No número 14
da série Ken Parker, o roteirista Giancarlo Berardi demonstra
tamanha familiaridade com o personagem que se permite inovações narrativas
audaciosas. Isso já se percebe no título da história, formatado como um
autêntico anúncio de venda de terras da época. O texto prometia "o melhor
que o Onipotente pôs à disposição do homem" e um local perfeito para
prosperar com a família e o gado, conclamando o leitor a se tornar, enfim, um RANCHEIRO.

Inovação: uma página de quadrinhos no formato de anúncio.
Nesta fase,
o protagonista viaja pelo Velho Oeste acompanhado de Pat O'Shane, a menina
espevitada que decidira se tornar fazendeira. Ao encontrarem o que parece ser a
fazenda dos sonhos, os dois salvam o corretor de um ataque — aplicando uma
surra no agressor. Em gratidão, o homem vende o local por apenas 15 mil
dólares, aceitando 5 mil de entrada (toda a economia de Pat) e parcelando o
restante.

Parker salva um suposto agente imobiliário, mas é tudo um golpe.
Parece bom
demais para ser verdade — e, de fato, é. Ao tentarem oficializar a compra na
cidade, Pat e Ken descobrem que foram vítimas de um golpista profissional que
sobrevive vendendo propriedades alheias.
É nesse
ponto que a história ganha seu fôlego real: o verdadeiro corretor oferece a
Parker a chance de recuperar o dinheiro lutando boxe, e Pat assume o papel de
sua treinadora. A dinâmica entre os dois é o ponto alto da edição; a menina é
uma figura cativante que faz um par perfeito com o temperamento de Ken.

Para resolver a situação, Ken Parker precisa lutar boxe.
As cenas do
treinamento são memoráveis: Pat compra um galo para garantir que Ken acorde
pontualmente e prepara um café da manhã digno de um batalhão. "O manual é
muito claro a respeito", garante ela, citando um guia de boxe, para só
depois descobrir que a lista de alimentos deveria ser servida ao longo do
tempo, e não de uma só vez.

Pat tem métodos estranhos de treinamento.
Embora o tom
seja predominantemente de humor e companheirismo, o final é amargo e realista.
Berardi utiliza o desfecho para mostrar que, na vida real, os vilões e os
corruptos muitas vezes saem impunes. Ken Parker não era apenas uma série
inovadora em sua forma; era, sobretudo, uma obra de profunda crítica social.

Sem comentários:
Enviar um comentário