segunda-feira, agosto 26, 2019

As aventuras de uma criminóloga 122


Como repetir a mesma história sem parecer cansativo ou redundante?
Berardi mostra um como fazer isso na série de histórias com Mirna, a psicopata apaixada por Júlia Kendall e sua grande antagonista. A série inclui diversas histórias com a personagem, a maioria delas focada nas tentativas de Mirna de matar a criminóloga. Para que não pareça que está contando sempre a mesma história, o genial roteirista italiano foca nos personagens secundários, sua relação seus encontros com a psicopata.
A história Coragem de matar, publicada na edição 122 da revista é um dos melhores exemplos dessa dinâmica. Na HQ, Mirna fugiu da cadeia, mas ao invés de ir para outra cidade, prefere ficar em Garden City onde acaba conhecendo um cafetão e uma prostituta travesti agenciada por ele. Mirna acaba passa a se prostituir, mas seus clientes terão muito mais do que imaginam.
O destaque aqui vai para a relação de Mirna com a travesti e é escrito com uma candura quase poética. Contribui muito para isso o excelente trabalho de Laura Zuccheri, a desenhista desta história. A artista consegue captar perfeitamente o clima de beleza e morte que a história exigia e a escalada de violência que se sucede. Destaque para a expressão facial de Mirna, que muda completamente quando seu lado psicopata se revela.

O que não te falaram sobre a Amazônia


Tornou-se comum a publicação de vídeos “desmentindo as queimadas” na Amazônia.
Funciona assim: a pessoa se posiciona em um local próximo à floresta e diz: “Está vendo? Aqui não está pegando fogo. As queimadas são fake News”.
Ocorre que a Amazônia é uma região gigantesca. Só para se ter uma ideia, a distância entre Macapá, no Amapá e Rio Branco no Acre, em linha reta, é de 2162 quilômetros, quase a mesma distância entre Porto Alegre e Salvador.
Como a região é enorme, o inverno amazônico varia de local para local.
No Amapá, por exemplo, o inverno foi até agosto. Em outros locais acabou em abril, maio, junho.
Para quem não é da região: aqui inverno é a época das chuvas, em que chove praticamente todos os dias.
Na época do inverno a vegetação fica tão molhada que nem com gasolina você consegue colocar fogo. É por isso que em alguns locais há queimadas e em outros não.
Esses vídeos, “provando” que as queimadas são mentira (ignorando todos os outros relatos, as imagens de satélite e os demais dados coletados por cientistas) estão no mesmo nível dos vídeos provando que a terra é plana.  

O despertar da Mulher Invisível




De todos os personagens do Quarteto Fantástico, a de menor destaque sempre foi a Mulher Invisível. Seus poderes pareciam ser apenas defensivos e muitas vezes ela nem participava de fato das tramas. Alan Moore satirizou isso na minissérie 1963. Uma das revistas era uma paródia do Quarteto e a personagem equivalente à Mulher Invisível em determinado momento varria a sala enquanto os meninos liam e respondiam as cartas. E uma das cartas pedia sua saída do grupo: “ela não bate em ninguém e ninguém pode bater nela”.
Essa situação mudou radicamelmente na ótima fase de John Byrne no título (talvez a melhor depois da saída de Lee e Kirby do quarteto). Na história o Barão Ódio, com a ajuda do Homem-psíquico, incendeia Nova York estimulando o ódio entre a população.
A trama por si já seria relevante nos dias atuais, em que discursos de ódio se disseminam facilmente pela internet. Byrne reflete sobre como o ódio ao diferente parece estar sempre encomberto por uma fina camada de gelo, que pode ser facilmente quebrada. Assim, mutantes, judeus, qualquer um que seja diferente passa a ser caçado pela população.
E, em meio a isso, o Barão consegue dominar Sue Storm, transformando-a em Malícia, uma perigosa vilã e é quando seu poder é totalmente explorado. É como se a doce garota invisível fosse incapaz de perceber a extensão total de seus poderes – capazes de derrotar até mesmo a Mulher Hulk.

O desenho de Byrne, com arte-final de Jerry Ordway e Al Gordon se encaixa perfeitamente no título, seguindo a melhor tradição de Jack Kirby e atualizando-o para a década de 1980: perfeitos nas cenas de ação ou de ficção-científica, com exemplar equilíbrio entre quadros repletos de cenários e quadros minimalistas.
O problema é no roteiro. Byrne aborda aspectos importantes da personagem, como no momento em que o Homem-psíquico explora os medos da Mulher Invisível, mas não os aprofunda.
 Além disso, em determinado ponto os heróis vão atrás do Homem-psíquico e simplesmente esquecem o Barão Ódio, que foi quem de fato manipulou Sue, tirando dela seu pior lado. Byrne esquece do personagem. Além disso, em uma sequência vemos Nova York destruída e sendo literalmente incendiada pelo ódio e na sequência seguinte tudo pareceu resolvido.
Apesar desses problemas, é uma boa história do Quarteto e merece estar em qualquer coleção. 
No Brasil essas histórias saíram nos formatinhos do Abril e recentemente na coleção Os heróis mais poderosos da Marvel, da Salvat.  

As subversivas mensagens ocultas no clássico filme 'O Mágico de Oz'

Em dezembro de 1937, a Walt Disney Productions lançou seu primeiro desenho animado, Branca de Neve e os Sete Anões, que se tornou o maior sucesso do cinema americano de 1938.
Isso não apenas encorajou a empresa a fazer outros desenhos baseados em contos de fadas nas décadas seguintes, como levou outro estúdio, o Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), a criar seu próprio longa musical sobre uma garota órfã e uma bruxa malvada: O Mágico de Oz.
Apesar das semelhanças com o filme da Disney, a produção da MGM é mais um anti-conto de fadas do que um conto de fadas propriamente dito. Leia mais

domingo, agosto 25, 2019

Era uma vez em Hollywood


Quentin Tarantino é um sacana. Exemplo disso, é seu novo lançamento, “Era uma vez em Hollywood”, um filme feito como uma forma de vingança cinematográfica contra Charles Mason e sua gangue, que, em 1969, assassinaram a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, esposa do diretor Roman Polanski.
O filme é centrado no vizinho de Tate, um ator decadente de seriado de faroeste, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt). Dalton vê o cinema convencional ser eclipsado pelo cinema de contracultura, representado por diretores como Polanski, e a produção de wertern se deslocar dos EUA para a Itália. E, em meio a isso, as tensas cenas com a gangue de Mason, como a visita de Booth ao rancho Spahn, uma fazenda que tinha sido cenário de filmes de faroeste e que na época era dominada pela gangue.
O filme é assim, uma descrição do cenário cinematográfico do final da década de 1960, uma vigança pessoal do diretor, uma homenagem à atriz Sharon Tate. E é óbvio que Tarantino faz de tudo isso uma grande diversão e prazer, a começar pelas várias sequências centradas nos pés das atrizes.
Além disso, o diretor aproveita os flash backs de Dalton e Booth para fazer paródias de filmes e até de comerciais (não percam a cena pós-crédito, com os bastidores da filmagem de uma propaganda de cigarro).
A cena da filmagem do piloto de um faroeste no qual DiCaprio faz o papel de vilão é um dos grandes momentos do filme e uma grande demonstração de como Tarantino consegue tirar o melhor dos atores. Destaque para a atriz mirim Julia Butters, em uma química perfeita com DiCaprio.  
Como é comum em outras obras de Tarantino, Era uma vez em Hollywood é repleto de citações a filmes e seriados reais, a começar pelo próprio título, que faz referência direta à mais famosa película de Sérgio Leoni, Era uma vez no oeste.
A estrutura de flash backs, que tomam metade do tempo do filme, torna o roteiro meio desconjuntado. Mas se você se propor a se divertir tanto quanto o diretor, dificilmente isso será um incômodo.

Batman - morte em família


Em 1989 os quadrinhos de super-heróis estavam passando por uma grande transformação, em especial as histórias do Batman.
Obras como  Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal haviam elevado o personagem a nível de dramaticidade poucas vezes alcançado. Além disso, o vilão Coringa, que antes era pouco mais que um palhaço, tornara-se um assassino serial.
Esse novo Batman parecia não combinar com um parceiro mirim. Além disso, os leitores pareciam não ter muita empatia pelo  novo Robin, Jason Todd. Aliás, a ideia da morte do Robin já havia sido explorada por Frank Miller em cavaleiro das Trevas. Mas, temerosa da repercussão, a DC resolveu consultar os leitores através de um número de telefone. Se o número de ligações pedindo a morte do personagem fosse maior que os dos que queriam que ele se salvasse, Todd morreria. E foi o que aconteceu (descobriu-se depois que o processo foi fraudado por um homem que programou seu telefone para fazer centenas de ligações pedindo a morte de Robin).
A saga ficou sob a batuta de Jim Starlin, responsável pelos roteiros e Jim Amparo, nos desenhos. Amparo é um desenhista competente, mas nem de longe genial - nem se compara, por exemplo, com Neal Adams, só para ficarmos em outro artista cujo nome é associado ao Batman. Assim, a força da HQ fica toda no roteiro de Starlin.
Na história, Jason Todd descobre que a mulher que ele acreditava ser sua mãe era na verdade sua madastra e vai em busca de sua mãe verdadeira. Em paralelo, o Coringa, após fugir da cadeia, descobre que está sem dinheiro e resolve vender um míssel nuclear para angariar fundos.  
Morte em família sofre de alguns roteirismos, como a coincidência de as supostas mães de Robin estarem sempre em locais nos quais está também o Coringa. Mas a força do texto é tanta, em especial na humanização dos personagem, que nos esquecemos disso. O texto seduz o leitor fazendo com que a narrativa se desenvolva de forma fluente. E o ponto alto, claro, é a morte de Robin nas mãos do Coringa. A sequência é crua, sinal dos novos tempos, e, ao mesmo tempo, pungente.Ali morria não só o Batman, mas também o antigo Coringa, que nos velhos tempos prenderia o menino-prodígio em alguma engenhoca e contaria seus planos enquanto o herói mirim fugia. Em seu lugar surge um Coringa psicopata, assassino, frio.
Essa história foi reunida em álbum capa dura na coleção de Graphics DC da Englemoss e é um dos itens obrigatórios dessa coleção.

Dr. Estranho - Em um mundo enlouquecido




No segundo número da revista Superaventuras Marvel foi publicada uma das melhores história do Doutor Estranho. Apresentada originalmente na revista Marvel Premiere 3, a HQ “Em um mundo enlouquecido” contava com uma dupla de peso na criação: Barry Windsor-Smith (argumento e desenhos) e
Stan Lee (roteiro).
Na história, o mestre das artes místicas está caminhando por Nova York quando quase é atropelado por um caminhão. A partir desse ponto começam a ocorrer coisas estranhas, surreais, que testam a sanidade do personagem.

É uma história que explora muito bem as melhores características do personagem: o Dr. Estranho é um ponto fora da curva dos heróis Marvel que se notabilizam principalmente pela pancadaria. Aqui quase não há conflito, além do conflito interno do personagem, que tenta a todo custo dar algum sentido ao que está ocorrendo. É um conto intimista e psicológico, característica destacada ainda mais pela arte de Barry Windsor-Smith, que, aliás, se sai muito bem nas sequências surreais.
O texto de Lee, por outro lado, mantém a atenção do leitor mesmo sem muita ação, ao lidar com o senso de desconhecido e o suspense sobre o que realmente está acontecendo.
É uma pena que a dupla não tenha sido responsável por toda uma saga do personagem. Seria épico.

II Aspas Norte


Inscrições para apresentação de trabalho até o dia 09 de setembro através do endereço: https://aspasnorte.wordpress.com/inscricoes/

Zona do crepúsculo - a série da dupla Gian-Bené


Quando comecei a parceria com Bené, essa série já estava sendo publicada na revista Calafrio. Bené tinha publicado uma primeira história, sobre um ladrão que entra num antiquário e acaba se dando muito mal. Ele denominou essa HQ simples de Zona do Crepúsculo em homenagem ao título original do seriado Além da imaginação.
Depois percebeu que havia ali potencial para uma série. Então veio Sonhos de outono.
E Belzebu, nossa primeira juntos nessa série. Lembro que Bené chegou um dia comentando que havia descoberto que Belzebu significava demônio das moscas e achava que isso podia ser aproveitado numa HQ. O resultado foi uma história totalmente não-linear, cheia de flash backs e com um forte conteúdo social. No fundo, o demônio não seria o preconceito? Gostamos tanto do resultado que passamos a usar narrativas não-lineares em quase todas as histórias que fizemos juntos depois disso.
Então o Rodolfo Zalla pediu uma última história para fechar a série, uma história que juntasse as outras.
Mas como? Não parecia haver nada em comum entre elas. Quebramos a cabeça durante muito tempo até perceber que, sim, havia algo em comum: o dono da loja de antiguidades! Assim focamos o último capítulo nele, inclusive com referências às outras.
O leitor mais atento vai perceber uma influência óbvia: A piada mortal. Sim, o demônio da história é nossa versão do Coringa.
Uma curiosidade nessa história é que Bené inverteu o processo. Ou seja: ao invés de desenhar em preto sobre papel branco, ele desenhou em branco sobre papel preto, uma técnica que poucos dominam.
Zalla estava gostando tanto da Zona do Crepúsculo que nos pediu uma capa. Nossa história ia ser o grande destaque da revista! De novo, tínhamos um desafio: como fazer essa página sem revelar o conteúdo a HQ e dentro do espírito da série? A forma como solucionamos isso mostra como já estávamos afinados à essa altura do campeonato. Passamos longos minutos em silêncio, matutando, e, de repente, os dois soltaram:
- Tive uma ideia!
E era a mesma ideia: o dono do antiquário abrindo a porta, com olhar assustado, a imagem vista como se o leitor fosse quem estivesse do outro lado da porta.
Não adiantou muito. Logo depois a revista acabou e tanto a capa quanto a última parte acabaram não sendo publicados na Calafrio (a série só saiu completa na Calafrio mais de 20 anos depois, na nova versão de revista).

sábado, agosto 24, 2019

O código Bro

Barney Stinson é aquele personagem que você odeia em um primeiro momento e depois assiste a série principalmente por causa dele. Convencido, mulherengo, arrogante, mas leal (exceto quando há mulheres em jogo), ele se tornou o personagem mais popular da série How I met your mother. 
Barney segue um código de ética próprio, segundo ele criado há séculos: o código Bro, constantemente citado na série. A editora Intríseca lançou o tal código na forma de livro, na qual podemos conferir a sabedoria de Barney Stinson (com textos de Matt Kuhn). Algumas pérolas:
Os bros antes das minas.
Um bro sempre tem direito de fazer coisas idiotas, desde que seus bros também estejam fazendo.
Um bro jamais admite não saber dirigir um carro com câmbio manual. Nem depois de um acidente.
Um bro larga tudo que estiver fazendo para ajudar seu bro a terminar com uma garota.
Um bro não deve dormir com a irmã de outro. Porém, um bro não deve ficar chateado com o outro se ele disser: "Cara, sua irmã é muito gostosa!".
Dois bros não devem se olhar nos olhos durante um ménage do diabo com uma garota.

Alceu Penna e as garotas do Brasil



O escritor Gonçalo Júnior tem se destacado como o grande cronista da história da imprensa nacional. Seu livro A guerra dos gibis (Companhia das Letras, 2004) tornou-se ponto de referência fundamental para qualquer um que queira entender a formação editorial brasileira. Esse resgate tem continuado em outras como O Homem Abril (Opera Graphica, 2005), Maria Erótica e o clamor do Sexo (Kalako, 2010) e agora em Alceu Penna e as garotas do Brasil, lançado recentemente pela editora Amarilys.
O autor tem contado a história das publicações e editoras através de um ou mais de seus protagonistas. No livro em questão, o foco da narrativa é o desenhista Alceu Penna, autor de uma das mais importantes e influentes colunas da revista O Cruzeiro.
Hoje é difícil imaginar que uma publicação impressa tivesse tanto impacto na sociedade como foi o caso da Cruzeiro. A revista tinha uma tiragem média de 500 mil exemplares semanais na década de 1950. Segundo Gonçalo Júnior, o impacto era equivalente ao que temos hoje em programas como o Fantástico: “Aparecer em suas páginas – de modo positivo ou negativo – portanto, implicava notoriedade instantânea”.
Numa época em que a televisão ainda estava engatinhando no Brasil, a revista influenciava o jeito de pensar, agir e até de se vestir da população brasileira e nesse ponto, o impacto da produção de Alceu em sua coluna As garotas do Brasil foi enorme: “Alceu Penna foi o criador da garota-padrão do Rio, do ideal de beleza que correria o mundo muito antes de Tom Jobim e Vinícius de Moraes comporem  ‘Garota de Ipanema’”.
Essas garotas prenunciaram, pregaram e difundiram, no período de 1938 a 1964, as tendências de liberdade, independência e emancipação da mulher ocidental. A brasileira só conseguiria o direito de trabalhar fora sem autorização do pai ou do marido em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, mas muito antes disso, já eram independente na coluna de Alceu. Eram mulheres chiques, elegantes, sedentas de aventura e liberdade. Segundo Gonçalo, o desenhista fez de sua coluna um panfleto de emancipação feminina, com sugestões de como explorar todas as formas possíveis de liberdade num país de tradição machista.
O livro foi escrito graças à ajuda de Tereza Penna, irmã do artista, que franqueou ao autor toda uma muito bem organizada biblioteca inclusive com desenhos inéditos – um dos pontos interessantes do livro é justamente a comparação entre os desenhos iniciais, mais desinibidos e a versão mais comportada exigida por editores e proprietários de empresas que encomendavam os trabalhos.
A sensualidade, aliás, já era destacada por Alceu desde o colégio, quando o garoto comportado fazia desenhos eróticos que eram muito admirados pelos colegas. Conta-se que uma vez um amigo o advertiu que ele seria expulso se o padre que estava lecionando naquele momento visse o desenho que ele fazia. “Relaxa”, respondeu Alceu “Quando ele chegar aqui a garota já estará vestida”.
Apesar desse início libidinoso, Alceu nunca levou seu traço para a pornografia. O erotismo de suas mulheres era elegante e refinado, o que foi, em grande parte, causa do seu grande sucesso na sociedade carioca da primeira metade do século XX. E, provavelmente, foi o que fez com que ele conseguisse um lugar de destaque numa das principais revistas da época, O Cruzeiro.
A revista surgira com a proposta de ser grandiosa e de revolucionar o mercado editorial brasileiro. A campanha de lançamento tinha o objetivo de mostrar essa grandiosidade. Em pleno calor de dezembro o dono da publicação, o empresário Assis Chateaubriand inventou de dar um efeito visual de que estava nevando. Foram jogados do alto dos prédios quatro milhões de folhetos. Os motoristas buzinavam, como se fosse carnaval, e a maioria das pessoas se abaixou para ver o que dizia o papel impresso. Todos eles traziam a mesma mensagem: “Compre amanhã O Cruzeiro, em todos os jornaleiros, a revista contemporânea dos arranha-céus”.
O primeiro número era chique, com o close de uma linda mulher fazendo biquinho com olhar sensual. Era impressa em quatro cores sob fundo prata com o título em vermelho ao lado do cruzeiro do sul em branco.
Impressionou num primeiro momento, mas foi perdendo leitores e já estava para fechar as portas quando Alceu Penna compareceu à redação com seus desenhos. Na época, a revista passava pela primeira reformulação, realizada pelo jornalista Accioly Netto e o mesmo que se encantou com o desenho de Alceu e o contratou.
Ao assumir a revista, Accioly descobriu que a administração era amadora e ineficiente, a redação era um caos: não havia dinheiro para fazer a revista, nem anunciantes. A maioria dos colaboradores nem entregavam mais seus trabalhos em decorrência dos atrasos nos pagamentos.
Accioly abriu a página da revista para reportagens e coberturas de eventos como o carnaval e desfiles, onde eram conseguidas fotos a baixo custo – na maioria das vezes de graça – que embelezavam as páginas da revista. Havia até uma coluna de um suposto correspondente em Hollywood, que na verdade era escrita por Accioly que usava fotos e informações fornecidas pelas distribuidoras interessadas em promover seus filmes.
Um dos grandes sucessos da renovação foi o destaque dado à moda e ao universo feminino. Sabedor de que boa parte do público leitor era composto por mulheres, Accioly investiu em colunas para elas – a mais famosa dela seria “As garotas do Brasil”, assinada por Alceu Penna, que daria o tom da moda usada por mulheres no Brasil em pelo menos duas décadas, a ponto das garotas recortarem páginas da revista e levarem para costureiras copiarem os modelos.
A trajetória dos dois, revista e artista é acompanhada passo a passo por Gonçalo, até mesmo nos seus momentos mais embaraçosos, como na relação conflituosa de Alceu com inescrupuloso repórter David Nasser.
Com seu texto fluído, Gonçalo Júnior consegue prender a atenção do leitor para a história de um desenhista injustamente esquecido pelos leitores atuais.
De negativo mesmo, só o formato o livro. Vertical, ele dificulta o manuseio, o armazenamento e ainda dá pouco destaque para algumas das obras de Alceu impressas no livro, em especial os quadrinhos, que precisam de uma lupa para serem lidos.

Raul Seixas - A mosca HQ Vídeo clipe original

A arte Steve Ditko, o gênio dos quadrinhos

Ditko foi um dos gênios que transformaram a Marvel na maior editora de quadrinhos dos Estados Unidos. Ele começou a fazer quadrinhos no final da era de ouro e fez uma infinidade de histórias de terror para a Atlas (nome da Marvel na época).
Quando criou o Homem-aranha, Stan Lee chamou o desenhista para o título. Originalmente o personagem seria desenhado por Jack Kirby, mas a troca foi mais que acertada: o Peter Parker franzino e inseguro de Ditko foi um das razões pelas quais o título se tornou um campeão de vendas.
Ditko também criou o Dr. Estranho, maravilhando os leitores com as cenas psicodélicas de realidades paralelas. A marca de Ditko no personagem foi tão grande que ele só voltaria a ter uma fase equivalente na década de 1970, mas mãos de Steve Eglehart e Frank Brunner. Para a Charlton Ditko criou uma galeria de personagens que depois dariam origem aos "heróis" de Watchmen. Aliás, não só o Rorschach é baseado no personagem Questão, criado por Ditko como visualmente lembra muito o Mestre do Crime, um vilão criado por Ditko para o Homem-aranha.
Nada melhor para homenagear esse gênio do que apreciarmos sua arte.


















sexta-feira, agosto 23, 2019

Heróis da TV 43


A edição 43 da revista Heróis da TV troux como principal atração uma história de Conan publicada na revista What if (aqui traduzida como O que aconteceria se...) em 1979. Na história, Conan surge na Nova York da década de 1970 em pleno apagão. O desenho de John Buscema como arte final de Ernie Chan dispensa apresentações. O visual rico da história enche os olhos do leitor desde a capa. O desafio ficou mesmo por conta do roteirista Roy Thomas: como trazer o cimério para nossos dias e manter a verossimilhança da história? Afinal, Conan é um personagem de fantasia capa e espada. Como adequar isso a um ambiente urbano contemporâneo. Thomas resolve isso através de um truque esperto: Conan veio para nosso tempo através de magia.
A HQ é tão repleta de ação que o leitor facilmente esquece a descrença e embarca na história, apesar de algumas incoerências (Conan se apaixona por uma taxista e parece cavaleiro demais - em determinado o texto diz que ele está esganando um homem com a mão direita, quando o desenho o mostra fazendo isso com a mão esquerda, que havia levado um tiro).
No final, é, acima de tudo uma história divertida. Destaque para o humor de Roy Thomas, que brinca o tempo todo com o fato de que os personagens não falam a mesma língua, o que provoca diversos equívocos. Deixo aqui também a capa original.

Supermoça, de Peter David e Gary Frank




Em 1996 a DC Comics resolveu lançar uma nova revista da Supermoça sob a batuta de Peter David (roteiro) e Gary Frank (desenhos). Frank já despontava como um desenhista de talento e David, embora nunca tenha sido um roteirista genial, sempre foi um artesão talentoso, alguém que conseguia fazer manter um título em um nível alto de qualidade.
No Brasil parte dessas histórias foram publicadas na revista Superboy, da editora Abril.
A comparação com as demais histórias do mix mostra o quanto esse trabalho estava acima da média na época. As HQs da Supergirl são muito superiores, por exemplo, às do próprio Superboy.  
Um problema: nesse período todas as editoras precisavam ter diversos crossovereres (inclusive alguns que envolviam apenas determinado núcleo de heróis) e as revista eram sempre conectadas. Dessa forma, para o leitor de hoje, ou mesmo o leitor da época que não acompanhava tudo da DC, muita coisa parece não fazer sentido. Mesmo assim, Peter David consegue estruturar uma saga coerente, com início, meio e fim.
Na história, a Supermoça vai salvar uma moça vítima de um sacrifício em um ritual demoníaco e seu corpo se funde com o dela. A história começa com a personagem sem se lembrar de nada do que aconteceu e flash backs aleatórios vão mostrando um pouco do passado das duas.
Ao mesmo tempo, a supermoça se vê vivendo a vida de Linda e seus dramas.  Enquanto isso, uma seita parece estar tramando algo que envolve as personagens.  
Um dos melhores capítulos é quando a mãe de Linda (a garota com a qual a Supergirl se fundiu) convida para um encontro às escuras exatamente o líder da seita demoníaca. Um simples jantar, mas repleto de suspense e frases com dupla interpetação.
Se o roteiro de Peter David estava acima da média da revista, o desenho de Gary Frank estava ano luz do restante. Em uma época de desenhos exagerados, ele conseguia ser anatômico e ao mesmo tempo expressivo. E conseguia caracterizar perfeitamente tanto a Supergirl quanto Linda - não só na cor do cabelo, mas também no físico e na expressão corporal. Além disso, ele se saía bem tanto em monumentais cenas de ação quanto em momentos íntimos, como uma discussão na mesa de jantar.
Infelizmente, a revista do superboy acabou no número 28 e foi publicado apenas o primeiro arco da personagem.

Julliette society



Sasha Grey era uma garota meio nerd que queria ser atriz pornô, apesar de não se encaixar no gênero gostosona. Conseguiu, depois aposentou-se e tornou-se atriz e escritora.
Juliette Society é seu primeiro livro e mostra que existe sim, vida inteligente no mundo pornô.
O livro é bem escrito, com uma prosa leve, mas nem de longe pobre.
O Julliete Society do título é uma organização secreta da qual participam os homens que mandam no mundo.
O nome é uma referência a um dos romances mais famosos do Marquês de Sade, Justine. Julliete é a irmã devassa da pudica Justine. Na obra de Sade, enquanto Justine é castigada pelo destino, sua inocência sendo constantemente punida, Julliete é brindada com o sucesso quanto menos inocente e mais sexualizada se mostra.
O capítulo que explica o título mostra bem que se trata de um livro diferente da maioria dos eróticos. Sasha Grey (cujo pseudônimo é uma homenagem ao romance O retrato de Dorian Gray) discorre sobre história, filosofia, literatura. E cinema. A protagonista é uma estudante de cinema, o que leva a diversas citações e referências a obras famosas da sétima arte, como A bela da tarde, de Buñuel.
Na verdade, o livro funciona pouco do ponto de vista do erotismo. É mais um triller usando como fundo o conhecimento da autora sobre o meio pornô recheado de filosofia, cinema e literatura.
A parte menos interessante é o final, mal-amarrado, em que o livro, que até então ia em pleno realismo, flerta com o fantástico.
Ainda assim, vale a leitura.

quinta-feira, agosto 22, 2019

Vereadores de Curitiba do Escola sem partido denunciam projeto que usa quadrinhos em escola

Vereadores de Curitiba, ligados às igrejas evangélicas e capitaneados pelo vereador Thiago Ferro se revoltaram e acionaram o projeto Escola sem partido contra uma escola da cidade que fazia um movimento a favor da aceitação de crianças com deficiência. O projeto tinha imagens autorizadas por Maurício de Sousa. Entre outras atividades, as crianças cantariam a seguinte letra: 

Negro, branco, pardo ou amarelo
Alto, baixo, gordo ou magricelo
Moreno, loiro, careca ou cabeludo
Deficiente, cego, surdo ou mudo (…)
A gente é o que é
A gente é demais
A lista é imensa
Viva a diferença! 

Os vereadores denunciaram o caso à secretaria de educação de Curitiba. 
Para além do discurso contra a diversidade e aceitação das diferenças, o caso eco o preconceito contra os quadrinhos. O vereador Thiago Ferro teria tido tal reação se o projeto não envolvesse quadrinhos? 
Estaríamos diante de uma nova cruzada contra os quadrinhos como a que se viu nas décadas de 1950 e 1960 - época em que a leitura de quadrinhos era caso de polícia? 
Matéria do Diário do Paraná de 30 de junho de 1960. Estaríamos vivendo uma nova cruzada contra os quadrinhos? 

Margem Negra: o terror pesado demais para ser publicado

Quando eu e o compadre Bené Nascimento começamos a enviar nossas HQs para publicação, os editores de revistas como Calafrio e Mephisto gostavam, mas pensavam três vezes antes de publicar.
Eram histórias pesadas demais, viscerais demais, até mesmo para uma revista de terror. O compadre caprichava no sangue e nas vísceras e eu caprichava nos detalhes psicológicos. Traumas,  necrofilia, personagens perturbados, loucos, tudo se juntava em nossas HQs. A frase que mais ouvi de fãs da dupla foi: "Eu passei noites sem dormir por causa de vocês!".
E, quem diria, 30 anos depois, nossas HQs continuam sendo perturbadoras. Recentemente uma editora se interessou em publicar dois álbuns com a seleção completa. Chegaram a colocar na divulgação de lançamentos e da noite de autógrafos. Mas quando eu enviei as HQs, o editor as leu, simplesmente desistiu.
Mas, como acontecia com um chevete que tive, quando se fechar uma porta, abre-se um porta-malas. Uma outra editora se interessou em publicar esse material. Em breve, poderemos provocar insônia em uma nova geração de leitores!

A árvore do conhecimento



No auge da parceria Gian-Bené era muito comum que o Bené fosse em casa para discutirmos histórias. Estávamos o tempo todo conversando sobre quadrinhos. Mas havia um problema: meu quarto era muito pequeno e o Bené, com seus quase dois metros, simplesmente não cabia.
Assim, normalmente ficávamos conversando embaixo de uma árvore, na frente da casa da vizinha. No calor de Belém, a árvore parecia nos dar algum tipo de inspiração, pois foi ali que criamos nossas principais histórias.
Bené lembrava de uma lanchonete em Nova York, onde Stan Lee e Jack Kirby costumavam discutir suas geniais HQs e costumava dizer:
- Um dia vão colocar uma placa nessa árvore: “Aqui Gian Danton e Bené Nascimento criaram suas principais histórias”.
Pouco tempo depois cortaram a árvore. Não sobrou sequer uma fotografia. Ela nunca teve uma placa com esses dizeres. Podíamos não ser Jack Kirby e Stan Lee, mas Belém certamente também não era Nova York.

Capitão César: o soldado da fortuna



Embora Dick Tracy, Buck Rogers e Tarzan sejam considerados os inciadores dos quadrinhos de aventura, eles tiveram um antecedente nobre. Trata-se de uma tira de humor, que, com o tempo, transformou-se em uma HQ de aventura: o Capitão César, de Roy Crane.
Crane nasceu em 1901, no Texas. Aos 14 anos fez um curso de desenho por correspondência com Charles Landon. Quando terminou o ginásio, foi para a Chicago Academy of Fine Arts, onde conheceu o amigo Leslie Turner. Desgostosos com a monotomia acadêmica, os dois resolveram voltar para casa, pegando carona nos trens de carga. Essa aventura depois renderia argumentos para algumas de suas histórias.
Ele trabalhou então como repórter e depois embarcou num cargueiro para a Europa. De volta à América, resolveu criar uma tira de quadrinhos cômicos chamada Washington Tubbs (depois abreviado para Wash Tubbs), mas seu humor caipira não agradava aos editores, que o aconselharam a procurar o sindicate Newspaper Enterprise Association. Por sorte, o diretor desse sindicate era justamente o dono do curso que Crane fizera na adolescência, o que lhe valeu um contrato.
A primeira tira é publicada em 21 de abril de 1924. O protagonista era um indivíduo baixinho e de óculos, lembrando vagamente o comediante Harold Lloyd. As primeira sequências são de humor rápido com Wash trabalhando em uma mercearia e namorando a filha do patrão, mas logo Crane colocou seu herói dentro de um navio em direção aos mares do sul à procura de um tesouro.
O enfoque passa a ser, então, a aventura. Em uma de suas peripécias, o personagem resgata numa masmorra um prisioneiro, capitão Easy. Ele se alia ao protagonista e os dois começam a viver grandes aventuras juntos. Crane vai abandonando aos poucos não só o tom humorístico, mas também o traço caricato. Seu desenho vai ganhando um incrível tom realista, em especial pelo uso papel craftint, que permite ao autor criar texturas que ressaltam o desenho. Ninguém jamais usou essa técnica de forma tão primorosa quanto Roy Crane.
Por fim, o autor resolve se livrar o personagem humorístico, que se casa, e a tira passa a se chamar simplesmente Capitão Easy (Capitão César, no Brasil). O grande momento do personagem é durante a II Guerra Mundial. O Capitão recebe a missão de descer de paraquedas na França ocupada e resgatar um cientista preso em um campo de concentração nazista. Há alguns aspectos irreais, como o fato do alto comando Aliado escolher alguém que não fala francês para a tarefa, mas as situações de suspense e ação compensam. César entra no campo, se faz passar por prisioneiro e, finalmente, liberta o cientista, levando-o para a Inglaterra. Mas antes disso ele corre sério risco de ser descoberto pelos alemães e só a imaginação de Crane consegue livrá-lo desse sério risco.
Por ter começado como tira de humor, Wash Tubbs não é considerada a primeira HQ americana de aventura, mas sem dúvida foi a primeira que usou corretamente o gênero e foi uma das que melhor o exploraram.
Posteriormente Roy Crane foi para a King Features Syndicate, para a qual criou Jim Gordon, um aviador durante a guerra que depois se transforma em agente secreto norte-americano no período da guerra-fria. Apesar do exagerado tom ideológico, essa tira conseguiu manter o mesmo nível de qualidade de Capitão César, com os desenhos de Crane melhorando a cada ano. 
Pela qualidade da sua obra, Crane recebeu o prêmio Reuben em 1959 e, em 1974, o Yellow Kid no Salone Internazionale dei Comics em Lucca, Itália.