terça-feira, janeiro 02, 2024

Link-se: a mídia mudando a arte

 


Marshall McLuhan dizia que a forma como o ser-humano se comunica molda a sociedade e até o seu o cérebro. E uma das áreas mais influenciadas pelas mudanças nas tecnologias de comunicação é a arte. Exemplo disso foi a invenção da fotografia, que transformou completamente os rumos da pintura, tendo como uma das consequências a criação do Impressionismo. Mais recentemente a invenção do computador, da internet e das redes sócias provocaram mudanças ainda maiores nas artes. É sobre esse fenômeno que Giselle Beiguelman se debruça em Link-se: arte/mídia/política/cibercultura (Peirópolis, 176 páginas).
Giselle Beiguelman é referência obrigatória quando o assunto é arte digital e on-line. Seu trabalho é referência em cursos de pós-graduação de universidades brasileiras, americanas e europeias. É autora dos premiados O livro depois do livro e Egoscópio e Paisagem. Desde 2001 cria projetos que utilizam dispositivos de comunicação móvel, como Poétrica e Esc for escape.
O livro reúne textos publicados em revistas, jornais e sites. Neles, a autora reflete sobre os mais diversos campos da arte e sua relação com a tecnologia.
Um dos autores mais interessantes é Eduardo Kac (http://www.ekac.org) , um artista especializado em bioarte. Um dos seus trabalhos mais famosos é “Gênesis”, exposto no Itaú Cultural no ano de 2000. Kac criou um gene sintético, chamado de gene artístico, com uma frase da Bíblia traduzida para código Morse e depois para código genético. A frase era: “Que o homem domine os peixes do mar e voo no ar e sobre todos os  seres que vivem na Terra”. O resultado foi uma bactéria fosforescente. Através da internet era possível aos expectadores  controlar a iluminação ultravioleta, causando modificações genéticas na bactéria.
Em “O oitavo dia”, uma colônia de  amebas fluorescentes vivem dentro de uma redoma de vidro, funcionando com o cérebro de um robô. A cada vez que as amebas se reproduziam, o robô se movia para cima e para baixo, ou para os lados. Os internautas também podiam interagir, modificando o ecossistema da obra.
Uma outra discussão interessante está relacionado ao fato de que a internet não é apenas um meio de comunicação, mas uma máquina de ler que transforma cada leitor em um editor em potencial. Assim, ela força o receptor a exercer com mais rigor sua faculdade mais exclusiva: a de intérprete. “A responsabilidade pelo conteúdo passa a ser fruto de seu crivo crítico, referendado pela solidez de sua formação cultural e não apenas calçado pela referência a um nome próprio, à logomarca de uma empresa ou o brasão de uma instituição”, escreve Giselle.
Um trabalho que se encaixa dentro dessa discussão é “Assina: do texto ao contexto”, de Cícero Inácio da Silva. Projeto de doutorado, usa a internet para discutir a autenticidade e autenticação, o nome próprio, assinatura, a legibilidade e o reconhecimento.
Cícero criou sites fakes com nomes pomposos, como Instituto Gilles Deleuze, repletos de citações dos autores homenageados. Os textos, no entanto, não fazem nenhum sentido. São gerados por um programa de computador em português e depois traduzidos para o espanhol por tradutores gratuitos na internet.
Os textos passaram a ser citados em dissertações de mestrado por pesquisadores brasileiros, que utilizam o texto em espanhol, convertendo-o para o português.
O projeto também mantém três periódicos internacionais, todos com registro de ISSN. Mas ISSN aqui significa Interstellar Synchronism Setup Noise. A mais famosa delas é “Plato on-line; Nothing, Science and Technology”, que só publica textos gerados por computador e não aceita contribuições a não ser que o autor concorde que seu texto seja modificado pelo algoritmo.
Quando alguém escreve para a revista submetendo um artigo, Cícero escreve em português e converte para o inglês usando um tradutor on-line. Apesar do resultado muitas vezes ser ininteligível, nenhum dos pesquisadores com os quais ele se correspondeu jamais reclamou.
Um ponto ainda mais esclarecedor foram os protestos e ameaças de processos por parte dos intelectuais cujo nome Cícero usa em seus sites. O editor de um dos mais respeitados periódicos sobre novas mídias, depois de “”entender” o projeto , autorizou o uso de seu nome por UM MÊS (em caixa alta), nenhum segundo mais .
Todos os sites trazem um rodapé explicando que se trata de um projeto de pesquisa e um experimento artístico, mas “as pessoas não leem as informações ou os detalhes. Ficam imersas nesse mundo cheio de textos e mais textos e somente se apropriam daquilo que ‘serve’ para elas em determinado momento. Não há mais pensamento ou reflexão sobre o dito”, diz Cícero.
Pelo jeito, nem mesmo nos meios acadêmicos há essa preocupação. Na exigência de se escrever e publicar textos e mais textos científicos, a leitura detalhada é deixada de lado. O que vale é citar muito e citar os autores certos, os autores da moda, como Deleuze.
Nesse sentido, o trabalho de Cícero se insere na mais verdadeira obra de arte: a que reflete sobre o mundo e, nesse sentido, sintetiza o tema de todo o livro de Giselle Beiguelman.
Como a obra é de 2005, ficam de fora vários trabalhos mais recentes dos artistas citados. Assim, vale a pena seguir os links indicados no final de cada capítulo para se inteirar sobre as obras mais recentes dos mesmos. Link-se, portanto, é uma obra que não se fecha no escrito, mas exige que o leitor interaja seguindo as indicações de sites e se atualizando sobre o que está no volume impresso.  

Kripta - a revista que revolucionou o terror

 

       Em 1964 as bancas norte-americanas viram aparecer uma revista sobre os filmes de terror chamada Famous Monsters of Filmland (Monstros Famosos do Cinema). O editor era o desconhecido Jim Warren.

       Em certo número de sua revista, Warren publicou uma HQ de terror e ficou esperando a reação. Ele temia que a revista fosse boicotada pelo Comics Code, que regulava os gibis americanos e havia acabado com a editora EC, especializada em terror. O gênero era totalmente proibido, mas ninguém prestou atenção àquela HQ. Warren logo percebeu que o formato magazine (20,5 x 27,5 cm) era visto como sendo para adultos e, portanto, não estava sob controle do código. Era o sinal verde para lançar uma revista só de terror, no novo formato e em preto e branco.
       Assim, no inverno de 1964 surgia a revista Creepy (algo como assustador). No ano seguinte surgia a Eerie, seguindo a mesma linha. As duas revistas juntavam a nata da EC Comcs, com artistas como Joe Orlando, Frank Frazetta e Reed Crandall. Além disso, foram se somando aos poucos novos artistas, como Steve Dikto, Gene Colan, Neal Adams, Richard Corben, Berni Wrightson,  entre outros.
     Para editar as revistas e escrever as histórias foi contratado Archie Goodwin, um roteirista mediano no gênero super-hérois, mas sempre muito criativo em outros gêneros. Posteriormente foi contrato também o editor e roteirista Bill Dubay.
     Na década de 1970, a revista vivia sua fase áurea, mas ao mesmo tempo enfrentava um problema: editoras maiores, como a Marvel, começaram a entrar nesse mercado e a oferecer maiores benefícios aos desenhistas. Então, justamente quando as revistas mais vendiam, começou a faltar mão-de-obra. A solução foi dada por Bill Dubay, que entrou em contrato com um grupo de artistas espanhóis para substituir os americanos que estava debandando. O que era um problema acabou virando a favor da editora: os novos artistas espanhóis contratados eram espetaculares e deram início à fase de ouro da Warren, produzindo as melhores histórias de suspense, terror e ficção-científica da década de 1970. Entre os novos artistas, destacavam-se Esteban Maroto, com um traço psicodélico que foi imitadíssimo na época, e José Ortiz.
     Foi na Warren que surgiu a mais famosa vampira dos quadrinhos (embora não tenha sido a primeira. Esse posto é ocupado por Mirza, do brasileiro Eugênio Colonnese): a Vampirella. A personagem estreou em 1969 e transformou-se logo num sucesso. A roupa foi criada por Trina Robbins, mas a personagem acabou sendo delineada visualmente pelo grande Frank Frazetta. 
     No Brasil, as histórias da Warren foram publicadas na revista Kripta, da editora RGE e durou 60 edições, com grande sucesso. O slogan, usado na propaganda de TV, era ¨Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira e qualquer hora é meia-noite¨, tornou-se célebre.

O que é indução?

 


Indução é o princípio segundo o qual deve-se partir das partes para o todo. Ou seja, ao fazer uma pesquisa, deve-se  ir coletando casos particulares e, depois de certo número de casos,  pode-se  generalizar, dizendo que sempre que a situação se repetir o resultado será o mesmo.
         Se, por exemplo, eu quero saber a que temperatura a água ferve. Coloco água no fogo e, munido de um termômetro, meço a temperatura. Descubro que a fervura aconteceu a 100 graus centígrados.
         Repito a experiência e chego ao mesmo resultado. Repito de novo e vou repetindo até chegar à conclusão de que a água sempre ferverá a 100 graus centígrados.
         Umberto Eco dá um outro exemplo curioso: os sacos de feijões.
         Vejo um saco opaco sobre a mesa. Quero saber o que tem no mesmo. Uso o método indutivo: vou tirando o conteúdo do saco um a um. Da primeira vez, me deparo com um feijão branco. Na outra tentativa, de novo um feijão branco. Repito a experiência até achar que está bom (ou até acabar a verba). Então extraio uma lei: dentro deste saco só há feijões brancos. 

Os bons tempos do capitalismo

 


No século XIX, auge da revolução industrial, os trabalhadores não tinha direito algum. Não havia folga remunerada, férias, 13º, aposentadoria. Crianças eram colocadas para trabalhar 12 horas seguidas em condições totalmente insalubres. Muitas se machucavam, perdiam um braço, uma mão. Eram simplesmente mandadas embora. No país mais rico do mundo, a Inglaterra, a população vivia na miséria absoluta, grande parte das mulheres tendo que se prostituir para conseguir comer. Essa situação de miséria da população no país mais mais industrializado do mundo é muito bem retratada no romance Oliver Twist, de Charles Dickens cuja cena mais pungente é a do menino sendo castigado porque pediu mais uma tigela de sopa.
Educação? Nem pensar. Não só não existia nenhum tipo de educação pública, como qualquer iniciativa de levar educação às camadas mais pobre era duramente combatida. Charles Dickens angariava doações para abrir escolas para crianças pobres e, por conta disso, virou alvo preferencial dos conservadores. Afinal, uma criança que estudava era um braço a menos nas fábricas. Além disso, pessoas com conhecimento eram consideradas mais propensas a se rebelarem contra as condições em que viviam.
Nessas condições, a revolta popular era inevitável. Era uma questão de sobrevivência das classes mais pobres.
Com a vitória da revolução russa, os países capitalistas se alarmaram. Como antídoto, começaram a ceder: surgiram direitos trabalhistas, férias, 13º, aposentadoria.
Com a queda do muro de Berlin, os empresários voltaram a sonhar com aqueles tempos áureos. Afinal, não existia mais a ameaça comunista. Por que não voltar aos tempos áureos do capitalismo?

Quarteto Fantástico – O dia do juízo final

 


Durante boa parte da década de 1960, a revista do Quarteto Fantástico era a mais vendida da Marvel (o que pode parecer uma surpresa para os fãs mais jovens). E havia uma razão: a publicação não só foi a primeira da era Marvel como foi, em muitos sentidos, o ápice da criatividade da dupla Jack Kirby – Stan Lee.

O saga O dia do juízo final, publicada em Fantastic Four 57 a 60 é um dos picos dessa dupla criativa.

Na trama eletrizante, o Doutor Destino rouba os poderes do Surfista Prateado e pretende usar esse poder para conquistar o planeta terra. Como uma criança fascinada com um presente de natal, ele percorre o mundo, transformando o dia em noite, tornando uma ilha tropical em um deserto congelado e convertendo um gorila numa fera assassina.

O Doutor Destino rouba os poderes do Surfista. 


Nesse meio tempo, ele se envolve em diversas escaramuças com os membros do Quarteto Fantástico, que inevitavelmente saem derrotados. O leitor sente que a ameaça é real, a maior já enfretada pelo grupo de aventureiros desde que estes enfrentaram Galactus.

Para tornar a situação ainda mais tensa e eletrizante, uma narrativa paralela mostra os Inumanos conseguindo finalmente se libertar da prisão na qual estavam confinados – numa sequencia incrível em que descobrimos finalmente porque Raio Negro nunca fala.

Isso de colocar tramas dentro de tramas era uma das razões do sucesso do quarteto – e uma das dificuldades dos editores que pretendem publicar apenas uma determinada saga: a fase de Stan Lee e Jack Kirby parece uma grande saga dividida em que tudo se interliga.

O vilão se diverte testando seu poder. 


Curioso que nenhum outro personagem Marvel aparecesse para ajudar na luta contra uma ameaça tão absurdamente poderosa. Essa era uma característica do grupo: enfrentar ameaças muito mais poderosas que eles e ainda assim vencer – geralmente graças a um plano engenhoso do senhor fantástico. O grupo era, de fato, fantástico.

Aliás, os outros personagens Marvel fazem uma aparição na história, mas de forma inusitada. Logo na primeira história, à certa altura o Coisa está assistindo televisão e diz: “Ei, essa série dos super-heróis Marvel é batuta! Mas, se quer saber, algumas das histórias são exageradas demais!”. Stan lee misturando marketing e metalinguagem.

Em tempo: o nome da saga é Doomsday, um trocadilho com o nome do vilão, Doctor Doom.

O tempo verbal em Cabanagem


Há uma convenção narrativa segundo a qual, ao iniciar o texto em determinado tempo verbal, devemos ir com ele até o final.

Os tempos verbais mais comuns são o passado/pretérito (aconteceu) e o presente (acontece). O pretérito dá a impressão de algo que já aconteceu e é mais fácil de ser manejado, tanto que a maioria dos textos usa esse tempo verbal. O presente é um tempo verbal muito mais difícil para o escritor, pois o narrador só sabe dos fatos à medida em que eles acontecem, mas tem o mérito de dar a impressão de que algo está acontecendo naquele momento, diante do leitor.

Feita a escolha entre passado ou presente, é importante que essa escolha seja mantida até o final, sob o risco de confundir o leitor. Afinal, ele está lendo algo que ocorre neste momento ou algo que já aconteceu? Essa confusão pode gerar desinteresse pelo texto, fazendo com que ele abandone o livro ou quadrinho antes do final.

Entretanto, a mistura dos tempos verbais pode ser uma estratégia narrativa. Eu usei essa abordagem em meu livro Cabanagem, mais especificamente no capítulo 22.

Nesse trecho específico, o protagonista, Chico Patuá, está delirando em febre.

Eu aproveitei esse mote para contar fatos da história do personagem, que vão aparecendo em meio às alucinações, como flash backs. Ao narrar esse capítulo, eu misturo os tempos verbais, muitas vezes dentro do mesmo parágrafo: “Chico, em seu delírio, tentava tocar a mãe...”; “As presenças se acercavam dele.”; “Um homem enorme e barbudo os vê na rua e os segue”; “A mãe corre até ele.”; “Os escravos olham assustados”.  

O objetivo aqui era causar no leitor uma sensação de estranhamento, incômodo. A escolha narrativa pretendia mergulhar o leitor no delírio de Chico Patuá em que presente e passado se misturavam.

Como se vê, mesmo as melhores regras narrativas também podem ser quebradas, desde que se saiba o que está fazendo.

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Esquadrão classe A - a série símbolo dos anos 80

 

Esquadrão Classe A foi um dos seriados de maior sucesso em meados da década de 1980. No Brasil, passava no SBT e era um programa obrigatório para a garotada.
Em muitos sentidos, o Esquadrão era uma releitura dos Sete Samurais, filme clássico de Akira Kurossawa, no qual um grupo de samurais desempregados ajuda uma vila de agricultores atormentada por bandidos. Esse tema de heróis lidando com seus próprios problemas, mas encontrando tempo para ajudar pessoas necessitadas será a base de todos os episódios do seriado. Em todos eles, o grupo de soldados da fortuna é contratado por alguém com dificuldade com malfeitores.
Além da referência básica aos Sete Samurais, o Esquadrão trazia um contexto histórico. Veteranos da guerra do Vietnã, eles são condenados por um crime que não cometeram, conseguem fugir, mas têm sempre os militares em seus calcanhares.
O texto de abertura resumia bem o clima das histórias:
“Em 1972 uma unidade especial das forças armadas foi condenada no tribunal militar por um crime que não cometeu. Esses soldados logo conseguiram escapar da prisão de segurança máxima, se estabelecendo clandestinamente em Los angeles. Hoje, procurados pelo governo, eles sobrevivem como soldados da fortuna. Se você tem um problema, se ninguém pode ajudá-lo e se você puder achá-los, talvez você possa contratar o ESQUADRÃO CLASSE A”
A estrutura narrativa era quase sempre a mesma: fugindo dos militares, os heróis chegam em um local e se deparam com pessoas sendo oprimidas, seja por patrões cruéis, bandidos ou políticos. Comovidos, resolvem ajudar, mesmo sabendo que essa ajuda poderá fazer com que sejam finalmente pegos, o que quase acontecia, em todos os episódios.

A equipe era liderada pelo Coronel John Hannibal Smith (George Peppard), um líder nato, fanático por charutos. Bom ator, Hannibal costumava protagonizar o início dos únicos episódios em que a estrutura era um pouco diferente: nestes, alguém tentava contatar o grupo de soldados da fortuna, mas se deparava com alguém inconveniente, como um vendedor de cachorros quentes muito chato. Era o coronel. A maquiagem fazia com que mesmo os telespectadores mais assíduos fossem enganados, de modo que uma das diversões do seriado era tentar descobrir quem era Hannibal disfarçado. O nome do personagem é uma referência ao general cartaginês que quase destruiu o exército romano. Assim como o seu homônimo histórico, o líder da equipe é um grande estrategista e seus planos mirabolantes eram uma das atrações da série.  
Para concretizar seus planos, Hannibal conta com uma equipe bastante heterodoxa.

O Capitão H.M. Murdock é um especialista em pilotar qualquer tipo de aeronave, mas gastava a maior parte do tempo fazendo macacadas, conversando com a própria mão ou algo do gênero. Careteiro, Dwight Schultz, que interpretava o personagem, era um espécie de Jim Carrey da época e dava o toque humorístico ao seriado.

O tenente Templeton Cara-de-Pau , interpretado por Dirk Benedict, era o galã da série e o responsável por conseguir tudo necessário para colocar em ação os planos do Coronel. Com seu charme, ele conseguia tudo, mesmo que para isso precisasse trocar seus sapatos novos por uma bota de trabalhador.

Completando o grupo, havia o carismático Sargento Bosco Barracus ou B.A. (abreviação de Bad Attitude ou temperamento ruim), interpreado por Mr.T., um grosso de cabelos moicanos, mas que adorava leite, crianças e morria de medo de voar. Como em muitas missões era necessário embarcar num avião, ou num helicóptero, uma das atrações era tentar adivinhar que estratégia seria usada pelos outros para dopá-lo. Além disso, as brigas de B.A. com o Murdock criavam uma das grandes tensões do seriado, geralmente com resultados humorísticos. O personagem também era um gênio em mecânica e era essencial para colocar em prática os planos. Como a televisão da época não podia mostrar nada mais violento que algumas explosões e pessoas saltando, os roteiristas tinham que inventar geringonças, como uma máquina que atirava repolhos.
Mesmo com uma estrutura rígida e personagens estereotipados, o Esquadrão Classe A conseguia surpreender dar uma grande lição: é necessário ajudar os outros, deixando nossos interesses em segundo plano.

segunda-feira, janeiro 01, 2024

Balneário do Alegre

 


 


O balneário do Alegre fica a aproximadamente 15 km de Macapá. Indo pela rodovia do Curiaú, pouco depois da Casa Grande é possível ver a placa à esquerda da estrada. Depois são mais alguns poucos quilômetros por um ramal de terra. A entrada é dez reais por carro.

A placa fica à esquerda da pista par quem está vindo de Macapá. 


É um local bastante agradável, com boa comida, linda paisagem e som não tão alto. Foi construído um tablado sobre a água, que permite que crianças se divirtam sem riscos.

Um tablado dá mais segurança às crianças. 

A bela paisagem do Curiaú é um dos atrativos. 

O ingresso é dez reais por carrro. 

A comida é gostosa e o preço em conta. 


Mas o balneário tem dois problemas.

Nos finais de semana o balneário lota. Geralmente vamos dia de semana ou sábado de manhã cedo.

Outra complicação é o período de seca (verão amazônico): a água baixa muito e fica suja. Então é melhor ir no período de chuvas.

Fora isso, é uma ótima opção para quem quer um balneário próximo de Macapá.

Jack, o estripador

 


            Na segunda metade do século XIX, o bairro de Witechapel era um dos locais mais miseráveis de Londres.

            O príncipe de Gales, certa vez explorara a área acompanhado de amigos. De alameda em alameda, entrou em um quarto sem mobília, onde achou uma mulher deitada sobre farrapos com três crianças nuas, que de tanto frio e fome, não pronunciavam uma única palavra. Quatro dias depois, o príncipe fez um pronunciamento na Câmera dos Pares insistindo para que o governo fizesse algo para melhorar as condições de vida da população. Mas a rígida moralidade vitoriana não permitia uma ajuda real aos necessitados. O reverendo Samuel Barnett, vigário da Igreja de Cristo, argumentava que a caridade indiscriminada era uma das pragas de Londres. Para ele, os pobres passavam fome por causa das esmolas que recebiam.

            E assim, o local deteriorava-se cada vez mais. As pessoas dormiam nas escadas e até nas latas de lixo para fugir do frio. Estima-se que mais das metades das crianças nascidas na área pobre de Londres morria antes de atingir cinco anos de idade.

            A promiscuidade era grande e relatos da época falavam de meninos e meninas de 12 anos fazendo sexo em becos.

            Nesse ambiente de miséria absoluta, a prostituição era um das poucas formas de ganhar a vida. A nobreza, no entanto, preferia ignorar isso e acreditar que as jovens se tornavam prostitutas porque se deixavam atrair por abastados sedutores.

            Foi nessa região miserável de Londres que Jack, o estripador, faria suas vítimas.

            A primeira delas foi Mary Ann Nichols, conhecida como Polly.

            Na noite de 31 de agosto de 1888, ela chegou à pousada Thrawl Street, n. 18, mas o gerente não a deixou entrar, pois ela não tinha os quatro pence para pagar a dormida:

            Ela era baixa, com pouco mais de um metro e meio de altura, cabelos castanhos compridos, quase grisalhos.        Por anos, Polly fora casada com William Nicholls, operador de impressora, com quem tivera cinco filhos. A solidão, porém fizera com que ela começasse a beber e o casamento se rompeu em 1881, com o marido acusando-a de abandonar o lar.      

            Sem pensão, Polly deixou os filhos com seus pais e foi trabalhar como empregada doméstica. Um dia ela roubou três libras dos patrões e desapareceu nas ruas de Londres.

            Pouco depois de ser recusada na pensão, Polly encontrou com outra prostituta, Emily Holland. Polly estava mais bêbada que nunca e, apoiando-se em uma parede, comentou que três vezes naquele dia tivera dinheiro para o pernoite, mas gastara tudo em bebida.

            Foi a última vez em que foi vista.    

            Na madrugada daquela noite, o porteiro George Cross ia para o trabalho quando encontrou o que parecia um encerado jogado no meio da rua. Quando se aproximou, descobriu que era, na verdade, uma mulher.

            Nisso viu aproximar-se um colega de trabalho e chamou-o:

            - Ei, companheiro, venha ajudar aqui. Esta mulher está desmaiada ou bêbada.

            Ao aproximar-se, o homem percebeu que a suposta bêbada estava na verdade morta e os dois desapareceram do local.

            Instantes depois, o guarda John Neil encontrou o corpo de Polly. Ela tinha sinais de estrangulamento, lesões na garganta, abdômen e face.

            Em 8 de setembro daquele ano foi a vez de Annie Chapman.

            Dias antes, Annie brigara com outra prostituta, Liza Copper, por causa de um pedaço de sabão. Liza insultou-a e Annie deu-lhe uma tapa no rosto.

             

            Liza não se amedrontou e bateu em Annie até deixá-la no chão.

            Quando a amiga Amélia Farmer a encontrou no dia seguinte, ela estava com um hematoma no olho e o peito muito machucado. Ela sentia convulsões e dor. O único alimento que ela ingerira naquele dia fora uma xícara de chá.            

            Na noite do assassinato, ela tentara entrar em uma pensão, mas fora barrada por falta de dinheiro.

            No dia seguinte John Davis, idoso morador da hospedaria Hambury Street, levantou-se da cama pouco antes da seis horas e abriu a porta. Deu de cara com o corpo de uma mulher. Ele saiu correndo, chamando alguns trabalhadores que passavam por ali, mas ninguém teve coragem de entrar.

            Um policial ouviu a balbúrdia e, aproximando-se, encontrou a mulher deitada de costas no chão. As mãos estavam esticadas à frente e as palmas estavam abertas para cima. O casaco e a saia estendiam-se por sobre as meias compridas e ensangüentadas.

            O assassino estava aperfeiçoando seu modus operandi e deixando mais clara sua assinatura: a mulher fora eviscerada e seu útero retirado. Ao lado do corpo, vários objetos pessoais foram arrumados como que num ritual. Os anéis da vítima haviam sido arrancados dos dedos e colocados aos pés da vítima, juntamente com algumas moedas.

            A paranóia tomou conta da região e muitos voltaram suas atenções para os judeus. Esse sentimento anti-semita foi aumentado pela prisão de John Pizzer, um judeu polonês de trinta e três anos, que trabalhava em Whitechapel como sapateiro. As provas alegadas por William Thicke, o policial que o prendeu, foram cinco facas afiadas, de cabos longos, objetos absolutamente comuns na casa de um sapateiro.

            Pizer, no entanto, tinha um álibi: estivera em casa, em sua cama, dormindo, durante os assassinatos.

            Mas a prisão teve reflexos terríveis sobre a população judia do bairro. Havia um sentimento geral de que apenas estrangeiros ou pessoas estranhas poderiam cometer tais crimes.  Vários judeus foram agredidos nas ruas.

            Um volante distribuído nas ruas anunciava:

            "Eles agora pegaram o Avental de Couro,

            Que é o culpado, todos concordam;

            Ele vai ter que enfrentar o destino de todo assassino,

            Terá que ser enforcado numa árvore"

            Ao ficar provada a inocência do sapateiro, a população voltou seus olhos para outro judeu de nome Jacobs, que trabalhava no matadouro de Adgate High Street. Depois de interrogado pela polícia, foi apontado como o assassino. Na rua, foi apedrejado e teve que se refugiar na delegacia mais próxima. Acabou louco e teve de ser internado em um asilo.

            Os moradores do local onde morrera Annie montaram um negócio lucrativo. Eles cobravam de curiosos que quisessem ver o pátio onde ocorrera o crime.

            As teorias surgidas na época dão uma visão da forma como a polícia estava perdida. Um fotógrafo propôs que se fotografasse os olhos das vítimas, pois, segundo ele, a retina teria guardado a imagem do assassino. O método foi tentado, sem sucesso.

            Nisso a imprensa começou a receber cartas do suposto assassino. A mais famosa dela era assinada por Jack, o estripador. A carta dizia que ele não iria parar de matar prostitutas até ser pego e prometia enviar uma orelha da próxima vítima para a polícia.

            A próxima vítima seria Elizabeth Stride. Ela dizia que o marido havia morrido no desastre do Princesa Alice, junto com os nove filhos do casal. Ela só escapara porque subira numa corda da qual viu o caçula morrer nos braços do marido. A história verdadeira é que o marido trabalhava como carpinteiro de construção de navios. Ele tinha o dobro de sua idade e eles nunca tiveram filhos.

            A ultima pessoa a ver Liz com vida foi o policial William Smith, às 12:30 do domingo, dia 30 de setembro. Ela estava conversando com um homem jovem, bem barbeado e de aspecto respeitável, que usava sobretudo escuro e chapéu de feltro justo de copa baixa. Sob o braço, o homem trazia um embrulho de jornal de cerca de 20 centímetros.   

            Elizabeth Stride foi encontrada numa viela. Sua garganta tinha sido cortada, mas o corpo não mostrava outras mutilações. Possivelmente o assassino tinha sido interrompido enquanto estripava sua vítima, o que o levou a procurar uma outra vítima: Catherine Eddowes. Segundo o policial que a encontrou, ela tinha sido cortada “como um porco no mercado”. O assassino removera seu rim e sua orelha mostrava sinais de que houvera uma tentativa de arrancá-las.

            No muro, ao lado do cadáver, estava escrito: “Os judeus não serão acusados por nada”.  

            Na mesma manhã, a Agência de Notícias Central recebeu uma carta do suposto assassino: “Não estava blefando, chefe, quando dei-lhe a pista. Você ouvirá sobre o trabalho de Jack amanhã. Um evento duplo desta vez. A número um gritou um pouco. não pude acabar imediatamente. Não tive tempo de pegar as orelhas para a polícia”.

            Uma outra carta, enviada ao chefe do Comitê de Vigilância de Witechapel trazia um pedaço de rim e era endereçada “Do inferno”: “Senhor, enviei metade do rim que tirei de uma mulher preservando-o para você, o outro pedaço cozinhei e comi”.

            Em 9 de novembro Jack cometeu o que seu último assassinato. A vítima era Mary Kelly, uma ex-prostituta. O assassinato acontecera dentro de seu quarto alugado e tudo leva a crer que Jack teve muito tempo para trabalhar.

Mary foi assassinada com um corte profundo na garganta, que quase a decapitou. Seu nariz e orelha foram esfolados. O braço esquerdo foi quase cortado no ombro e as pernas foram esfoladas. Ela foi estripada e sua mão inserida no espaço da barriga. O fígado foi retirado e colocado sobre a coxa. Seus seios foram retirados e deixados sobre o criado mudo junto com o nariz, rins e coração. Tiras de carne foram dependuradas em pregos nas paredes. Ela estava grávida de três meses. O feto e seu útero foram levados pelo assassino.

            A polícia nunca conseguiu descobrir quem era Jack, embora tenham surgido diversas teorias ao longo dos anos, que incluem desde o príncipe Albert até William Gull, o médico da rainha.

            Alguns autores acreditam que Jack matou muito mais do que cinco mulheres. Entre as vítimas não-oficiais estariam Alice Mckenzie, morta em 17 de julho de 1889 e Frances Cole, morta em 13 de fevereiro de 1891.

            Jack, o estripador foi o primeiro assassino serial a se tornar famoso e a ganhar grande cobertura da imprensa – foi também o primeiro a utilizar a mídia como forma de aumentar sua popularidade, se acreditarmos que as cartas sejam verdadeiras.   

Jornada nas Estrelas - Um gosto de Armagedom

 


Uma das características fascinantes em jornada nas estrelas é a criatividade de seus roteirista para imaginar outras civilizações e suas culturas. Ótimo exemplo disso é o episódio Um gosto de Armagedom, da primeira temporada.
Na história Kirk e uma equipe de tripulantes vai parar em um planeta em guerra há 500 anos com outro planeta. Durante a visita há um ataque, mas não há qualquer indício de nada acontecendo. É quando descobrem que as batalhas são travadas de forma virtual e um computador calcula quais as baixas de cada lado e faz uma lista de vítimas, que são levadas a um desintegrador.
Para piorar as coisas, a Enterprise é considerada com uma baixa de guerra e toda sua tripulação deve ser morta para cumprir o que foi designado pelo computador. 
Kirk deve agir para salvar sua população, o que inclui, claro, muitas lutas mal coreografadas com guardas que parecem ter saído de alguma matinê de flash Gordon.
Mas por trás dessa pirotecnia, o episódio é um dos mais interessante do ponto de vista filosófico. Há muitas questões interessantes. A primeira delas é o fato dessa guerra limpa, que teoricamente parece mais civilizada, é justamente a razão do conflito ter durado 500 anos. Quando o ciclo é quebrado, as partes se apressam em debater um armistício. Nesse sentido há uma inversão interessante, pois o bárbaro Kirk com sua diplomacia de faroeste é justamente o que pode levar à paz.
Outro aspecto interessante é imaginar como pessoas se submeteriam a morrer para cumprir uma cota de uma guerra fictícia travada por generais como quem joga xadrez. Ao mostrar isso de maneira crua, o episódio cria uma metáfora que nos faz refletir sobre a crueza da guerra. Afinal, na verdade não é isso que acontece? Generais movimentam as peças da guerra e como consequência as pessoas morrem. Embora pareça destino, não é.
Por fim, o aspecto talvez mais interessante: o episódio mostra como o simulacro comanda o real a ponto do real ter que se adaptar a ele. Se alguém morreu no jogo da guerra, e premente que morra no mundo físico. E pensar que esse episódio foi escrito muito antes da internet.

Nick Raider – Um vulto na noite

 


Uma mulher acorda no meio da noite com um homem mexendo no cofre do seu quarto. “Você?”, ela exclama, assustada, antes de levar um tiro. É essa situação que Nick Raider e a equipe da divisão de homicídios precisará resolver na edição 6 do título.

O interessante dessa história é que ela começa com uma situação que parece simples, um latrocínio, mas vai se tornando mais complexa conforme avança a investigação.



Nick Raider surgiu com a proposta de mostrar como realmente agem os detetives, assim os métodos de Raider incluem principalmente entrevistas com testemunhas, análise do local do crime e tocaias. Usando esses métodos eles descobrem que a mulher contratava os serviços de um garoto de programa. Pior: fotos mostram que ela foi vítima de chantagem, já que ela era casada.

Quem poderia ter matado a mulher? O garoto de programa? O autor da chantagem? Ou outra pessoa? O roteirista Claudio Nizzi trabalha muito bem essa trama, brincando com a expectativa do leitor e fazendo com que o óbvio não seja o que realmente está acontecendo. Isso torna a leitura cativante.

Mas tudo se complica quando encontram fotos íntimas dela. 


Se há um aspecto negativo nessa história, é o desenho de Rodrigo Trigo, muito inconstante. Em alguns momentos o traço é ótimo. Em outros, parece ter sido feito às pressas.

domingo, dezembro 31, 2023

A pantera cor-de-rosa

 


O desenho animado da pantera cor-de-rosa surgiu de forma curiosa. Em 1963 foi lançado o filme A pantera cor-de-rosa, com Peter Sellers no papel principal. O filme contava a história de um inspetor que tentava impedir o roubo do diamante Pantera cor-de-rosa. Para tornar mais interessantes os créditos, o diretor resolveu trazer uma pantera animada. Usando monóculo e piteira, a pantera foge do inspetor, bagunça os créditos, trocando letras de lugar, é expulsa, volta e continua aprontando confusões.

Essa introdução fez tanto sucesso que surgiu a ideia de fazer uma série animada com a personagem. Foi feita uma série de curtas-metragens produzidos pela DePatie-Freleng Enterprises e exibidos inicialmente no cinema e depois na TV.

A pantera do desenho é apaixonada pela cor rosa e tem boas intenções, mas sempre coloca os outros em apuros graças às suas trapalhadas.

No primeiro episódio produzido, por exemplo, um pintor começa a pintar uma casa de azul, mas é atrapalhado pela pantera, que pinta de rosa. Começa uma disputa entre os dois, um pintando de azul e outro de rosa.

Em outro episódio, o cachorro de um caçador descobre a pantera e tenta avisá-lo para caçá-la, mas no processo o caçador acaba sempre terrivelmente machucado.

Em outro, a pantera constrói uma moto, mas passa a ser perseguida por um policial ao exceder involuntariamente o limite de velocidade. Claro que o policial acaba se dando mal das mais diversas formas possíveis.

Em todos esses episódios sempre aparecia um personagem narigudo que fazia o papel de pintor, caçador ou policial.

Como nos episódios clássicos a pantera não diz uma única palavra, o desenho se construía no humor visual. Contribuía muito para isso a inesquecível música composta por Henry Mancini. As gags geralmente eram todas encaixadas na música.

O desenho chegou a ganhar o Oscar da Academia em 1965 com o episódio "The Pink Phink".