sábado, agosto 01, 2026

Miracleman – Cenas de Natividade

 


Miracleman, de Alan Moore, foi revolucionário em muitos aspectos. Mostrou uma visão realista dos super-heróis, introduziu a metalinguagem no título (todas as histórias da fase clássica eram “sonhos induzidos” do personagem) etc...) e foi também a primeira história em quadrinhos de super-heróis a mostrar um parto. Não que crianças não nascessem nos quadrinhos (vide o filho de Red e Sue, do Quarteto Fantástico), mas a história sempre pulava para o momento em que a criança já tinha nascido. Moore mostra o processo do parto nos mínimos detalhes no número 9 da revista.

As referências ao nascimento de Jesus são óbvias. 


Nas histórias anteriores, a esposa de Miracleman tinha sido sequestrada pelo vilão Gargunza, que pretendia passar sua consciência para o bebê.  A mulher, que havia sido sedada, acorda tempos depois, quando Mike Moran conseguiu voltar a ser Miracleman e provocou uma matança generalizada.

Quando ela vê seu esposo pela primeira vez, a imagem o representa com uma aura de luz que forma uma cruz. A metáfora é óbvia. Mais do que um super-herói, Miracleman é deus. A imagem, acrescida ao título (Cenas da natividade) fazem um paralelo com o nascimento de Jesus. A mulher insiste que não quer ter o filho ali e o herói a transporta em um caminhão para um local deserto, como Jesus, que nasceu numa manjedoura.

Como José, Miracleman leva a esposa para o local do nascimento. 


As imagens mostravam em detalhes o nascimento – o que na época provocou um escândalo - enquanto o texto fazia um paralelo com o projeto de Gargunza:

“A cabeça emerge do tamanho de um punho, meus olhos não captam o fato: uma cabeça se projeta de dentro dela. Parece tão hedionda, bela, absurda, surpreendente. Mas é claro, é claro. Isto. Esta perfeição é o que veio de todo o caos e a loucura. Todas as mentiras que você teceu ao meu redor resultaram nessa única verdade. Todos os pesadelos que você me forneceu foram destilados... neste único sonho”.  

Um parto nunca havia sido mostrado nos quadrinhos de super-heróis. 


Essa história ficou inédita no Brasil durante anos. A editora Tanos tinha publicado a história até o sequestro, sem mostrar a conclusão. Na primeira vez que fui a São Paulo, ao visitar o estúdio de Franco de Rosa, vi uma prova de gráfica da capa da edição que mostraria o nascimento, com Miracleman segurando a filha no colo. Infelizmente os primeiros números tinham vendido muito pouco e não foi possível publicar essa edição do nascimento (essa era uma época em que Alan Moore dava prejuízo nas bancas). Apesar de só ter visto a capa, aquela imagem me marcou. Passei anos imaginando como seria o enredo. Precisei esperar 20 anos  para que a HQ fosse publicada pela Panini.

Sem comentários: