terça-feira, novembro 29, 2022

Josiane, a psicopata

 


Psicopatas não sentem empatia. Eles não têm amores, parantes, amigos. Para eles só existem dois tipos de pessoas: predadores e vítimas. E eles são os predadores. Mentirosos profissionais, eles manipulam todos à sua volta. Alguns matam, outros arruínam a vida das pessoas com os quais entram em contato.
Psicopatia não tem cura. Uma vez psicopata, psicopata até a morte.
Da mesma forma como foi mostrado na novela A dona do pedaço,muitos, uma vez descobertos, encontram na religião uma forma de criar uma nova máscara social.
Eles logo descobrem que “converter-se” a uma religião é uma forma de fazer com que todos esqueçam e perdoem seus crimes. A religião se torna, assim, um ótimo escudo, que permite a eles continuarem agindo sem levantar suspeitas.
Um ótimo exemplo é o relato da ministra Damares: os pais receberam dentro de casa dois psicopatas transvestidos de religiosos. Resultado: ela foi sistematicamente violentada dos cinco aos dez anos. Aliás, devemos admitir, a ministra tem tem sido muito coerente ao denunciar que muitas pessoas usam a religião como forma de cometerem crimes como a pedofilia. 

Drácula - A noite da vampira

 

O número 1 da revista Giant-Size Chillers Featuring Curse of Dracula apresentou uma personagem nova na era Marvel: Lilith, a filha de Drácula.

A personagem aparece de uma forma aparentemente aleatória: uma moça está sendo agredida pelo pai por estar grávida. Ela se casara com um rapaz em segredo e o pai não aceitava nem a gravidez nem o casamento. À certa altura, o pai derruba o garoto, que bate a cabeça na parede e morre.

Então vemos a garota de costas, debruçada sobre o morto. Como ela está de costas, não vemos seu rosto. Ela diz: “Você matou ele, pai. Ele tá morto. A cabeça dele bateu na parede. Deus, meu Deus... você matou ele. Portanto, querido pai, você não me deixa nenhuma opção. Deve compreender, claro...”. Na página seguinte, numa imagem de impacto que ocupado dois terços da página, vemos que a garota ruiva se transformou numa mulher de cabeços pretos, roupa escura e dentes caninos pronunciados: “... que tenho que matá-lo!”, diz ela, completando a frase da página anterior.

A primeira aparição da filha de Drácula


É a primeira image de Lilith e à primeira leitura, parece estranho. Mas, lá na frente, quando é contada a origem da personagem, tudo faz sentido.

Lilith é filha da primeira esposa de Drácula. Como se tratava de um casamento arranjado, o Conde odiava a esposa. Com a morte de seu pai, que havia forçado o casamento, Drácula a expulsa do castelo. A mulher procura uma cigana e lhe entrega a criança para ser criada e logo após comete suicídio.

Nesse meio tempo, o Conde inicia uma cruel perseguição aos ciganos em seus domínios. Como vingança, a mulher resolve transformar a menina numa vampira: “Seu pai é um vampiro e você também se tornará um. Mas jamais temerá o sol... nunca precisará fugir de um crucifixo. E sua alma continuará viva até o dia em que ele morrer... se você morrer, busque outro corpo onde renascerá... um corpo inocente como o seu, que deseje a morte do próprio pai”.

Drácula odiava a primeira esposa. Lilith é fruto desse relacionamento. 


Só então entendemos o surgimento da personagem: morta, ela se aproveitou dos sentimentos da garota ruiva para ressurgir.

Dois aspectos ganham importância nessa trama: o ótimo texto de Marv Wolfman, que consegue criar perfeitamente uma ambientação, na melhor tradição do terror, como no trecho: “Se planetas chorassem, o fariam essa noite. Se a terra pudesse se erguer em fúria, terremotos eclodiriam por todas as partes”.

O outro aspecto é o desenho de Gene Colan, repleto de sombras e linhas e figuras ondulantes, que parecem saltar da página como morcegos prestes a nos morder.  

Feliz Natal!!!!!!!!!

 


Corra, Lola, corra!

 


Corra, Lola, corra é um filme alemão dirigido por Tom Tykwer cujo roteiro é todo construído a partir de conceitos da teoria do caos.
O princípio básico da teoria do caos é a dependência sensível das condições iniciais. Ou seja, pequenas alterações no início de um processo podem provocar grandes alterações lá na frente. A história é toda construída, nos mínimos detalhes a partir desse conceito.
No filme, Lola entra em uma loja para comprar cigarros e tem sua motoneta roubada. Isso faz com que ela se atrase para um encontro com o namorado, que está transportando dinheiro de um traficante. Esse atraso faz com que ele decida pegar o metrô, onde acaba esquecendo o saco com o dinheiro, que é roubado por um mendigo.
Agora Lola tem 20 minutos para conseguir 100 mil marcos antes que o namorado seja morto. A trama acompanha a correria da personagem tentando resolver a situação: ela quase é atropelada, passa por diversas pessoas (e vemos em flashs como será o futuro de cada uma dessas pessoas).
O plano não dá certo e o filme volta ao início, ao momento em que Lola está recebendo a ligação do namorado.
Esse roteiro em looping permite observar como pequenas alterações vão provocando mudanças: é a mulher que, na versão anterior iria enveredar pela bebedeira e perder o filho e agora ganha na loteria e se torna rica, é o homem que bateu o carro na primeira versão e não bate... a corrida de Lola agora vai provocando alterações por onde passa como se ela fosse um efeito borboleta.
Há um outro filme sobre o assunto, com o título óbvio de Efeito borboleta, mas Corra Lola é muito mais interessante pela complexidade da trama e por mostrar como as alterações vão ocorrendo em diversas escalas (no filme Efeito borboleta as alterações ocorrem de maneira limitada, geralmente centradas no protagonista).
Além disso, a linguagem do filme é caótica, com corte rápidos, misturando cenas live action com animações, flashs fotográficos até jogos eletrônicos.
Corra Lola é um dos melhores exemplos de como teorias científicas podem ser usadas como base para filmes. 

segunda-feira, novembro 28, 2022

J. Kendall – Uma história em pedaços

 


Publicada no número 143 da revisa Júlia Kendall, “Uma história em pedaços” é um ótimo exemplo do melhor que essa personagem apresenta: uma mistura de história policial com ótimo desenvolvimento de personagens e diálogos incrivelmente geniais.

Na trama, os responsáveis pelo setor de bagagens de uma estação de trem estão abrindo malas no setor de achados e perdidos com o objetivo de roubar objetos de valor. Mas acabam se deparando com uma mala onde foi guardada uma perna humana.

Uma trama paralela mostra a irmã de Júlia envolvida com um traficante. 


A polícia de Garden City é imediatamente acionada e, junto com ela, a criminóloga Júlia Kendall. Outras partes do corpo vão sendo descobertas no Correio, por exemplo.

O desafio é imenso: é necessário descobrir a identidade do morto e descobrir o assassino e sua motivação. A imagem da capa, com Júlia montando um quebra-cabeça é perfeita nesse sentido. De fato, para desvendar esse crime é necessário montar um quebra-cabeça.

A história faz uma homenagem aos clássicos do faroeste. 


Um dos indícios são os nomes usados pelo assassino para despachar as partes dos corpos: os verdadeiros nomes de John Ford e de John Wayne, o diretor de Os brutos também amam. Isso inclusive é usado para colocar, dentro da HQ, uma cena desse último filme, numa bela homenagem de Berardi ao clássico do cinema.

A origem da cibernética

 

 

No final da década de 30, um grupo de cientistas se reunia na cidade de Boston para discutir assuntos científicos.

              Eles se sentavam ao redor de uma mesa redonda, jantavam e um deles propunha um assunto para discussão.
              Embora a maioria fosse procedente da Universidade de Havard, eram pesquisadores dos mais variados campos do conhecimento. Havia psicólogos, biólogos, matemáticos, físicos, filósofos, neurologista, engenheiros...
              As reuniões haviam surgido a partir de uma percepção compartilhada por todos os integrantes do grupo: a especialização cada vez maior dos cientistas estava se tornando um problema. Psicólogos desconheciam completamente o trabalho de biólogos. Físicos não se interessavam minimamente pelas pesquisas dos matemáticos...
              Em outras palavras, os cientistas de diferentes áreas se especializavam em campos cada vez menores e desconsideravam inteiramente o trabalho de outros pesquisadores que não faziam parte desses campos.
              Esse estado de coisas poderia ser exemplificado pela anedota de Bernard Shaw: “O especialista é um homem que sabe cada vez mais num terreno cada vez menor, o que o fará chegar a saber tudo... sobre nada”.
              Em pouco tempo agregou-se ao grupo um professor do Massachusetts Institute of Technology chamado Nobert Weiner.
              Weiner era uma dessas inteligências enciclopédicas, que dominam vários campos de conhecimento. Aos 18 meses ele já aprendera a ler. Aos sete anos já estava familiarizado com a teoria da evolução, de Charles Darwin, que iria influenciar toda a sua obra. Aos 14 anos se licenciou em ciência. Aos 18 já havia terminado o doutorado.
              Weiner estava plenamente de acordo com o promotor dos encontros, o Dr. Arturo Roseblueth, da Havard Medical School, em deplorar a especialização excessiva para a qual a ciência estava se direcionando.
              “Cada um tem grande tendência a considerar o tema vizinho como pertencente, com exclusividade, ao seu colega da terceira porta à direita do corredor”, escreveu Weiner.
              A maioria dos participantes da mesa redonda compreendia que estava se criando ali um novo paradigma, uma nova forma de ver o mundo e a natureza. A idéia era não separar para conhecer melhor,  como previa o pensamento de Descartes, mas analisar as partes em suas relações entre si e com o todo.
              Mas era necessário dar um nome a esse novo paradigma.
              Embora boa parte das discussões envolvessem máquinas e mecanismos de calcular, Weiner não queria um nome que lembrasse muito a máquina, afinal  a idéia era justamente criar um campo de estudo que pudesse explicar tanto fenômenos mecânicos quanto humanos, tanto computadores quanto homens. Por essa mesma razão, não era aconselhável usar um nome que fosse muito humano.
              O objetivo era encontrar uma nomeclatura que representasse uma ciência que estudasse homens, animais e máquinas como um todo; uma ciência que estivesse mais interessada nas semelhanças que nas diferenças entre esses três reinos.
              Um dos problemas básicos da cibernética era o do controle e foi dessa característica que surgiu o nome da nova ciência: cibernética.
              A palavra cibernética havia sido utilizada antes pelo fisico inglês James Maxwell num artigo de 1886 sobre controle de máquinas.
              Muito antes disso, Platão havia usado a palavra com o sentido de “a arte de governar os homens”.
              Os gregos usavam o termo para se referir à arte de governar navios. Em outras palavras, era o ofício do piloto. Necessariamente não é o piloto que traça o percurso do navio, mas ele é o responsável por fazê-lo chegar ao seu destino. Para isso, o piloto corrige continuamente o navio, que é afetado por uma série de ruídos: ventos, correntes maríticas...
              O melhor piloto é aquele capaz de perceber rapidamente as alterações na rota e de responder a elas, corrigindo o curso.
               É, portanto, um problema de comunicação. A cibernética irá se interessar muito por problemas de comunicação, especialmente a comunicação entre máquina-máquina e máquina-homem.
              Isaac Epstein lembra que o conceito de cibernética não é necessariamente positivo: “As sociedades não têm alvos claros e aceitos por consenso. O equilíbrio e a homeostase podem estar a serviço de sistemas autoritários e iníquos. Às vezes até do genocídio”. (Epstein, 1986, p. 9)
              Muitas vezes, o objetivo traçado pode não estar a serviço da humanidade. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a IBM, que utilizou seus sofisticados equipamentos para identificar judeus que seriam exterminados pelos nazistas.
              Epstein propõe que, em situações como essa, em que os objetivos não são aceitáveis, seja utilizada a cibernética como anti-cibernética. É o que fazem, por exemplo, os ciberpunks.
              A primeira oportunidade de colocar a cibernética em prática surgiu com a II Guerra Mundial.
              Havia uma preocupação generalizada por parte dos aliados de evitar que a Inglaterra fosse derrotada por um ataque aéreo fulminante. Para isso seria necessário desenvolver máquinas de ataque anti-aéreo.
              O problema não era apenas de física ou de matemática. Se fosse, bastava calcular o local em que estaria o avião após efetuar o bombardeio.
              Acontece que o piloto, sabendo que seria alvejado, desviava.
              A questão, portanto, envolvia física, psicologia e biologia (a curvatura seria limitada pela resistência fisiológica do piloto). Era um problema cibernético em sua essência. E só um grupo de pesquisadores de várias áreas trabalhando em conjunto poderia solucioná-lo.
              A resposta foi encontrada no feedback, ou retroalimentação.
              A idéia de feedback é antiguíssima. A própria vida tem uma série de processos auto-reguladores. Hipócrates já havia formulado a hipótese de que existem mecanismos no corpo humano que tendem a ser opor às patologias.
              O que a cibernética fez de diferente foi estudar a fundo a retroação e compreender seu funcionamento.
              No campo da comunicação, o conceito de feedback como elemento essencial do processo de comunicação influenciou a maior parte dos autores posteriores à cibernética, entre eles o educador Paulo Freire.
              O feedback torna menos unilateral o processo de comunicação, pois só podemos dizer que houve, de fato, comunicação, quando há uma resposta ao estímulo inicial.
              Se chamo um cachorro e ele se aproxima, estabeleceu-se uma comunicação. Embora o feedeback não tenha ocorrido no mesmo canal e mesmo código, é inegável que o receptor respondeu à mensagem.
              Se, por outro lado, o animal não se mexe, o processo de comunicação não se estabeleceu, talvez em decorrência de um ruído (o cachorro pode, por exemplo, ser surdo).

              Essa nova maneira de ver os fenômenos encarando-os como problemas de comunicação e de controle (que deveriam ser estudados por várias disciplinas em conjunto) forneceu uma poderosa percepção que influenciaria muitos pensadores e voltaria com grande força com a teoria do caos e o pensamento complexo de Edgar Morin.

Bárbaros - série conta a maior derrota do exército romano

 


Pelo jeito, a moda atual são séries históricas. Depois do sucesso de Vikings e The Last Kingdon, surgiram várias outras atrações focadas em momentos históricos. Um dos mais interessantes é Bárbaros, série alemã da Netflix.

A série conta, de maneira ficcional, os episódios por trás da Batalha da Floresta de Teutoburgo também conhecida também como Desastre de Varo. Na ocasião, os germânicos massacraram três legiões romanas. Foi uma as maiores derrotas de Roma em todos os tempos e marcou o fim da expansão do Império.

A série é focada no filho de um rei germânico, que foi levado para Roma como forma de garantir a fidelidade das tribos. Anos depois, ele retorna como Armínio, agora como um experiente soldado romano. Mas ele jamais esqueceu o que lhe fizeram na infância e tem um plano para vencer o exército romano e se vingar.

Dois amigos de infância têm importância fundamental na história: Thusnelda é um moça tida como vidente, capaz de falar com os deuses, que odeia os romanos por eles terem aleijado seu irmão mais novo.

Já Folkin quer se vingar dos romanos por terem matado sua família.

Esse trio formará um triângulo amoroso e será fundamental na batalha da floresta. 

Bárbaros, é, portanto, uma história de vingança repleta de ação. Destaque para o último episódio, que mostra a batalha da floresta de Teutoburgo. Além das ótimas cenas de ação, o expectador entende perfeitamente a estratégia usada por um pequeno grupo de nórdicos para vencer três legiões. Para brindar, as falas de Armínio, que pontuam todo o episódio, criam um tom sombrio para o mesmo, ainda mais quando o expectador finalmente descobre com quem ele está falando.

Se você discorda de algo, não compartilhe

 

O ano era 2008 e o Twitter era a rede social do momento no Brasil. Alguém compartilhou o link de um blog sobre pedofilia, pedindo para as pessoas denunciarem e compartilharem. Milhares de pessoas compartilharam, a ponto do assunto entrar nos TT. 
Pouco depois a polícia veio a público explicar o quanto esse comportamento era burro: o pedido de compartilhamento provavelmente havia sido feito por alguém do próprio blog. Em decorrência dele, milhares de pessoas entraram no link. Esse número altíssimo tornava impossível descobrir quem era pedófilo e tinha entrado por curiosidade ou para verificar antes de compartilhar a denúncia.
Com isso, os pedófilos conseguiram um canal amplo de divulgação da pedofilia (e provavelmente de contato entre eles). E, segundo a polícia, bastava uma pessoa ter denunciado e o inquérito seria instalado do mesmo jeito.
Aí vem o pulo do gato, a grande regra das redes sociais: se você discorda de algo, não divulgue, não amplie o alcance.
Se você acha um Youtuber patético, não compartilhe o vídeo dele, mesmo que tenha um comentário do tipo: "Olhem como ele só fala besteira". A cada pessoa que compartilha porque não gosta dele, aumenta o alcance do canal e ele ganha seguidores.
Se você não gosta de quiabo, não fique fazendo postagens sobre quiabo. Isso só faz com que mais e mais pessoas queiram experimentar quiabo.

Feliz Natal!!!!!!!

 


domingo, novembro 27, 2022

Fundo do baú - O xodó da vovó

 


Entre os desenhos animados da HB, um dos menos conhecidos no Brasil é o Xodó da Vovó (Precious Pupp, no original).

Criado em 1965, mostrava as aventuras de uma velhinha apaixonada por motos e seu cachorro Precioso.

O humor da série surgia do fato da vovozinha achar que seu cão é o mais afetuoso e comportado do mundo, ignorando sua natureza violenta (na maioria das vezes na defesa da dona ou da casa, mas em alguns casos apenas por diversão).

Em um dos episódios, por exemplo, a dupla vai parar numa ilha onde existem antropófagos. A vovó prepara o jantar vangloriando-se da bela natureza (“Eu me sinto jovem como se tivesse 60 anos!”) enquanto Preciso impede que um dos canibais a coma. Numa sequência típica de desenhos animados, ele chega a plantar uma árvore que cresce rápido o bastante para que o canibal dê de encontro com ela.

Em outro episódio, precioso inferniza a vida do carteiro e de um pedreiro enquanto, ao mesmo tempo, ajuda um passarinho que vai ser comido por um gato e um garoto que não alcança um bebedouro.

Precioso era, portanto, uma mistura de herói com vilão (aspecto simbolizado por sua rizada asmática no estilo Muttley).

A atração teve apenas uma temporada e 26 episódios.

Suplemento Marco Zero Kids

Em 1998 eu fui convidado por um empresário de comunicação a editar um jornal. Ironicamente, embora o nome fosse Diário Marco Zero, era um semanário, indo para as bancas todos os sábados.
Seguindo uma antiga tradição – hoje praticamente extinta, o jornal tinha um suplemento infantil chamado Marco Zero Kids, com matérias sobre desenhos animados, filmes e quadrinhos. Além disso publicava uma série minha, Dragon Fire, desenhada pelo amigo Falex.
O jornal foi lançado em um jantar com empresários, políticos etc. os garçons entregavam exemplares de mesa em mesa. Ao final da festa, a maioria dos jornais estava jogado no chão. Enquanto isso, as crianças estavam disputando exemplares do Kids, o que reforça algo que sempre suspeitei: crianças adoram ler.

Olympia, de Manet, um dos quadros mais polêmicos de todos os tempos

 


Olympia, de Édouard Manet, é um dos quadros mais polêmicos de todos os tempos. Quando foi exibido pela primeira vez foi considerado um ultraje e provocou a fúria dos conservadores.
A razão disso é a nudez da personagem principal. Sim, sempre existiram obras com nus na história da arte, mas eram de deuses, ninfas, personagens mitológicos.
Giorgione e Ticiano haviam feito pinturas muito parecidas, mas ambas eram protagonizadas pela deusa Vênus. Manet, ao contrário, colocou como personagem de seu quadro uma prostituta, o que foi a origem do escândalo.
O quadro tem vários aspectos simbólicos. Ela traz uma orquídea rosada no cabelo e usa um chinelo solto. A orquídea representa a sexualidade e o chinelo solto simboliza a perda da inocência. Esses indícios e outros adornos, como a gargantilha em forma de laço e o bracelete de ouro a caracterizam como uma cortezã. Ela olha o expectador de frente, em atitude altiva, o que demonstra que ela não se envergonha de sua profissão.
Ao lado dela, totalmente vestida, uma criada negra se inclina, oferecendo um buquê de flores, provavelmente presente de um dos clientes.
Olympia se tornou um ícone da inovação na arte, o que levou a diversas releituras, inclusive de Paul Gauguin.
Atualmente o quadro está exposto no Museu d'Orsay, em Paris.  

Esquadrão Atari – Traidor

 


Desde que Blackjack voltou da aparente morte nas mãos do Destruidor Negro, Martin Champion desconfiou de que ele fosse na verdade um espião do vilão.

Isso acabou se revelando verdade no número 11 da série Esquadrão Atari.

A capa já revela essa verdade, numa daquelas cenas impressionantes que só Garcia-Lopez conseguia fazer: Dart está caída no chão, a calça rasgada pelo que parece ser um tiro. Ela olha para cima, assustada e levanta a mão esquerda para se defender. Acima dela, Blackjack sorri e aponta a arma futurista.

Blackjack está a serviço do Destruidor. 


Já no interior, vemos Blackjack acordando no meio da madrugada e acessando o computador da nave para fazer uma ligação para o vilão. “Como estão meus amigos do Esquadrão Atari?”, pergunta o Destruidor. “Espero que Martion Champion e seu filho gozem de boa saúde! Não quero que nada aconteça a eles... ainda!”.

O plano do Destruidor é levar o grupo ao local onde está instalada a bomba de antimátiera que irá destruir todo um universo como forma de se vingar de Champion.

Blackjack seria capaz de matar sua amada? 


Para isso, Blackjack trava os controles da nave, fazendo com que ela se direcione exatamente para o local onde o vilão quer. Nesse meio tempo, a traição de Blackjack é descoberta e a imagem da capa se reproduz na HQ: Dart caída, seu namorado apontando a arma para ela, pronto para mata-la.

Toda essa sequência é uma mostra de como a dupla Gerry Conway e Garcia-Lopez estava sintonizada. O roteiro eleva o suspense ao seu máximo e o desenho destaca ainda isso.

A esposa de Martin Champion morre no parto e ele passa a acreditar que a culpa é do bebê. 


Essa mesma edição traz a explicação da relação conflituosa entre Martin Champion e seu filho.

Numa sequência extramemente dramática, vemos o nascimento da criança. A mulher é envolva por uma luz e grita: “Oh, meu Deus... ele está me matando! Martin, é ele... é ele!”.

Champion a partir daí passa a acreditar que o filho de alguma forma matou a mãe, mas ele entendeu mal a mensagem: o verdadeiro assassino é o Destruidor Negro, que todos pensavam estar morto e estava ali iniciando sua jornada de vingança.   

Esquadrão classe A: o seriado que se tornou uma febre nos anos 80

 

Esquadrão Classe A foi um dos seriados de maior sucesso em meados da década de 1980. No Brasil, passava no SBT e era um programa obrigatório para a garotada.
Em muitos sentidos, o Esquadrão era uma releitura dos Sete Samurais, filme clássico de Akira Kurossawa, no qual um grupo de samurais desempregados ajuda uma vila de agricultores atormentada por bandidos. Esse tema de heróis lidando com seus próprios problemas, mas encontrando tempo para ajudar pessoas necessitadas será a base de todos os episódios do seriado. Em todos eles, o grupo de soldados da fortuna é contratado por alguém com dificuldade com malfeitores.
Além da referência básica aos Sete Samurais, o Esquadrão trazia um contexto histórico. Veteranos da guerra do Vietnã, eles são condenados por um crime que não cometeram, conseguem fugir, mas têm sempre os militares em seus calcanhares.
O texto de abertura resumia bem o clima das histórias:
“Em 1972 uma unidade especial das forças armadas foi condenada no tribunal militar por um crime que não cometeu. Esses soldados logo conseguiram escapar da prisão de segurança máxima, se estabelecendo clandestinamente em Los angeles. Hoje, procurados pelo governo, eles sobrevivem como soldados da fortuna. Se você tem um problema, se ninguém pode ajudá-lo e se você puder achá-los, talvez você possa contratar o ESQUADRÃO CLASSE A”
A estrutura narrativa era quase sempre a mesma: fugindo dos militares, os heróis chegam em um local e se deparam com pessoas sendo oprimidas, seja por patrões cruéis, bandidos ou políticos. Comovidos, resolvem ajudar, mesmo sabendo que essa ajuda poderá fazer com que sejam finalmente pegos, o que quase acontecia, em todos os episódios.

A equipe era liderada pelo Coronel John Hannibal Smith (George Peppard), um líder nato, fanático por charutos. Bom ator, Hannibal costumava protagonizar o início dos únicos episódios em que a estrutura era um pouco diferente: nestes, alguém tentava contatar o grupo de soldados da fortuna, mas se deparava com alguém inconveniente, como um vendedor de cachorros quentes muito chato. Era o coronel. A maquiagem fazia com que mesmo os telespectadores mais assíduos fossem enganados, de modo que uma das diversões do seriado era tentar descobrir quem era Hannibal disfarçado. O nome do personagem é uma referência ao general cartaginês que quase destruiu o exército romano. Assim como o seu homônimo histórico, o líder da equipe é um grande estrategista e seus planos mirabolantes eram uma das atrações da série.  
Para concretizar seus planos, Hannibal conta com uma equipe bastante heterodoxa.

O Capitão H.M. Murdock é um especialista em pilotar qualquer tipo de aeronave, mas gastava a maior parte do tempo fazendo macacadas, conversando com a própria mão ou algo do gênero. Careteiro, Dwight Schultz, que interpretava o personagem, era um espécie de Jim Carrey da época e dava o toque humorístico ao seriado.

O tenente Templeton Cara-de-Pau , interpretado por Dirk Benedict, era o galã da série e o responsável por conseguir tudo necessário para colocar em ação os planos do Coronel. Com seu charme, ele conseguia tudo, mesmo que para isso precisasse trocar seus sapatos novos por uma bota de trabalhador.

Completando o grupo, havia o carismático Sargento Bosco Barracus ou B.A. (abreviação de Bad Attitude ou temperamento ruim), interpreado por Mr.T., um grosso de cabelos moicanos, mas que adorava leite, crianças e morria de medo de voar. Como em muitas missões era necessário embarcar num avião, ou num helicóptero, uma das atrações era tentar adivinhar que estratégia seria usada pelos outros para dopá-lo. Além disso, as brigas de B.A. com o Murdock criavam uma das grandes tensões do seriado, geralmente com resultados humorísticos. O personagem também era um gênio em mecânica e era essencial para colocar em prática os planos. Como a televisão da época não podia mostrar nada mais violento que algumas explosões e pessoas saltando, os roteiristas tinham que inventar geringonças, como uma máquina que atirava repolhos.
Mesmo com uma estrutura rígida e personagens estereotipados, o Esquadrão Classe A conseguia surpreender dar uma grande lição: é necessário ajudar os outros, deixando nossos interesses em segundo plano.

Pancadaria – por dentro do épico conflito Marvel vs DC

 

Todo fã de quadrinhos de super-heróis certamente conhece o embate entre as duas maiores editoras norte-americanas. Marvel e DC têm disputado o mercado do comics há décadas, com vitórias e derrotas para um lado e outro ao longo de todo esse tempo. A batalha entre essas duas gigantes é tão monumental quanto as batalhas de seus personagens. O livro Pancadaria, de autoria de Reed Tucker, da editora Fábrica 231 se desbruça sobre esse fenômeno.
Red Tucker é jornalista especializado em cultura pop, tendo trabalhado em várias publicações, como o New York Post, Esquire e USA Today. Ou seja: é um jornalista da área. Isso garante tanto uma linguagem agradável quanto um conhecimento adequado. Mais ainda: como bom jornalista, Tucker vai procurar causos interessantes, curiosidades dessa guerra – que tornam o livro extremamente divertido.
A DC foi a inventora do negócio. Os super-heróis surgiram com a publicação de Super-homem em Action Comics 1, em junho de 1938 (os donos pagaram apenas 130 dólares pelos direitos do personagem). Depois surgiram Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, todo um panteão de personagens. A trindade (Super-homem, Batman, Mulher Maravilha) sobreviveu até mesmo aos difícieis anos 1950, quando os quadrinhos foram acusados de provocar delinquência juvenil e muitas editoras fecharam suas portas.
Mas ser a primeira tem seus problemas. Na DC isso se refletiu na forma de conservadorismo. Os artistas iam trabalhar de terno e gravata e a tríade de editores dos anos 1960, Mort Weisinger, Julie Schwartz e Robert Kanigher se destacava pelo caráter abusivo. Weisinger ligava para o roteirista Jim Shotter, então com 13 anos, para chama-lo de idiota. Dizem que no funeral de Weisinger, em 1978, o rabino convidou os participantes a se levantar e discursar sobre as boas qualidades do falecido. Depois de um longo silêncio, alguém lá no fundo gritou: “O irmão dele era pior!”.
Enquanto no luxuoso prédio da DC imperava o conservadorismo, na discreta Marvel se operava uma revolução. A Marvel surgira pouco depois da DC publicando anti-heróis, como Namor e Tocha Humana e fora responsável pelo grande sucesso da guerra, o Capitão América. Mas assim que terminou o conflito, suas vendas caíram. No final dos anos 1950, a editora se resumia a uma sala e dois funcionários: o editor Stan Lee e uma secretária e se especializava em imitar qualquer coisa que estivesse fazendo sucesso em outra editora.
Stan Lee já estava para chutar o balde e partir para um emprego melhor quando resolveu fazer uma última tentativa. O dono da Marvel ordenara que ele fizesse uma cópia da Liga da Justiça, que estava fazendo sucesso na DC: “Ei, talvez ainda haja mercado para super-heróis. Por que não traz uma equipe como a Liga da Justiça? Podemos chama-la de Liga Correta ou algo do tipo”, disse Martin Goodman para Stan Lee.  
Mas, junto com Jack Kirby, Lee elaborou algo completamente diferente: o Quarteto Fantástico, publicado em agosto de 1961. Até então, a pequena editora nunca apresentara concorrência à DC. Mas Quarteto Fantástico mudou tudo. Era um quadrinho completamente diferente do que se fazia à época. Antes dele, os heróis de quadrinhos eram monodimensionais e, reflexo disso, todos falavam da mesma maneira. Tucker conta que era possível trocar os balões dos heróis da Liga da Justiça sem qualquer prejuízo para a história.  No Quarteto Fantástico, cada um tinha uma personalidade, um modo de falar e de encarar o mundo.
Se na DC os heróis pareciam muito felizes com seus poderes, no Quarteto, eles eram fontes de problemas, em especial para o monstruoso Coisa. E eles brigavam. Na primeira edição há pelo menos três pontos de conflitos entre os heróis. Na edição 2, a Mulher Invisível diz: “Nós vamos nos destruir se ficarmos pulando no pescoço um do outro!”.
Além disso, as histórias dos vários personagens faziam parte de um universo único, interconectado. Dizia-se que se estivesse trovoando em um gibi, estaria chovendo no outro. E, a cereja do bolo: a arte extremamente dinâmica de Jack Kirby, perfeita para as inúmeras cenas de luta.
O resultado disso é que logo as revistas da Marvel estavam superando as da Dc em percentual de vendas. Enquanto revistas como Super-homem vendiam 50% da tiragem, as da Marvel vendiam mais de 70%.
Os donos e editores da DC não se dignaram a ler as revistas para saber o que estava fazendo com que elas fossem especiais. Não podia ser as histórias, já que se imaginava que o público de quadrinho fossem crianças semi-alfabatizada. Também não podia ser a arte de Jack Kirby, muito “inferior” ao que se fazia na DC. A solução só poderia estar nas capas.
Reed Tucker conta os bastidores de uma hoje hilária reunião da DC em que os figurões da editora tentavam descobrir o que havia nas capas da Marvel que fazia as revistas venderem. Podiam ser o vermelho? As logos inúteis? Os balões prolixos? A arte “ruim” de Jack Kirby, que provocava uma associação com as crianças?
O resultado dessa cegueira nós conhecemos: a Marvel logo se tornou a maior editora de quadrinhos dos EUA. Por breves períodos a DC conseguiu suplantá-la. Tucker conta em detalhes essa saga, do início do gênero à explosão dos super-heróis no cinema. Isso numa linguagem divertida, fluída. Mal se percebe que o volume tem quase 300 páginas. 

Superman – as quatro estações

 

Um dos aspectos mais interessantes do personagem Superman é como ele tem sido objeto das abordagens mais diversas, o que mostra o quanto o herói é, na verdade, complexo. Superman – as quatro estações, de Jeph Loeb (roteiro), Tim Sale (desenhos) e Bjarne Hansen (cores) mostra um aspecto poucas vezes explorado no personagem: a do matuto garoto de interior, o ingênuo habitante da Smallville.

O belíssimo desenho de Tim Sale explora esse lado matuto de Clark Kent, retratando-o como um rapaz enorme com cara de criança. Essa dualidade entre a personalidade ingênua e o enorme poder é detalhado também pelo texto de Jeph Loeb, ao explorar o início da carreira do personagem, quando ele ainda estava descobrindo seus poderes, tinha muitas dúvidas e até medos.
Clark Kent é retratado como um matuto do interior. 


Como o próprio nome diz, a série é dividida em quatro capítulos, cada um ligado a uma estação e cada um narrado por um personagem: Jonathan Kent, o pai adotivo de Clark Kent narra a primavera, Lois Lane narra o verão, Lex Luthor o outono e Lana Lang o inverno.
Essa mudança de foco narrativo é interessante por mostrar o herói sob vários ângulos diferentes.
Nesse sentido provavelmente o capítulo de Lex Luthor é o mais interessante, já que é o ponto de vista de um vilão. É um capítulo sobre ciúmes, sobre como o homem de aço tirou de Luthor o protagonismo em Metrópolis e como este se vinga de forma muito sutil, antigindo o personagem em sua maior fraqueza. O capitulo ironicamente mostra o kriptoniano como alguém muito mais humano que o terrestre Luthor.
Os desenhos de Tim Sale são o grande destaque da HQ. 


Embora o roteiro seja todo certinho, é a arte que se destaca. Tim Sale não só é um desenhista incrível, como é um narrador soberbo, sabendo exatamente como intercalar sequências de vários quadrinhos com splah pages. Aliás, cada página é uma aula de como usar a diagramação como elemento narrativo.