segunda-feira, setembro 07, 2020

Pérolas do vestibular


Volta às aulas é tempo de lembrar que nem sempre ensino é sinônimo de instrução. Prova disso são os recentes acontecimentos envolvendo analfabetos que conseguiram passar em vestibulares (incluindo um que ficou como nono colocado no processo seletivo da Estácio de Sá para o curso de Direito) demonstraram a importância da redação em qualquer processo seletivo.
Apesar do caráter subjetivo, é a redação que serve de crivo, selecionando os candidatos que realmente têm condições de fazer um curso superior. 
Eu fui corretor de redações durante anos numa faculdade particular. Durante esse tempo eu coletei diversos exemplos de pérolas.  Algumas delas são apenas engraçadas, mas outras se aproximam muito do analfabetismo e, se não fosse a obrigatoriedade da redação, seus autores poderiam ser selecionados. 

A grafia está exatamente como no original. 

Eis as pérolas: 

"Em que nível chegamos? Num oltidor da ipocrisía, sabia-se há pouco tempo que o homem era a única espécie racista, nos enganamos, pois existem animais que bem treinados chegam ao ponto cume do racismo"

"Desde a Grécia o esporte é arriscado; ao perderem os jogos os competidores eram jogados aos leões"

"A sua reação foi o que todos esperavam, calei a boca e sair. Mais com a ajuda o meu irmão, que, falou a ele para procurar os seus direitos como um cidadã. Eles foram a uma defensoria pública e fizeram uma dênuncia, onde ele é um cidadã como complidor os seus direitos"

"Senhor ministro, tendo em vista sua grande altitude em censurar programas de televisões, devendo ter tido pelo almenos o respeito por nos o povo"

"As cenas exaustas como sexo, beijo na boca, violência e brigas é de fato vulnerável, mais a proibição de se apresentar na televisão no meu vê não deveria ser proibido, pois é com elas no dias futuros, serão nosso governantes pela formação e conhecimento"

"Isto já vem dos nossos avós pré-história onde vencer significava ter comida para sobreviver e perder significava ser almoço de algum animal. Ele tinha que correr mais rápido para não ser refeição. A natureza se encarregava de fazer a seleção natural dos mais velozes"

"O esporte está sendo uma maneira de socorro para muitos atletas"

"A vontade de vencer é bruscada de maneira ofegante pelos atletas"

"A TV vem explicitando cenas de alta periculosidade em termos de censura"

"Venho através desta manifestar a minha idignação pelo que vem acontecendo nessas redes de informação através da livre censura da televisa"

"Os programa de TV viraram abusos da moral infantil"

"Cabe ao senhor tomar uma altitude censata"

"As emissoras de televisão exageram com todas as liberdades de censura que posso perceber"

"O lugar de melhor poste faz a pessoa se achar diferente"

"E quando vinhesse aquelas perguntas de atormenta as nossas cabeças"

"E uma negação tem gente opondo violência, na cabeça infantil apesa dessa norma errada jamais poderia ser um alvo para os menores de 14 anos e por isso se demonstra um mundo cruel de revoltas"

"família sem laços a muitas por ai exemplo a minha família o meu pai quando chjega da rua em cãs chá chega esculhambando com todo mundo e fagabundo que ninguém quer saber de trabalhar que todo mundo que fica deitado dormindo que so ele trabalha que todo mundo fai ficar burro e que todo mundo fai buchar carroça isto não se fala nem para um animau mais um fou mostrar para ele que não é que ele fala e por isso que eu fou estudar e trabalhar para ele parar de ficar falando que todo mundo e isto e aquilo"

"Concordo plenamente a favor da campanha tomada contra a censura aos programas de televisão brasileira"

"O esporte é uma arte aspirada por muitos em todo o mundo, e tem como finalidade maior a vitória, mas sem deixar de lado a disputa"

"Venho por meio desta argumentar a minha indignidade sobre a censura na mídia"

"As competições tornaram-se casos de disputa para saber quem é o melhor"

"Às vezes essa disputa se transforma em uma guerra, onde as conseqüências são catastróficas, que muitas vezes leva a morte de alguém, quando não morre fica grave, aí e que vamos Pará para pensar nas conseqüências" 

domingo, setembro 06, 2020

Cultura Pop

Cultura pop é uma antologia com artigos meus sobre os mais variados assuntos  ligados à área de comunicção. O livro é dividido em quatro capítulos: cultura pop, mundo cibernético, a ciência na cultura pop e guerrilheiros culturais.
A parte inicial é uma crítica às correntes apocalípticas da comunicação, segundo as quais os meios de comunicação de massa são incapazes de trazer qualquer conteúdo relevante ou crítico daí o conceito de cultura pop, que teria como características: inovação com relação a seus congêneres; apresentar uma leitura crítica do mundo e ter um conteúdo arquetípico.
O livro foi lançado em 2002 por uma faculdade na qual eu trabalhava na época e, apesar da tiragem pequena (200 exemplares) teve uma boa repercussão ao ser enviado para bibliotecas universitárias. Na época cheguei a receber e-mails de professores que estavam usando o livro em sala de aula e de alunos que haviam emprestado o livro na biblioteca e gostado (certa vez recebi até a visita de dois estudantes e comunicação que estavam de passagem por Macapá, leram o livro e queriam conversar comigo).

Gian Danton é entrevistado em livro sobre processos criativos nos quadrinhos

 


Trabalhar com cultura nunca foi tarefa fácil. Além de toda a dificuldade financeira e do descrédito e desconfiança que a profissão possui no país, o artista começa enfrentando as próprias dúvidas. O que pretendo contar é realmente interessante? Diz algo? Alguém teria algum interesse sincero no que quero dizer? E como dizer? Por onde começar? Como prosseguir? Este é o caminho certo?


Seguem aí as dificuldades de realização. Dificilmente uma obra de arte se faz sozinha. A cultura pede, exige trabalho coletivo. Um cineasta precisa de uma gama de outros artistas para levar um filme à tela. Um roteirista de quadrinhos precisa de um desenhista para passar sua história ao papel. E os dois precisam de um editor para tornar a HQ em algo real.

Filme pronto, gibi impresso. E agora? Como chego ao público? Como converso com ele? Onde distribuo minha obra?

Procurando respostas, Marcelo Engster realizou entre 2016 e 2020 diversas entrevistas com abnegados e corajosos artistas falando sobre seus processos criativos para o finado blog Quadrinhólatra.  Agora essas conversas estão reunidas no livro Processos Criativos nos Quadrinhos.

Quadrinistas entrevistados:
Alice Pereira    
Ana Recalde    
Augusto Paim    
Bier    
Cris Camargo    
Daniel Esteves    
Edgar Franco    
Edgar Vasques    
Fábio Zimbres    
Gian Danton    
Gustavo Machado    
Iaranaika    
Iotti    
Jun Sugiyama    
Louzada    
Mabel Lopes    
Marcatti        
Marcel Ibaldo    
Marcelo D’salete    
Orlandeli    
Ota Assunção    
Raphael Fernandes    
Roberta Cirne    
Rogê Antônio    
Zé Wellington    

O livro está disponível na Amazon e é gratuito com o Kindle Unlimited. Para ler, cliquei aqui

O Imortal Hulk


Nos últimos anos nós temos visto muitas situações nos quadrinhos em que um desenhista era a estrela. Em outras, o roteirista era a estrela. Mas uma boa história em quadrinhos é uma sintonia perfeita entre texto e imagem, entre desenhista e roteirista. Algo que foi alcançado muito poucas vezes: Stan Lee e Jack Kirby, Gerry Conway e Garcia-Lopez. E é exatamente essa sintonia que faz de Imortal Hulk (cujo primeiro álbum foi recentemente lançado pela Panini) uma obra tão importante.
Essa nova fase do Hulk é escrita pelo britânico Al Ewing e ilustrada pelo paraense Joe Bennett (ou Bené Nascimento, para os íntimos) e é impressionante a sintonia entre os dois: o roteiro funciona porque o desenho funciona e o desenho funciona porque o roteiro funciona.
Na trama, Bruce Banner descobre que não pode morrer, pois o corpo do Hulk sempre irá se restaurar.
A trama começa com um assalto a um posto de gasolina, uma sequência cinematográfica com planos que muitas vezes contam a história sem necessitar de palavras – e Ewing foi inteligente o suficiente para perceber que essas sequências muitas vezes não precisavam de uma única palavra.
Toda essa sequência tem apenas um texto-legenda, emblemático, essencial para entender toda a história e que será repetido e resignificado ao longo da trama: “Há sempre duas pessoas no espelho. Há aquela que você vê. E tem aquela outra. A que você não quer ver”. O trecho é de uma genialidade semiótica, pois pode se referir ao garoto que está assaltando o posto de gasolina, a Bruce Banner, ao Sasquatch e até mesmo à repórter que investiga a história.

Al Ewing usa muito bem todo o background psicológico já estabelecido por outros roteiristas, em especial Bill Mantlo – segundo o qual o Hulk já estava ali, no menino Bruce Banner, em resposta aos abusos do pai e apenas aflorou no contato com a radiação gama. Isso dá ao personagem uma profundidade insuspeita nesses tempos de ação desenfreada.
E, enquanto Ewing cuida da alma do monstro, Joe Bennett cuida dos punhos. Suas sequências de ação são magistrais. Além disso, o seu Hulk tem tudo para se tornar o Hulk definitivo: embora nitidamente inspirado na fase de Jack Kirby no personagem, ele aqui se torna muito mais brutal, uma brutalidade que explode nas splash pages.

Há alguns senões. A parte três, por exemplo, é ilustrada por vários desenhistas de acordo com o relato de cada uma das testemunhas. Mas Joe Bennett tem o traço eclético o suficiente para ter feito todas as sequências sem perder a unidade, como acabou acontecendo. Outro senão é a cor de Paul Mounts, escura demais, o que muitas veze esconde detalhes do desenho.
A série foi indicada ao prêmio Einser e no Brasil já esgotou a primeira tiragem. E não é sem razão: Imortal Hulk é um dos trabalhos mais interessantes já surgidos nos últimos anos nos quadrinhos.  

Castração química e estupradores


Um assunto que tem entrado na pauta do dia é castração química. Muitos defendem o procedimento como forma de “tratar” estupradores e impedir que eles cometam novos crimes.
Mas será que esse procedimento realmente funcionaria?
Um exemplo que pode nos dar um indicativo nesse sentido é o do russo Andrei Chikatilo. Chickatilo sofria de disfunção erétil. Ou seja, ele era incapaz de ter uma ereção. E era também estuprador.
Em 1978 ele sequestrou uma menina de 8 anos e tentou estuprá-la. Incapaz de conseguir uma ereção, ele, em um momento de fúria, esfaqueou a menina. Foi quando percebeu que podia conseguir prazer sexual de uma maneira muito mais satisfatória: matando. Gostou tanto do prazer que sentiu ao matar a vítima que se tornou um dos maiores assassinos em série de todos os tempos, com mais de 50 assassinatos.
A falta de ereção não impediu que ele cometesse os crimes, só direcionou para uma outra forma de satisfação sexual: o assassinato.
A maioria das pessoas parte do princípio de que o estuprador estupra para satisfazer o desejo sexual (ou ao menos no sentido mais convencional de satisfação sexual). Se essa fosse a questão, ele procuraria uma prostituta. O estuprador estupra porque o que mais o excita é a humilhação e sofrimento da vítima. A penetração é apenas um meio para isso, mas nem de longe o mais importante. Se não for capaz de ter uma ereção, o psicopata irá redirecionar isso para que realmente é a fonte de seu prazer: a humilhação, sofrimento e morte da vítima.
Para estupradores só existe uma solução: manter preso. 

Fundo do baú - Thundercats


ThunderCats foi uma série de animação desenvolvida por Rankin/Bass. A animação foi produzida por Pacific Animation Corporation, um grupo de estúdios japoneses, incluindo a Topcraft, que mais tarde viria a formar o Studio Ghibli. A primeira temporada foi ao ar em 1985 (com 65 episódios). O seriado teve quatro temporadas e um filme.
No Brasil, a série foi inicialmente exibida em 1986 até 1990 pela Rede Globo, exibindo somente os primeiros 100 episódios dos 130 produzidos. Em 1995, Thundercats voltou a ser exibido pelo canal, no bloco TV Colosso.
Atualmente é exibida no SBT, no programa Sábado Animado.

ThunderCats conta as aventuras de um grupo de felinos sobreviventes do planeta Thundera. Os gatos fogem de seu planeta  natal Thundera e são  perseguidos pelos mutantes, que buscam se apoderar da espada justiceira.
A espada possui o Olho Místico de Thundera, a fonte do poder dos ThunderCats, encrustado na empunhadura. A nave vai parar no terceiro mundo, dominado pelo malvado Mun-rá, que irá se aliar aos mutantes para derrotar os felinos.
Entre os personagens principais estão o jovem lorde dos ThunderCats, Lion-O, e os ThunderCats Cheetara, Panthro, Tygra, WilyKit, WilyKat e Snarf.

A incendiária, de Stephen King


A incendiária é um livro de Stephen King escrito em 1980. 
A trama gira em torno de uma experiência governamental com alucinógenos, que provocam poderes paranormais. Duas das cobaias na experiência acabam se casando e gerando uma menina com o poder de provocar incêndios. A menina e os pais passam a ser monitorados por uma agência governamental chamada A oficina, mas tudo foge ao controle quando a menina vai passar alguns dias na casa de uma amiga e a Oficina acha que os pais estão tentando escondê-la. Após assassinarem a mãe, sequestram a menina, que acaba sendo resgatada pelo pai. Começa então uma perseguição que é o eixo da trama. 
Quem está acostumado com os livros mais recentes de King, com uma escrita mais solta, irá estranhar: A incendiária é um livro com narrativa mais técnica, um típico triller de suspense escrito de acordo com a cartilha. Mesmo assim King consegue dar um toque pessoal ao fazer uma narrativa cheia de flash backs e cinematográfica. 
O livro virou filme em 1984, dirigido por Mark L. Lester, com Drew Barrymore no papel principal, e é surpreendente que não tenha se tornado um sucesso, já que o texto é quase um roteiro cinematográfico. Em tempo: no Brasil o filme foi lançado como Chamas da Vingnaça.
Em todo caso, embora A incendiária não seja muito parecido com Carrie (e, na comparação, sai perdendo), é um bom livro, que empolga lá pela metade, mas empolga. Para os fãs de quadrinhos e FC, parece um bom episódio de X-men ou de Perry Rhodan na fase em que os mutantes eram mais relevantes. 

Amazônia Viva - Gian Danton explica como a Amazônia o inspira

sábado, setembro 05, 2020

Como escrever quadrinhos



O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

Coleção DC 75 anos – a era de prata


Em 2010 a DC Comics completou 75 anos. Para comemorar, a Panini lançou no Brasil uma coleção em quatro volumes, cada um reunindo histórias de um período: Era de Ouro, Era de Prata, Era de Bronze, Era Moderna.
Há uma polêmica sobre como teria começado a Era de Prata, mas a maioria dos autores concorda que foi com o ressurgimento dos super-heróis devido ao sucesso da nova versão do Flash, em Showcase 4, de 1956. A partir daí a DC voltou a investir em heróis de malha e as revistas começaram a pipocar nas bancas, até culminar na reunião dos heróis na Liga da Justiça.
O volume pretende dar uma visão geral do período e, como não poderia deixar de ser, inicia com o ressurgimento do Flash, com roteiro de Robert Kanigher, desenhos de Carmine Infantino e arte-final de Joe Kubert. Dá para perceber porque se tornou um clássico que salvou os heróis do esquecimento: o roteiro é bem amarrado, com uma sacada genial  e irônica (um velocista enfrentando o Tartaruga, o homem mais lento da terra) e os desenhos são lindos, a começar pela splash page inicial com o Flash avançado pela página como se estivesse escapando dos quadrinhos. E, comparado com a versão do personagem da Era de Ouro, essa é muito mais consistente.
A história a seguir, do Superboy, é outro clássico típico da era de ouro. Escrita por Otto Binder e desenhada por Al Plastino, a HQ apresenta a Legião dos Super-heróis. Ainda na coleira do Comics Code, os quadrinhos não poderiam ter nada que parecesse ofensivo aos pais. Então esqueça violência ou conflitos familiares. Os roteiristas tinham se adequar a plots ingênuos e fazer com que eles parecessem interessantes. É o que fazem os autores dessa história. Na HQ, o Superboy tenta ser admitido na Legião, mas falha em todos os testes, pois sempre aparece algo mais urgente para ser resolvido. O plot twist final é ingênuo, mas eficaz dentro da lógica da época.
A origem do Aquaman (com roteiro de Robert Bernstein e desenhos de Ramona Fradon) deixa um ar de incômodo nos leitores mais costumazes. É parecida demais com a origem de Namor. Ambos são filhos de mulheres atlântidas com humanos, só para dar um exemplo. Mas como na época o Príncipe dos Mares não era publicado e a Marvel dependia da DC para a distribuição de suas revistas, isso acabou não dando origem a um óbvio processo judicial por plágio.
Segue-se a famosa história em que o Flash da era de prata encontra o da era de ouro. Famosa por que deu origem ao conceito de que existem vários universos DC em dimensões diferentes, e a história em que a Liga da Justiça encontra a Sociedade da Justiça, aproveitando esse mote.
Depois uma história dos parceiros mirins dos heróis em que Robin, Kid Flash e Aquakid precisam solucionar o mistério do desaparecimento dos jovens de uma cidade do interior dos EUA. É irritante o quanto a HQ consegue ser unidimensional em seu conflito. Adultos não conseguem entender os jovens na cidade e os jovens não conseguem entender os adultos. Entre os heróis, os heróis adultos não conseguem entender suas versões mirins e estes, por sua vez, não conseguem entender os heróis. Mas no final, a solução é simplista. Diante de toda a complexidade de relacionamento que teríamos nos Novos Titãs na fase de Marv Wolfman e George Peres, histórias como essa parecem terrivelmente simplistas.
O volume traz ainda “A montanha do julgamento”, de Jack Kirby – e, independente da qualidade desse material, fico na dúvida se poderia entrar em um volume sobre a era de prata.
Algumas faltas são nítidas na edição. Não há, por exemplo, nenhuma história do Super-homem desenhada por Curt Swan, o desenhista mais emblemático da Era de Prata na DC. Além disso, não há nenhuma HQ do Gavião Negro de Joe Kubert, um dos melhores quadrinhos do período na DC.

O homem-anfíbio


 Desmond Morris, autor do livro O Macaco nu, tem uma teoria curiosa: a de que o homem já viveu na água. Ou seja, de que somos anfíbios.
Essa teoria foi expressa pela primeira vez em 1930, pelo biólogo marinho Sir Alister Hardy. Comparando o ser humano com os macacos, ele percebeu várias diferenças, entre elas uma camada de gordura que temos sob a pele, que mantém a temperatura dos órgãos durante o mergulho. Só baleias e golfinhos têm tal característica.
Além disso, Hardy descobriu que nossos pêlos têm uma organização hidrodinâmica, ao contrário dos macacos, que têm pelos retos. Além disso, choramos lágrimas salgadas em abundância, como os leões marinhos, ao contrário dos macacos e outros animais das savanas. Nosso labirinto auricular nos dá mais equilíbrio que os primatas quando estamos imersos na água. Entre os dedos das mãos e dos pés temos uma membrana palmar que não pode ser observada nos primatas. Nosso nariz é hidrodinâmico, parece ter sido feito para mergulhar, ao contrário dos macacos.
Todas essas características somam-se a uma que parece ser reflexo subconsciente de nosso passado na água: os bebês humanos nadam sem medo e sem aprender.
Não há quem negue o fascínio que a água exerce sobre o ser humano. Sempre que quer se divertir, o homem se aproxima da água, seja em praias, piscinas ou rios. Nós, que moramos na região amazônica, tão abundante em rios e riachos, percebemos claramente o quanto as pessoas associam diversão com água. Parece que o ser humano se sente relaxado e feliz quando está nadando ou simplesmente próximo à água.
Todas essas características parecem colocar em xeque a idéia de que a origem do homem está nas savanas africanas. Talvez a origem da nossa espécie esteja no mar ou nos rios.
Talvez o nosso parente mais próximo não sejam os macacos, mas os golfinhos, que, como nós, saíram da terra e passaram a viver na água. Mas, ao contrário de nós, os golfinhos decidiram continuar por lá. Sorte deles.

A arte extraordinária de Nilson Muller



Nilson Muller é um dos mais importantes ilustradores publicitários do Paraná. Foi o primeiro cenógrafo de televisão do Paraná e durante vários anos atuou como desenhista free-lancer para o mercado editorial e publicitário. Ele desenhou o álbum do Palhaço Zequinha, foi o criador do personagem Zé Gotinha, colaborou para a logo do Açúcar Diana e foi um dos criadores do personagem “O Gralha”. Atualmente, aos 75 anos, trabalha com ilustração digital e como artista plástico. Sua arte pintada se destaca pela beleza, riqueza de detalhes e perfeição anatômica, além da ótima composição. Confira o trabalho desse grande mestre. 













Origens secretas - filme policial explora o universo dos quadrinhos


Um homem é encontrado morto numa espécie de academia clandestina. Ao investigar, descobrem que ele era um cientista magro que em poucos meses se transformou num monstro musculoso. E mais: sua pele se tornou cinza. Esse assassinato remete diretamente ao primeiro número do incrível Hulk em que o magrelo cientista Bruce Banner se torna no monstro cinza Hulk. Sim, cinza, pois era essa a cor do personagem no início.
Esse é o primeiro de uma série de assassinatos que deverá ser desvendado pela polícia de Madrid. Para ajudar a solucioná-los, um detetive aposentado indica para o policial que irá substitui-lo seu filho, dono de uma loja de quadrinhos. E é formada uma dupla totalmente disfuncional: de um lado o detetive David, que odeia super-heróis e acha que quadrinhos são para crianças. Do outro, o nerd Jorge Elias, uma enciclopédia sobre quadrinhos, que consegue perceber todas as pistas quadrinísticas deixadas pelo assassino que levarão aos próximos casos. Completa o trio a chefe da polícia, que faz cosplay nas horas vagas e muitas vezes aparece na cena do crime vestida de personagem de anime ou de quadrinhos.
A temática poderia ser abordada em tom dramático, como um Seven quadrinístico, mas a opção do diretor David Galán Galindo preferiu levar o filme "Origens secretas", lançado pela Netflix, na direção da comédia – com uma quantidade enorme de piadas e referências à cultura pop em cada sequência. Como não podiam mostrar os quadrinhos originais, por uma questão de direitos autorais, os produtores criaram algumas peças interessantes. Logo que entra pela primeira vez na loja de quadrinhos, o detetive se deparada com um item raro, o gibi que mostrava a luta de Muhammad Ali contra o Superman. Mas, em decorrência do já citado problema com direitos autorais, aparece um boxeador lutando contra um herói genérico chamado Zinco. O nome do boxeador? Neal O´Neil, uma referência a Neal Adams e Denny O´Neil, respectivamente desenhista e roteirista do gibi original.
A ênfase no humor e a decisão de fazer um filme que começa como policial e termina como super-heroiesco faz com que o filme peque na profundidade dos personagens. Mas é um bom filme, divertido, que irá alegrar a maioria dos fãs e tem a atração de tentar não só adivinhar quais serão os próximos crimes, mas perceber todas as referências.

Ah, sim: tem cena pós-créditos.

sexta-feira, setembro 04, 2020

Blog: um diário intelectual

Desde os 17 anos eu mantive um diário. Na época eu estava estudando para o vestibular e o diário servia como uma espécie de válvula de escape no meio de tanto stress e estudos. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que eu conhecia e que mantinham um diário, eu raramente anotava fatos do dia. A maioria dos textos eram sobre minhas leituras, os filmes que eu assistia, exposições que eu visitava, etc, além de ensaios de contos, crônicas e até roteiros de cinema. Tinha também uma relação dos livros que eu pegava na biblioteca. Relendo, descubro que lia, religiosamente, um livro por semana.
Relendo-o, descubro que no dia 21 de setembro de 1988, visitei a exposição Langsdorff. Fiquei tão fascinado com a história que consegui, no jornal local, uma reprodução de um desenho de Florence e grudei no diário, com a referência de que ele fizera parte da expedição. No mês seguinte, assisti Feliz Ano Velho, filme de Roberto Gervitz baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva. Além de imagens de filmes e livros e até desenhos, muitas vezes eu registrava curtas resenhas sobre as obras com as quais tinha contato.
Folhear o diário é um pouco como visitar o meu blog. Sem querer, ao criar o Ideias de Jeca-tatu, eu reproduzi o que já fazia no meu diário. Criado em 2003, numa época em que a maioria dos blogs era composto de fofocas que só interessavam aos autores e a um pequeno grupo de pessoas, esse era um blog diferente.
Ideias de Jeca-tatu era o nome do fanzine que produzi durante toda a década de 1990 e que, em muitos sentidos, substituiu o diário. O título era uma referência a um dos mais importantes livros de Monteiro Lobato, no qual ele registrava suas ideias sobre a arte e literatura do Brasil no início do século. “O Jeca-tatu não pensa, escreveu Lobato. Mas se pensasse, suas ideias seriam assim”.

Amor assassino


A editora Gal vem se destacando por lançamentos de qualidade que fogem do mainstream. São quadrinhos pouco conhecidos por aqui, mas que valem a leitura. Exemplo disso é Amor Assassino, de James Robinson e Phil Elliott.
O roteirista inlgês Robinson é muito conhecido por seus trabalhos para a DC Comics, como Starman, A era de ouro e Feitiçaria. Phil Elliott é um quase desconhecido no Brasil.
Juntos, eles contam a história de um assassino serial especializado em seduzir, casar com e matar mulheres ricas, com a ajuda de um comparsa.
Com um domínio perfeito da narrativa, Robinson foca ora no detetive que investiga o caso, ora numa testemunha, ora em uma das mulheres, ora no comparsa e, finalmente, no próprio assassino. O resultado é um verdadeiro quebra-cabeças em que o desafio é decifrar a trama e, ao mesmo tempo, entender as motivações dos personagens. Vale destacar também como o roteirista consegue caracterizar perfeitamente cada uma das mulheres, diferenciado-as umas das outras.
A história ganha um forte elemento de suspense quando a narrativa foca em umas das mulheres e o leitor torce para que ela não seja a próxima vítima, ou quando o assassino se casa com uma garota jovem e pobre, o que parece contrariar seu modus operandi.
Em outras palavras: Robinson se revela um artífice da narrativa e joga o tempo todo com o interesse do leitor, prendendo-o à história.
O leitor médio brasileiro irá estranhar o traço de Phil Elliott, aparentemente primário. Mas não deve se enganar: a falta de um desenho mais chamativo não prejudica, ao contrário, centra a atenção na história. Além disso, Elliott tem um perfeito domínio do story telling. Destaque para o uso eficiente do close como elemento narrativo.
Em suma: Amor Assassino é quadrinho da melhor qualidade.  

Fundo do baú: Scooby Doo



Scooby doo é um desenho animado criado pelo estúdio Hanna Barbera em 1969.
É o segundo desenho animado com mais temporadas da TV mundial, perdendo apenas para Os Simpsons.
Tudo começou quando o diretor da rede BBS Fred Silverman pediu à Hanna Barbera um seriado que misturasse humor e mistério. Entretanto, os primeiros desenhos eram muito assustadores e foram rejeitados.
O formato definitivo só surgiu quando Silverman ouviu a canção "Strangers in the Night", de Frank Sinatra. Em determinado trecho, Sinatra canta "dooby dooby doo". A partir daí tiveram a ideia de colocar como astro da nova atração um cachorro e chamá-lo de Scoob Doo (e seu famoso bordão, que reproduz o verso de Sinatra: Scooby dob doo!).
O roteiro foi baseado no famoso livro O cão de Barkesville, uma história de Sherlock Holmes. Na história escrita por Arthur Conan Doyle um cão fantasmagórico aterroriza uma vila inglesa, mas ao final descobre-se que era apenas um plano de bandido para ficar com a propriedade.
Assim, a trupe anda pelos Estados Unidos em uma Kombi colorida, a mistery machine, e resolve casos em que um fantasma ou mostro se revela um vilão com objetivos escusos.
Além do cachorro, o elenco ganhou um galã, Fred, uma mocinha, Daphne, o atrapalhado Salsicha e a nerd Velma, que, apesar de toda a sua inteligência, vivia perdendo seus óculos nos momentos mais inoportunos.
Algumas das falas do seriado se tornaram muito populares, como a dita pelos vilões ao final do episódio: “Se não fossem esses garotos intrometidos eu teria conseguido”. 
Sempre houve o boato de que o personagem Salsicha fumava maconha – afinal, além de avoado, ele estava sempre com fome. No filme dos personagens, inclusive, o roteirista fez várias piadas com isso. 

Fanzine Sequência

Sequência foi um fanzine editado por mim e por Antonio Eder na década de 1990. Era um fanzine de quadrinhos sobre quadrinhos. Ou seja: todas matérias eram sobre nona arte e até mesmo as HQs eram metalinguísticas (HQs sobre balões, por exemplo). A última página era de dicas do Antonio para iniciantes. Em uma delas, por exemplo, ele falava sobre tipos de papéis usados para desenhar quadrinhos e cortou e colou exemplos de cada um. Apesar de ter durado pouco, foi um zine que marcou época.

Território Lovecraft



Talvez o maior problema de Território Lovecraft, livro de Matt Ruff, seja o título. Ele dá a entender que a obra explora a mitologia de Lovecraft, o que não é verdade.
A história trata de uma disputa entre grupos mágicos que usam uma família de negros na década de 1950 como peões. O livro é todo estruturado em contos, cada um focado em um membro da família. Alguns têm uma pegada de terror, outros de ficção científica, outros de aventura e alguns até flertam com o humor. Essa estrutura é provavelmente um dos pontos altos da obra. Já existiram livros anteriores em que contos são costurados, a exemplo de Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Mas a proposta de Ruff é inovadora: o conjunto de contos forma de fato um romance.
A primeira história, cujo título é exatamente Território Lovecraft dá o tom do volume: Um jovem, Atticus, recém saído da guerra da Coréia, volta para casa, descobre que seu pai desapareceu deixando apenas um bilhete misterioso e vai atrás dele junto com o tio e uma amiga. Já na estrada para casa ele é parado por um policial que o ameaça, revista seu carro e o dispensa com a condição de que ele irá dirigir diretamente para Chicago, sem parar em nenhum outro local.
O terror do livro está resumido ali: está muito mais no preconceito da américa segregacionista dos anos 1950 do que nos monstros em si. Era uma época em que um negro poderia ser linchado apenas por ter entrado na lanchonete errada – daí a importância do Green Book, que indicava estabelecimentos comerciais que atendiam negros. Aliás, a própria referência a Lovecraft no título parece ter mais relação com o racismo do autor do que com seus monstros. Esse aspecto será explorado em todas as narrativas do livro.
A obra é bem escrita, divertida – e nitidamente produzida para se transformar em um seriado de TV, com um final que lembra um final de temporada – e lança ganchos para uma segunda temporada.