terça-feira, março 23, 2010

Não sou um mero corretor

Recentemente tive uma experiência lamentável. Há cerca de três meses, duas alunas de um curso de especialização me procuraram pedindo para orientar seus TCCs. Aceitei e me espantei ao receber dois trabalhos prontos. Em um deles identifiquei imediatamente que um capítulo era plágio. Além disso havia referências em inglês, francês e espanhol. Até mesmo de um jornal de marketing da Inglaterra a qual a aluna dificilmente teria acesso. Na verdade, toda a bibliografia era plágio. Orientei a aluna para que retirasse os plágios e, o que deixasse de citações de citações, usasse apud. Também orientei para que ela tirasse da bibliografia todos os livros que não havia lido. 
A outra não me pareceu plágio, até porque não era um bom texto. Havia frases incompreensíveis, como "O marketing trabalha com a necessidade de privação". Ninguém tem necessidade de ser privado das coisas que deseja. Depois de grande trabalho, pedindo para modificar frases e mais frases, consegui chegar a algo que pudesse ser entregue, desde que fossem feitas mais algumas mudanças. 
As duas entregaram e o coordenador de pós identificou plágio nos dois trabalhos. Mesmo aquele que eu achava que não era plágio, era. Na verdade, era uma colcha de retalhos. Muitas vezes a parte de um autor terminava no meio de uma frase e se continuava com outro autor, razão pela qual havia tantas frase desconexas. 
Entrei em contato com essa aluna, explicando que tínhamos que repensar o trabalho. A resposta, irada, me espantou: a aluna colocava a culpa em mim. Dizia que não fui um orientador, já que peguei o trabalho pronto. Eu havia sido um "mero corretor, e incompetente, pois não havia sido capaz de identificar os plágios dela". Dizia-se inclusive vítima, pois havia gastado dinheiro com a encadernação. 
A outra entregou a mesma monografia plagiada que eu já havia identificado, inclusive com as referências em inglês. Apostou provavelmente que nem eu nem o coordenador leríamos. 
Bem, eu não sou um mero corretor (na verdade, a aluna usou a palavra "corregedor" SIC) e o caso me mostrou algo essencial: nenhum orientador sério aceita orientar monografia pronta. Orientação deve ser feita passo a passo, página a página, desde a construção do projeto de pesquisa até a escrita da monografia. Portanto, se tiver uma monografia pronta, não me mande, até porque, se você conseguiu fazer tudo sozinho, não precisa de orientador.
A gente aprende com tudo. 

8 comentários:

Jorge Monteiro - Amazonia - Brasil disse...

Professor,Izan! Lamentável e engraçado. O Sr passar por vilão e corregedor foi ótimo.Se elas lhe conhecessem concerteza teriam vergonha de pedir a orientação.
Não entendi esta frase: "Orientei a aluna para que retirasse os plágios e, o que deixasse de citações de citações, usasse apud." Apud?

Gian Danton/Ivan Carlo disse...

Oi Jorge,
apud significa "citado por". Você usa quando pega uma citação de segunda mão. Então, se quisesse deixar alguma das citações do texto original, deveria usar o apud.

Narcélio Filho disse...

EÇE EH O FOTURO DO NOÇO PAÍZ!!!!!11

Anónimo disse...

Thank´s!

Michael Alberto disse...

É meu caro Ivan, é mais fácil culpar o do lado que reconhecer nossos próprios erros. Parabéns as alunas, serão ótimas profissionais.

Guilherme E Silveira disse...

O pior é que muitos desses vão terminar a faculdade e partir para alguma especialização ou até mestrado, e, sem a experiência de pesquisa no Tcc, vão continuar fazendo plágios... uma pena...

Enoch disse...

Já vi de perto muita coisa parecida...

E realmente, a idéia que se tem é que ninguém vai ler um TCC de pós-graduação lato sensu.

Anónimo disse...

Pessoas desse tipo (não as considero alunas porque um aluno de verdade não se comporta conforme o relato) são as primeiras a condenar os políticos, chamando-os de corruptos.
Claro, elas tomam por base o seu próprio comportamento.