Miracleman, de Alan Moore, foi revolucionário em muitos aspectos.
Mostrou uma visão realista dos super-heróis, introduziu a metalinguagem no
título (todas as histórias da fase clássica eram “sonhos induzidos” do
personagem) etc...) e foi também a primeira história em quadrinhos de
super-heróis a mostrar um parto. Não que crianças não nascessem nos quadrinhos
(vide o filho de Red e Sue, do Quarteto Fantástico), mas a história sempre
pulava para o momento em que a criança já tinha nascido. Moore mostra o
processo do parto nos mínimos detalhes no número 9 da revista.

As referências ao nascimento de Jesus são óbvias.
Nas histórias anteriores, a esposa de Miracleman tinha sido
sequestrada pelo vilão Gargunza, que pretendia passar sua consciência para o
bebê. A mulher, que havia sido sedada,
acorda tempos depois, quando Mike Moran conseguiu voltar a ser Miracleman e
provocou uma matança generalizada.
Quando ela vê seu esposo pela primeira vez, a imagem o
representa com uma aura de luz que forma uma cruz. A metáfora é óbvia. Mais do
que um super-herói, Miracleman é deus. A imagem, acrescida ao título (Cenas da
natividade) fazem um paralelo com o nascimento de Jesus. A mulher insiste que
não quer ter o filho ali e o herói a transporta em um caminhão para um local
deserto, como Jesus, que nasceu numa manjedoura.

Como José, Miracleman leva a esposa para o local do nascimento.
As imagens mostravam em detalhes o nascimento – o que na
época provocou um escândalo - enquanto o texto fazia um paralelo com o projeto
de Gargunza:
“A cabeça emerge do tamanho de um punho, meus olhos não
captam o fato: uma cabeça se projeta de dentro dela. Parece tão hedionda, bela,
absurda, surpreendente. Mas é claro, é claro. Isto. Esta perfeição é o que veio
de todo o caos e a loucura. Todas as mentiras que você teceu ao meu redor
resultaram nessa única verdade. Todos os pesadelos que você me forneceu foram
destilados... neste único sonho”.

Um parto nunca havia sido mostrado nos quadrinhos de super-heróis.
Essa história ficou inédita no Brasil durante anos. A
editora Tanos tinha publicado a história até o sequestro, sem mostrar a
conclusão. Na primeira vez que fui a São Paulo, ao visitar o estúdio de Franco
de Rosa, vi uma prova de gráfica da capa da edição que mostraria o nascimento,
com Miracleman segurando a filha no colo. Infelizmente os primeiros números
tinham vendido muito pouco e não foi possível publicar essa edição do
nascimento (essa era uma época em que Alan Moore dava prejuízo nas bancas). Apesar
de só ter visto a capa, aquela imagem me marcou. Passei anos imaginando como
seria o enredo. Precisei esperar 20 anos
para que a HQ fosse publicada pela Panini.

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