Ditko foi um dos gênios que transformaram a Marvel na maior editora de quadrinhos dos Estados Unidos. Ele começou a fazer quadrinhos no final da era de ouro e fez uma infinidade de histórias de terror para a Atlas (nome da Marvel na época).
Quando criou o Homem-aranha, Stan Lee chamou o desenhista para o título. Originalmente o personagem seria desenhado por Jack Kirby, mas a troca foi mais que acertada: o Peter Parker franzino e inseguro de Ditko foi um das razões pelas quais o título se tornou um campeão de vendas.
Ditko também criou o Dr. Estranho, maravilhando os leitores com as cenas psicodélicas de realidades paralelas. A marca de Ditko no personagem foi tão grande que ele só voltaria a ter uma fase equivalente na década de 1970, mas mãos de Steve Eglehart e Frank Brunner. Para a Charlton Ditko criou uma galeria de personagens que depois dariam origem aos "heróis" de Watchmen. Aliás, não só o Rorschach é baseado no personagem Questão, criado por Ditko como visualmente lembra muito o Mestre do Crime, um vilão criado por Ditko para o Homem-aranha.
Nada melhor para homenagear esse gênio do que apreciarmos sua arte.
sábado, julho 04, 2020
sexta-feira, julho 03, 2020
Cavernas de aço
O livro Cavernas de aço surgiu quando um editor pediu a Isaac asimov um romance de robôs. Mas pediu um romance no qual a terra estava super povoada e os robôs estavam tirando os empregos dos humanos. Quem conhece asimov sabe o quanto um plot desses seria indigesto p ele.
Antes de asimov, a maioria das histórias de FC mostrava os robôs como vilões que iriam destruir a humanidade. O escritor o mostrou com um olhar compassivo sobre os robôs e inventou as três leis da robótica: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
Assim, uma história em que robôs estão tirando o emprego de pessoas de carne e osso é o tipo de coisa que ele jamais se interessaria em escrever. Mas o editor deu uma ideia interessante: que tal um romance policial em que um detetive precisa resolver a situação junto com um robô? Esse plot parecia muito mais interessante e dava muitas outras possibilidades de abordagens.
O resultado foi cavernas de aço, livro lançado pela editora Aleph. Na história, os humanos colonizaram alguns mundos onde a tecnologia se desenvolveu de maneira extraordinária, ultrapassando a própria Terra. Já em nosso planeta todos vivem em cidades imensas com ar condicionado e um grupo saudosista, chamada medievalistas se torna cada vez mais popular.
Os medievalistas querem a volta da humanidade para uma época anterior as grandes cidades e têm verdadeiro pavor de robôs.
Um grup de exteriores funda uma cidadela nas fronteiras de nova York e, quando um cientista é morto, o frágil equilíbrio entre a terra e os mundos exteriores pode ser quebrado. Para solucionar o caso é destacado um policial e um robô construído pelo cientista morto.
Asimov consegue produzir um romance policial com praticamente nenhuma ação, baseado apenas em que questões científicas e de lógica.
Asimov consegue equilibrar bem a questões sociológicas envolvidas em sua visão otimistas sobre a ciência e a tecnologia. A relação entre detetive e robô vai se desenvolvendo do estramento inicial ao ponto em que se tornam verdadeiros parceiros.
Só pelo fato de mostrar um outro lado de asimov, o escritor policial, cavernas de aço já vale a pena.
Vale citar parte do texto da introdução, escrita por Asimov, que, de certa forma, resume toda a filosofia do livro: “Mesmo quando eu era jovem, não conseguia acreditar que, se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução tinha que ser a sabedoria. Qualquer avanço tecnológico pode ser perigoso. O fogo era perigoso no princípio, assim como (e até mais) a fala – e ambos ainda são perigosos nos dias de hoje -, mas seres humanos não seriam humanos sem eles”.
O problema é falta de talento
Existe uma visão, muito difundida atualmente, segundo a qual o meio intelectual e a academia não aceitam autores de direita.
Parece coisa de quem não lê.
Vejamos alguns exemplos.
Paulo Francis, um dos grandes nomes da direita brasileira, quando era vivo era leitura obrigatória entre os jornalistas. Quando trabalhava em jornal, a coluna dele na Folha de São Paulo era a primeira que a maioria lia. Eu recortava e guardava. Tinha uma pasta cheia desses recortes.
Nelson Rodrigues, um notório direitista, sempre foi considerado um dos maiores autores teatrais do Brasil, além de escritor e jornalista brilhante. Peças de filmes baseados na obra dele sempre fizeram muito sucesso, inclusive entre a crítica.
O autor argentino Jorge Luís Borges é considerado pelos intelectuais um dos melhores, senão o melhor autor do século XX e influenciou centenas de escritores, inclusive de esquerda. Umberto Eco homenageou-o no livro O nome da Rosa.
Lovecraft tem sido resgatado e cada vez mais analisado pela academia nas mais diversas áreas, da literatura à filosofia – e a rejeição que existia à obra dele estava muito mais relacionada ao fato dele ser um escritor pop do que propriamente os posicionamentos ideológicos. Autores nitidamente de esquerda, como Neil Gaiman e Alan Moore se dizem fã de Lovecraft – este último inclusive já escreveu duas obras em homenagem ao criador dos mitos de Cthulhu.
Em suma: o problema não é a pessoa ser de esquerda ou de direita. O problema é a pessoa não ter talento.
Vikings – a série
Durante a maior parte da baixa Idade Média, os
nórdicos invadiram e aterrorizaram grande parte da Europa. Em suas viagens
chegaram até mesmo à América. É a história desse povo que é contanda na série
Vikings, criada pelo produtor e roteirista Michael Hirst para o canal History.
A trama é centrada em Ragnar Lothbrok, um
agricultor que sonha encontrar novas terras e, com a ajuda de seu amigo Floki,
o construtor de barcos, chega à Inglaterra, onde saqueiam um mosteiro e
aprisonam um monge.
Esse fato pequeno irá mudar toda a história do
povo nórdico e do próprio Ragnar, que, em decorrência disso acabará se tornando
lorde e até mesmo rei. Em geral com a ajuda de sua esposa Lagertha, a
escudeira, irá ter tantas conquistas que se tornará um herói mítico. Posteriormente
a trama se foca nos filhos de Ragnar.
Ragnar de fato existiu, ou pelo menos assim
contam as lendas, assim como sua esposa escudeira Lagertha, Bjorn e a maior
parte dos personagens da série. Michael Hirst consegue unir com perfeição
realidade e ficção, modificando fatos quando necessário ou completando quando
as crônicas não são claras o bastante. Essas mudanças são necessárias para o
andamento da trama e o desenvolvimento do roteiro e dos personagens.
Há pequenos erros históricos e muita liberdade
poética (em especialmente a partir da quinta temporada), como uma igreja com
características góticas em plena baixa idade média. Mas no geral, Vikings é uma
aula de história. Uma aula sobre os vikings, sua cultura, modos e costumes, sua
religião – nesse sentido é interessante como Hirst sempre introduz algo da
mitologia nórdica nas tramas. É alguém que conta alguma lenda, é alguém que faz
uma alusão aos deuses, é alguém que faz uma comparação entre o que está
acontecendo com o que já aconteceu com um deus.
Mas é também uma história do mundo na época,
com uma trama que percorre locais tão diferentes quanto a França, a Inglaterra
e a Rússia e até mesmo a Sicília. E o roteirista Michael Hirst é extremamente hábil ao
trabalhar com intrigas palacianas. De fato na Idade Média, os palácios eram um
local em que não se podia confiar em ninguém e quanto mais poder, maior a
chance de alguém ser morto ou matar para se manter no cargo.
Traições, envenenamentos, emboscadas, tudo isso
é muito bem explorado na série.
As cenas de guerra também impressionam tanto
pelo realismo visual quanto pelas estratégias adotadas. O cerco de Paris, por
exemplo, é um ótimo exemplo de como defender uma cidade fortificada (e não
aquela palhaçada de GOT).
O elenco é igualmente brilhante, encabeçado por
Travis Fimmel no papel de Ragnar. Pequenos trejeitos, olhares, um jeito de
piscar, tudo contribuiu para construir o personagem com perfeição. Outro grande
destaque é Gustaf Skarsgård no papel de Floki. Sua atuação remete diretamente
ao deus Loki – e fico imaginando como ele poderia dado um outro ar, mais
matreiro e risonho para o personagem da Marvel. Esses são apenas dois de um
elenco que merece elogios por completo.
Unida a essas ótimas atuações, um roteiro que
caracteriza muito bem cada um dos personagens, em especial Ragnar, visto aqui
como uma mistura de aventureiro, estrategista e filósofo – características que
serão herdadas individualmente pelos filhos.
A série tem seis temporadas e, claro, tem altos
e baixos, mas no geral os altos são muito mais frequentes e a última temporada
está indo num crescendo em termos dramáticos.
Vikings é tudo aquilo que GOT prometia ser.
O seriado do Demolidor e a linguagem dos quadrinhos
Durante muitos anos se afirmou que os quadrinhos emburreciam as crianças, pois mostravam tudo e não deixavam nada para a imaginação. Quem disse isso, claro, nunca leu quadrinhos. A imaginação do leitor trabalha entre um quadro e outro, completando aquilo que não é mostrado. Essa é a grande característica da linguagem dos quadrinhos: elipses entre uma ação e outra que são completadas pelo leitor, que deve, obrigatoriamente, ser ativo nesse processo, ou não vai entender nada.
Ao adptar quadrinhos para cinema e TV, diretores tentaram usar elementos da linguagem de quadrinhos, como requadros simultâneos, balões, onomatopéias. Mas o melhor acerto veio da série do Demolidor, que se apropriou dessas elipses: o expectador muitas vezes não vê o que está acontecendo, e apenas imagina, completa a ação que não é mostrada.
Numa época de filmes de ação desenfreada ou verborragia pseudo-intelectual, series como essa salvam o dia.
Ao adptar quadrinhos para cinema e TV, diretores tentaram usar elementos da linguagem de quadrinhos, como requadros simultâneos, balões, onomatopéias. Mas o melhor acerto veio da série do Demolidor, que se apropriou dessas elipses: o expectador muitas vezes não vê o que está acontecendo, e apenas imagina, completa a ação que não é mostrada.
Numa época de filmes de ação desenfreada ou verborragia pseudo-intelectual, series como essa salvam o dia.
quinta-feira, julho 02, 2020
Quadrinhos: o início no Brasil
Ao folhear qualquer livro sobre histórias em quadrinhos - mesmo os escritos no Brasil - o leitor geralmente encontrará a informação de que a primeira HQ foi Yellow Kid, de Richard Outcoult. Nada mais falso. Antes do menino amarelo havia arte seqüencial sendo publicada na Alemanha, na França e outros países. Na verdade, os americanos, como fizeram com o avião, se aproveitaram do domínio que têm sobre a mídia para propagar o seu ponto de vista. O livro As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora, lançada pelo Senado Federal, em uma edição organizada pelo Coronel e estudioso Athos Eichler Cardoso, mostra que os norte-americanos não podem pedir sequer o mérito de terem criado os quadrinhos de aventura.
Nhô-Quim e Zé Caipora são criações do ítalo-brasileiro Ângelo Agostini, um dos jornalistas e ilustradores mais importantes da imprensa brasileira. Agostini nasceu em Verceli, na Itália, passou a adolescência em Paris, onde estudou na Escola de Belas Artes. Veio para o Brasil ainda jovem e não quis mais voltar para a Europa. Aqui ele se tornou um símbolo da imprensa republicana e abolicionista. A Revista Ilustrada, fundada e dirigida por ele, era o periódico de maior prestígio no Brasil do final do século XIX, sendo o principal registro histórico e iconográfico da luta contra a escravidão. A publicação chegou a ter quatro mil assinantes, o que era um recorde absoluto para um país cuja maioria da população era analfabeta.
O primeiro trabalho de Agostini com quadrinhos foi As Aventuras de Nhô-Quim. O primeiro capítulo foi publicado em 30 de janeiro de 1869, no jornal Vida Fluminense. A data, que revela claramente que somos muito anteriores aos norte-americanos (Yellow Kid é de 1896) hoje é comemorada como dia do quadrinho nacional. Ângelo Agostini deu nome ao mais importante troféu brasileiro de quadrinhos (do qual o autor deste texto foi o ganhador como melhor roteirista em 1999).
Nhô-Quim contava a história de um caipira rico e ingênuo, que vai à corte e se envolve em todo tipo de trapalhadas. A história mostrava o conflito entre a cultura rural e urbana, o que fica evidenciado na seqüência em que Nhô pára para tomar um café e acaba perdendo o trem. Agostini usa a história do caipira para criticar os problemas urbanos, modismos e costumes sociais e políticos da época.
Mas o melhor momento de Agostini é mesmo Zé Caipora. Obra de um artista maduro, a série antecipa os quadrinhos de aventura que tanto fizeram famosos personagens como Tarzan e Flash Gordon. O primeiro capítulo de Zé Caipora foi publicado em 27 de janeiro de 1883 nas páginas da Revista Ilustrada (sempre é bom lembrar que Yellow Kid é de 1893). O sucesso foi tão grande que a série chegou a ter quatro edições e serviu de inspiração para uma canção popular, peças teatrais e até dois filmes mudos. Zé Caipora era multimídia.
Os primeiros capítulos são ainda humorísticos e o personagem se parece um pouco com Nhô-Quim, com o nariz em continuação com a testa. Depois, a história se torna mais aventuresca e o desenho se torna realista. Nessa segunda fase, o herói enfrenta onças, índios bravios e uma sucuri. O momento em que Zé, amarrado a uma árvore, serve como alvo para as índias treinarem sua pontaria no arco-e-flexa, é memorável e demonstra o perfeito domínio que Ângelo Agostini tinha da arte seqüencial. São cinco quadros mostrando o herói desviando-se das setas e parecemos ver seus movimentos.
Além disso, há seqüências de panorâmicas, que só seriam usadas nos quadrinhos ianques com Tarzan, na década de 20 do século XX. Outra cena mostra até um sonho, com o desenho envolvido por nuvens para demonstrar que os acontecimentos não devem ser lidos de forma literal. Em suma, Agostini antecipou muitas das técnicas que só seriam usadas pelos norte-americanos muito tempo depois.
A Salamanca do Jarau
À primeira vista, título e capa de A Salamanca do Jarau podem assustar os leitores de quadrinhos. Afinal, o que é Salamanca? O que é jarau? E a capa não nos dá muitas pistas sobre o conteúdo. Entretanto, quem se aventurar a comprar essa graphic novel de Kipper (baseada na obra homônima de Simões Lopes Neto), editada pela editora Estronho, vai se surpreender com o que pode ser um dos melhores lançamentos do ano.
Kipper é um veterano dos quadrinhos (em 1991 ele fez a capa do volume Zona do Crepúsculo, com histórias minhas em parceria com o compadre Joe Bennett). Entre seus trabalhos mais famosos estão a revista Front.
Simões Lopes Neto é um dos grandes folclorista do Rio Grande do Sul, tendo reunido em sua literatura os causos e o modo de falar do gaúcho.
A Salamanca do Jarau narra uma história longa e complexa, que reúne a mitologia indígena do sul com as lendas europeias, em especial da moura encantada, princesas míticas que guardavam tesouros.
Blau Nunes, um típico gaúcho procura um velho mágico, conhece a história da Moura e passa por sete provas, ao final ganhando um prêmio que se revela uma maldição.
A linguagem do álbum é tanto mérito quanto dificuldade. Mérito porque dá o tom correto narrativa, dificuldade porque exige do leitor muita atenção para entender o que está sendo dito. Logo de entrada, temos: “Um dia, um gaúcho pobre, Blau de nome, guasca de bom porte. Mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais. Estava conchavado de posteiro. Ali na estrada do rincão. E nesse dia andava campeando um boi barroso”.
Felizmente há um glossário no final do volume, que torna menos dificultosa a tarefa de entender o dialeto gaúcho.
Kipper é um quadrinista que une o talento sequencial ao melhor das artes plásticas.
Ou seja: é um volume lindo de ver e interessante de ler.
De negativo apenas o balonamento. O álbum lembra muito os quadrinhos europeus e ficaria com um ar ainda mais interessante se seguisse os tipos usados na Europa, ao invés da tipologia americana utilizada.
Monteiro Lobato: O Minarete
José Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Alguns anos depois modificou seu nome para José Bento, pois desejava usar uma bengala que fora do pai e que estava marcada com as iniciais J.B.M.L. Tinha duas irmãs, Judite e Ester, e brincava com brinquedos rústicos, feitos de sabugo de milho, chuchus e mamão verde.
Esses primeiros anos influenciaram em muito a sua produção infantil. A Taubaté daqueles tempos certamente tinha um pouco do que viria a ser o Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Desde pequeno Lobato adorava livros. Devorou a toda a biblioteca do avô paterno, o Visconde de Tremenbé. Leu tudo que havia para crianças na época - o que não era muito. Ainda não surgira um Monteiro Lobato para escrever livros que as crianças realmente apreciassem...
Os principais traços da personalidade do escritor já se delineavam na época. Extremamente sincero, Lobato falava o que queria, abusando da ironia e do cinismo.
Aos 15 perde o pai, aos 16, a mãe.
Nessa época ele estudava num colégio em São Paulo , onde fundou vários jornais, usando pseudônimos. Lobato queria ser escritor, ou pintor. Por ele, faria a escola de Belas Artes. Mas o avô queria vê-lo advogado, ou juiz. Assim, no ano de 1900, com 18 anos, o jovem escritor entra para a Faculdade de Direito de São Paulo. Lá ele faz amizade com várias outras pessoas que adoram literatura, entre eles Godofredo Rangel e o poeta Ricardo Gonçalves. Fundam o grupo literário O Minarete. Minarete era a república onde eles moravam, um chalé amarelo, chamado assim em homenagem às mesquitas maometanas. Todos eram boêmios e rebeldes.
Em 1904 Lobato forma-se em direito e volta para Taubaté. Continuaria a ter contatos com os amigos, em especial com Godofredo Rangel, com o qual se corresponderia até o fim da vida. Todas essas cartas foram reunidas em dois livros, chamados de A Barca de Gleyre.
Monteiro Lobato escrevia cartas como ninguém. Durante toda a sua vida, ele jamais deixou de responder as cartas dos amigos, fãs e, principalmente, crianças. Algumas dessas cartas foram reunidas em livros, Cartas Escolhidas, e Cartas de Amor, com as missivas que ele mandava para sua esposa, Purezinha, ainda na época do namoro.
As tentações de santo Antão, de Hieronymus Bosch
Bosch é um dos mais interessantes pintores
medievais. Com o objetivo de produzir obras que alertavam para o pecado e
pretendiam convencer o receptor a levar uma vida cristã, Bosh se esbalda numa
orgia de imagens que antecipavam o surrealismo.
Santo Antão foi um asceta egípcio que doou
todos os seus bens para os pobres e foi viver no deserto, onde, da mesma forma
que Jesus, foi tentado pelo demônio.
Bosch aproveita para produzir uma obra em que
tudo parece estranho: seres alados que não são pássaros, pessoas com rostos de
animais, um barco formado por um peixe.
O pintor holandês produziu primeiro um quadro,
que atualmente se encontra no MASP, depois expandiu o tema e produziu um
trípico (uma imagem formada por três partes).
O cão da meia-noite, de Marcos Rey
No final do século XIX e início do século XX a literatura brasileira era dominada pelos parnasianos. Um dos princípios dessa corrente literária era a linguagem empolada, difícil, afastada do populacho. Monteiro Lobato foi o primeiro a se revoltar contra essa maneira de escrever - a ponto de se recusar a ser chamado de escritor, pois associava o nome à "alta literatura" e, por tabela, aos parnasianos. Para Lobato, a literatura devia falar a língua do povo, repetir suas gírias e modos de dizer. Posteriormente, essa proposta seria levada a cabo pelos modernistas, mas ninguém conseguiu encarnar a proposta de Lobato de maneira tão completa e perfeita como Marcos Rey. O grande autor de livros juvenis, cujo pai era encadernador na gráfica lobatiana, conseguiu como ninguém apanhar o jeito de falar de toda gente e transformá-lo em palavra impressa. Ótimo exemplo disso é o livro de contos O cão da meia-noite (Global editora, 216 páginas).
No primeiro conto, "Eu e meu fusca", vemos o que parece ser o relato apenas de um garoto viciado em seu carro, mas que logo se torna uma história policial no melhor estilo serial killer (provavelmente um dos primeiros textos ficcionais sobre o assunto escritos no Brasil). Todo narrado em primeira pessoa, o texto repete as gírias das ruas da década de 1960.
Em "O bar dos cento e tantos dias" um redator publicitário desempregado conhece um boêmio que lhe dá dicas de empregos (quase sempre furadas) enquanto lhe ensina a "observar o espetáculo da cidade" e seus personagens - um exercício que certamente o autor fez à exaustão, a se tirar pela fauna presente nesse livro.
No conto que dá título ao livro vemos um homem que encontra um cachorro de rua e resolve leva-lo para casa e cuidar dele. Ocorre que se trata de um cão de rua, incapaz de viver preso. O que começa como um simples gesto de carinho acaba se tornando uma obsessão assassina e acabamos tendo mais uma história policial. Para entender "A escalação" é interessante saber que Marcos Rey foi roteirista de cinema, mais especificamente da pornochanchada, o que lhe permite falar com muita propriedade do assunto. No texto, um produtor cinematográfico reúne o elenco de seu novo filme, mas joga psicologicamente com cada um deles de modo a sempre ganhar. Ali temos desde o roteirista que aceita qualquer salário porque é perseguido pela ditadura e ninguém quer lhe dar emprego até a atriz decadente em busca de um papel que a traga de volta à cena.
Muito difícil escolher o melhor conto num livro de pérolas como esse, mas se fosse necessário, eu escolheria "O adhemarista". O mote é simples, quase irrisório: um taxista que faz campanha para Adhemar de Barros num texto narrado por um amigo igualmente taxista. Nada demais. Mas Marcos Rey nos revela neste conto uma verve psicológica, um talento para coletar tipos e a capacidade de escrever como as pessoas de determinada época falavam de maneira ímpar. Saca só:
"Aquela foi a semana mais quente que o Moa (Moacir) viveu na puta da vida. Nós, do ponto, é que sabíamos. Quente, digo, em toda parte. No carro, na rua, na sede do partido, na Lila, em casa. O homem estava envenenado, com fé em Deus e pé na tábua, dormindo só uma três horas por noite. Foi também a semana do papo, da lábia, da saliva, dia e noite de campanha, amarrando votos, aliciando os indecisos. Nunca vi na life um cabo eleitoral com tanta corda, tanta garra, tanto embalo".
Não bastasse a ótima análise do tipo fanático, que transforma política em torcida de futebol e coloca a eleição acima de tudo, Marcos Rey ainda constrói sua narrativa como um verdadeiro suspense policial, em que o mistério não é saber quem é o assassino, mas quem irá ganhar a eleição.
"Soy loco por ti, América!", repete o tema de "A escalação". Nele, vemos uma festa de granfinos e estrelas do cinema e da televisão no dia anterior ao golpe militar. Regada a lança-perfumes, a festa, que começa tímida, torna-se um verdadeiro circo, com direito a gay enrustido, que de repente se interessa por uma atriz, para desespero de seu parceiro assumido, a atriz que humilha o produtor que a recusou antes da fama e anfitrião que filma tudo.
Em "Traje de rigor" encontram-se no bar quatro homens muito diferentes: um publicitário (cujos slogans, como "Mil a vista e o resto a perder de vista", lhe renderam um ótimo salário), um jornalista decadente, que parece interessado unicamente em vender um revólver para qualquer um que encontre, um velho cantor igualmente decadente e um homem de família, com filho doente em casa, que quer apenas levar uma lata de leite em pó para casa. Esses quatro juntam-se numa inesperada jornada pela noite de São Paulo que a vai se revelando mais e mais surpreendente a capa página (o homem de família, por exemplo, acaba se mostrando o mais bôemio). Finalmente, em "Mustangue cor-de-sangue" acompanhamos o relato de um redator de um programa infantil estrelado por um anão que no dia-a-dia é um devasso e, na ocasião, resolve transar justamente com a vedete pela qual o escriba é apaixonado. O conto oscila entre as tentativas do anão e as fugas da moça, interessada em um contrato na TV e os planos do intelectual para salvá-la e, ao mesmo tempo, tirar sua casquinha da moça. Daria uma ótima pornochanchada, como muitas das que foram escritas por Marcos Rey para a boca do lixo na década de 1970. Aqueles que, quando crianças e adolescentes se deliciaram com as histórias de Marcos Rey para a coleção Vaga-lume irão se deliciar ao descobrir esse outro lado do escritor.
quarta-feira, julho 01, 2020
Baiano e os novos caetanos
Baiano e os novos caetanos era um quadro de humor do programa Chico City que satirizava a tropicália. Composta por Chico Anysio (Baiano) e por Arnaud Rodrigues (Paulinho Boca de Profeta), a dupla fez muito sucesso, o que levou ao lançamento do disco Vô bate pra tu, em 1974. O disco era não só uma sátira, mas também uma homenagem a Caetano Veloso e Gilberto Gil, que na época haviam sido exilados pela ditadura militar.
A música de maior sucesso do disco (Vô bate pá tu) fala justamente da delação de artistas no período. Além disso, havia até mesmo crítica ao milagre econômico, como em O urubu tá com raiva do boi.
A parte humorística fica por conta principalmente dos comentários ácidos e non-sense de Chico Anysio, que lembram as falas de Caetano e Gil.
A música de maior sucesso do disco (Vô bate pá tu) fala justamente da delação de artistas no período. Além disso, havia até mesmo crítica ao milagre econômico, como em O urubu tá com raiva do boi.
A parte humorística fica por conta principalmente dos comentários ácidos e non-sense de Chico Anysio, que lembram as falas de Caetano e Gil.
Na música Cidadão da Mata, Chico fecha com o discurso, cheio de humor e de duplo sentido: "Amo, amo a mata! Porque nela não há preços. Amo o verde que me envolve... o verde sincero que me diz que a esperança, não é a ultima que morre. Quem morre por último é o herói. E o herói, é o cabra que não teve tempo de correr...".
Em O urubu tá com raiva do boi, ele diz: "O norte, a morte, a falta de sorte... Eu tô vivo, tá sabendo? Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo... Eu vivo, Paulinho. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: 'Tudo bem?'
E ele diz pá gente: 'Tudo bem!' Não é um barato, Paulinho? É um barato...". Uma fala ao mesmo tempo humorística, profunda e non-sense.
Apesar de ser uma sátira, o disco ficou tão bom que fez enorme sucesso e levou seus autores a uma turnê pelo Brasil. Explica-se: além da humor e das letras engajadas, havia os ótimos arranjos musicais. De certa forma, pode-se dizer que Baiano e os novos caetanos era tão bom que pode ser incluído entre o melhor da tropicália.
E ele diz pá gente: 'Tudo bem!' Não é um barato, Paulinho? É um barato...". Uma fala ao mesmo tempo humorística, profunda e non-sense.
Apesar de ser uma sátira, o disco ficou tão bom que fez enorme sucesso e levou seus autores a uma turnê pelo Brasil. Explica-se: além da humor e das letras engajadas, havia os ótimos arranjos musicais. De certa forma, pode-se dizer que Baiano e os novos caetanos era tão bom que pode ser incluído entre o melhor da tropicália.
Clique aqui para ouvir o disco.
O uivo da górgona mistura zumbis e crítica social
Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página.
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.
Tutorial - como apoiar o livro Cabanagem no Catarse
Em tempo, o link para apoiar é: https://www.catarse.me/cabanagem_a9fd.
A arte fantástica de John Buscema
John Buscema foi um dos principais desenhistas da Marvel de todos os tempos. Os editores dos títulos brigavam por ele. Seu traço elegante, anatômico e, ao mesmo tempo, com forte influência da arte expressiva de Jack Kirby, garantia as vendas de qualquer título. Assim, ele passou por várias revistas, do Quarteto aos Vingadores, passando por uma fase inesquecível no Surfista Prateado, até descobrir seu título definitivo: Conan. Seu traço deu ao personagem o ar feroz e selvagem pelo qual o personagem ficaria conhecido. Confira abaixo alguns de seus trabalhos fantásticos.
Desvendando a história - escravidão
A revista Desvendando a História, da editora Escala, lançava diversos especiais temáticos. Um deles, sobre a escravidão no Brasil, foi escrito por mim e Matheus Moura. Exigiu uma extensa pesquisa para sua produção (por sorte, a parte da minha biblioteca com livros de história é realmente extensa). Eu gosto particularmente da diagramação. Todos os capítulos tinham vários boxes, indicações de leituras, referências literárias etc, e a diagramadora Daniela Carrara distribuiu muito bem esses elementos pelas páginas, tornando a leitura agradável
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