sábado, dezembro 30, 2023

Galeão - um mistério para desvendar

 


Cássia Lima

Existem vários tipos de leituras, umas nos decepcionam no final. Outras são bem previsíveis. Ainda há aquelas que nos surpreendem. E é nesse ultimo estado que termino de ler O Galeão - Gian Danton
Depois de uma noite terrível de tempestade, o dia amanhece em um Galeão no meio do oceano atlântico. Um assassinato inicia a narrativa de maneira provocativa e instigante. Os tripulantes descobrem que estão perdidos no oceano. Passado, presente e futuro se misturam no romance. Flashbacks nos fazem conhecer o passado de personagens mais temer o seu futuro. A comida começa a ser racionada, alguém está cometendo assassinatos e parece que o destino de todos já está traçado. O Tesouro do capitão pode ser o motivo de tudo...
À medida que Gian Danton revela o passado dos personagens, ele nos provoca e instiga a atenção para as próximas páginas. Cada detalhe tem seu valor, lembranças podem ser fantasias e sonhos tornam-se realidade. A narrativa em flashbacks, além de aguçar a curiosidade nos prepara para o próximo acontecimento.
Cada revelação nos deixa extasiado, cada capítulo nos faz ver a história diante de nossos olhos, o suspense chega a ser doloroso para o leitor. A partir do capítulo 14 as palavras de Gian Danton não permitem que fechemos o livro.
O primeiro romance desse autor além de provocar a leitura, mexe com a nossa percepção de detalhes, nos deixa pensativos sobre o que cada pessoa preserva do seu passado, a riqueza da descrição nos deixa atônito, a mistura de tantas personalidades nos impressiona, e o casal...Bom, vocês só irão saber se lerem, não vou dar spoilers aqui.
Tolkien, criador do O Senhor dos Anéis escreveu sobre Um anel “Um Anel para a todos governar. Um anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los”.
Parafraseando Tolkien, a minha definição do Galeão é:
“Um passado para revelar, Um mistério para desvendar e Um tesouro para trazer e na escuridão aprisionar”.
Que reviravolta! Fim surpreendente.

Que horas ela volta?

 


A diretora brasileira Ana Muylaert parece ter uma predileção por histórias sobre pessoas com uma vida pacata que acaba sendo abalada e virada de ponta cabeça por um evento qualquer. Nós já vimos isso em Durval discos no qual o dono de uma loja de LPs tem o seu cotidiano impactado pelo surgimento de uma criança. 

O mesmo esquema pode ser observado em Que horas ela volta?, filme de 2015.

Na trama, Val é uma empregada doméstica que sai do nordeste em busca de melhores condições de vida. Depois de uma década inteira na casa de uma família de classe média alta, ela descobre que a filha está indo para São Paulo prestar vestibular. Como mora com os patrões, a única opção é abrigar a garota lá, o que gera toda a reviravolta da história. 

A chegada da garota abala a estrutura social da casa. Para começar, o patrão simpatiza com ela e permite que use o quarto de hóspedes. Esse pequeno fato vai provocando outros e outros, como uma bola de Neve. Um dos resultados é que Val começa a questionar sua condição social, demarcada por fatos simples, como não consumir o mesmo sorvete dos patrões ou não poder entrar na piscina. 

Que horas ela volta? é um filme que pode ser abordado sob os mais diversos aspectos: as relações de classe, o conflito de gerações, as crianças que são criadas por empregadas ou babás porque  suas mães estão muito ocupadas e até a invisibilidade social, a exemplo da cena em que Val serve canapés e é simplesmente ignorada por todos. 

A atuação de Regina Case tem sido muito elogiada e com razão. Ela incorpora a personagem com perfeição. Mas Camila Márdila tem uma atuação soberbada como a filha da empregada. As duas atrizes, inclusive, dividiram o prêmio Prêmio World Cinema Dramatic Especial Jury por sua atuação na película.

Um curiosidade para os fãs de quadrinhos: o personagem José Carlos, o pai de família, é interpretado por ninguém menos que Lourenço Mutarelli.

sexta-feira, dezembro 29, 2023

Fundo do baú - Space Ghost

 


Pode não parecer, mas Space Ghost foi a resposta da Hanna-Barbera ao sucesso do seriado do Batman de Adam West.

A Hanna-Barbera e a rede de televisão CBS tinham decidido criar um personagem de ficção científica para a programação. No final da discussão, chegaram a um nome: Space Ghost, mas não havia decisão sobre o uniforme. A ideia era fazer um personagem que tivesse o poder de se tornar invisível, daí o título, que pode ser traduzido como Fantasma Espacial.

Quando ainda estava sendo desenvolvido o uniforme, o produtor Freddie Silverman chegou com uma revista Time que mostrava na capa Adam West como Batman de Adam West e o Robin de Burt Ward. Ele queria algo naquele estilo. O responsável por criar o design da série era o lendário Alex Toth, que odiou a ideia. Afinal, a proposta era criar um personagem que se parecesse com um fantasma, portanto totalmente branco. Mesmo assim teve que colocar um capuz preto no personagem e dar-lhe uma capa. Para evitar que a cabeça se confundisse com o fundo preto nas cenas do espaço, a solução foi criar uma espécie de halo de energia em volta do personagem.

O personagem tinha dois ajudantes, o casal de irmãos Jan e Jace, que seguiam o visual de Robin. Completava o grupo um macaco, Blip. O curioso aí é que tanto os irmãos quanto o macaco usavam máscaras. Como o grupo só combatia ameaças de outros planetas, por que proteger suas identidades secretas? E por que um macaco precisaria usar uma máscara? Nada disso foi explicado, assim como a origem dos personagens. Mas o visual criado por Toth se tornou icônico e um dos mais bonitos do gênero super-heroiesco, o que em boa parte garantiu o sucesso da série entre os fãs.

Os roteiros não variavam muito além da ameaça da semana. No primeiro episódio, o grupo enfrentava um monstro feito de lava, em outro combatia um povo alienígena que capturava naves e vendia seus passageiros como escravos.  

O personagem surgiu em 1966 e teve duas temporadas com 42 episódios. Já na década de 1960 teve uma revista em quadrinhos publicada pela Gold Key. Posteriormente a Marvel e a DC fariam suas versões do herói.

Em 1994 o personagem voltou a ter uma série com o inusitado Space Ghost de Costa a Costa, no qual entrevistava personalidades. Alguns vilões da série original, como Zorak, apareciam como show como coadjuvantes.

Luke Cage e Punhos de ferro de Chris Claremont e John Byrne

  

Chris Claremont e John Byrne são conhecidos por todos os fãs dos X-men. A fase deles nos mutantes foi o momento mais importante dos personagens e transformou o título no mais vendido da Marvel. Mas a dupla tem também uma pequena, mas memorável passagem por um outro título, este sobre uma dupla: Luke Cage e Punhos de ferro. A ideia de juntar os dois títulos parece bizarra, mas fazia sentido como forma de salvar os dois heróis do ostracismo. Com o fim da moda do blaxploitation e de artes marciais, as vendas dos títulos solos haviam caído consideravelmente. A solução foi unir os dois heróis na revista Luke Cage 48 e 49 (no número 50 a revista mudaria de título para incluir os dois personagens) e ver se dava liga. Deu. 
A primeira história já dava o tom da série. 


Embora fossem personagens muito diferentes, tanto do ponto de vista de personalidade quanto de físico (Luke Cage era grandalhão enquanto Punhos de ferro era esguio) ou talvez por isso mesmo, eles formaram uma bela equipe juntamente com as garotas Misty Knight e Collen Wing. A primeira históira da dupla já dava o tom da série. Na splash page de abertura, Cage arromba uma porta para espanto de Collen Wing. Segue-se uma frenética perseguição pela casa, que se torna uma luta generalizada quando Misty Knight e Punhos de ferro chegam. Byrne sabia explorar as cenas de ação com sequencias bem elaboradas, trocas de ângulos, onomatopeias estrondosas. A sequência em que Luke recebe um soco de Punhos de ferro é realmente empolgante e tem o dinamismo de um Jack Kirby. Já Claremont sabia dar profundidade e motivação para os personagens mesmo no ápice da ação. Os artistas, assim como os personagens, conseguiam formar uma dupla perfeita. 
Byrne era ótimo nas sequências de ação. Claremont caprichava nos diálogos. 



Conforme se desenrola a história, descobrimos que Cage não se tornou maligno: um vilão sequestrou sua namorada e seu amigo cientista e o obrigou a sequestrar Misty Knight, o que fora a motivação da trama. No final, o quarteto consegue não só libertar os dois prisioneiros, como recuperam uma fita de vídeo que prova que Luke Cage é inocente da acusação de tráfico. A partir daí, Luke e Punho se tornam amigos e parceiros. No Brasil, as aventuras deles eram publicadas em Heróis da TV. Em tempo: os dois participaram de uma divertidíssima história do Demolidor de Frank Miller em que são contratados para protegerem Matt Murdock, mas são tapeados por ele o tempo todo.

Leitura e escola

 

A preocupação com a leitura parece cada vez mais urgente num país como o Brasil. Há tempos não se consegue formar uma geração de leitores, mas a situação parece ter piorado. A escola, que deveria ser a grande incentivadora da leitura, está provocando dois fenômenos preocupantes: o analfabetismo funcional e a fobia de livros. 

Os analfabetos funcionais são aqueles que frequentaram a escola mas, por falta de contato com a leitura e a escrita, foram perdendo a capacidade de compreensão do mundo das palavras. Luzia de Maria, no livro Leitura e colheita, conta que realizava uma oficina de leitura quando disse que um analfabeto funcional era aquele que não conseguia entender revistas como Veja, Isto e Época, e três professoras da plateia disseram: "eu". 
A fobia de livros é perfeitamente percebida quando se ouve alguém dizer que tem dor de cabeça quando começa a ler. É como se o organismo reagisse patologicamente a uma experiência traumática. 

Certa vez, eu lecionava um curso de histórias em quadrinhos para crianças da periferia de Belém e perguntei a elas qual era a diferença entre um gibi e um livro. Eu esperava que elas apontassem a ilustração como diferença, pois é possível publicar um livro sem desenhos, mas não é possível o mesmo com uma HQ. A resposta, dada por uma menina, surpreendeu-me: "O livro é chato; história em quadrinho é divertida". 

Na cabeça dela, o livro era algo lido por obrigação puramente escolar, sem nenhum prazer ou contato com a vida.

A grande pergunta que surge é: onde a escola errou? Por que, ao invés de despertar os alunos para a magia da leitura, ela os afastou dessa mesma magia? 

Esse desvio no caminho tem sua origem na noção de leitura que acompanha a maior parte da vida escolar. Nas escolas ainda predomina a visão do livro como objeto sagrado, típica da Idade Média. Nessa época, os escritos eram encadernados em couro, com ornamentação de metais preciosos. As Bíblias que existiam nas igrejas ficavam presas por correntes. O livro era um objeto caro, raro e distante.



Com a invenção da imprensa, surge aquilo que Marshall McLuhanchamou de "Galáxia Gutenberg". É inaugurado o pensamento linear e a visão cartesiana de mundo. 

É também a época das gramáticas normativas. Esses gramáticos viam na palavra escrita o lugar de acerto, de uma linguagem correta, a linguagem dos bons doutos. A linguagem oral, ao contrário, era o lugar do erro, do caos, da inconstância. Orientados pelo pensamento cartesiano, esses gramáticos se interessaram apenas pela ordem expressa da palavra escrita. 

Na escola, essa visão separou a fala e a escrita como ações contrárias, e os textos perderam contato com a vida real. Sua utilização na sala de aula privilegiava não o entendimento, não a atribuição de significado, mas a capacidade de decodificar os signos e de identificar classes gramaticais ou sintáticas. 

Assim, alfabetizado era aquele capaz de ler um texto em voz alta, ou tirar dele os substantivos, os verbos ou identificar as construções sintáticas. Pouco interessava se a pessoa estava conseguindo atribuir significado ao que lia.

Isso não faz parte de um passado remoto. Dia desses, meu filho trouxe um dever de caso que era a "interpretação" de um texto. A tal interpretação consistia apenas em descobrir encontros vocálicos no texto. Ou seja, a narrativa era apenas uma espécie refinada de tortura, com pouquíssima utilidade prática e sem nenhum significado. 

Rubem Alves diz que tem calafrios quando sabe que um de seus textos está sendo utilizado para isso. Enquanto escreve, nenhum escritor pensa em verbos, substantivos, ditongos, hiatos ou algo do gênero. 

Certa vez utilizaram um texto meu, sobre McLuhan, em um vestibular. Fui resolver as questões relacionadas ao meu texto e errei algumas. No texto eu explicava a teoria do filósofo canadense segundo a qual o homem inventou extensões de seu próprio corpo para melhorar seu desempenho. Uma das questões perguntava o que não era extensão do corpo humano. A resposta, segundo os elaboradores da prova, era roupa, porque eu não citava o vestuário em meu texto. Entretanto, uma compreensão correta do artigo levaria a identificar que o conceito era ampliável também para as roupas, afinal, elas são uma extensão da pele. O exemplo mostra que até a interpretação de um texto pode ser transformada em um ato mecânico, de retirar informações de um conjunto de palavras, sem a necessidade de entender seus conceitos. 

A falta de sentido desses exercícios é exemplificada num fato simples: gramática nenhuma jamais transformou alguém em escritor. Escrever é um ato criativo e pensar em hiatos e ditongos enquanto se escreve é provavelmente a melhor forma de se ter um bloqueio. 


Tenho um livro infantil, Os Gatos, publicado por uma editora de Curitiba. Na época a editora estava iniciando na área de literatura infantil e chamou um gramático para revisar os originais. A revisão tornou o texto totalmente incompreensível para uma criança e a editora foi obrigada a chamar uma professora de literatura infantil para refazer a revisão. Para o gramático, era mais importante que o livro fosse escrito nos moldes renascentistas da gramática normativa. Se haveria compreensão por parte da criança, pouco importava. 

Só existe uma maneira de tomar gosto pela leitura: lendo. Só existe uma forma de aprender a escrever bem: escrevendo. Nunca conheci um grande autor que não fosse um leitor voraz e um escritor compulsivo. 

Enquanto o texto for encarado apenas pelos seus aspectos gramaticais, enquanto a interpretação for a simples decodificação, sem a possibilidade de variedade de leituras ou de interpretação, a escola será sempre a criadora de analfabetos funcionais e de pessoas que têm dor de cabeça à simples visão de um livro.

A arte elegante de Al Moore


 
Al Moore foi um desenhista norte-americano especializado em ilustração publicitária. Ele ficou conhecido principalmente graças às suas pin-ups, com garotas realistas e elegantes. Ele fez capas para as revistas Saturday Evening Post e Collier's. Ele forneceu calendários para Esquire, Brown e Bigelow. Seus últimos trababalhos foram ilustrações para Pan Am e Olimpíadas dos EUA.











Red Sonja: o feiticeiro, a guerreira e o cosplay

 


Até 1974, Frank Thorne era um pouco conhecido desenhista de quadrinhos. Ele tinha feito algumas tiras, quadrinhos românticos e Korak, o filho de Tarzan, para a DC. Foi quando Roy Thomas o convidou para desenhar a heroina Sonja. A personagem, criada por Robert E. Howard, estava ganhando uma revista na esperança de conseguir o mesmo sucesso de Conan, o bárbaro.
Thorne não só adorou a revista, transformando-a em uma das mais vendidas da Marvel, como encontrou o estilo que o marcaria pelo resto da carreira, inclusive com material autoral, a exemplo de Ghita of Alizarr (uma guerreira ao estilo Sonja, mas com sexualidade e violência muito mais aflorada).
Thorne rodeado pelas várias Sonjas. 

Na verdade, o desenhista se envolveu tanto com a personagem que começou a participar de convenções vestido de mago, circundado por cinco garotas vestidas de Sonja, entre elas Wendy Pini, que viria a fazer a série de fantasia Elfquest.
Wendy Pini como Sonja

Em uma espécie de piada interna, Frank homenageou a si mesmo e às garotas em uma história publicada na revista The Savage Sword of Conan 29, (e republicada aqui na Espada Selvagem de Conan 62 da editora Abril).

Na HQ, um mago tenta conjurar a guerreira e acaba trazendo cinco delas. Incapaz de decidir quem é a verdadeira, ele testa uma a uma. A história vale tanto pela auto-referência quanto pela engenhosidade do roteiro... e, claro, vale mais ainda pelos belíssimos desenhos de Thorne, um especialista em desenhar mulheres.


Monstro do Pântano – A saga do rei Macaco

 

 

A segunda saga de Alan Moore no Monstro do Pântano, publicada em Swamp Thing 25, 26 e 27 , é uma verdadeira aula de roteiro para ser lida e relida. Na história, um casal compra um jogo de ouija e sem querer, invoca um demônio, o Rei Macaco, que mata os dois, mas toma o filho deles como mestre – a contragosto do garoto, que é internado em uma clínica para autistas severos. O demônio Etrigan vai ao local resolver a situação e punir o demônio fujão, mas o Monstro do Pântano e Abe também são envolvidos na trama e precisam salvar as crianças. Alan Moore conta que quando foi escrever essa história, andou pela casa como um corcunda se imaginando um demônio. 
Esse exercício de imersão pode ser percebido já na primeira página. Jason Blood chega de ônibus na rodoviária de Baton Rouge e o homem que estava sentado ao seu lado lhe entrega um cartão. “Sinto muito, sr. Price, mas não tenho o menor uso para seu cartão”. “Nunca se sabe”, responde o outro. “Eu sei. Sei que, doze anos atrás, saiu bêbado e bateu o carro. Você não se machucou e saiu andando, mas sua mulher anda só de cadeira de rodas até hoje. No momento você tem cinco namoradinhas e não se preocupa em escondê-las de sua esposa, mesmo sabendo o quanto isso a faz sofrer... e às 17h32 você será empalado por um peixe-espada. Então, como pode ver, seu cartão de nada me serviria”. 
É incrível como tendo escrito apenas uma história com Etrigan, Moore tenha captado o personagem melhor do que a maioria dos outros autores que o escreveram. Está tudo ali, incluindo o fato de que o demônio está ganhando a luta contra o humano e, como tal, não se nega o prazer de fazer algumas pequenas maldades.
Outro aspecto é como há uma unidade no texto, como se cada palavra fosse pensada como um um todo e não apenas para um quadro ou legenda. À certa altura, por exemplo, o Monstro do Pântano se pergunta: O que mais vem com o outono. Muitas páginas depois vem a resposta: o medo, é o medo que vem junto com o outono.

quinta-feira, dezembro 28, 2023

Psicopatas: fantasias assassinas

 

Personalidades psicopáticas costumam se caracterizar por uma grande necessidade de fantasias. Eles fantasiam tudo que vão fazer e têm prazer especial com o planejamento de seus crimes. A fantasia deve continuar depois do crime, razão pela qual muitos guardam lembranças de suas vítimas. Partes do corpo, objetos ou fotos ajudam o psicopata a rememorar os momentos do crime.
         Jeffrey Dahmmer tirava fotos de seus assassinatos.
         Na ficção, em um dos episódios de Arquivo X, o psicopata recolhia objetos das vítimas que pretendia matar. No livro Insônia, Stephen King fala de uma espécie de psicopata fantasma, que tinha uma casa cheia de recordações de suas vítimas.
         É também muito comum em psicopatas históricos de momentos de solidão, em alguns casos por iniciativa própria, em outros uma solidão forçada, em que os psicopatas se divertiam fantasiando sobre seus futuros crimes.
         Big Ed, por exemplo, era trancado no porão por sua mãe, que temia que ele molestasse as irmãs, e passava os dias fantasiando.
         Essas fantasias geralmente são fantasias de controle. Como diz Hannibal no filme Silêncio dos Inocentes, o assassinato é só uma consequência, algo fortuito. O assassinato serve ao propósito da fantasia de controle, tanto que muitos só matam suas vítimas quando percebem que não podem mais brincar com elas seu jogo de controle. Outros matam porque não se sentem totalmente no controle enquanto o outro não estiver morto.
         Psicopatas comunitários têm fantasias nas quais são grandes políticos, empresários, artistas, pessoas de sucesso, e trazem essa fantasia para a realidade, como Marcelo Nascimento da Rocha, que fingia ser policial.


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Hulk contra as hordas do General Fang

 


No número 5 da revista The Incredible Hulk fica claro que Stan Lee e Jack Kirby ainda não sabiam o que fazer com o personagem.

A revista trazia duas histórias, as duas com versões muito diferentes do golias esmeralda que conhecemos atualmente.

Na primeira, um tal de Tiranus foi banido ao interior da terra por Merlim e lá encontrou uma legião de seres dispostos a servi-lo de todas as formas possíveis. É curioso como o interior da Terra era movimentado nessa época e como sempre havia seres dispostos a se transformarem em escravos de qualquer um que aparecesse por lá. O Toupeira que o diga.

O Hulk dessa época era falador e sabia usar armas. 


Aparentemente, a única coisa entre Tiranus e o domínio do mundo é o arsenal atômico dos EUA e para neutralizar isso, ele pega Betty Ross como refém. Aparentemente, ele só queria conquistar os EUA, já que não se preocupava com o arsenal atômico russo. Além disso, uma única refém seria o suficiente para que o governo dos EUA entregarem o país nas mãos de alguém chamado Tiranus?

Rick Jones e Hulk vão ao seu encalço, mas o Hulk é neutralizado pelo seu amor por Betty Ross, sendo transformando em prisioneiro e até escravo. Hoje em dia isso parece no mínimo estranho.

Mas o mais espantoso é a aventura seguinte, As ordas do general Fang!

A aventura é uma nítida referência à tomada do Tibet pela China. O Lama é avisado de que o exército chinês está se aproximando, chefiado pelo impiedoso general fang e pede ajuda internacional.

Só quem vai em seu socorro é Bruce Banner.

O general Fang era fanho? 



E aí começam os problemas. Nas primeiras histórias, Banner se transformava em Hulk durante a noite. Nesta história, sem nenhuma explicação anterior, ele começa a se transformar usando um aparelho acionado pelos pés. Além disso, o Hulk que emerge é inteligente, a ponto de ler livros e fazer estratégias (a estratégia criada por ele é se disfarçar de abominável homem das neves (Ok, talvez isso não seja uma estratégia muito inteligente). Além disso, o personagem resolve viajar até o local e ao invés de se transformar novamente em Bruce Banner, faz isso como o Hulk, o que gera o maior confusão no avião, cujo final não é mostrado.

Disfarçar-se de Abominável Homens das Neves. Que ideia, genial, Hulk! 


Além disso, não havia um modo de falar característico do personagem. Na verdade, seu jeito de falar era muito parecido com o do Coisa: “Chegamos em Formosa! Vou parar um pouco para recuperar o fôlego! No próximo salto, chegaremos na China vermelha! Você ainda está aí, pivete?”.

A revista mostra que Kirby e Lee estavam tateando, tentando encontar o tom e as características do personagem. Apesar disso, o clima divertido, que não se levava muito a sério, faz com que seja ainda hoje um prazer ler a história.

Coisas Frágeis, de Neil Gaiman

 


A única coisa ruim em Coisas Frágeis (Conrad, 2008, 208 págs.), o novo livro de Neil Gaiman, é a rapidez com que ele acaba. Eu o havia levado a uma viagem a um sítio na Ilha do Marajó, um local a dezenas de quilômetros da livraria mais próxima. Devorei o livro em dois dias e fiquei sem ter o que ler.
O britânico Neil Gaiman ficou famoso por seus roteiros de quadrinhos, especialmente para o personagem Sandman, e ajudou a elevar os comics a um novo patamar artístico e literário. Foi sua geração que fez com que os roteiristas fossem finalmente respeitados no mercado americano.
Depois do sucesso dos quadrinhos, Gaiman enveredou pela literatura fantástica com Stardust e Lugar Nenhum, entre outras obras. Lugar Nenhum, aliás, é um ótimo exemplo de como escrever uma história fantástica apreciável até mesmo por quem não é fã do gênero. Stardust fez tanto sucesso que acabou sendo transposto para o cinema. Mas, apesar de ser muito competente em romances, é nos contos que Gaiman se sente mais à vontade. Mesmo em Sandman, os melhores momentos sempre foram as histórias curtas, como em "Calliope", "Sonhos de uma noite de verão" e "Um sonho de mil gatos".
Em Coisas Frágeis, portanto, Gaiman está em seu elemento. O livro é composto por nove contos, escritos com objetivos diversos. Em comum à maioria deles, o tom de homenagem. A obra é dedicada a Ray Bradbury, Harlan Ellison e Robert Scheckley. Ray Bradbury notabilizou-se por trazer a poesia para a ficção científica. "A Vez de Outubro", segundo conto da coletânea, tem influência óbvia desse autor norte-americano. O texto inicial parece ter sido tirado de um dos textos de Bradbury: "Era a vez de outubro, por isso fazia frio naquela noite, e as folhas estavam vermelhas e alaranjadas e caíam das árvores que circundavam a clareira". Na história, os meses do ano se reúnem ao redor de uma fogueira, comendo lingüiças assadas e bebendo sidra. A estrutura pessoas reunidas para contar histórias é um verdadeiro fetiche para Gaiman, que já a usou diversas vezes em Sandman.
"A Vez de Outubro" foi escrito num encontro com Harlan Ellison em uma convenção. Os dois se trancaram num quarto de hotel, Gaiman com seu laptop e Ellison com sua máquina de escrever, para produzir algo juntos. Como Ellison precisava terminar uma introdução, Gaiman iniciou esse conto. Ao mostrá-lo ao amigo, este respondeu: "Não, parece uma história de Neil Gaiman". E o texto, incompleto, foi arquivado. Anos depois, Peter Straub convidou Gaiman a participar da coletânea Conjunctions e ele se lembrou dessa história curta sobre um garoto morto e outro vivo. "Levei algum tempo para entender como realmente seria a história e, quando terminei, dediquei-a a Ray Bradbury, que a teria escrito muito melhor do que eu", escreveu o autor, na introdução do livro. Modéstia em excesso. O conto parece uma deliciosa mistura de Gaiman com Bradbury, e é um dos pontos altos do livro.
"Um Estudo em Esmeralda" surgiu de um pedido de Michael Reaves, que estava editando uma coletânea intitulada Shadows Over Baker Street. O organizador queria um texto que juntasse Sherlock Holmes com Lovecraft. Gaiman viu-se em apuros. Afinal, Lovecraft lidava com o irracional, a loucura, enquanto Conan Doyle apreciava a racionalidade em suas histórias. Apesar da incongruência de estilos, Gaiman fez um bom trabalho, tanto que acabou ganhando o prêmio Hugo, um dos mais prestigiados da ficção científica. Foi a partir desse conto que o autor se tornou membro do Baker Street Irregulars, um grupo de entusiastas de Sherlock Holmes fundado em 1934 por Christopher Morley e que já teve em seus quadros gente famosa, como Franklin D. Roosevelt e Isaac Assimov.
Gaiman se saiu bem imitando Conan Doyle. Em "Um Estudo em Esmeralda" aparecem todos os elementos que fizeram o sucesso de Sherlock Holmes, acrescidos de uma atmosfera steampunk e de pequenos textos que parodiam anúncios do século XIX ao mesmo tempo em que homenageiam obras famosas, como em "E agora, o Doutor Henry Jekyll orgulhosamente anuncia o lançamento dos mundialmente renomados 'Pós de Jekyll' para consumo popular. Não mais um privilégio para poucos. Liberte o seu Eu Interior!".
"Lembranças e Tesouros" destoa do restante da coletânea. No meio de tantos textos poéticos, a narrativa noir desse conto é quase como um soco no estômago. Ainda assim, é um bom conto. Escrito originalmente como história em quadrinhos para a coletânea It's dark in London, de Oscar Zarate, mas acabou virando um conto. Apesar da narrativa à la Dashiell Hammett, o conto remete a Jorge Luis Borges, uma outra grande influência de Gaiman. A história do povo cujos homens são o extremo da beleza poderia muito bem ter saído de um dos livros do autor argentino.
Um dos pontos altos de Coisas Frágeis é "Golias", um conto escrito para o site de Matrix, explorando o universo da série. Gaiman leu o roteiro do primeiro filme, antes que ele fosse lançado no cinema e escreveu essa narrativa. Nela, a Terra está sendo atacada por uma forma de vida alienígena e a única forma de salvar o planeta é despertando um dos humanos escravizados pela Matrix. Gaiman brinca com a idéia de tempo psicológico, fazendo uma história que, surpreendentemente, tem final feliz. Mesmo que uma felicidade virtual. "Golias" tem o mesmo nível do primeiro filme e é superior aos outros dois da trilogia.
"O Pássaro-do-Sol" tem jeito de deliciosa sobremesa. É um conto sobre um grupo de pessoas, o Clube Epicuriano, que dedica sua vida a experimentar pratos inusitados. Foi escrito como presente de aniversário para a filha de Gaiman, quando ela fazia 18 anos. Ele pretendia imitar o estilo de R. A. Lafferty. "Suas histórias eram incríveis, estranhas e inimitáveis ― logo na primeira frase, você já sabia que estava lendo um conto de Lafferty". O resultado foi um conto saboroso e diferente. Seria perfeito para fechar o livro.
Infelizmente, essa honra coube ao texto mais fraco da coletânea. "O Monarca do Vale" foi escrito no espírito de Beowulf, filme que Gaiman roteirizou em conjunto com Roger Avary. O resultado, apesar da boa influência, é um conto arrastado e previsível que nem de longe mantém a mesma poesia dos outros da coletânea. Ainda assim, é um bom texto, o que garante a leitura até o final.
Coisas frágeis mostra bem por que Neil Gaiman está se tornando um autor cada vez mais conhecido, mesmo por aqueles que não leram seus quadrinhos na década de 1990. A Conrad fez um bom trabalho de edição. Só não leve apenas ele para ler nas férias. Vai acabar nos primeiros dias.
Em tempo: a razão para o livro ser tão curto é que a Conrad o dividiu em dois volumes no Brasil.

As loucuras de Dick e Jane

 

Empresas que entram em falência devido a golpes por parte de seus proprietários e contabilidades criativas não são novidade. Recentemente no Brasil tivemos os exemplos das Americanas e da 123 Milhas. Nesses casos, o foco da mídia geralmente está nos clientes, mas o que acontece com os funcionários dessas empresas? O filme As loucuras de Dick e Jane, filme de 2005 dirigido por Dean Parisot se debruça sobre esse lado da história.

Na trama, Jim Carrey é Dick Harper um executivo repentinamente alçado ao cargo de vice-presidente de comunicação de uma grande corporação. Mas a promoção na verdade é uma armadilha. O primeiro trabalho de Dick na nova função é conceder uma entrevista a um programa de economia e isso acontece exatamente quando explode o escândalo da empresa.

Dick não só perde o emprego. Ele fica marcado com o homem que deu uma entrevista tentando defender uma empresa no exato momento em que ela entrava em falência. Além disso, ele e a esposa colocaram todas as economias em ações da empresa, que, claro, passaram a não valer nada depois do escândalo.

O filme acompanha as “loucuras” do casal na tentiva de sobreviver: primeiro vendendo o carros e todos os móveis e eletros da casa, depois tentando empregos de baixo salário. Dick chega a ser confundido com um imigrante ilegal e deportado para o México.

A sinopse acima poderia dar a entender que se trata de um dramalhão, mas o que temos aqui é exatamente o oposto. Tudo é contado num ritmo bem humorado e divertido. O clima de humor é destacado pela atuação de Carrey, que chega a ser exagerado em determinados pontos, mas nada que comprometa o resultado final. Destaque para a longa sequência em que o casal tenta implementar um assalto, sempre de maneira mais desastrada possível.

Curiosamente, a primeira vez que assisti, peguei no final apoteótico, em que o casal elabora um plano para roubar o dinheiro desviado pelo executivo, como forma de vingança. Estava passando em um restaurante e gostei muito, mas não sabia sequer o título (lembem-se: eu peguei o filme pelo final). Só muito recentemente ele apareceu para mim na Netflix e consegui assistir inteiro. Não me arrependi. O restante é tão bom quanto o final.

Pequeno pirata

 

Uma das lendas mais famosas – e mais exploradas – do mundo é a do navio fantasma, com seus piratas incapazes de morrer vagando pelo mundo e cometendo atrocidades. O autor francês David B., no entanto, apresenta uma visão diferenciada sobre esse tema tão explorado. Na história, os piratas encontram, perdido no mar, um bebê e resolvem criá-lo, o que muda completamente toda a rotina do navio e revela um lado sentimental inesperado nos bucaneiros. David B tem um estilo alternativo, com traços simples e muitas sombras, mas repleto de detalhes que encaixa muito bem na trama adaptada de um livro de Pierre Mac orlan. As sequências iniciais, com os piratas, reduzidos a esqueletos, mas incapazes de morrer, tentando sobreviver a uma rotina entediante e fazendo tentativas de alcançar a morte são uma atração a parte. Nada adianta. Recifes se afastam deles, monstros não conseguem pegá-los por causa de ondas gigantes e navios modernos simplesmente explodem antes de destruí-los. O que resta de diversão é invadir navios e roubar tesouros, que depois são simplesmente abandonados no fundo do mar.

quarta-feira, dezembro 27, 2023

Superman e Batman – A brigada da vingança

 

Hoje em dia é difícil imaginar uma história em que vilões criam um fã clube para o Batman e o Homem de aço, mas esse tipo de história era comum na era de prata da DC e de fato isso aconteceu em Word´s finest 175.


O fã-clube de Batman é formado por bandidos que foram presos por ele. 

Na história, com desenhos de Neal Adams em início de carreira, os dois heróis fazem um duelo de sagacidade em que um desafia o outro. Parece que durante um dia todos os perigos em Gothan e Metrópolis tiravam férias enquanto Batman e o Super-homem desafiavam um ao outro em provas como não morrer sufocado numa sala fechada na qual entra gás ou descobrir qual dos objetos num navio é uma bomba atômica prestes a explodir.

Os dois heróis passam um dia envolvidos num duelo sagacidade. 


E  os fã clubes? O do Batmam é composto de bandidos comuns que resolvem montar uma associação em que todos vestem versões distorcidas do uniforme do morcego. Já o do homem de aço eram de vilões espaciais, todos curiosamente carecas, que também vestiam versões distorcidas do uniforme do herói.

E cada fã clube torce pelo seu herói odiado. A razão é que os prêmios foram sabotados e agora incluem bombas (a do super também inclui kriptonita). Então, quem ganhar o desafio, morre, o que nos leva à situação inusitada de ver bandidos de Gothan torcendo pelo cavaleiro das trevas, por exemplo.

Os vilões torcem por seus respectivos heróis enquanto o Super-homem aciona uma bomba atômica. Mais um dia comum em Metrópolis. 


Essa é uma história bizarra e ingênua típica dos anos 50-60 na DC, mas que, apesar de todas as bizarrices e do ritmo lento (especialmente em comparação com as histórias repletas de ação da Marvel), tinham um charme todo especial.

No Brasil essa história foi publicada pela Ebal em Batman & Super-Homem (Invictus) 3ª Série, número 30.