quarta-feira, agosto 05, 2026

Ken Parker: Ranchero

 


No número 14 da série Ken Parker, o roteirista Giancarlo Berardi demonstra tamanha familiaridade com o personagem que se permite inovações narrativas audaciosas. Isso já se percebe no título da história, formatado como um autêntico anúncio de venda de terras da época. O texto prometia "o melhor que o Onipotente pôs à disposição do homem" e um local perfeito para prosperar com a família e o gado, conclamando o leitor a se tornar, enfim, um RANCHEIRO.

Inovação: uma página de quadrinhos no formato de anúncio. 


Nesta fase, o protagonista viaja pelo Velho Oeste acompanhado de Pat O'Shane, a menina espevitada que decidira se tornar fazendeira. Ao encontrarem o que parece ser a fazenda dos sonhos, os dois salvam o corretor de um ataque — aplicando uma surra no agressor. Em gratidão, o homem vende o local por apenas 15 mil dólares, aceitando 5 mil de entrada (toda a economia de Pat) e parcelando o restante.

Parker salva um suposto agente imobiliário, mas é tudo um golpe. 


Parece bom demais para ser verdade — e, de fato, é. Ao tentarem oficializar a compra na cidade, Pat e Ken descobrem que foram vítimas de um golpista profissional que sobrevive vendendo propriedades alheias.

É nesse ponto que a história ganha seu fôlego real: o verdadeiro corretor oferece a Parker a chance de recuperar o dinheiro lutando boxe, e Pat assume o papel de sua treinadora. A dinâmica entre os dois é o ponto alto da edição; a menina é uma figura cativante que faz um par perfeito com o temperamento de Ken.

Para resolver a situação, Ken Parker precisa lutar boxe. 


As cenas do treinamento são memoráveis: Pat compra um galo para garantir que Ken acorde pontualmente e prepara um café da manhã digno de um batalhão. "O manual é muito claro a respeito", garante ela, citando um guia de boxe, para só depois descobrir que a lista de alimentos deveria ser servida ao longo do tempo, e não de uma só vez.

Pat tem métodos estranhos de treinamento. 


Embora o tom seja predominantemente de humor e companheirismo, o final é amargo e realista. Berardi utiliza o desfecho para mostrar que, na vida real, os vilões e os corruptos muitas vezes saem impunes. Ken Parker não era apenas uma série inovadora em sua forma; era, sobretudo, uma obra de profunda crítica social.

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