Pacto Sinistro é filme noir tardio de Alfred Hitchock com roteiro de Raymond Chandler, o mestre da literatura noir. Na história, um tenista, Guy Haines , conhece num trem um rapaz, Bruno Anthony, que lhe fala de sua teoria a respeito dos crimes trocados. Bruno gostaria de matar o pai e supõe que Haines gostar que sua esposa fosse morta, já que ela lhe traiu e se recusa a dar o divórcio. Para Bruno, se um cometesse o crime do outro, jamais seriam descobertos. Haines toma a proposta como uma piada, e se espanta ao descobrir que a esposa foi morta. Começa um jogo de gato e rato de Bruno tentando convencer o tenista a matar seu pai. Ao mesmo tempo, Haines tenta impedir que o Bruno o incrimine pela morte da esposa.
O filme é um ótimo exemplo do que Hitchock faz melhor: suspense, em especial com o uso genial das narrativas paralelas. A corda fica tensa durante toda a última metade do filme, com a história saltando de Haines para Bruno a cada minuto. Até mesmo quando os dois se encontram, o diretor consegue criar uma terceira linha narrativa, aumentando ainda mais o suspense.
Além do uso criativo das narrativas paralelas como elemento de suspense, o filme também se destaca pela ótima direção de atores. Um único olhar do personagem é capaz de transmitir todo o significado de uma cena.
sexta-feira, fevereiro 28, 2020
Roteiro de quadrinhos: os ganchos
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| Em A queda de Murdock, o gancho é o fato de Karen Page vender a identidade do Demolidor. |
Para o profano o termo pode parecer engraçado, mas quem está acostumado a mexer com quadrinhos provavelmente conhece a palavra gancho O gancho é algo que puxa a história. Na citada A Queda de Matt Murdock, o gancho é o fato de Karen Page vender a identidade do Demolidor. É isso que vai dar origem à trama.
Nesses mais de 100 anos de quadrinhos, o gancho assumiu muitas formas. Nas tiras de aventura, por exemplo, o último quadrinho era sempre uma situação de suspense que proporcionava o gancho para a tira seguinte. Por exemplo, no começo de uma nova aventura, Flash Gordon chega a uma floresta. Os primeiros quadrinhos são usados para ambientar o leitor. Mas no último quadrinho irá aparecer uma criatura, que irá atacar Flash. Conseguirá o nosso heróis se livrar das terríveis garras do Monstro da Floresta Tempestuosa? Essa situação será o gancho que irá puxar a história seguinte.
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| Na tira de aventura o roteirista deve resolver o gancho e criar outro gancho. |
A vida de um roteirista de tiras de aventura não deve ser nada fácil. Em 3 quadrinhos (no máximo 5) ele deve fazer três coisas: 1 recapitular o gancho da tira anterior (Flash está sendo atacado pelo monstro da Floresta Tempestuosa); 2 solucionar o gancho (Flash pega sua arma e atira. O monstro cai no chão, entre convulsões); 3 criar um novo gancho (Enquanto isso, um grupo de caçadores observa os terráqueos. "Hum... o rei gostaria de ter esses especimes em seu zoológico", pensa o chefe dos caçadores).
O surgimento dos gibis deixou o gancho para o início e o fim das revistas. Como expliquei anteriormente, tudo que ocasiona uma história pode ser considerado um gancho. Mas com Stan Lee surgiram coisas do tipo: "Thor está preso sob os escombros e vai ser atacado pelo Monstro da Dimensão Soturna. Conseguirá ele alcançar o seu Mjorn?". E lá tínhamos motivo para mais uma revista...
Depois começaram a surgir ganchos mais refinados. A história parava no meio, em geral em plena ação, e acompanhávamos um acontecimento aparentemente sem importância, que acabava tendo grande importância mais à frente. Chris Claremont costumava fazer isso nos X-Men.
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| Neil Gaiman usou ganchos mais complexos em Sandman |
Outros autores são ainda mais refinados. Neil Gaiman é um deles. No primeiro número de Sadman vemos que o Senhor dos Sonhos ficou preso durante anos e que, enquanto isso, seus objetos de poder foram espalhados pelo mundo. Sabemos, então, que a primeira saga mostrará o Senhor dos Sonhos tentando recuperar seus objetos.
Esse tipo de gancho específico, além de ser um recurso muito interessante, é também uma delícia para o escritor. Ele serve para que tenhamos em mente os passos que vamos seguir e nos livrar de maiores preocupações, ao menos enquanto durar a saga.
Mas Gaiman trabalha com um outro tipo de gancho, esse mais complexo. São pequenos detalhes no meio da história que, depois, vão puxar outra história ou até uma saga. Assim, vemos no capítulo 4 de Sandman que o Mestre dos Sonhos encontra uma mulher no inferno e nos perguntamos quem é ela e em que situação os dois se conheceram. No mesmo número vemos Lúcifer sendo humilhado e prometendo vingança, o que vai dar origem à série Estação das Brumas. Esse tipo de gancho é complexo porque você deve ter uma boa noção do todo. Em entrevistas, Gaiman diz que planejou, desde o começo, toda a história de Sandman, do primeiro ao último número.
Quando um gancho não é resolvido, costuma-se dizer que o escritor deixou uma ponta solta. Pontas soltas são características de maus escritores.
Um último comentário sobre os ganchos é que eles são fundamentais nas histórias policiais. Eles são as pistas deixadas ao leitor. Um bom escritor implanta uma dezena de pistas na história, mas o faz tão disfarçadamente que o leitor, coitado, nem nota...
As grandes viajantes: a volta ao mundo de Nellie Bly
Por Luiza Antunes Postado em 14-08-2014 | Atualizado em 09-07-2018
” – Eu quero dar a volta ao mundo em 80 dias ou menos. Eu acho que posso vencer o recorde de Phileas Fogg. Posso tentar?
” – Eu quero dar a volta ao mundo em 80 dias ou menos. Eu acho que posso vencer o recorde de Phileas Fogg. Posso tentar?
Para minha descrença, o editor me disse que o escritório tinha tido a mesma ideia antes e a intenção era mandar um homem. Entretanto, ele me ofereceu o consolo de que iria votar pela minha ida. Então, fomos conversar com o gerente de negócios a respeito.
– É impossível que você faça isso, foi o terrível veredicto. – Em primeiro lugar você é uma mulher e precisaria de um protetor. E mesmo que fosse possível para você viajar sozinha, você teria que carregar tanta bagagem que isso atrapalharia fazer mudanças rápidas de transporte. Além do mais, você só fala inglês. Então, não faz sentido termos essa conversa, ninguém além de um homem pode fazer essa viagem!
– Muito bem, eu disse com raiva. – Mande um homem. E eu vou começar a viagem no mesmo dia para outro jornal e vou vencê-lo”.
Esse é um trecho traduzido (por mim, livremente) do livro Volta ao Mundo em Setenta e Dois Dias, de Nellie Bly. A história é verdadeira. Nellie, cujo verdadeiro nome era Elizabeth Jane Cochrane, era uma jornalista investigativa americana. Ela decidiu quebrar o recorde do personagem ficcional de Júlio Verne em 1888, quinze anos depois do livro Volta ao Mundo em Oitenta Dias ser publicado. Nenhum homem ou mulher havia conseguido até então. Ela brigou com seu jornal, The New York World – cujo dono era Joseph Pulitzer, isso mesmo, o cara do prêmio Pulitzer – e os convenceu de que era a pessoa para o trabalho. Leia mais
Como escrever quadrinhos
A capa do novo livro de Gian Danton
Olha aí a capa completa do meu novo livro. Um trabalho incrível do Chris Ciuffi. Gostaram? O projeto entra no Catarse na segunda-feira. Espero contar com seu apoio.
Supermoça, de Peter David e Gary Frank
Em 1996 a DC Comics resolveu lançar uma nova revista da Supermoça sob a batuta de Peter David (roteiro) e Gary Frank (desenhos). Frank já despontava como um desenhista de talento e David, embora nunca tenha sido um roteirista genial, sempre foi um artesão talentoso, alguém que conseguia fazer manter um título em um nível alto de qualidade.
No Brasil parte dessas histórias foram publicadas na revista Superboy, da editora Abril.
A comparação com as demais histórias do mix mostra o quanto esse trabalho estava acima da média na época. As HQs da Supergirl são muito superiores, por exemplo, às do próprio Superboy.
Um problema: nesse período todas as editoras precisavam ter diversos crossovereres (inclusive alguns que envolviam apenas determinado núcleo de heróis) e as revista eram sempre conectadas. Dessa forma, para o leitor de hoje, ou mesmo o leitor da época que não acompanhava tudo da DC, muita coisa parece não fazer sentido. Mesmo assim, Peter David consegue estruturar uma saga coerente, com início, meio e fim.
Na história, a Supermoça vai salvar uma moça vítima de um sacrifício em um ritual demoníaco e seu corpo se funde com o dela. A história começa com a personagem sem se lembrar de nada do que aconteceu e flash backs aleatórios vão mostrando um pouco do passado das duas.
Ao mesmo tempo, a supermoça se vê vivendo a vida de Linda e seus dramas. Enquanto isso, uma seita parece estar tramando algo que envolve as personagens.
Um dos melhores capítulos é quando a mãe de Linda (a garota com a qual a Supergirl se fundiu) convida para um encontro às escuras exatamente o líder da seita demoníaca. Um simples jantar, mas repleto de suspense e frases com dupla interpetação.
Se o roteiro de Peter David estava acima da média da revista, o desenho de Gary Frank estava ano luz do restante. Em uma época de desenhos exagerados, ele conseguia ser anatômico e ao mesmo tempo expressivo. E conseguia caracterizar perfeitamente tanto a Supergirl quanto Linda - não só na cor do cabelo, mas também no físico e na expressão corporal. Além disso, ele se saía bem tanto em monumentais cenas de ação quanto em momentos íntimos, como uma discussão na mesa de jantar.
Infelizmente, a revista do superboy acabou no número 28 e foi publicado apenas o primeiro arco da personagem.
quinta-feira, fevereiro 27, 2020
A maldade humana
Uma das questões mais antigas da filosofia é: o homem é bom? Existe uma bondade natural ao homem ou ele é, essencialmente mal? Durante anos acreditei que o homem era bom. Atualmente acredito que o ser humano não é intrinsicamente mau, mas a humanidade se inclina na direção da maldade.
Para explicar, preciso remeter aos comportamentos coletivos e à estrutura do cérebro. De maneira simplificada, podemos dizer que o cérebro é dividido em três partes: o complexo reptiliano, nosso cérebro mais antigo, responsável pelos instintos mais básicos do ser-humano (sobrevivência, sexo, comida). Depois dele temos o complexo límbico, um cérebro mais recente, que governa as emoções e o instinto de manada, a necessidade de pertencer a um grupo. Finalmente, temos a parte mais avançada de nosso cérebro, o neocórtex, responsável pelo pensamento lógico e pela linguagem.
Segundo a psicologia de massas, o complexo límbico está associado ao comportamento de massa, enquanto o neocórtex governaria o comportamento do público.
A maioria das pessoas não acordaria e daria um tiro no vizinho enquanto ele lhe dá bom dia. Esse é um comportamento que se espera de psicopata. Entretanto, em vários momentos da história da humanidade temos visto grupos de pessoas agindo com extrema violência, como se fosse possível transformar em psicopatas toda uma comunidade – do Estado Islâmico ao nazismo passando pelo massacre em Ruanda. Como explicar isso?
A resposta está justamente na necessidade, imposta pelo complexo límbico, de fazer parte de um grupo. Pessoas escolhem seus grupos e se entrincheiram neles. Sejam igrejas, torcidas de futebol ou ideologia política. Grupos que se organizam em torno de uma liderança. Pessoas precisam de alguém que lhes diga como pensar, como agir, como decidir o que é certo e o que é errado. Não é à toa que religiões que estimulam o livre pensar não fazem sucesso (ou com o tempo se modificam no sentido de se tornarem modelos prontos).
Apesar de crescerem, as pessoas continuam sendo crianças, que necessitam de alguém a quem seguir. Fazer parte de um grupo lhes traz conforto e segurança. O grupo dá poder ao indivíduo. Exemplo disso é garoto que é valentão quando está com sua gangue, mas absolutamente covarde quando está sozinho.
Por outro lado, quem não faz parte do grupo passa a ser visto com desconfiança, como um potencial inimigo. E, quem não faz parte de nenhum grupo, ou de grupos minoritários, parece ainda mais perigoso. Costuma-se dizer que as pessoas têm medo do diferente, mas na verdade, elas têm medo de quem não faz parte de seu grupo. A perseguição a quem não faz parte do grupo explica tanto a caça às bruxas quanto o buyilling. As bruxas eram mulheres “estranhas”, que não se encaixavam na sociedade da época. Portanto, eram uma ameaça ao grupo. O mesmo ocorre com as vítimas de buyilling nas escolas. É muito raro que sejam atormentado por alguém individualmente, a violência vem sempre de grupos que, no fundo, o consideram um inimigo.
Pode-se imaginar que esse comportamento violento com o outro seja uma exceção, mas dois episódios mostram que essa violência pode contaminar qualquer grupo.
O primeiro deles ocorreu quando um professor de uma escola secundária norte-americana em 1967, em Palo Alto, Califórnia, resolveu fazer uma experiência com seus alunos para recriar a atmosfera da Alemanha nazista. Ele os envolveu numa comunidade que dava valor à coletividade, em desfavor do indivíduo. Havia um símbolo, saudações, disciplina e um slogan: “Poder, Disciplina e Superioridade” A experiência, no entanto, acabou saindo do controle. O grupo, que começou apenas em uma turma foi se alastrando pela escola e logo seus integrantes estavam atacando quem não aderia a ele. O caso deu origem a um famoso filme “A onda”.
Outro episódio foi o experimento da prisão de Stanford, levado a efeito em 1971 em que voluntários foram divididos em dois grupos – um de prisioneiros, outro de guardas. O que começou como uma experiência normal logo saiu do controle, com os guardas humilhando, torturando e violentando os presos. Como na época vivia-se o auge da guerra do Vietnã, a maioria dos voluntários pretendia ser prisioneiros, levando os pesquisadores a escolherem no cara e coroa quem seria quem. E muitos daqueles que eram contra a guerra se viram transformados em guardas violentos e abusadores. No final, o experimento que deveria durar duas semanas durou apenas seis dias. Sabe Deus o que aconteceria se tivessem ido em frente.
Outro experimento, levado a cabo pelo por Stanley Milgran mostrava o quanto as pessoas podem ser cruéis quando obedecem a uma autoridade. Voluntários eram colocados diante de uma máquina de choques. Do outro lado supostamente havia outro voluntário, que deveria responder a algumas perguntas. Para cada resposta errada, o aluno levava um choque, que ia aumentando de gradação. Mesmo acreditando que poderiam estar matando a pessoa do outro lado, mais de 60% das pessoas continuou acionando o aparelho porque era isso que lhe era ordenado pela autoridade presente (o pesquisador). Alguns o faziam de forma constrangida, mas faziam. Poucos se recusavam a continuar torturando a pessoa do outro lado. O mesmo pode ocorrer com qualquer pessoa se o grupo á qual pertence lhe der uma ordem semelhante. O medo de não fazer parte do grupo faz com que obedeçam a um líder carismático, mesmo que a ordem seja prender, torturar ou matar alguém.
É por isso que sistemas totalitários são tão sedutores. Fazer parte de um grupo dá uma sensação de conforto. Nesse sentido, George Orwell em seu livro “1984” estava errado. O autoritarismo não é algo que é imposto às pessoas, mas algo pela qual elas anseiam, na necessidade de fazerem parte de um grupo.
A diferença entre um pai de família pacato e um carrasco nazista ou um terrorista do Estado Islâmico é uma só: alguém que lhe diga que o grupo está em perigo, alguém que aponte um inimigo do grupo. A maioria das pessoas estará disposta a perseguir, torturar e até mesmo matar outras pessoas se o líder do grupo à qual pertence assim ordenar e se alternativa for ser excluído do grupo. Os fanáticos religiosos que lincharam a filósofa Hipátia em Alexandria são um exemplo disso. Incitados por seus líderes religiosos, aqueles cristãos acreditaram que alguém que pensava diferente deles deveria ser eliminado por constituir uma ameaça, por mais irracional que isso pudesse parecer – que tipo de ameaça uma mulher poderia exercer sobre uma religião que já estava instituída e oficializada?
Outro exemplo perfeito disso temos cotidianamente nas brigas de torcidas. A maioria daquelas pessoas são absolutamente normais em seu cotidiano, mas se tornam violentas quando estão em grupo e esse grupo se encontra com o inimigo. Talvez aquelas pessoas convivessem lado a lado sem se agredirem caso se encontrassem no metrô e uma não soubesse a que grupo a outra pertencia.
Até mesmo grupos de minorias muitas vezes se deixam dominar pelo ódio ao inimigo. Assim, muitas vezes o movimento feminista se torna um movimento contra os homens, o movimento LGBT se torna um movimento contra os heterossexuais e o movimento negro se torna um movimento contra os brancos.
Da mesma forma, grupos religiosos ou recreativos podem rapidamente explodir em pura violência se forem direcionados a isso – e quanto mais comprometida com o grupo, mais radical a pessoa será e maior a chance de entrar na escalada de violência.
Por outro lado, os livres-pensadores são o público, são indivíduos que colocam o pensamento crítico e a individualidade acima do grupo. Podem até ter suas convicções, sejam religiosas, ideológicas ou de qualquer outro tipo, mas para elas pertencer ao grupo jamais é o mais importante.
Livres-pensadores costuma sofrer com a desconfiança, quando não com ataques diretos dos grupos. “Afinal, você é esquerda ou direita?” “Você precisa escolher uma religião”, são exemplos da pressão que sofrem cotidianamente. Em casos extremos, isso descamba na violência e morte, como nos casos em que regimes autoritários se instalam. Livres-pensadores são sempre os primeiros a serem perseguidos.
Essa conclusão, claro, lembra muito a ideia do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, segundo o qual o homem é bom, mas a sociedade o corrompe. Essa frase pode ser reformulada: o homem não é necessariamente bom ou mal, mas a necessidade de fazer parte de um grupo na maioria das vezes o torna mau.
Talvez um dia o ser humano evolua e livres-pensadores sejam mais comuns que pessoas que fazem de tudo para serem aceitas por um grupo. Até lá estaremos sempre caminhando na direção do holocausto.
Castração química e estupradores
Um assunto que tem entrado na pauta do dia é castração química. Muitos defendem o procedimento como forma de “tratar” estupradores e impedir que eles cometam novos crimes.
Mas será que esse procedimento realmente funcionaria?
Um exemplo que pode nos dar um indicativo nesse sentido é o do russo Andrei Chikatilo. Chickatilo sofria de disfunção erétil. Ou seja, ele era incapaz de ter uma ereção. E era também estuprador.
Em 1978 ele sequestrou uma menina de 8 anos e tentou estuprá-la. Incapaz de conseguir uma ereção, ele, em um momento de fúria, esfaqueou a menina. Foi quando percebeu que podia conseguir prazer sexual de uma maneira muito mais satisfatória: matando. Gostou tanto do prazer que sentiu ao matar a vítima que se tornou um dos maiores assassinos em série de todos os tempos, com mais de 50 assassinatos.
A falta de ereção não impediu que ele cometesse os crimes, só direcionou para uma outra forma de satisfação sexual: o assassinato.
A maioria das pessoas parte do princípio de que o estuprador estupra para satisfazer o desejo sexual (ou ao menos no sentido mais convencional de satisfação sexual). Se essa fosse a questão, ele procuraria uma prostituta. O estuprador estupra porque o que mais o excita é a humilhação e sofrimento da vítima. A penetração é apenas um meio para isso, mas nem de longe o mais importante. Se não for capaz de ter uma ereção, o psicopata irá redirecionar isso para que realmente é a fonte de seu prazer: a humilhação, sofrimento e morte da vítima.
Para estupradores só existe uma solução: manter preso.
A estética da linha reta
“Mais sem graça que a top model magrela na passarela”. (Zeca baleiro)
A revista Superinteressante certa vez fez uma matéria curiosa sob o título “como se transforma uma mulher normal e capa de revista?”. No texto são desvendados os truques de photoshop (programa de manipulação de imagens) usados nas revistas eróticas e de moda. O que mais chama atenção é o Box intitulado tirando o excesso. A modelo que ilustra a matéria era magra, mas mesmo assim foram cortadas as partes do seu corpo que tinham curvas que poderiam lembrar gordura. O braço foi tornado reto, assim como as costas e a barriga.
Até mesmo o aperto da roupa é retocado: “Ao apertar a cintura e criar uma dobra acentuada, a calcinha poder dar uma falsa impressão de gordura. Isso é corrigido com um comando que borra a textura da pele e a torna mais uniforme”.
A jovem modelo, que já era magra, ficou esquelética depois do tratamento de imagem.
Folheando revistas das década de 70 e 80, encontramos mulheres com claros sinais de gordura, mas que mesmo assim agradavam, como Magda Cotofre.
O que parece acontecer hoje é uma paranóia que estabelece que toda gordura é má e anti-estética. A vítima mais recente dessa paranóia foi a modelo Ana Carolina Reston Macan, que morreu recentemente de bulimia. No final de sua vida, ela pesava 40 quilos, para um corpo de 1,74 m. O caso revelou outros, de modelos que se alimentam de apenas de apenas um copo de leite ou um xícara de chá por dia.
Uma das explicações para essa obsessão por magresa veio de um costureiro inglês. Ele disse que, na hora dos desfiles, é mais fácil diminuir a roupa do que alargá-la, de modo que uma modelo magra tem mais chance de caber na peça.
É toda uma ditadura provocada apenas por uma conveniência técnica, mas que não tem qualquer fundamento estético ou de saúde. Pior, é um padrão que não se adapta aos biotipo nacional, já que as brasileiras na maioria têm muitas curvas, as chamadas cinturas de violão. As norte-americanas magras é que são retas como uma tábua.
As brasileiras insistem em imitar um padrão que não é o seu. Um fenômeno, aliás, corroborado pela mídia e pela indústria. Novelas cada vez mais apresentam atrizes magérrimas. A boneca Barbie já foi acusada de provocar anorexia em meninas (aliás, cientistas dizem que se a boneca fosse uma mulher de verdade, ela não teria estrutura nem mesmo para ficar em pé) e dia desses estava observando desenhos animados mais recentes e percebendo como as mulheres estão cada vez mais magras (vejam a mulher maravilha da nova Liga da Justiça).
Monteiro Lobato dizia que mulher que não tem onde se lhe pegue vira coitadinha, e concordo plenamente. A ditadura da magresa está fazendo com que as mulheres percam sua graça.
Os gregos foram os mestres na anatomia e suas estatuas são exemplos de beleza. Observar suas estatátuas da deusa Afrodite (chamada de Vênus pelos romanos) é identificar como os gregos viam o máximo da beleza feminina: mulheres com ancas largas, deslumbrantes em suas curvas. Era a beleza de uma mulher saudável. Hoje é a beleza do Photoshop, que retira das mulheres todo e qualquer sinal de gordura, e transforma as curvas em insossas linhas retas.
Tocha Humana original
No início da década de 1990 o Tocha Humana original foi resgatado pelos roteiristas da Marvel e passou a fazer parte dos Vingadores da Costa Oeste. Isso reascendeu o interesse pelo personagem, o que levou a editora a lançar uma minissérie em quatro capítulos com o herói. Para escrever o roteiro foi chamado o veterano Roy Thomas e para desenhar, Rich Buckler, que na década de 1970 ficou famoso com o personagem Deathlock.
Com uma equipe dessas era difícil fazer algo ruim. Mas fizeram.
Resgatar histórias de personagens clássicos funcionou muito bem na série A era de ouro, em que James Robinson revisita os principais personagens da era clássica da DC em uma bela homenagem.
Alan Moore fez um pastiche da Marvel na minissérie 1963, imitando até a cor reticulada e o papel vagabundo usados na década de 60.
Mas ambos traziam algo a mais, um novo olhar sobre esses personagens.
O Tocha Humana de Thomas apenas reconta os principais fatos da cronologia do herói. É como uma sinopse apressada, que não tem tempo de desenvolver nada. A história começa com alguma profundidade, mostrando o ponto de vista do androide que se tornaria o primeiro herói da Marvel. Mas logo essa abordagem mais introspectiva é abandonada e a história passa a ser dominada por diálogos infantis e fatos sumariados rapidamente.
No Brasil essa história foi lançada em 1993, número quatro da coleção Épicos Marvel e acabou se destacando mais pela capa prateada, uma novidade nos quadrinhos àquela época.
A Balsa da Medusa
Embora a Medusa transportasse 400 pessoas, incluindo 160 tripulantes, os barcos só tinham espaço para cerca de 250 pessoas. Os outros 146 homens e uma mulher, amontoaram-se numa jangada feita às pressas. Tinham para comer apenas um saco de biscoitos. Para beber, dois barris de água (que se perderam no mar depois de uma briga) seis barris de vinho. Foram 13 dias à deriva até serem encontrados por acaso por um navio francês que passava pela região. Para sobreviver, tiveram que recorrer até mesmo ao canibalismo. O quadro mostra o momento em que os sobreviventes avistam o barco que os resgataria.
A história na época gerou grande comoção na opinião pública francesa. Gericault pintou o tema com grande emoção e, embora retratasse pessoas normais, a imagem é épica (reforçada pela escolha de colocar a cena no meio de uma tempestade), duas das características do romatismo nas artes, além do tema social. Uma curiosidade: Delacroix, que viria a ser o grande nome do romantismo era amigo de Géricault e pousou para o amigo (é a figura caída em primeiro plano, com o braço estendido).
Esquadrão Atari: muito além dos vídeo-games
Em 1984, a editora DC lançou uma versão em quadrinhos baseada nos jogos de vídeo-games da Atari. Não era a primeira adaptação de games da Atari, mas esse estava destinado a entrar para a história como um dos melhores trabalhos da era de bronze dos quadrinhos. A equipe criativa era composta por dois grandes nomes dos comics: o roteirista Gerry Conway e o desenhista José Luis Garcia Lopes.
Gerry Conway, nascido em 1952, começou a escrever quadrinhos ainda na juventude com histórias para revistas de histórias curtas da DC Comics, como a House of Secrets, mas seu grande sonho era trabalhar com um título de super-heróis. Graças a um amigo, ele conheceu Roy Thomas, editor da Marvel, lhe entregou um argumento e pediu que ele desenvolvesse. Roy gostou do resultado e, com 19 anos, Conway foi efetivado no cargo de roteirista oficial do Homem-aranha.
Apesar de inseguro no início (as primeiras histórias eram co-escritas com o desenhista do título, John Romita Senior), Conway logo se destacou e acabou escrevendo algumas das mais importantes histórias do aracnídeo na década de 1970, entre elas a controversa morte de Gwen Stacy. Conway foi também, junto com o desenhista Ross Andru, responsável pela criação do Justiceiro, que surgiria como personagem secundário na série do Aranha, mas se tornaria um dos mais populares da Marvel na década de 1980.
Em meados da década de 1970, ele foi contratado pela DC, onde faria o primeiro crossover entre as duas maiores editoras do mercado norte-americano: o encontro de Superman e homem-aranha.
José Luis Garcia Lopez nasceu na Galícia, mas mudou para a Argentina ainda jovem, onde leu muito quadrinho norte-americano, especialmente os trabalhos de Alex Raymond e Roy Crane.
Indo para os EUA, Garcia Lopes substituiu Joe Kubert na revista Tarzan, o que acrescentaria mais uma influência seu traço, já que na época era comum um desenhista que entrava num título imitar o anterior, para os leitores não sentirem o impacto da mudança.
Depois de trabalhar para a Charlton, ele se fixou na DC Comics, onde desenvolveria um dos traços mais dinâmicos e bonitos dos comics americanos. Seu visual do Super-homem atlético praticamente redefiniu a imagem do Homem-de-aço. Uma das imagens mais famosas, do personagem arrebentando correntes com a simples flexão dos músculos do peito, é de autoria de Garcia Lopes.
Garcia Lopes foi responsável pelo traço do segundo grande encontro da década de 1970: entre o Hulk e Batman, com roteiro de Len Wein.
Esquadrão Atari juntava, portanto, dois dos nomes mais importantes da era de bronze dos quadrinhos americanos. E ambos não decepcionaram. A primeira história mostrava personagens bastante originais: os mercenários Dart e Blackjack, o gigante bebê, que é seqüestrado de seus planeta natal, a telepata Morféa, vinda de uma civilização em que as crianças são criadas sem identidade (e sempre se refere a si mesmo como “este ser”), o ladrão Paco Rato, o rapaz Tormenta, que tem a capacidade de se teleportar e seu pai, Martin Champion, um homem obcecado com a idéia de que o universo está sendo ameaçado por uma força poderosíssima chamada Destruidor Negro. Esse time improvável irá se juntar, alguns contra a vontade, para salvar o universo.
Embora a primeira história fosse essencialmente uma apresentação de personagens, ela já apresentava algumas das mais interessantes características da série: a ação vertiginosa e o suspense muito bem trabalhado. A estrela dos primeiros números é Dart, que junto com seu namorado Blackjack vão cobrar uma dívida e são atacados por um exército, mas conseguem escapar. A sequência inicial mostrava os dois lutando contra os soldados do general Ki numa página dupla que é um dos momentos mais clássicos dos quadrinhos da era de bronze. Dart e Blackjack estão no quadro maior, que é invadido por uma mão vinda de fora do quadro, apontando uma arma para Dart. Na sequência lateral, a heroína nocauteia o dono da mão. Ali estão os elementos que fariam de Garcia Lopes um dos desenhistas mais requisitados para capas: a composição inovadora, o dinamismo e o perfeito domínio da anatomia.
Se Garcia Lopes tinha perfeito domínio da parte visual, Gerry Conway se revelou um mestre do roteiro, com uma ótima caracterização de personagens, narrativas paralelas, e uma trama muito bem costurada. Os dois, inclusive, voltariam a se encontrar anos mais tarde, na minissérie Cinder e Ash, com grande sucesso.
A dupla foi responsável pelo título até o número 12. O número 13 contou com roteiro de Conway e desenhos do estreante Eduardo Barreto, que emulava o estilo de Garcia Lopes. No número 14 a equipe se modificou completamente com a entrada de Mike Baron no texto. Ainda assim a revista continuou com um bom nível de qualidade até o número 20, quando a trama finalmente fechou.
No Brasil, Esquadrão Atari era uma das principais atrações de revistas como Herois em Ação e Superamigos. Infelizmente, questões de direitos autorais com a Atari fizeram que com essa série não fosse republicada, razão pela qual poucos leitores da nova geração conhecem essa obra-prima da ficção-científica.
quarta-feira, fevereiro 26, 2020
Cult Sci - um café geek em Macapá
O público nerd de Macapá ganhou um espaço especial, o Cult Sci. O café está localizadono bairro Santa Rita, na Avenida Mendonça Furtado 2278, na esquina com a Santos Dumont (ao lado do INFOR). O espaço é todo decorado com itens da cultura pop, como quadros, bonecos e outros itens de colecionador. Outras paixões também aparecem no espaço, como ciência (as mesas são identificadas por cientistas, reais ou ficcionais) e até moedas raras. Além disso, há livros que podem ser emprestados pelos frequenadores. E o melhor: a comida é muito boa com preços acessíveis. O chá maté com limão é simplesmente delicioso. Recomendo.
Ficção hiper-real
Uma das possíveis divisões da literatura seria entre ficção e não-ficção. A ficção seria composta de obras surgidas da imaginação humana, tais como contos e romances. No outro extremo, estariam obras que tratam de fatos "reais", tais como biografias, livros acadêmicos, históricos... entretanto, cada vez mais surgem livros que testam os limites entre essas duas categorias. Usando o recurso da verossimilhança, eles se tornam hiper-reais e muitas vezes passam a ser vistos como mais reais que a realidade.
O recurso da verossimilhança já era mencionada por Aristóteles em seu livro A arte poética. Segundo o filósofo grego, a verossimilhança não significava que a obra de arte devesse ser real, mas antes parecer real. O dramaturgo deveria convencer o público dessa realidade, por mais fantasiosa que fosse e, quanto mais eficiente nesse sentido, melhor era o resultado. Hoje, nos manuais de roteiro, a técnica também é chamada de suspensão de descrença. O público inicia a fruição da obra descrente de aquilo pode ser real. O escritor habilidoso vai aos poucos minando essa descrença e fazendo o leitor acreditar nos fatos narrados. Exemplo clássico disso foi o Super-homem, cuja primeira página da primeira história se dedicava a fazer uma comparação com os poderes dos animais. Se um gafanhoto poderia pular várias vezes a sua altura, um ser-humano também o poderia, se fosse alienígena. Se uma formiga era capaz de carregar várias vezes o seu peso, um ser-humano especial também o poderia. Estabelecido esse pacto, outros poderes foram sendo introduzidos ao longo do tempo.
Esses recursos, entretanto, podem ser eficientes a ponto de o público confundir o ficcional com o real.
Talvez o primeiro exemplo nesse sentido tenha sido o episódio conhecido no Brasil como "Balela do Balão".
Em 13 de abril de 1844, Edgar Alan Poe publicou no jornal The Sun uma matéria jornalística sobre um aventureiro que estaria cruzando o Atlântico em um balão. Para aumentar a credibilidade da história, o escritor usou até mesmo personagens reais, como o novelista inglês William Harrison Ainsworth. A notícia provocou furor e filas para comprar jornais, que rapidamente se esgotaram, fazendo com que muitas pessoas fossem até a sede do The Sun para comprar seu exemplar.
Discípulo de Poe, H. P. Lovecraft provavelmente se tornou o mais hiper-real escritor de todos os tempos. Sua descrição da mitologia dos velhos deuses, em especial de Cthullu, fez com que muitos acreditassem que seus contos não eram fantasia, mas realidade. O livro Necronomicon, citado em vários textos, foi cercado de tantos detalhes que não só foi tomado como real como, de fato, posteriormente, surgiram várias versões do mesmo. Lovecraft usou a tática de atribuir a autoria do livro a um autor antigo, o árabe louco Abdul Alhazred, criando inclusive sua biografia. Entre os detalhes agregados estavam o de que o livro teria sido proibida pelo papa Gregório IX quando de sua tradução para o latim, em 1232.
Apesar do próprio autor ter declarado diversas vezes que o Necronomicon era uma ficção de sua autoria, muitos acreditaram que ele existia mesmo. Uma dessas pessoas foi o escritor Frank G. Ripel, fundador da Ordem Rosa Mística. No seu livro La Magia Lunar, o autor, apresenta, em castelhano, o que seria o verdadeiro necronomicon, escrito há 4 mil anos, que Abdul Alhazred teria copiada e adulterado. Esse "verdadeiro" necronomicon fundamenta todos os rituais da Ordem. Ou seja: um grimoire ficcional acabou se tornando a base de uma seita real. Uma pesquisa rápida no Google permite encontrar vários Necronomicons à venda e até imagens do livro original - trabalhos feitos por fãs ou aproveitadores que só contribuem para aumentar ainda mais o fascínio sobre o livro fictício e levar mais pessoas a acreditarem que ele de fato existe.
Outra obra que de ficção que foi tida como verdadeira foi O código Da Vinci, de Dan Brown. Antes do início da narrativa, Brown introduziu uma página com o que chamou de fatos:
"O Priorado de Sião - sociedade secreta europeia fundada em 1099 - existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiês Secretos, que identificam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.
A prelazia do Vaticano, conhecida como Opus Dei, é uma organização católica profundamente conservadora, que vem sendo objeto de controvérsias recentes, devido a relatos de lavagem cerebral, coerção e uma prática perigosa conhecida como "mortificação corporal". A Opus Dei acabou de completar a construção de uma Sede Nacional em Nova York, ao custo de aproximadamente 47 milhões de dólares.
Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos, rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade".
Embora não tenha dito que todos os fatos ali descritos eram reais, o autor usou uma estratégia lógica: apresentou diversas premissas, que aparecem no romance, como a existência do Opus Dei e os rituais secretos, como verdadeiros. E deixou para o leitor a conclusão. O leitor, por outro lado, pensou: se todos esses "fatos" são reais e estão no romance, então tudo que nele está também é real. O resultado disso nós vimos na maioria dos veículos de comunicação: matérias e mais matérias sobre Maria Madalena, o Santo Grall e sobre o suposto casamento de Jesus. Por mais que muitas dessas matérias tratassem de desmentir o romance, elas aumentavam o burburinho e o interesse pelo mesmo, fazendo com que aumentasse o roll das pessoas que confundiam ficção com realidade.
Outro que usou o recurso, talvez com mais delicadeza e certamente sem tanto alarde foi Umberto Eco em "O nome da Rosa". Na introdução do volume, intitulada "Um manuscrito, naturalmente", o autor declara que não está apresentando um texto original, mas uma tradução de uma versão francesa do século XIX de um texto de um monge germânico do século XIV.
Segundo Eco, enquanto lia, traduzia livremente o texto, até que o livro lhe foi levado por uma pessoa amada, sem querer, após o fim do relacionamento. O autor conta que consultou medievalistas ilustres, como Etienne Gilson, que não souberam lhe dar informações sobre o tal monge Adso de Melk. Já convencido de que tinha em mãos uma falsificação, ele já desistia de divulgar o texto quando achou, em um sebo da avenida Corrientes, em Buenos Aires, um livrinho de Milo Temesvar que citava diversas vezes o tal Adso.
A exemplo de Poe, Eco cita diversos pessoas e locais reais (a avenida Corrientes, de fato, é repleta de sebos) para dar credibilidade à sua narrativa. Em um pós-escrito, o autor italiano admitiu que seu objetivo com essa estratégia era fruto de pura covardia: ele não sabia como o livro seria recebido pela crítica (já que era seu primeiro romance) e preferiu apresenta-lo como sendo de outra pessoa.
JJ Benítez aperfeiçoou o recurso no livro "Operação Cavalo de Tróia", que conta a história de uma viagem no tempo organizada pelo governo norte-americano à época de Jesus. Benítez argumenta que o texto não é seu, mas é a transposição do diário de um major americano, que teria participado da missão.
A longa introdução do primeiro volume (mais de 50 páginas!) se dedica a narrar como conseguiu o diário em uma trama que mistura decifração de mensagens secretas e espionagem, com o escritor sendo perseguido pelo FBI enquanto tenta retirar os diários do major dos EUA. Se Eco diz que o livro original foi perdido e Lovecraft nos informa que seu original está disponível em algumas poucas universidade (a única nomeada nem mesmo existe), Benítez diz que tem os originais em posse, mas teme o serviço secreto norte-americano, que faria qualquer coisa para impedir a publicação dos livros. Ao final da introdução, faz a ressalva: "antes de passar ao diário propriamente dito, quero deixar assente que meu dever, como jornalista, começa e termina precisamente com a obtenção da notícia. Ao leitor (...) caberá tirar suas próprias conclusões". Esse arremate final, acrescido à toda a trama narrada levou muitos a acreditarem que os diários eram reais e que liam de fato a história de Jesus narrada por quem o conhecera.
No Brasil o exemplo mais famoso provavelmente é o desenhista Francisco Irwenten e seu personagem Capitão Gralha, um dos primeiros, senão primeiro super-herói brasileiro. Iwerten é verbete em enciclopédias, ganhou prêmios, foi objeto de várias matérias jornalísticas e até de artigos científicos e quase se torna enredo de escola de samba. Apesar da popularidade, tanto criador quanto criatura nunca existiram. Ele surgiu em 1997 em um texto publicado na revista Metal Pesado Curitiba. Na época os nove criadores do personagem Gralha haviam imaginado que seria interessante apresentá-lo não como um personagem original, mas como a recriação de um herói clássico, o Capitão Gralha.
Eu fui encarregado de escrever o texto que apresentava o herói clássico e seu criador. Na época acreditei que apenas estava dando verossimilhança à história do Gralha, a exemplo do que fizeram Umberto Eco em O nome da Rosa e Benítez em Operação Cavalo de Tróia. Assim, espantei-me quando a história começou a repercutir como verdadeira (com o surgimento da internet a lenda se alastrou e ganhou inclusive acréscimos, como a de que Irwenten teria estagiado com Bob kane, criador do Batman). O grupo de criadores se dividiu entre os que pretendiam revelar a história e os que achavam que se "deixasse quieto" a história logo sumiria. O dilema durou 17 anos, nos quais a história só se ampliou. Em 2014 a verdade sobre Iwerten e o Capitão Gralha foi finalmente contada em um álbum de quadrinhos e em uma mesa-redonda na Gibicon Curitiba. Mesmo depois da revelação, ainda há quem se recuse a acreditar. Corre agora o boato de que nós roubamos os exemplares das revistas originais da gibiteca de Curitiba para impedir que alguém provasse a existência do Capitão Gralha. Num mundo em que ficção e realidade se misturam cada vez mais, o boato muitas vezes parece mais real que a realidade.
O recurso da verossimilhança já era mencionada por Aristóteles em seu livro A arte poética. Segundo o filósofo grego, a verossimilhança não significava que a obra de arte devesse ser real, mas antes parecer real. O dramaturgo deveria convencer o público dessa realidade, por mais fantasiosa que fosse e, quanto mais eficiente nesse sentido, melhor era o resultado. Hoje, nos manuais de roteiro, a técnica também é chamada de suspensão de descrença. O público inicia a fruição da obra descrente de aquilo pode ser real. O escritor habilidoso vai aos poucos minando essa descrença e fazendo o leitor acreditar nos fatos narrados. Exemplo clássico disso foi o Super-homem, cuja primeira página da primeira história se dedicava a fazer uma comparação com os poderes dos animais. Se um gafanhoto poderia pular várias vezes a sua altura, um ser-humano também o poderia, se fosse alienígena. Se uma formiga era capaz de carregar várias vezes o seu peso, um ser-humano especial também o poderia. Estabelecido esse pacto, outros poderes foram sendo introduzidos ao longo do tempo.
Esses recursos, entretanto, podem ser eficientes a ponto de o público confundir o ficcional com o real.
Talvez o primeiro exemplo nesse sentido tenha sido o episódio conhecido no Brasil como "Balela do Balão". Em 13 de abril de 1844, Edgar Alan Poe publicou no jornal The Sun uma matéria jornalística sobre um aventureiro que estaria cruzando o Atlântico em um balão. Para aumentar a credibilidade da história, o escritor usou até mesmo personagens reais, como o novelista inglês William Harrison Ainsworth. A notícia provocou furor e filas para comprar jornais, que rapidamente se esgotaram, fazendo com que muitas pessoas fossem até a sede do The Sun para comprar seu exemplar.
Discípulo de Poe, H. P. Lovecraft provavelmente se tornou o mais hiper-real escritor de todos os tempos. Sua descrição da mitologia dos velhos deuses, em especial de Cthullu, fez com que muitos acreditassem que seus contos não eram fantasia, mas realidade. O livro Necronomicon, citado em vários textos, foi cercado de tantos detalhes que não só foi tomado como real como, de fato, posteriormente, surgiram várias versões do mesmo. Lovecraft usou a tática de atribuir a autoria do livro a um autor antigo, o árabe louco Abdul Alhazred, criando inclusive sua biografia. Entre os detalhes agregados estavam o de que o livro teria sido proibida pelo papa Gregório IX quando de sua tradução para o latim, em 1232.
Apesar do próprio autor ter declarado diversas vezes que o Necronomicon era uma ficção de sua autoria, muitos acreditaram que ele existia mesmo. Uma dessas pessoas foi o escritor Frank G. Ripel, fundador da Ordem Rosa Mística. No seu livro La Magia Lunar, o autor, apresenta, em castelhano, o que seria o verdadeiro necronomicon, escrito há 4 mil anos, que Abdul Alhazred teria copiada e adulterado. Esse "verdadeiro" necronomicon fundamenta todos os rituais da Ordem. Ou seja: um grimoire ficcional acabou se tornando a base de uma seita real. Uma pesquisa rápida no Google permite encontrar vários Necronomicons à venda e até imagens do livro original - trabalhos feitos por fãs ou aproveitadores que só contribuem para aumentar ainda mais o fascínio sobre o livro fictício e levar mais pessoas a acreditarem que ele de fato existe.
Outra obra que de ficção que foi tida como verdadeira foi O código Da Vinci, de Dan Brown. Antes do início da narrativa, Brown introduziu uma página com o que chamou de fatos:
"O Priorado de Sião - sociedade secreta europeia fundada em 1099 - existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiês Secretos, que identificam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.
A prelazia do Vaticano, conhecida como Opus Dei, é uma organização católica profundamente conservadora, que vem sendo objeto de controvérsias recentes, devido a relatos de lavagem cerebral, coerção e uma prática perigosa conhecida como "mortificação corporal". A Opus Dei acabou de completar a construção de uma Sede Nacional em Nova York, ao custo de aproximadamente 47 milhões de dólares.
Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos, rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade".
Embora não tenha dito que todos os fatos ali descritos eram reais, o autor usou uma estratégia lógica: apresentou diversas premissas, que aparecem no romance, como a existência do Opus Dei e os rituais secretos, como verdadeiros. E deixou para o leitor a conclusão. O leitor, por outro lado, pensou: se todos esses "fatos" são reais e estão no romance, então tudo que nele está também é real. O resultado disso nós vimos na maioria dos veículos de comunicação: matérias e mais matérias sobre Maria Madalena, o Santo Grall e sobre o suposto casamento de Jesus. Por mais que muitas dessas matérias tratassem de desmentir o romance, elas aumentavam o burburinho e o interesse pelo mesmo, fazendo com que aumentasse o roll das pessoas que confundiam ficção com realidade.
Outro que usou o recurso, talvez com mais delicadeza e certamente sem tanto alarde foi Umberto Eco em "O nome da Rosa". Na introdução do volume, intitulada "Um manuscrito, naturalmente", o autor declara que não está apresentando um texto original, mas uma tradução de uma versão francesa do século XIX de um texto de um monge germânico do século XIV.
Segundo Eco, enquanto lia, traduzia livremente o texto, até que o livro lhe foi levado por uma pessoa amada, sem querer, após o fim do relacionamento. O autor conta que consultou medievalistas ilustres, como Etienne Gilson, que não souberam lhe dar informações sobre o tal monge Adso de Melk. Já convencido de que tinha em mãos uma falsificação, ele já desistia de divulgar o texto quando achou, em um sebo da avenida Corrientes, em Buenos Aires, um livrinho de Milo Temesvar que citava diversas vezes o tal Adso.
A exemplo de Poe, Eco cita diversos pessoas e locais reais (a avenida Corrientes, de fato, é repleta de sebos) para dar credibilidade à sua narrativa. Em um pós-escrito, o autor italiano admitiu que seu objetivo com essa estratégia era fruto de pura covardia: ele não sabia como o livro seria recebido pela crítica (já que era seu primeiro romance) e preferiu apresenta-lo como sendo de outra pessoa.
JJ Benítez aperfeiçoou o recurso no livro "Operação Cavalo de Tróia", que conta a história de uma viagem no tempo organizada pelo governo norte-americano à época de Jesus. Benítez argumenta que o texto não é seu, mas é a transposição do diário de um major americano, que teria participado da missão.
A longa introdução do primeiro volume (mais de 50 páginas!) se dedica a narrar como conseguiu o diário em uma trama que mistura decifração de mensagens secretas e espionagem, com o escritor sendo perseguido pelo FBI enquanto tenta retirar os diários do major dos EUA. Se Eco diz que o livro original foi perdido e Lovecraft nos informa que seu original está disponível em algumas poucas universidade (a única nomeada nem mesmo existe), Benítez diz que tem os originais em posse, mas teme o serviço secreto norte-americano, que faria qualquer coisa para impedir a publicação dos livros. Ao final da introdução, faz a ressalva: "antes de passar ao diário propriamente dito, quero deixar assente que meu dever, como jornalista, começa e termina precisamente com a obtenção da notícia. Ao leitor (...) caberá tirar suas próprias conclusões". Esse arremate final, acrescido à toda a trama narrada levou muitos a acreditarem que os diários eram reais e que liam de fato a história de Jesus narrada por quem o conhecera.
No Brasil o exemplo mais famoso provavelmente é o desenhista Francisco Irwenten e seu personagem Capitão Gralha, um dos primeiros, senão primeiro super-herói brasileiro. Iwerten é verbete em enciclopédias, ganhou prêmios, foi objeto de várias matérias jornalísticas e até de artigos científicos e quase se torna enredo de escola de samba. Apesar da popularidade, tanto criador quanto criatura nunca existiram. Ele surgiu em 1997 em um texto publicado na revista Metal Pesado Curitiba. Na época os nove criadores do personagem Gralha haviam imaginado que seria interessante apresentá-lo não como um personagem original, mas como a recriação de um herói clássico, o Capitão Gralha.
Eu fui encarregado de escrever o texto que apresentava o herói clássico e seu criador. Na época acreditei que apenas estava dando verossimilhança à história do Gralha, a exemplo do que fizeram Umberto Eco em O nome da Rosa e Benítez em Operação Cavalo de Tróia. Assim, espantei-me quando a história começou a repercutir como verdadeira (com o surgimento da internet a lenda se alastrou e ganhou inclusive acréscimos, como a de que Irwenten teria estagiado com Bob kane, criador do Batman). O grupo de criadores se dividiu entre os que pretendiam revelar a história e os que achavam que se "deixasse quieto" a história logo sumiria. O dilema durou 17 anos, nos quais a história só se ampliou. Em 2014 a verdade sobre Iwerten e o Capitão Gralha foi finalmente contada em um álbum de quadrinhos e em uma mesa-redonda na Gibicon Curitiba. Mesmo depois da revelação, ainda há quem se recuse a acreditar. Corre agora o boato de que nós roubamos os exemplares das revistas originais da gibiteca de Curitiba para impedir que alguém provasse a existência do Capitão Gralha. Num mundo em que ficção e realidade se misturam cada vez mais, o boato muitas vezes parece mais real que a realidade.
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