sexta-feira, setembro 06, 2019

O amor trágico de Abelardo e Heloísa

Pedro Abelardo foi um dos mais importantes filósofos da Idade Média. Diante da questão entre realistas (que, influenciados por Platão, acreditavam que as palavras universais, como "homem", tinham existência real) e nominalistas (que acreditavam que os universais eram apenas nomes, não tendo existência nem na natureza, nem na mente), ele apresentou um terceiro caminho, o conceitualismo, que sintetizava elementos dos dois e pregava que os universais são conteúdos da mente derivadas das coisas. Com suas ideias e novas formas de ensinar, ele criou a base do ensino universitário. Mas, para além de suas ideias, Abelardo ficou mais conhecido por ter protagonizado uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, influenciando o que viria a ser o romantismo. 

Depois de passar por diversas cidades e ser perseguido por sua genialidade e espírito rebelde, Abelardo chegou em Paris em 1113 e começou a lecionar na escola de Notre Dame. Nessa época já era um professor famoso e suas aulas eram concorridas. Sua metodologia revolucionária quebrava com a metodologia platônica, maravilhando os alunos com o jogo de argumentação. 

Foi nesse período que ele conheceu uma jovem de 17 anos que chamava a atenção de todos por sua beleza e inteligência, Heloísa. Interessado em conquistar a moça, o filósofo se aproximou do tio (o cônego Fulberto), com a qual ela vivia e se ofereceu para ensinar à moça gratuitamente, em troca de moradia na casa. O cônego não só aceitou a oferta, como confiou a sobrinha inteiramente à orientação do filósofo, que poderia, inclusive, castigá-la severamente caso esta não se aplicasse nos estudos. 

Inicialmente o tio acompanhava os dois em suas lições, que geralmente aconteciam à noite, quando o filósofo voltava de suas aulas, mas depois, confiando na fama de casto de Abelardo, passou a deixa-los a sós. "Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros e mais frequentemente o amor se refletia nos olhos do que a lição os dirigia para o texto", escreveu Abelardo no livro A história das minhas calamidades. O casal chegou até mesmo a simular surras corretivas para dissimular as atividades românticas e não levantar suspeitas. 

Então começa a tragédia: Fulberto flagra o casal e expulsa Abelardo de casa. Mas nessa época Heloísa já estava grávida. Ainda tremendamente apaixonado por ela, Abelardo a tira às escondidas da casa do tio e a leva para sua terra natal, onde ela fica, na casa de uma irmã do filósofo, até dar à luz ao filho do casal, Astrolábio. 

Nesse meio tempo, Abelardo procura Fulberto e se oferece para se casar com a moça, desde que isso fosse mantido em segredo, a fim de que sua reputação não fosse prejudicada. 

Heloísa, no entanto, não concordava com o plano. Segundo ela, o casamento acabaria com a carreira do amado, pois, na época, acreditava-se que um verdadeiro filósofo deveria ser celibatário. Cícero, por exemplo, ao ser instado a casar com a irmã de Hírcio, respondeu que não podia consagrar-se igualmente a uma mulher e à filosofia. "Quem poderia, aplicando-se às meditações sagradas ou filosóficas, suportar o vagido das crianças, as cantarolas das amas que embalam e a multidão barulhenta da família?", indagava Heloísa. No final, o casal concordou com o casamento, desde que ele fosse totalmente secreto. Unidos pela benção nupcial, foram cada um para lado e se viam apenas às escondidas. O tio, envergonhado com a situação, passou a divulgar o casamento. 

Abelardo, para evitar o falatório, enviou Heloísa para um convento de monjas. Ultrajado, o tio arquitetou uma vingança que se tornaria célebre: mandou castrá-lo. Além da ferida, havia a vergonha: na época os eunucos eram considerados impuros e proibidos até mesmo de entrar nas igrejas. 

Ferido no corpo e na alma, humilhado, Abelardo internou-se no mosteiro de Saint-Denis, tornando-se um monge para o resto da vida. Heloísa, com apenas 20 anos, ingressou definitivamente no convento. Desde então, os dois nunca mais se viram, apenas trocaram cartas nas quais lamentavam a má sorte que os jogara naquela situação.
 

Túmulo do casal></P> Túmulo do casal<BR><BR><BR><BR>
Os dois jamais deixaram de se amar, como atesta uma das cartas de Heloísa:
Túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Padre Lachaise.

Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa conseguiu que se construísse uma sepultura em sua homenagem. Quando ela morreu, em 1162, foi sepultada ao lado de seu amado. Conta-se que ao abrirem a sepultura de Abelardo para enterrar Heloísa, seu copro ainda estava conservado e se mantinha de braços abertos, como se esperasse a chegada de sua amada. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes mais famosos da Idade Média foram levados para o cemitério do Padre Lachaise. 
A história dos dois deu origem a um filme, Em nome de Deus, de 1988, de Clive Donner.

A voz do fogo, de Alan Moore

Quem lia quadrinhos na década de 80 espantava-se com a capacidade narrativa do mestre inglês Alan Moore. E surgia sempre a dúvida: ele se sairia tão bem na literatura, sem o auxílio dos desenhos? A voz do fogo, seu livro recentemente lançado no Brasil pela Conrad Editora, prova que quem é bom, é bom em qualquer mídia.
A obra traça a trajetória de Northampton, a cidade natal de Moore, por meio de seus habitantes. A trama tem início quatro mil anos antes de cristo e prossegue até 1995. São vários contos interligados que nos dão um panorama geral da localidade e de sua evolução, mesclando magia, reencarnação e sacrifícios.
O primeiro conto, O porco do bruxo, é provavelmente o mais interessante e também o de leitura mais difícil. Gira em torno do drama de um garoto na Era Neolítica, abandonado pela tribo quando sua mãe morreu. Imagine, então, o desafio de redigir uma aventura em primeira pessoa cujo narrador ainda não domina a linguagem falada. Para tanto, Moore cria uma linguagem estranha, sem tempos verbais e com pouquíssimos pronomes. O resultado é fantástico, mas árduo.
Sinta só este exemplo: Agora olha eu para baixo, para a grama em fundo da colina, vê porcos. Porcos grandes, compridos, um atrás de outro, traçando a fêmea, pelo que parece. Ver faz um osso subir dentro de eu vontade. Eu e barriga de eu, junto, posso descer colina correndo até porcos, acertar pedra em um e fazer ele sem vida, para comer ele todo. Antes é eu juntando isso. Agora é fazendo isso.
O episódio que vem a seguir é igualmente interessante. Os campos de cremação é uma trama policial e de suspense ambientada no ano 2.500 antes de Cristo. Em viagem para conhecer seu pai, um bruxo de uma rica aldeia, uma jovem depara-se com uma esperta andarilha, que já havia feito de tudo, inclusive vender uma criança perdida da mãe como escrava. Ingenuamente, a menina conta-lhe detalhes da fortuna do seu genitor. A mau-caráter, então, mata a incauta e apresenta-se na aldeia, fazendo-se passar por ela. A grande questão é saber se a impostora será descoberta ou não. A todo instante, Alan Moore mantém-nos no fio da navalha, jogando com os nervos da personagem e os nossos.
Neste mesmo episódio, dá-se algo que define bem a atuação do autor. O velho bruxo tatua, no corpo, o mapa de Northampton e assim influencia a cidade, que, por sua vez, exerce influência sobre ele. O mesmo ocorre com Moore. Suas palavras são uma espécie de magia simbólica que molda e se deixa moldar pela cidade. Compreender como isso transcorre e descobrir as coincidências entre as diversas tramas é mais um dos atrativos do livro. Muitas vezes, a conclusão de uma narrativa dá-se apenas em outra. Além disso, há personagens fixas, como arquétipos, que surgem aqui e acolá, permeando os textos. Entalhando as palavras, Moore garante que, se o conteúdo mágico e holístico do livro não for suficiente para atrair o leitor, a poderosa narrativa cuidará de prender sua atenção até o último parágrafo. São, portanto, mais de trezentas páginas, mas que muito facilmente serão lidas num fôlego só.

quinta-feira, setembro 05, 2019

Tico-tico, a primeira revista de quadrinhos do Brasil


O Tico-tico foi a primeira revista em quadrinhos do Brasil. Conta a lenda, impressa na capa do primeiro número, que um grupo de pirralhos foi até a revista O Malho exigir que fosse criada uma publicação específica para eles.

Na verdade, o dono de O Malho, estava de olho nesse novo e crescente mercado representado pelas crianças. Um mercado, aliás, que durante anos não teria qualquer concorrência.

O primeiro número saiu em 11 de outubro de 1905 e seguia o modelo da revista francesa La Semaine de Suzette. Tinha quatro páginas coloridas. As outras usavam uma combinação de branco com vermelho, verde ou azul.
Custava 200 reis, preço que manteve até 1920.

Embora a inspiração fosse francesa, o personagem principal, Chiquinho, era um decalque de Buster Brown, do norte-americano Richard Outcault, publicado no jornal The New York Herald. O personagem era um garoto travesso que fazia as maiores traquinagens e acabava muitas vezes apanhando. Seu inseparável companheiro era o cão Tige. No Brasil, o desenhista Luís Gomes Loureiro adaptou o personagem, renomeando-o de Chiquinho. O cão virou Jagunço, e logo a série ganhou um coadjuvante, o negrinho Benjamin, retratado com a visão que se tinha do negro na época: descalço, lábios grossos, roupas simples e subserviente. Embora fosse um decalque, a adaptação ficou tão boa que durante muito tempo acreditou-se que Chiquinho era um típico personagem brasileiro.

A descoberta da origem do personagem se deu na década de 1950, quando um grupo de desenhistas novatos comparou Chiquinho com Buster Brown. Entretanto, Chiquinho tem sido reabilitado por ter conseguido se adaptar à realidade brasileira. Além disso, os decalques pareciam ser moda na época. Na Holanda, o garoto virou Sjors, do clube dos rebeldes, uma série reverenciada até hoje e de grande influência nos quadrinhos locais.

Alguns dos mais importantes artistas gráficos do Brasil colaboraram com O Tico-Tico. Entre eles, J. Carlos, um cartunista que conseguiu criar um traço único, tão diferente e simples que seus trabalhos constam no Museu das Caricaturas, na Basiléia. Segundo estudiosos, um desenho seu de um papagaio serviu de inspiração para que Walt Disney criasse o Zé Carioca. Na revista O Tico-tico ele ficou famoso pela personagem Lamparina, uma negrinha do morro que vivia pregando peças nos adultos.

Outro que se destacou foi Luiz Sá. Com seus personagens redondos, ele foi o pioneiro da arte da animação no Brasil, tendo feito um desenho em sequência com mais de cem metros, que nunca foi exibido por falta de patrocínio.  Para a publicação, ele criou Reco-reco, Bolão e Azeitona, um trio de garotos que apareceram de 1931 até o fechamento da revista na década de 1960.   

Finalmente, Max Yanton foi outra estrela da revista. Ele era especializado em tipos pitorescos, vagabundos e sem família. Sua criação mais famosa foi Kaximbown, de 1908, um aventureiro que nunca pagou seu empregado Pipoca e vivia se dando mal a cada episódio. O personagem ficou tão famoso que Rui Barbosa só chamava o desenhista de Kaxibown. 

Superman e a Legião dos Super-heróis



O roteirista Geoff Johns e o desenhista Gary Frank foram responsáveis por uma das fases mais interessantes do Homem-de-aço em época recente. Foram histórias que se tornaram imediatamente clássicas. E o melhor dessa fase foi o encontro do Superman com a Legião dos Super-heróis.
Na história, Superman recebe um pedido de socorro e uma cápsula do tempo enviadas por brainiac 5. Ao viajar para o século 31, o herói descobre que a Terra se tornou uma distopia. Membros rejeitados pela Legião se uniram, formando a nova Liga da Justiça, e transformaram o planeta numa ditadura xenofóbica. Mas a ida do Homem de aço para o futuro pode ter sido um erro: o sol se tornou vermelho, tirando boa parte de seus poderes. Se o herói morrer no futuro, o que pode acontecer com a realidade?

Geoff Johns usa como fio motor da história o fato de grande parte da Legião ser formada por extraterrestres e cria uma metáfora política. Assim, a nova Liga introduz uma cruzada contra extraterrestres, aprisionando-os ou simplesmente levando-os ao exílio. Mas há um problema aí: no futuro a figura do Superman é simplesmente idolatrada pela população. Como adequar isso a essa campanha? Inventando que o Homem de aço não veio de Kripton, mas nasceu na Terra e lutou a vida inteira contra alienígenas, incluindo Ajax, o caçador de Marte. Ou seja: criam uma campanha xenofóbica a partir de uma fake News.
O prelúdio da história é genial: um casal vê seu planeta ser destruído e envia seu único filho ao planeta Terra. Aqui a nave é encontrada por um casal de lavradores, que simplesmente mata o bebê. Essa sequência, além de ecoar a própria origem do super-homem, também mostra o quanto a realidade foi alterada a partir do boato criado pelos vilões.
Outra grande sacada foi a percepção de que os membros rejeitados da Legião o foram não apenas por não dominarem seus poderes, mas por terem problemas de caráter, como tendências psicóticas. Aliás, o trecho que mostra a nova Liga detalha isso: são obcecados por poder, depravados, têm ódio por terem sido rejeitados.
Geoff Johns maneja muito bem tanto esses momentos barra-pesada quanto os momentos idílicos, como os flash backs que mostram o primeiro encontro do Superboy com a Legião. Aliás, ele é um dos roteiristas que melhor entenderam o Homem de aço e o que ele representa.
Já o desenho de Gary Frank é simplesmente encantador. Ele caracteriza o Superman exatamente como Christopher Reeve no antológico filme da década de 1980, o que, por si só já agrada aos fãs. O mesmo vale para sua representação da Legião: é soberba, especialmente nas cenas em aparecem muitos personagens.

Homem aranha 23


Um autor que não costuma ser associado ao Homem-aranha é Denny O´Neil. No entanto, ele chegou a escrever o personagem no início da década de 1990. Uma dessas histórias, “Aranha ao mar”, foi publicada no Brasil em 1985 na revista Homem-aranha 23. O volume tem uma bela capa de John Romita Jr, desenhista da história. O Romitinha estava na fase anterior ao seu estilo atual (amado por muitos, odiado por outros). Na fase dessa história, ainda imitava o pai, Romita Senior. Na trama, o aracnídeo enfrenta Namor (daí a bela capa com os dois em conflito em um navio).
O problema da HQ é que o Aranha é um personagem urbano e o Namor, marítimo. Há uma história clássica do Demolidor, escrita por Stan Lee, em que o homem sem medo enfrenta o rei dos mares, mas este vai até Nova York. O´neil preferiu levar o aranha até alto-mar em uma solução para lá de forçada e pouco verossímil. A conclusão do conflito entre os dois também é apressada e pouco convincente. O mesmo para a história seguinte, em que surge o Homem hídrico. O Aranha vence-o com jornais e roupas! Considerando que O´Neil foi responsável por uma das melhores fases do Batman, parece que estava de má-vontade quando escreveu as histórias do amigo da vizinhança.

Uma grata surpresa é outra história, do volume, protagonizada pela Mulher Aranha, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de Steve Leialoha na qual a personagem enfrente Agar, o gritador. O vilão tem a capacidade de provocar alucinações com seus gritos, o que nos lega as melhores páginas do volume. Embora seja pouco mais que competente nas cenas normais, o desenhista se solta nas sequencias de alucinação, com um desenho que flui pela página, rompendo os limites da diagramação. Há, claro, todo o novelão característico de Claremont, mas as sequencias de alunciação valem ler até o final. Fico imaginando se esse dom lisérgico fosse melhor aproveitado em uma série em que o desenhista pudesse usar todo o seu potencial. 

quarta-feira, setembro 04, 2019

Pré-venda da 4a edição do livro Introdução à metodologia científica


A arte fantástica de Josephine Lilac


Josephine Lilac é uma artista inglesa especializada em fantasia. Seu estilo mistura influências do surrealismo e do romantismo. Confira abaixo alguns trabalhos dessa grande artista. 





Livro Teorias da comunicação

O Intercom é o mais importante congresso brasileiro da área de comunicação. Em 2014, o Intercom lançou um livro, no formato de e-book com artigos dos mais renomados professores de Teorias da Comunicação do Brasil. Intitulado Teorias da Comunicação: correntes de pensamento e metodologia de ensino, o volume foi organizado por Rose Vidal, José Marques de Melo e Osvando Morais. Eu colaborei com dois artigos, um sobre a teoria hipodérmica e outro intitulado "Da cibernética à teoria do caos". O volume, que se tornou bibliografia obrigatória em cursos de Comunicação, pode ser baixado aqui.

Você sabia?

Charles Chaplin era considerado comunista por causa de filmes como Tempos Modernos e O grande ditador. Ele teve que fugir dos EUA na época do Marcatismo para não ser preso.

terça-feira, setembro 03, 2019

Fantasma, o espírito que anda



Lee Falk foi o primeiro roteirista importante dos quadrinhos. Antes dele já existiam outros como Dan Moore e Dashiel Hammett que, no entanto, não assinavam seus trabalhos. Já Lee Falk era um pai coruja: Fazia questão não só de assinar suas criações, como exigia controle to¬tal sobre elas. Uma das poucas vezes em que ele perdeu esse controle foi quando o Fantasma passou a ser publicado no Brasil com a cor vermelha substituindo o azul original — isso aconteceu porque a história chegou ao Brasil sem referência de cor e o vermelho possibilitava uma melhor reprodução para as obsoletas máquinas tupiniquins (aliás, essa mudança de cor aconteceu em diversos países justamente pela falta de referência de cores).
O primeiro personagem de Lee FaIk foi o mágico Mandrake, em 1934. Desenhado por Phil Davis, Mandrake era um mágico racional, inspirado fisicamente no próprio Falk. O personagem, sempre envolvido em aventuras detetivescas, conquistou o público e é publicado até hoje. O grande sucesso de Falk, entretanto, seria o personagem Fantasma, criado em 1936 e desenhado por Ray Moore.
O que diferencia o Fantasma de outros personagens é o seu caráter de mito. Sua história parece uma daquelas remotas lendas passadas de pai para filho: no ano de 1525 o único sobrevivente de um ataque pirata faz um juramento: "Juro que dedicarei toda minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão". Ele passa a usar, então, uma máscara e roupa colante e a perseguir malfeitores. Como o jura¬mento valia também para seus descendentes, o povo da selva começou a pensar que o herói era imortal. Esse aspecto da tira deu um significado maior à história, tornando-a mitológica por excelência.
“O espírito que anda” teve o mérito de ser o primeiro herói de quadrinhos a usar máscara e ma¬lha colada ao corpo. Nesse senti¬do, todos os super-heróis devem a ele o seu visual. Na primeira história o personagem usava também uma luva, que abandonou devido à inconveniência de ter de tirá-la toda vez que quisesse deixar a marca do Fantasma em um malfeitor.
O primeiro desenhista a ilustrar o personagem foi Ray Moore. Seu traço sombrio ajudou a criar o clima de mistério que envolve até hoje o herói mascarado.
Fantasma de Ray Moore era atlético e sensual, com um forte toque “noir” realçado pelo som¬breado pesado. Nenhum outro artista conseguiu manter o nível de Moore, que desenhou o personagem de 1936 a 1942.
A partir de 1942, seu assistente Wilson McCoy pegou o personagem. A princípio, McCoy seguiu a linha de Moore, tentando manter o nível de qualidade, mas com o tempo começou a caricaturar os personagens dando a impressão de que as tiras eram feitas às pressas. Com a morte de McCoy, em 61, o Fantasma passou a ser desenhado por Sy Barry, de traço bastante impessoal. Isso deve ter ajudado para que ele tivesse uma multidão de assistentes - que muitas vezes faziam tudo na história, tendo Sy Barry só o trabalho de assinar, quando muito.
Em 1977 o Fantasma se casou. A história, embora seja assinada por Sy Barry, foi desenhada pelo brasileiro André LeBlanc, que no Brasil foi um dos principais ilustradores dos livros de Monteiro Lobato, mas foi para os EUA, onde se tornou assistente de Will Eisner no Spirit antes de se juntar à equipe que ilustrava o Espírito que anda.
Lee Falk sabia que os detalhes fariam com que seu personagem ganhasse um aspecto de mito e não economizou neles, a começar pelos apelidos que o povo da floresta dão ao personagem, tais O Espírito-que-anda, o Homem que nunca morre, o Guardião das Trevas Orientais e outros. Os ditados referentes ao personagem também ficaram famoso: “O Fantasma é violento com os violentos”, “Dá medo ver o Fantasma enfurecido”, “O Fantasma atira mais rápido que o olhar”. Os símbolos também ajudam a compor a aura do personagem, como a caverna da caveira (local de sua moradia) e os anéis. O anel da caveira, usado na mão direita, marca os malfeitores, enquanto na mão esquerda fica um anel com a marca de proteção. Aqueles que têm essa marca serão sempre protegidos pelo personagem. Outros destaques são os companheiros animais do personagem, o lobo Capeto e cavalo branco Herói.
No Brasil o personagem fez muito sucesso nas década de 1940 e 1950, contribuindo para que seu editor, Roberto Marinho, ficasse rico o suficiente para montar uma emissora de TV, a Rede Globo. Atualmente, no Brasil, ele tem um público pequeno, mas fiel. Entretanto, em outros países, como a Austrália e a Escandinávia, ainda é o herói de quadrinhos de maior sucesso. Recentemente a revista do personagem alcançou o número 1.500, um recorde mundial.

Uma breve história dos quadrinhos paraenses

Recebendo meus exemplares das mãos do autor Vince Souza

O Pará é considerado atualmente como um celeiro de grandes quadrinistas. Os quadrinhos se tornaram uma tradição na capital paraense com grandes talentos - alguns dos quais trabalhando para o mercado americano, outros para o mercado europeu. Até o prêmio Jabuti foi para um paraense. Contar a história dessa tradição foi o desafio enfrentando por Vince Souza e Otoniel Oliveira no livro Uma breve história dos quadrinhos paraenses. Apesar do título, é um volume de respeito. São 155 páginas ricamente ilustradas! E capa dura! Obra obrigatória para qualquer fã de quadrinhos nacionais. Eu fiz parte dessa história - foi a partir de uma oficina ministrada por mim e pelo compadre Bené Nascimento que se formou o Ponto de Fuga, um dos grupos que movimentaram o cenário da 9a arte no Pará. Também fui o primeiro gibitecário da Gibiteca da Biblioteca Pública Elcy Lacerda, que existe até home.  Eu ajudei os autores disponibilizando fotos e arquivos de jornais.
O livro é ricamente ilustrado

A diagramação é um diferencial da obra. 

Na foto no canto superior eu na gibiteca do grupo Ponto de Fuga. Eu era muito magro nessa época. 

Palácio de Luxemburgo, em Paris




Um belíssimo palácio que foi residência da mãe de Luís XIII. Construído no século XVII, é uma bela construção, com jardim imenso, muito frequentado por franceses e turistas. É possível também apreciar os típicos crepes franceses. Em um dos pontos do palácio é possível ver bustos em homenagem a grandes pintores franceses.


Blog: um diário intelectual


Desde os 17 anos eu mantive um diário. Na época eu estava estudando para o vestibular e o diário servia como uma espécie de válvula de escape no meio de tanto stress e estudos. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que eu conhecia e que mantinham um diário, eu raramente anotava fatos do dia. A maioria dos textos eram sobre minhas leituras, os filmes que eu assistia, exposições que eu visitava, etc, além de ensaios de contos, crônicas e até roteiros de cinema. Tinha também uma relação dos livros que eu pegava na biblioteca. Relendo, descubro que lia, religiosamente, um livro por semana.
Relendo-o, descubro que no dia 21 de setembro de 1988, visitei a exposição Langsdorff. Fiquei tão fascinado com a história que consegui, no jornal local, uma reprodução de um desenho de Florence e grudei no diário, com a referência de que ele fizera parte da expedição. No mês seguinte, assisti Feliz Ano Velho, filme de Roberto Gervitz baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva. Além de imagens de filmes e livros e até desenhos, muitas vezes eu registrava curtas resenhas sobre as obras com as quais tinha contato.
Folhear o diário é um pouco como visitar o meu blog. Sem querer, ao criar o Ideias de Jeca-tatu, eu reproduzi o que já fazia no meu diário. Criado em 2003, numa época em que a maioria dos blogs era composto de fofocas que só interessavam aos autores e a um pequeno grupo de pessoas, esse era um blog diferente.
Ideias de Jeca-tatu era o nome do fanzine que produzi durante toda a década de 1990 e que, em muitos sentidos, substituiu o diário. O título era uma referência a um dos mais importantes livros de Monteiro Lobato, no qual ele registrava suas ideias sobre a arte e literatura do Brasil no início do século. “O Jeca-tatu não pensa, escreveu Lobato. Mas se pensasse, suas ideias seriam assim”.

segunda-feira, setembro 02, 2019

Receita de bolo de cenoura


Modo de preparo: 

1.            Em um liquidificador, adicione a cenoura, os ovos e o óleo, depois misture
2.            Acrescente o açúcar e bata novamente por 5 minutos
3.            Em uma tigela ou na batedeira, adicione a farinha de trigo e depois misture novamente
4.            Acrescente o fermento e misture lentamente com uma colher
5.            Asse em um forno preaquecido a 180° C por aproximadamente 40 minutos

Essa é uma receita muito boa, que todos deveriam conhecer. Para outras receitas, clique aqui.

As aventuras perdidas do Capitão Gralha

Acompanhe as aventuras do primeiro super-herói brasileiro em histórias resgatadas recentemente por Gian Danton, Leonardo Melo, JJ Marreiro e Antonio Eder. São ... páginas com quadrinhos, textos sobre as histórias e a biografia do criador do personagem, Francisco Iwerten. 
Preço: 30 reais com frete. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com

São Francisco de Assis: o santo relutante


Francisco de Assis é um dos santos mais populares do catolicismo. Difícil uma cidade grande que não tenha uma igreja em sua homenagem. No Nordeste, por exemplo, ele batizou o principal rio da região e pintores de rua o reproduzem em telas, na frente dos turistas, da mesma forma que artesãos fazem versões em madeira ou barro para vender, sempre na posição famosa, com ele envolto por passarinhos. No entanto, apesar da popularidade, sua história real é pouco conhecida. Mesmo católicos mais fervorosos desconhecem sua biografia e, quando conhecem, ela está envolta em mitos.
Foi com o objetivo de remediar essa situação que Donald Spoto escreveu Francisco de Assis, o santo relutante, recentemente lançado em uma edição popular da coleção Ponto de Leitura. É uma grande chance de conhecer o lado humano de um homem cuja vida se mistura com lendas baseadas em “idéias românticas sobre a era dos castelos, cavaleiros andantes, damas medievais e honra cavalheiresca, elementos mais adequados às páginas dos manuscritos com iluminuras ou a filmes de Hollywood, mas que não correspondem à vida real”, escreve o autor.

Donald Spoto é PHD em teologia pela Universidade de Fordham e foi professor universitário de estudos religiosos, literatura bíblica e misticismo cristão. Escreveu 18 obras, entre elas as biografias de Alfred Hitchcock, Laurence Olivier e Ingrid Bergman.  
Ou seja, é alguém que transita entre dois pontos: o estudo da religiosidade e a tradição das biografias jornalísticas. Embora o livro penda mais para as modernas biografias, é a veia teológica do autor que cria os momentos mais díspares. Suas tentativas de explicar sob uma ótica católica fatos da vida de São Francisco são os momentos menos interessantes do livro e parecem não encaixar direito na proposta que o próprio autor faz desde as primeiras páginas da biografia.
Felizmente, esses momentos são exceção e na grande maioria das páginas, Spoto consegue aproximar Francisco daquilo que ele mesmo escreve na introdução do livro: o playboy de Assis que resolveu se tornar mendigo não é uma propriedade da Igreja Católica. Afinal, sua primeira grande biografia moderna foi escrita por um protestante Francês. Um dos mais importantes pesquisadores franciscanos foi um bispo anglicano. E, por último, o Dalai Lama, ao visitar Assis, fez questão de ser fotografado no lugar que Francisco mais amava.
Francisco, aliás, não era Francisco. Seu pai estava ausente, em viagem de negócios para a França quando o garoto nasceu e a mãe lhe deu o nome de João, em homenagem a São João Batista, o profeta que pregava no deserto vestido com pele de camelo e se alimentava de mel e gafanhotos. Quando chegou, o rico comerciante de tecidos Pedro Bernardone, ficou furioso. Não convinha que seu filho tivesse o nome de um ermitão pobre e, como não era possível anular o nome, o pai fez questão de que ele fosse conhecido como Francisco, palavra que significava francês e que conotava elegância, já que a França na época ditava moda para o mundo.
Esses dois extremos: a elegância dos ricos e a humildade dos pobres vão ser o pêndulo sobre o qual o jovem Franc isco irá se equilibrar por grande parte de sua vida.
A cidade em que o rapaz vivia era conhecida na Itália como Nova Babilônia, por ser um local de franca libertinagem, onde o sexo se misturava à violência. Garotos de famílias ricas vagavam pelas ruas criando desordem e Francisco foi um deles. A atividade sexual desregrada era regra para os meninos e a maioria das meninas não permanecia casta e monogâmica. O casamento era abençoado pela Igreja, mas o adultério era esperado pela sociedade. Com seus maridos viajando a negócios ou para as guerras, as esposas ficavam acessíveis a amigos e estranhos. A maioria o fazia de bom grado, mas as que se recusavam eram constantemente estupradas.

Embora não haja provas de que Francisco tenha vivido essa dissolução sexual, o autor explica que também não há provas de que ele tenha resistido a ela. Afinal, ele era um líder entre os playboys de Assis, sempre envolvido com ceias tardias nas praças da cidade e piqueniques que reuniam os elementos menos recomendados da cidade. Além de serenatas para moças casadoiras.
Seria importante para a vida de São Francisco o fato de que a Igreja Católica vivia uma crise moral. Muitos padres tinham amantes. Outros  só pensavam em dinheiro e poder.
Na festa de São Nicolau, que acontecia todo ano em Assis, uma criança era  vestida como bispo, levada para uma igreja e participava de uma cerimônia sacrílega. Padres lascivos e mulheres  seminuas se juntava à orgia. Algumas delas eram coroadas com guirlandas e vendidas por uma noite para quem pagasse mais. A cerimônia simbolizava bem o nível de decadência da imagem da igreja católica. E Francisco chegou a ser líder de algumas dessas festas.
Sua vida de alegria, mas vazia, mudou  num dia em que voltava de uma propriedade do pai e parou na pequena e decadente igreja de São Damião para descansar. Um crucifixo sobrevivera ao tempo e lá ainda estava Jesus, que falou com o futuro santo: “Francisco, não vês que minha casa está sendo destruída? Vai, então, e conserta-a para mim”.
O santo, que a partir dali tomaria tudo ao pé da letra (ao ler na Bíblia a passagem em que Jesus dizia que quem o seguisse deveria se livrar das sandálias, ele decidiu andar apenas descalço) se colocou a consertar a igreja. Mas logo ficaria claro que sua verdadeira função seria restaurar a igreja como um todo, não por palavras de reprovação (ele jamais repreendia os padres, por mais corruptos e lascivos que fossem), mas pelo exemplo.
Sua vida de dedicação total a Jesus e aos pobres e excluídos  (entre eles os leprosos) seria o modelo que faria muitos se converterem. Embora posteriormente o movimento franciscano lhe fosse tirado das mãos e muitas vezes se tornasse um meio para conseguir poder, sua herança positiva permanece até hoje.
Da mesma forma que na época de Francisco, hoje vivemos uma crise moral em que dinheiro e poder são mais os valores mais importantes da sociedade. E assim como naquela época , sua biografia pode apontar para um novo tipo de vida. O livrode Spoto é uma boa introdução ao assunto. 

Entenda como funciona o bolsa-empresário


Surfista Prateado: Parábola



Poucos títulos para uma obra poderiam ser tão adequados quanto a graphic novel do Surfista Parábola escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius.
Quando os dois se encontraram em uma feira do livro, surgiu a ideia de fazer um trabalho em conjunto e Moebius sugeriu o Surfista. Mas como adequar a história ao estilo do autor francês? Lee voltou à origem do personagem. Conta-se que no argumento original da aparição de Galactus estava escrito: “O Quarteto Fantástico enfrenta deus!”.

Stan Lee retoma esse conceito, usando-como uma história alegórica, sobre os perigos da religião cega. Na HQ galactus volta à terra, mas não ataca. Simplesmente mostra o seu poder e se deixa idolatrar pelos humanos. Mas é uma religião cega e irracional, que leva a uma onda de irracionalidade, violência e intolerância.
Stan Lee coloca na HQ muito da sua maneira de ver o mundo, em especial nas falas do Surfista: “eles têm sede de lideranças, como um bebê que anseia o ventre materno. Certamente é por isso que são presas tão fáceis de tiranos e ditadores. Por que não percebem que a fé mais verdadeira de alguém é a fé em si mesmo? O que lhe causou desespero a ponto de buscar alguém que lhes mostre o caminho?”.

Moebius, por outro lado, buscou refletir na arte essa essência alegórica. Seu traço é fluído, leve, automático. São belíssimas páginas, com destaque para o confronto entre Galactus e o Surfista.
Essa história foi lançada aqui originalmente na coleção Graphic Novel, da editora Abril. Posteriormente a Panini fez uma edição em capa dura que até hoje pode ser encontrada em livrarias.     

domingo, setembro 01, 2019

Planeta 51: ficção científica como metáfora política

Planeta 51  é um filme de animação espanhol-inglês dirigido por Jorge Blanco, escrito por Joe Stillman. A história se passa em um planeta extraterrestre semelhante à Terra dos anos 1950. O protagonista é Lem, um garoto de 16 anos que sonha um dia dirigir o planetário da cidade. Sua vida é mudada quando ele descobre, escondido no planetário, um astronauta terrestre se escondendo das autoridades. 
O filme é uma espécie de ET ao contrário, com um humano em um planeta alienígena tentando voltar para a nave e tendo de fugir da perseguição oficial. 
Os fãs de ficção científica mais atentos vão se deliciar com as centenas de referências a outros filmes. Um cachorrinho, por exemplo, tem a cara do Alien e urina ácido. Outro grande referencial é Vampiros de almas, de Don Siegel, 1956, filme em que extraterrestres tomam o lugar de humanos em uma pequena cidadade do interior dos EUA.  Vampiros de almas foi escrito como uma crítica à paranóia anti-comunista que dominou a América nos anos 1950, em que se imaginava que qualquer um podia ter se tornado um comunista. Planeta 51 retoma essa premissa na cena em que o general acusa um hippie de ter sido transformado em zumbi pelo terrano apenas porque ele usa cabelo comprido. 
Planeta 51 tem, portanto, uma mensagem política. É sobre o medo do novo e sobre o conservadores versus inovações sociais. A cena em que os soldados avançam sobre os hippies com cacetetes é, nesse sentido, emblemática.  

O incêndio em Notre Dame

Minutos depois do início do incêndio, o local já estava totalmente isolado e repleto de policiais e bombeiros.
Algumas pessoas estão compartilhando uma postagem comparando as queimadas na Amazônia com o incêndio de Notre Dame. 
Já que é para comparar, vamos comparar. 
O incêndio em Notre Dame foi um acidente. Aparentemente um dos operários que trabalhavam na obra de restauração da catedral deixou cair uma bituca de cigarro, que iniciou o fogo (e Olavo de Carvalho ainda diz que cigarro não faz mal). Acidente não dá para prever, mas mesmo assim, minutos depois do início do incêndio, o local estava cheio de policiais e bombeiros (eu estava lá e vi). 
Já as queimadas na Amazônia são criminosas e foram planejadas com antecedência. O Ministério Público avisou o presidente, que não só não fez nada, como ainda deixou a floresta queimar por 16 dias. 
Se o atual presidente do Brasil fosse presidente da França, não teriam sobrado nem as cinzas de Notre Dame.