou o seu pequeno quadro entre as obras de arte que ali se encontravam.
O Navio Fantasma ficou exposto, no chão, ao lado de pinturas e fotos eslovenas e foi visto por, talvez, milhares de pessoas.Passaram-se dois meses e ninguém da coordenação da maior exposição de artes da América Latina percebeu o intruso.
Quando a Bienal acabou ele ainda estava lá, no chão, entre outros quadros.Embora o pequeno quadro tivesse sido feito com esmero, o objetivo de Cleiton não foi expor sua arte. Afinal, ele mesmo não leva muito a sério suas produções de final de semana: "Não tive pretensão artística; não sou artista. Estava indo visitar a exposição e tive a idéia de passar esse trote. Foi uma piada".
A brincadeira de Cleiton é, mais do que nunca, oportuna. Ela nos leva a refletir sobre o que é arte.
Alguns certamente criticarão meu tecnicismo, mas vejo a arte do ponto de vista da teoria da informação. Para essa teoria, há duas categorias básicas para se entender qualquer mensagem: a informação e a redundância.Informação é o que é novo, diferente, inusitado. Redundância é o que já conhecemos, aquilo que já foi dito e repetido e já faz parte de nosso repertório. A verdadeira arte é essencialmente informativa. Ela nos apresenta o novo, acrescenta algo a nosso repertório.Claro que nem tudo que é informativo é arte. Um jornal está repleto de informação, e nem por isso é arte, até porque seu objetivos são diferentes. A informação em arte é uma informação diferente, transformadora (quando falo de arte, não penso apenas em artes plásticas, mas também em cinema, quadrinhos, literatura, música...) que nos leva a refletir sobre o mundo em que vivemos ou até mesmo sobre nós mesmos.
É esse caráter informativo que faz com que alguns grandes artistas sejam rejeitados em sua época. Van Gogh que o diga. Há, aqui, um jogo de gato e rato entre o sistema e o artista.
Enquanto o artista busca o novo, o sistema quer a redundância. Toda proposta deixa de ser artística quando é assimilada pelo status quo. É por isso que os dadaístas faziam obras sem sentido: numa tentativa de impedir essa apropriação do sistema.Isso nos leva à conclusão de que a arte tem muito a ver com atitude. Quando os dadaístas colocaram um vaso sanitário em um museu, eles estavam fazendo verdadeira arte. Estavam rompendo com nossos conceitos estabelecidos, nos fazendo refletir não só sobre o mundo ou sobre nós mesmos, mas, principalmente, sobre o que é arte. Só é artístico o que está no Museu ou na Galeria? Um vaso sanitário torna-se uma obra de arte só por estar em um Museu?
Entretanto, quem, hoje, colocar um vaso sanitário numa galeria pode ser chamado de idiota.
Alguém já fez isso e isso já foi assimilado pelo sistema. É pura redundância.Fazer arte consiste em encontrar formas diferentes de fazer aquilo que outros fizeram.
Nesse sentido, Cleiton Campos foi o mais importante artista da Bienal. Seu pequeno quadro tinha a mesma importância das grandes obras das artes plásticas não pela qualidade estética, mas, principalmente, pela atitude.
Esse caráter informativo da arte foi bem definido por Caetano Veloso: "Onde queres o ato, eu sou o espírito; onde queres ternura, eu sou tesão; onde queres o livre, decassílabo". O artista não procura acomodar o receptor, mas ao contrário, frustrar suas expectativas (incluindo as expectativas dos críticos de arte).Os exemplos são muitos: Bob Dylan deixando de fazer canções políticas porque seu público estava acostumado a só ouvir canções desse tipo; Alan Moore escrevendo quadrinhos de super-heróis para frustrar o público que só esperava dele trabalhos intelectuais...
Também da teoria da informação tiramos outro conceito importante: o de entropia. Entropia é sinônimo de caos, destruição, degradação, mistura. Embora possa ser muito negativa, ela tem um aspecto importante: o de criação. Toda criação começa com um processo entrópico. Não é por outra razão que Chico Science dizia: "Eu me desorganizando vou me organizar". A obra de Cleiton é entropia para o sistema artístico, mas é também sinergia, pois apresenta a possibilidade de novo.

Os trabalhos de Hércules: um caso de Herculie Poirot

Os trabalhos de Hércules é um livro de contos de Agatha Christie em que todas as histórias são protagonizadas pelo seu famoso personagem, Hercule Poirot. 
A autora aproveita o fato de seu personagem ter o mesmo nome do herói grego e a ironia disso, já que Poirot parece o oposto do brutamontes Hércules.
Assim, o detetive se propõe, como forma de encerrar sua carreira com chave de ouro, 12 trabalhos, mas trabalhos intelectuais, que exijam astúcia, ao invés de músculos. 
Uma das curiosidades do livro é a forma como a autora consegue criar metáforas atuais para os trabalhos de Hércules. Assim, o Leão da Nemeia vira um cachorrinho pequinês, a Hidra de lerna uma fofoca (que se espalha como as cabeças da Hidra), a corça da Arcádia uma bailarina etc.
Apesar desse aspecto curioso, o livro prende pouco no início, afinal algumas das histórias parecem pueris (como descobrir quem sequestrou o cachorro pequinês). O Javali de Erimanto é o primeiro conto a mostrar a autora policial em toda a sua forma: um famoso bandido está em um hotel afastado e isolado do resto do mundo pela neve e Poirot precisa descobrir qual dos hóspedes é ele.
Em comum a todos os contos a incrível capacidade de Agatha Christie de sempre imaginar um final surpreendente. Até quando a história parece muito simples e seguir um único caminho, ela consegue pensar em uma abordagem diferente, que surpreende o leitor. Atenção para o conto "O cinto de Hipólita": o final é absolutamente genial. 

Os Quatro Fantásticos



Os Quatro Fantásticos (Fantastic Four, no original) foi um desenho animado produzido pela Hanna-Barbera Productions em 1967.  O desenho tinha visual do famoso desenhista Alex Toth. No Brasil o grupo já era conhecido como Quarteto Fantástico, mas o tradutor ignorou os quadrinhos e apelidou o grupo como 4 fantásticos. Na década seguinte, a editora RGE, para tentar aproveitar o sucesso do desenho e nomeou a revista dos personagens com o nome de Quatro fantásticos. Quando os direitos passaram para a editora Abril, os personagens voltaram a formar um Quarteto.
Essa série de 1967 é famosa por ser muito fiel aos quadrinhos de Jack Kirby e Stan Lee. Foram 20 episódios que se tornaram clássicos.
Dez anos depois o canal CBS lançou um novo desenho do quarteto, mas agora sem o Tocha Humana, que foi substituído pelo odiado robô Herbie. As razões para isso parecem ser duas: 1) havia planos para um seriado solo do Tocha humana; 2) os executivos tinham medo que as crianças resolvessem colocar fogo no corpo para imitar o personagem. Durou apenas uma temporada, lembrada com tristeza pelos fãs.

domingo, março 03, 2019

Marketing: segmentação

A segmentação trabalha com três grandes divisões: geográfica, demográfica e psicográfica.
            A segmentação geográfica divide os consumidores por área. Pode ser um bairro, uma cidade, um estado, um país e até um continente. Normalmente, as empresas começam com uma segmentação geográfica restrita e depois vão ampliando sua área de atuação. O Boticário, por exemplo, começou segmentado apenas em Curitiba (PR) e região metropolitana. Depois, por meio do sistema de franquias, esse segmento foi se espalhando. A segmentação pode ser ainda mais específica. Uma panificadora, por exemplo, geralmente atende clientes apenas de um bairro. Se ela estabelecer um sistema de entregas ou de vendas em mercearias, essa segmentação pode ser ampliada.
Uma coisa importante: o segmento geográfico não é onde está a fábrica, mas onde está o cliente. O chocolate Wonka é fabricado pela Nestlé de Caçapava, interior de São Paulo, mas é vendido, na sua maior parte, nos EUA.
Conhecer o local onde mora o consumidor é essencial para evitar problemas. Por exemplo, se seu negócio é uma loja de roupas elegantes, não vá instalá-la num bairro pobre. Se o seu negócio são guarda-chuvas, não vá vendê-los em um local onde não chove. Se o seu negócio é fabricar biquínis, nem pense em mandá-los para um país muçulmano, onde a mulher não pode mostrar o corpo.
Segmentação demográfica
A segmentação demográfica inclui variáveis como idade, sexo, renda, instrução, religião, raça. Esses dados são facilmente encontrados em instituições de pesquisa, como o IBGE. Uma pessoa que pretenda abrir uma loja infantil pode pesquisar no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para saber como está o índice de natalidade naquela cidade. Se a natalidade está aumentando, significa mais consumidores vindo aí.

Países com características demográficas diferentes apresentam oportunidades diferentes. Na China, as crianças representam um grande mercado para produtos infantis, pois cada casal pode ter apenas uma criança, o que os leva a mimar os filhos ao máximo. Já na Itália o mercado está diminuindo para produtos infantis, pois cada vez mais casais optam por não ter filhos. No entanto, o envelhecimento da população fez com a Itália se tornasse um grande mercado para produtos voltados para a terceira idade, como fraldas geriátricas e remédios.

Até a religião pode representar uma oportunidade de mercado. Uma cidade com muitas pessoas cristãs pode ser um bom mercado para uma loja de artigos religiosos.

Assim, antes de montar o negócio, tente definir o seu público-alvo. Alguns casos são tão óbvios que nem precisam de uma pesquisa de mercado. Batons, por exemplo, são para mulheres, gravatas para homens. 

Camiño di rato 1 - Como ser enganado por um psicopata

Camiño di Rato é uma das mais longevas revistas alternativas brasileiras, editada pelo roteirista Matheus Moura. Eu colaborei desde o primeiro número, com a história “Como ser enganado por um psicopata”, desenhada pelo Antonio Eder. Na história eu conto, em tom humorístico, a vez em que conheci um psicopata social e como eu e outras pessoas foram enganadas por ele. Foi graças a esse caso que comecei a pesquisar sobre o assunto. Antonio Eder sempre me surpreende positivamente. Seu traço consegue deixar qualquer roteiro mais interessante do que o roteirista havia imaginado. 



sábado, março 02, 2019

E não sobrou nenhum

Escrito em 1939, E não sobrou nenhum (originalmente “O caso dos dez negrinhos”) está, sem sombra de dúvida, entre o melhor de Agatha Christie. Uma história tão boa que acabou sendo adaptada ou simplesmente imitada dezenas de vezes, de filmes a episódios de “Uma família da pesada”. Publicado dezenas de vezes, teve seu título mudado para “E não sobrou nenhum” para atender ao politicamente correto, mas continua fazendo enorme sucesso e sendo a demonstração cabal da habilidade de sua autora em construir tramas.
Nascida em 1891, Ann Miller (seu nome verdadeiro) não parecia destinada à literatura. Queria ser cantora, foi enfermeira na I Guerra Mundial. Quando terminou a guerra, discutiu com a irmã, que afirmava que ela seria incapaz de escrever um romance policial. O resultado dessa disputada foi “O misterioso caso de Styles”, o primeiro livro de Hércule Poirot, seu personagem mais famoso. Foi rejeitado por seis editoras. Quando a sétima aceitou publicá-la, foi um sucesso mediano. O sucesso real só veio em 1926, com “O assassinato de Roger Ackroyd”. Agatha escreveu dezenas romances e inúmeros contos. Seu estilo seguia fielmente o lema de Edgar Alan Poe: primeiro pensava no final, e só depois começava a escrever. Segundo o Guiness, é a romancista mais bem sucedida da história da literatura popular mundial considerando-se o número total de livros vendidos: quatro bilhões de cópias.
O caso dos dez negrinhos conta a história de dez pessoas reunidas em uma ilha (a ilha do negro, devido a uma rocha que se parece com a cabeça de um negro) e que vão sendo mortas uma a uma. Sim, você já viu algo assim. A ideia é tão genial que já em 1945 foi transposta para o cinema, sob a competente direção do francês René Clair, então exilado nos EUA. O título foi modificado para “O vingador invisível”, provavelmente para fugir das acusações de racismo que pesavam sobre o título original. Aliás, nos Estados Unidos o livro foi publicado sob o título de “O caso dos dez indiozinhos”, como se o novo título não fosse igualmente racista, ou até mais, já que não tem relação nenhuma com a canção infantil inglesa, que deu origem ao romance:
Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no Zoo. E depois?
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não ficou nenhum.
A genialidade da autora na elaboração do livro é impressionante – e difícil dizer qual aspecto é o mais relevante.
Primeiro, claro, por construir uma história em que os assassinatos ocorrem em um local relativamente pequeno, fechado e ainda assim manter o suspense até o último momento, jogando com as suspeitas do leitor e dos próprios personagens (essa situação foi levada ao extremo numa sátira da MAD sobre histórias policiais em que um escritor prometia escrever a respeito de “assassinatos numa prancha de surf”).  
Segundo, por construir toda a história a partir da canção infantil, de modo que os assassinatos vão seguindo, rigidamente, a ordem e a contextualização dos versos. Há o jantar, a chuva, a primeira morte com um suposto engasgo, a segunda morte enquanto a pessoa dorme e assim por diante. Aí não se trata só da habilidade de construir a trama a partir de algo anterior, mas de fazer isso de modo que o leitor, embora conheça os versos, não consiga adivinhar o rumo dos acontecimentos.
E, finalmente, pela fina construção dos personagens. Aliás, o romance inicia exatamente pela apresentação dos mesmos. Cada um está a caminho da ilha e são mostrados com seus pensamentos, suas histórias, suas angústias e defeitos.
Temos um severo juiz, que talvez tenha ajudado a condenar um homem inocente, uma velha e antipática solteirona, que pode ter sido responsável pelo suicídio de uma moça, um médico, que, ao operar alcoolizado, teria provocado a morte de uma paciente, um homem irrefreável que, ao abandonar um grupo de africanos, teria os condenado à morte, um general que enviou para a morte o amante de sua esposa, um detetive da polícia que, com seu falso testemunho, condenou um homem à cadeia, um playboy que atropelou dois garotos, mas escapou impune, dois criados que, por omissão provocaram a morte de uma senhora idosa... e, provavelmente, a mais complexa personagem de toda a história, a bonita professora Vera Claythorne. Ela é de longe o personagem mais interessante de toda a trama – tanto Agatha gasta páginas e páginas desenvolvendo-a. Se alguns são caracterizados logo de cara (o playboy inconsequente, por exemplo, ou a solteirona amarga), a jovem vai sendo descoberta aos poucos para o leitor, que inicialmente a vê como inocente – talvez a única ali, mas vai aos poucos descobrindo seu outro lado.
Essas pessoas são reunidas numa ilha, sob diversos pretextos por um tal senhor Owen e, logo na primeira noite, são surpreendidos por uma voz que os acusa de terem sido responsáveis pelos crimes descritos acima, todos eles casos que não há como se provar e, portanto, impossíveis de serem levados a julgamento.
Esse juiz secreto vai matando um a um e, a cada um que morre, um dos negrinhos sobre a mesa central da sala desaparece. Logo fica claro que o assassino só pode ser um deles. E, quando todas as provas parecem apontar para determinada pessoa, ela morre.
Agatha transforma todos os seus personagens em detetives e, ao mesmo tempo, em supostos assassinos. Manejar algo assim é algo que só um autor extremamente habilidoso conseguiria.
Em suma: o melhor do romance policial.  

A estética da linha reta


“Mais sem graça que a top model magrela na passarela”. (Zeca baleiro)

A revista Superinteressante deste mês traz uma matéria curiosa sob o título “como se transforma uma mulher normal e capa de revista?”. No texto são desvendados os truques de photoshop (programa de manipulação de imagens) usados nas revistas eróticas e de moda. O que mais chama atenção é o Box intitulado tirando o excesso. A modelo que ilustra a matéria era magra, mas mesmo assim foram cortadas as partes do seu corpo que tinham curvas que poderiam lembrar gordura. O braço foi tornado reto, assim como as costas e a barriga.
Até mesmo o aperto da roupa é retocado: “Ao apertar a cintura e criar uma dobra acentuada, a calcinha poder dar uma falsa impressão de gordura. Isso é corrigido com um comando que borra a textura da pele e a torna mais uniforme”.
A jovem modelo, que já era magra, ficou esquelética depois do tratamento de imagem.
Folheando revistas das década de 70 e 80, encontramos mulheres com claros sinais de gordura, mas que mesmo assim agradavam, como Magda Cotofre.
O que parece acontecer hoje é uma paranóia que estabelece que toda gordura é má e anti-estética. A vítima mais recente dessa paranóia foi a modelo Ana Carolina Reston Macan, que morreu recentemente de bulimia. No final de sua vida, ela pesava 40 quilos, para um corpo de 1,74 m. O caso revelou outros, de modelos que se alimentam de apenas de apenas um copo de leite ou um xícara de chá por dia.
Uma das explicações para essa obsessão por magresa veio de um costureiro inglês. Ele disse que, na hora dos desfiles, é mais fácil diminuir a roupa do que alargá-la, de modo que uma modelo magra tem mais chance de caber na peça.
É toda uma ditadura provocada apenas por uma conveniência técnica, mas que não tem qualquer fundamento estético ou de saúde. Pior, é um padrão que não se adapta aos biotipo nacional, já que as brasileiras na maioria têm muitas curvas, as chamadas cinturas de violão. As norte-americanas magras é que são retas como uma tábua.
As brasileiras insistem em imitar um padrão que não é o seu. Um fenômeno, aliás, corroborado pela mídia e pela indústria. Novelas cada vez mais apresentam atrizes magérrimas. A boneca Barbie já foi acusada de provocar anorexia em meninas (aliás, cientistas dizem que se a boneca fosse uma mulher de verdade, ela não teria estrutura nem mesmo para ficar em pé) e dia desses estava observando desenhos animados mais recentes e percebendo como as mulheres estão cada vez mais magras (vejam a mulher maravilha da nova Liga da Justiça).
Monteiro Lobato dizia que mulher que não tem onde se lhe pegue vira coitadinha, e concordo plenamente. A ditadura da magresa está fazendo com que as mulheres percam sua graça.
Os gregos foram os mestres na anatomia e suas estatuas são exemplos de beleza. Observar suas estatátuas da deusa Afrodite (chamada de Vênus pelos romanos) é identificar como os gregos viam o máximo da beleza feminina: mulheres com ancas largas, deslumbrantes em suas curvas. Era a beleza de uma mulher saudável. Hoje é a beleza do Photoshop, que retira das mulheres todo e qualquer sinal de gordura, e transforma as curvas em insossas linhas retas.

Jogador número 1

Jogador Número 1 conta a história de um futuro tão desolador que as pessoas vivem a maior do tempo em um jogo, o Oasis, criado por nerd. Ao morrer, ele deixa três chaves que, uma vez descobertas, tornarão seu dono proprietário da rede social. Ocorre que uma empresa rival quer desvendar o segredo para transformar o Oasis numa distopia. 
O filme é uma homenagem de Steven Spielberg à cultura pop, em especial aos jogos, filmes e seriados. São milhares de referências (ou easter eggs) espalhados pela trama, do carro do protagonista a uma das armas usadas por ele (o cubo Zemeckis). Destaque para a sequência-homenagem ao filme O Iluminado. 
É também uma reflexão sobre o mundo hiper-real em que vivemos, em que o virtual se torna mais importante que a realidade concreta. Spielberg consegue manipular com perfeição essas instâncias, a ponto de muitas vezes o expectador não perceber onde começa um e termina outro. O simples fato de que a pessoa que ganhar um jogo virtual se tornará a pessoa mais rica do planeta é o melhor exemplo disso.
Uma aventura divertida, dirigida por um mestre do cinema, um filme homenagem e, principalmente, uma reflexão necessária para os tempos atuais.

A arte pulp de Francesco Francavilla


Francesco Francavilla é um desenhista italiano fortemente influenciado pelos pulp fictions e cartazes de filmes antigos. Sua arte, com forte elementos vintage e ancorada nos artistas clássicos de quadrinhos agrada principalmente os saudosistas. Um dos seus principais trabalhos é o gibi The Black Beetle, uma homenagem aos pulps. Infelizmente pouco conhecido no Brasil, esse artista já trabalhou para a DC, para o selo Wildstorm e fez ilustrações de divulgação da fase Shadowland, do Demolidor. Também fez capas do Besouro Verde para a Dinamite.   
























sexta-feira, março 01, 2019

Titãs - a melhor série de super-heróis de todos os tempos




Quando foram divulgadas as primeiras fotos não oficiais da série Titãs, o seriado recebeu uma enxurrada de críticas. Os fãs morderam a língua. Titãs é o melhor seriado de super-heróis de todos os tempos e melhor que 90% de todos os filmes de super-heróis já lançados.
Para quem não conhece quadrinhos, Titãs é baseado no grupo de parceiros mirins da DC Comics. Sim, durante um longo período todo super-herói tinha que ter um parceiro mirim. Batman tinha o Robin, Mulher Maravilha tinha a Moça Maravilha, Flash tinha o Kid Flash e assim por diante.
Na década de 60 a DC teve a ideia de reunir esses heróis mirins em uma revista, Teen Titans. Não deu muito certo. Os personagens usavam gírias da década de 40 ou 50, eram extremamente respeitosos com os heróis principais e tinham a metade do tamanho desses. Ou seja, não agiam como jovens.
Na década de 1980, o roteirista Marv Wolfman, que odiava o gibi quando era jovem, resolveu mostrar como se faz uma série para a juventude. Além de criar novos personagens, como Ravena, Estelar e Mutano, ele mudou a relação dos parceiros com os heróis. Robin, por exemplo, passou a ter uma relação de conflito com o Batman. Foi um sucesso tão grande que levou à criação de três animações (a mais recente voltada ao público infantil) e o live action, criado, entre outros pelo roteirista de quadrinhos Geoff Johns e lançado recentemente pela Netflix.
E o que Titãs tem de revolucionário?
Essencialmente a forma como é estruturado um seriado de super-heróis. Tirando os heróis urbanos da Marvel, como Demolidor, a maioria desses seriados é focada em heróis em uniformes coloridos lutando a cada episódio contra um vilão, em meio a uma grande quantidade de efeitos especiais meia-boca (o orçamento dos seriados é bem menor que o dos filmes).
Titãs quebra com esse esquema ao se estruturar como um seriado de mistério. O expectador não sabe quem são os personagens e, em alguns casos, nem eles mesmos sabem (como é o caso de Estelar e Ravena) e mesmo aqueles heróis que conhecemos como tal desde o início, a exemplo do Robin, têm algo a ser revelado. Além disso, há uma trama maior, que também se revela um mistério - quem quer matar Ravena?
Essa estrutura faz com que o seriado seja interessante não só para os fãs de quadrinhos, mas para os expectadores em geral.
Além disso, muda o foco da trama da ação e os efeitos especiais para o desenvolvimento dos personagens – e esses são muito bem desenvolvidos. Nesse sentido, a escolha de atores foi acertadíssima. Destaque para Teagan Croft, no papel de Ravena e Anna Diop, no papel de Estelar. Aliás, a criticada roupa usada por Anna Diop na série acaba fazendo todo sentido, dentro da proposta do seriado.
Os efeitos especiais, quando aparecem, são em momentos chave, e muitas vezes, nem exigem o famoso CGI. Há uma cena, por exemplo, em que Ravena usa seus poderes que é feita exclusivamente com maquiagem, interpretação e montagem.
Bons diretores já haviam mostrado que para fazer produções sobre seres super-poderosos não é necessário uma fortuna em efeitos especiais – basta uma boa direção, bom roteiro e bons atores. Scanners, filme de 1981, de David Cronenberg, é um exemplo. Mais recentemente, a trilogia de Shyamalan (Corpo Fechado – Fragmentado – Vidro) é outro.
Titãs parece mostrar que a DC aprendeu essa lição: Boa direção, efeitos especiais na medida certa, bons atores, bons roteiros e uma trama que vai num crescendo até o capítulo final.
Se não bastasse tudo isso, há o ótimo capítulo com a Patrulha do Destino (que o tradutor da Netflix rebatizou como Patrulha dos Condenados) e uma visão do Batman muito mais adequada que todos os últimos filmes da DC. A forma como o Homem-morcego - e Gothan - é mostrado na série (ou não é mostrado) é simplesmente genial e lembra grandes obras dos quadrinhos, como Asilo Arkhan.
O recente anúncio de que a Patrulha do Destino vai virar série parece mostrar que Titãs será o norte da DC na telinha. Tomara.

Marketing: público-alvo



Quando começou o processo de industrialização, a ideia era lançar um produto só para todos os públicos. Quanto mais pessoas consumissem esse produto, maiores seriam os lucros e menor o custo de produção. Esse era o modelo do Ford T: um carro exatamente igual (inclusive na cor) para todos os públicos. O fato de o Ford T ter perdido mercado a cada ano para a GM mostrou que a empresa estava esquecendo algo essencial: o cliente.

A parte do marketing que trata do cliente é chamada de segmentação. A segmentação é a análise e divisão de clientes em grupos e categorias com características e interesses em comum.
Existe, claro, a segmentação indiferenciada, que é quando a empresa lança um produto para todos os públicos possíveis. Embora seja usada por produtos famosos, como a Coca-Cola, essa estratégia pode ser fatal para um pequeno empresário que está entrando no mercado. Mesmo a Coca-Cola começou sua carreira de maneira bastante segmentada, sendo vendida na cidade de Atlanta, nos EUA, para jovens executivos.

Desconhecer o público-alvo leva a um gasto excessivo com publicidade, distribuição e à insatisfação do cliente. Isso aconteceu, por exemplo, no século XIX, quando houve a abertura dos portos brasileiros para os produtos ingleses. Os fabricantes ingleses mandaram para cá tudo que puderam, incluindo esquis e carteiras porta-cédulas, ignorando completamente que no Brasil raramente neva e que na época o dinheiro do país era composto apenas de moedas. O desconhecimento do mercado fez com que muito produto inglês ficasse encalhado. Para evitar esse vexame, estude o público-alvo. 

Os pilares da terra


Em Os pilares da Terra, Ken Follett construiu uma obra grandiosa, uma verdadeira saga em torno da construção de uma catedral na Inglaterra do século XII.
A história se passa entre os anos de 1123 e 1174. É um período de transformações que irão se refletir principalmente na arquitetura. Até então, as catedrais eram edifícios atarracados, de paredes grossas e janelas pequenas, locais escuros e insalubres. Aos poucos irão se transformar em imponentes edifícios esbeltos, belos, altos, com amplas janelas enfeitadas de vitrais coloridos que filtravam a luz do sol provocando grande deslumbramento nos que as visitavam.
Follett foca sua narrativa na construção de uma catedral fictícia, Kingsbridge e em um homem, Tom Construtor. Mas a narrativa envolve também uma ampla variedade de personagens, do prior de Kingsbridge a uma mulher que se refugiou na floresta depois de amaldiçoar pessoas poderosas que haviam condenado seu marido à forca. É também uma saga que se desenrola por décadas, o tipo de livro no qual vemos os personagens nascerem, crescerem, envelhecerem, acompanhamos seus sonhos, suas frustações e vitórias.
Concentrando tudo, como personagem principal, a catedral. O autor mostra como a construção de uma igreja de tamanha envergadura muda tudo ao seu redor: do comércio que se desenvolve aos conflitos palacianos que se desenvolvem (um dos vilões do livro é um bispo, que jura impedir a construção).
Follett maneja bem duas instâncias aparentemente opostas: a realidade e a ficção. Assim, ele mistura fatos e personagens reais (o mártir São Tomás Becket merece toda uma sequência) com pura ficção. Aliás, o romance pode ser visto ele mesmo como uma catedral: os fatos e pessoas reais são o cimento, que dão sustentação para os tijolos ficcionais.
A narrativa de Follett passa longe de ser elaborada: ele é um escritor que parece estar mais interessado na costura da trama do que em jogos literários. Isso certamente foi um fator que fez o livro se tornar um best-seller, apesar de seu tema de pouco apelo popular. O roteiro é redondo, sem falhas, com fatos que se encaixam perfeitamente, personagens que parecem não ter importância, mas se revelam fundamentais para a trama e segredos que são revelados no momento exato.
A obra é um verdadeiro tijolaço. São quase mil páginas de texto, mas que prendem o leitor – em especial após o primeiro terço. E, ao final, aquilo que poderia afastar o leitor – os detalhes sobre a arquitetura da época – acaba se transformando em uma atração a mais. Eu, ao menos, fiquei curioso para conhecer mais sobre o assunto.
Um único ponto negativo é a capa pouco inspirada da edição encadernada da editora Rocco. Em um livro sobre uma catedral e seus monges e construtores, usaram a imagem de soldados combatendo em frente a um castelo.