quinta-feira, março 02, 2023

Aldebaran, uma das melhores HQs de FC de todos os tempos

 


Aldebaran é talvez o melhor exemplo de HQ em que a trama é toda desenvolvida a partir da ambientação. A série, criada pelo brasileiro Luiz Eduardo Oliveira, o Leo, é campeã de vendas na Europa e considerada uma das melhores séries de fantasia e ficção de todos os tempos.
Leo nasceu no Rio de Janeiroe, em 1944. Em 1971 fugiu do Brasil para escapar da repressão do regime militar. Foi para o Chile, Argentina até voltar para o Brasil, onde trabalhou com publicidade. Sua primeira HQ foi uma história de ficção-científica publicada na revista O Bicho. No final da década de 1970 conhece a revista Metal Hurlant, que teria forte influência sobre seu trabalho, e resolve tentar a sorte na França. Depois de anos publicando pequenas histórias em revistas como a L'Echo des savanes e Pilote, em 1991, a convite do escritor Rodolphe, começa a desenhar a série Trent, de grande sucesso.
As boas vendas lhe permitem lançar sua própria série. É quando surge Aldebaran.
A história se passa em um planeta marítimo colonizado por humanos. Mas, depois da primeira expedição, a colônica perde o contato com a Terra. Assim, Aldebaran fica totalmente isolada e passa a ser governada por uma ditadura militar-religiosa, que, entre outras coisas, força detentas a engravidarem para ajudar a povoar a colônia. Uma nova lei pretende obrigar todas as mulheres a engravidarem a partir dos 17 anos. A música é proibida e músicos são obrigados a se esconderem.

A história começa em uma pequena vila de pescadores onde começam a ocorrer fenômenos estranhos. Os peixes desaparecem. Um Nestor (uma espécie de baleia com braços) encalha na praia. Pescadores encontram na superfície um peixe das profundezas. Finalmente, o mar se transforma em uma espécie de gelatina e destrói uma vila de pescadores. Um homem misterioso parece saber o que está acontecendo e, ao se envolverem com ele, dois sobrevintes passam a ser perseguidos pelos militares.

Além da ótima trama e dos desenhos para lá de competentes, Aldebaran chama atenção especialmente pela forma como Leo cria toda uma ambientação alienígena e como a trama gira em torno dessa ambientação. A criatividade do quadrinista para criar visualmente e conceitualmente a flora e a fauna de Aldebaran, por exemplo, é impressionante. Um exemplo: o polvo da areia é capaz de mimetizar a forma de animais para atraí-los e capturá-los com seus tentáculos espalhados sob a areia. Ou as caravelas, animais flutuantes que produzem gás hélio usado pelos humanos em dirigíveis. Aliás, a própria Matrisse, o animal misterioso que parece estar por trás de todos os fenômenos estranhos, é um exemplo da complexidade dessa composição de cenário.
Junte a isso personagens cativantes, tridimensionais, como o trapaceiro Pad, e temos uma HQ obrigatória para todo fã de ficção científica.
A série, composta de cinco volumes, fez tanto sucesso que ganhou duas sequências, Betelgeuse e Antares. No Brasil a série foi publicada pela Panini até a segunda parte, Betelgeuse. Antares continua inédita entre nós.

Hulk: a encruzilhada

 


Bill Mantlo é o grande roteirista do Hulk. Sua visão do personagem foi a mais duradoura e lembrada do personagem. E o grande momento da fase de Bill Mantlo foi a saga da Encruzilhada.
Publicada entre 1984 e 1985, essa saga durou 13 mais de um ano.
Na história, o Hulk se torna incontrolável e o Dr. Estranho resolve bani-lo da Terra, enviando para um local que é um cruzamento entre vários mundos e realidades, a encruzilhada. Ali o Hulk pode escolher para onde ir.
Hulk é enviado pelo Dr. Estranho para uma encruzilhada entre vários mundos. 


O feitiço lançado pelo mestre das artes místicas tem um gatilho: se o monstro verde não estiver se sentindo feliz no mundo que escolheu, ele volta para a encruzilhada.
Esse plot permitiu a Mantlo desenvolver o lado ficção científica e fantasia do golias esmeralda em tramas marcantes, a começar pela garota verde presa em um castelo que chora flores (que lembra muito Jarella). O Hulk tenta salvá-la, mas descobre que seus captores são extremamente poderosos, a ponto de uma criança poder enfrentá-lo.
Para que o roteiro não se tornasse arrastado, Mantlo muda constantemente o mundo escolhido por Hulk, colocando-o nas mais estranhas situações. Há desde um ser gigante que anda pelas dimensões sugando energia – e é caçado por um grupo (numa trama que lembra muito Moby Dick) até uma realidade em que o Hulk é pequeno como um brinquedo de criança.
Em um dos mundos o Hulk é pequeno como um brinquedo de criança. 


E, finalmente, há um desenvolvimento da psiquê do gigante esmeralda até então inédita. Mantlo mostra que a gênese do Hulk já estava em Bruce Banner desde criança e cria um trio de personagens saídos diretamente de seu inconsciente: o duende (a raiva), a guardiã (instinto de preservação) e brilho (a racionalidade). Mantlo conseguiu desenvolver uma profundidade no personagem até então insuspeita.
Essa fase teve desenhos de Sal Buscema e arte final de Gerry Talaoc. A arte-final faz toda a diferença aqui, destacando ainda mais a arte expressiva de Buscema e, ao mesmo tempo dando a ela um ar de mistério e fantasia. Os capítulos finais foram desenhados por Mike Mignola, ainda em início de carreira. Mignola aliás, faz várias das capas da saga – e já mostra o monstro artístico que se tornaria.
Aqui no Brasil essa saga foi publicada pela editora Abril na revista O incrível Hulk, dos números 53 a 64. Considerando o nível da qualidade dessas histórias, é surpreendente que ela não tenha sido republicada pela Panini.

Xuxulu está com piolhos!

 

Descartes e o demônio da dúvida

 


Um dos pensadores mais importantes da humanidade foi o filósofo francês René Descartes. Suas idéias mudaram a forma de pensar do mundo ocidental e inauguraram os pilares da metodologia científica.
Descartes era tudo, menos humilde. Ele queria criar uma nova forma de pensar, que fosse mais adequada aos novos tempos. É importante lembrar que o filósofo viveu em uma época de mudanças. O mundo passava do geocentrismo (a idéia de que tudo, inclusive o Sol, gira ao redor da Terra) ao heliocentrismo (a idéia de que é a Terra que gira ao redor do Sol), as grandes navegações demonstravam que havia todo um mundo a ser descoberto, a imprensa tornava possível que um pensamento se dissipasse com grande velocidade e, finalmente, os reis passavam a ter mais poder do que jamais tiveram em toda a Idade Média.
Em 1619, Descartes teve um sonho em que o espírito da verdade descia sobre ele. A partir desse dia, passou a se dedicar à busca da verdade e de uma nova forma de pensar, que tornasse o caminho em direção à verdade mais rápido.
Depois de andar por boa parte do mundo conhecido, recolhendo conhecimentos, ele se isolou em busca de um método próprio. Ele percebeu que o método característico da Idade Média, a lógica, não o levaria longe: “Verifiquei que, quanto à lógica, os seus silogismos e a maior parte de suas restantes instruções serviam mais para explicar aos outros as coisas que já se sabem”, escreveu ele no seu livro O Discurso do Método.          
O novo pensamento, criado por Descartes seria baseado em quatro princípios:
1 – Nunca aceitar como verdadeira nenhuma coisa que não se conhecesse evidentemente como tal.
Ou seja, duvidar sempre. Aí o filósofo difere o conhecimento científico do teológico, baseado na fé. Enquanto a religião prega o acreditar sempre, a ciência partiria sempre da dúvida.
2 – Dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto fosse possível e necessário para resolve-las.  
Descartes inaugurou com esse princípio a divisão do saber. Segundo a lógica cartesiana, não devemos pesquisar o fenômeno no todo, mas em partes. Para conhecer o corpo humano, devo dividi-lo em partes e estudar uma a uma.  Esse princípio deu origem à especialização que se reflete na própria organização da escola. Temos professores de geografia, história, ciências, literatura, redação... muitas vezes o professor de história não entende nada de geografia e o professor de literatura não sabe nada de redação. A crítica a esse princípio seria a base do pensamento da cibernética e de Edgar Morin.
3 – Conduzir em ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos, e supondo também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros.
Em outras palavras, ao resolver um problema devemos solucionar primeiro as partes mais simples para depois chegar às mais complexas. Esse princípio também leva a crer que o complexo é na verdade uma junção de partes simples, uma idéia que depois seria criticada por pensadores como Edgar Morin.
4 – Fazer, para cada caso, enumerações tão completas e revisões tão gerais que tivesse a certeza de não ter omitido nada.
Esse princípio, certamente advindo da matemática, teve como conseqüência, na ciência, na idéia de que não se deve confiar no primeiro resultado de uma experiência. O cientista deve refazer suas experiências à exaustão até ter certeza de que o resultado está correto. Mesmo em uma pesquisa bibliográfica esse princípio pode ser adotado. Já vi alunos que, ao fazerem uma pesquisa, usam apenas um livro como referência. Isso não é pesquisa, é cópia. Um trabalho de pesquisa deve comparar as idéias de informações de vários autores. Confiar no primeiro autor que se apresenta pode ser perigoso, pois esse autor pode estar equivocado.
Alguns anos depois, um cientista inglês, Isaac Newton, usaria os princípios de Descartes para resolver um problema científico: por que a Lua não cai na Terra? Mas isso será objeto de outro artigo. Por enquanto, vamos ver como Descartes usou o método para resolver um problema menos científico e mais filosófico.
O que o filósofo se perguntou é como podemos chegar a certezas. Ele já havia identificado que os sentidos não são confiáveis. Afinal, as pessoas haviam acreditado durante anos que o Sol girava ao redor da Terra simplesmente porque os sentidos lhe diziam isso.
Quantas vezes não somos enganados por nossos sentidos? Às vezes estamos em um navio e achamos que já começou a viagem, quando na verdade foi o barco ao lado que começou a se movimentar? Quantas vezes não temos sonhos que parecem perfeitamente reais?
A não confiabilidade dos sentidos fica demonstrada em filmes como Matrix. Neo acreditava piamente que a vida que levava era real, até descobrir que tudo era uma ilusão criada por um programa de computador...
No filme Uma Mente Brilhante, o personagem principal, um ganhador do prêmio Nobel, conversava com pessoas que não existiam. 
Descartes imaginou-se dominado por um demônio da dúvida que o faria ter dúvida de tudo. Se eu duvido de tudo, se duvido até mesmo se estou realmente aqui escrevendo este texto, qual a minha única certeza?
A minha única certeza é de que tenho dúvidas. Se tenho dúvidas é porque penso. Se penso, logo existo. Cogito ergo sum.
Esse raciocínio de Descartes teve duas conseqüências. Por um lado a ciência procurou aperfeiçoar cada vez mais os instrumentos de pesquisa para fugir da validação subjetiva. Balanças, cronômetros, questionários, observação sistemática são instrumentos de pesquisa que tentam fugir da dúvida deixada pelos sentidos. Na filosofia, as idéias de Descartes inauguram o postulado da razão, que dominaria toda a Idade Moderna.

Como escrever quadrinhos

 


O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

Livro hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos

 

Vivemos em um mundo hiper-real, em que ficção e fato se misturam. É um mundo de simulacros, de símbolos que existem por si só, sem nenhum referencial. Na arte esse fenômeno se refletiu na forma de obras que confudem real e ficcional. É a verossimilhança hiper-real: obras tão críveis que muitas pessoas acreditam que são reais. 
No livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos - a fantástica história de Francisco Iwerten, eu analiso esse fenômeno a partir de um fato específico: o quadrinista fake Francisco Iwerten e seu personagem, o herói Capitão Gralha. Durante 18 anos acreditou-se que Iwerten existia e ele chegou até mesmo a ganhar prêmios. 
Quer conhecer melhor essa história e entender o que é o mundo hiper-real? 
O livro está sendo disponibilizado de graça no site da Marca de Fantasia.  Para baixar, clique aqui. 

quarta-feira, março 01, 2023

A arte impressionante de Al Willamson

 

Al Williamson é um dos desenhistas mais emblemáticos dos comics americanos. Seu estilo era perfeito para cenários futuristas e sua figura humana muito elegante. Fã de Alex Raymond, seu sonho era se tornar desenhista regular da tira de Flash Gordon, algo que ele nunca conseguiu. Chegou a desenhar alguns gibis do personagem, mas acabou ficando mesmo com outra criação de Raymond: Agente secreto X-9. Sua fase, com roteiros do amigo Archie Goodwin é a melhor de todos os tempos. Na década de 1970 ele desenhou alguns gibis e a tira de Star Wars, um dos seus trabalhos mais conhecidos. Nos anos seguintes ele fez principalmente arte-final para outros artistas, entre eles John Buscema e John Romita Jr.















Superman - Eu nunca fui o Superboy

 

Quando John Byrne assumiu o título do Super-homem, ele reformulou o personagem e simplesmente tirou do universo do personagem suas contrapartes, como Superboy e Super-moça. Mas havia um problema: Superboy era essencial para o grupo Legião dos Super-heróis. Afinal, todo o grupo se estruturava em torno da idolatria ao superboy.

Para tentar explicar essa incongruência, Byrne fez uma história em duas partes publicada nos números 8 de Superman.

Na trama, o herói está em Pequenópolis em um encontro com seus pais e Lana Lang quando percebe que algo está acontecendo a pouca distância dali. Ao chegar lá depara-se com a nave da Legião e, sem querer, a ataca com sua visão de calor. Esse acidente leva a uma extensa batalha do Super-homem com a Legião que reverbera a experiência do autor com a Marvel – ao contrário da DC, em que todos eram amigos, na Marvel sempre que dois ou mais heróis se encontravam, eles sempre caíam na porrada.

Byrne recria a primeira história da Legião. 


Quando finalmente as coisas são esclarecidas, Lex Luthor começa a relembrar a relação deles com o Superboy – e Byrne recria, ponto a ponto, a primeira história da Legião, em que eles convidam Superboy para fazer parte da equipe, mas ele falha miservavelmente em todos os testes de admissão, o que era nada mais nada menos que um trote de calouro.

A narrativa prossegue até os dias atuais, quando Cósmico volta para o século XX, descobre que a história da terra não bate com tudo que conheciam (reflexo direto da reformulação feita por Byrne) e desconfiam que tudo é responsabilidade do Senhor do tempo.  A Legião tenta chegar à Cidadela dele, no final dos tempos, mas, misteriosamente, acabam indo parar em Pequenópolis, onde parte da equipe é atacada e aprisionada pelo Superboy. Os que escapam entram na nave, que volta para Pequenópolis, onde encontraram com o Super-homem.

O vilão explica a história para o leitor. 


Confuso? Muito. Para explicar esse imbróglio cronológico, Byrne inventa uma trama do Senhor do tempo que envolve até a criação de uma terra paralela – com direito ao próprio vilão explicando para o leitor tudo que está acontecendo, num tremendo bife. Aliás, o que não falta na história são bifes.

O que salvava Byrne é que a forma como ele narrava as histórias era tão agradável que o leitor simplesmente esquecia todos esses problemas e embarcava na trama. Seu traço elegante e sua narrativa visual limpa criavam uma espécie de pacto de verossimilhança com o leitor.

Em tempo: essa história foi publicada no Brasil em Super-powers 11, ocupando metade da revista. A outra metade era uma trama da Legião que continuava os acontecimentos da história anterior.

Os quadros vivos do festival de Laguna Beach

 

Os tableaux vivants (quadros vivos) são uma tradição medieval que sobrevive hoje no festival de Laguna Beach, na Califórnia. Todo ano, centenas de atores se oferecem para reproduzir obras clássicas da arte mundial.
As representações, que duram em média 5 minutos, impressionam pelo fato dos mínimos detalhes dos quadros serem reproduzidos, inclusive sua textura, graças a um trabalho de iluminação, cenário e maquiagem e maquiagem. Até mesmo capas de quadrinhos são homenageadas. Confira abaixo algumas reproduções:  









Arte é entropia

 

Aquelas pessoas que se interessam por arte devem ter ouvido falar do garoto de 21 anos que pregou uma peça no público e nos organizadores da 25ª Bienal de São Paulo. Cleiton Campos, estudante de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, pintou um navio pirata em um quadro pequeno. No dia 31 de março, um mês após a abertura da Bienal, ele colocou uma bermuda folgada, enfiou o quadro no bolso e, com a ajuda da namorada, infiltrou o seu pequeno quadro entre as obras de arte que ali se encontravam.
O Navio Fantasma ficou exposto, no chão, ao lado de pinturas e fotos eslovenas e foi visto por, talvez, milhares de pessoas.Passaram-se dois meses e ninguém da coordenação da maior exposição de artes da América Latina percebeu o intruso.
Quando a Bienal acabou ele ainda estava lá, no chão, entre outros quadros.Embora o pequeno quadro tivesse sido feito com esmero, o objetivo de Cleiton não foi expor sua arte. Afinal, ele mesmo não leva muito a sério suas produções de final de semana: "Não tive pretensão artística; não sou artista. Estava indo visitar a exposição e tive a idéia de passar esse trote. Foi uma piada".
A brincadeira de Cleiton é, mais do que nunca, oportuna. Ela nos leva a refletir sobre o que é arte.
Alguns certamente criticarão meu tecnicismo, mas vejo a arte do ponto de vista da teoria da informação. Para essa teoria, há duas categorias básicas para se entender qualquer mensagem: a informação e a redundância.Informação é o que é novo, diferente, inusitado. Redundância é o que já conhecemos, aquilo que já foi dito e repetido e já faz parte de nosso repertório. A verdadeira arte é essencialmente informativa. Ela nos apresenta o novo, acrescenta algo a nosso repertório.Claro que nem tudo que é informativo é arte. Um jornal está repleto de informação, e nem por isso é arte, até porque seu objetivos são diferentes. A informação em arte é uma informação diferente, transformadora (quando falo de arte, não penso apenas em artes plásticas, mas também em cinema, quadrinhos, literatura, música...) que nos leva a refletir sobre o mundo em que vivemos ou até mesmo sobre nós mesmos.
É esse caráter informativo que faz com que alguns grandes artistas sejam rejeitados em sua época. Van Gogh que o diga. Há, aqui, um jogo de gato e rato entre o sistema e o artista.
Enquanto o artista busca o novo, o sistema quer a redundância. Toda proposta deixa de ser artística quando é assimilada pelo status quo. É por isso que os dadaístas faziam obras sem sentido: numa tentativa de impedir essa apropriação do sistema.Isso nos leva à conclusão de que a arte tem muito a ver com atitude. Quando os dadaístas colocaram um vaso sanitário em um museu, eles estavam fazendo verdadeira arte. Estavam rompendo com nossos conceitos estabelecidos, nos fazendo refletir não só sobre o mundo ou sobre nós mesmos, mas, principalmente, sobre o que é arte. Só é artístico o que está no Museu ou na Galeria? Um vaso sanitário torna-se uma obra de arte só por estar em um Museu?
Entretanto, quem, hoje, colocar um vaso sanitário numa galeria pode ser chamado de idiota.
Alguém já fez isso e isso já foi assimilado pelo sistema. É pura redundância.Fazer arte consiste em encontrar formas diferentes de fazer aquilo que outros fizeram.
Nesse sentido, Cleiton Campos foi o mais importante artista da Bienal. Seu pequeno quadro tinha a mesma importância das grandes obras das artes plásticas não pela qualidade estética, mas, principalmente, pela atitude.
Esse caráter informativo da arte foi bem definido por Caetano Veloso: "Onde queres o ato, eu sou o espírito; onde queres ternura, eu sou tesão; onde queres o livre, decassílabo". O artista não procura acomodar o receptor, mas ao contrário, frustrar suas expectativas (incluindo as expectativas dos críticos de arte).Os exemplos são muitos: Bob Dylan deixando de fazer canções políticas porque seu público estava acostumado a só ouvir canções desse tipo; Alan Moore escrevendo quadrinhos de super-heróis para frustrar o público que só esperava dele trabalhos intelectuais...
Também da teoria da informação tiramos outro conceito importante: o de entropia. Entropia é sinônimo de caos, destruição, degradação, mistura. Embora possa ser muito negativa, ela tem um aspecto importante: o de criação. Toda criação começa com um processo entrópico. Não é por outra razão que Chico Science dizia: "Eu me desorganizando vou me organizar". A obra de Cleiton é entropia para o sistema artístico, mas é também sinergia, pois apresenta a possibilidade de novo.

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Azazel: cuidado com o que deseja

 


Azazel é uma coletânea de contos de fantasia de Isaac Asimov sobre um homem que encontra um demônio ancestral e o usa para resolver situações. Para quem está acostumado com o Asimov escritor de ficção científica, essa coletânea irá surpreender. O autor mostra que sabe lidar com o humor como poucos.
Todas as histórias são narradas por George Bimnut, um falastrão metido a esperto, que as conta diretamente para Asimov, enquanto se aproveita do escritor, fazendo-o pagar a conta do almoço.
Há uma estrutura básica nos contos: George percebe uma situação em que algo precisa ser resolvido e faz uso do demônio, que resolve a situação a seu jeito – com resultados sempre catastróficos.
A obra pode ser resumida a um lema, que resume perfeitamente seu conteúdo: cuidado com o que deseja. Seu desejo pode sair do controle.

Um erro de pronome

 

Muitos alunos dão pouca importância ao estudo da Língua Portuguesa. De certa forma, é até compreensível. As atenções estão voltadas para as disciplinas específicas do curso. Entretanto, ignorar o estudo da língua portuguesa pode acabar se tornando um erro fatal.
    Muitos especialistas consideram a nossa época a era da comunicação. Assim, quem não sabe se comunicar corretamente, fica de fora  de sintonia com o mundo e tem menos chances de conseguir um bom emprego. Uma ficha preenchida com erros de português certamente  não ajuda a conseguir um bom emprego.
    E, vejam bem, expressar-se bem não significa apenas escrever corretamente, de acordo com a gramática. Significa também dar fluência ao texto, torná-lo agradável e objetivo. Um relatório claro, sem erros ortográficos ou de pontuação, com frases curtas, tem mais chances de ser lido. 
    Entretanto, um bom conhecimento de nossa língua pode acabar influenciado até em nossa vida amorosa. É o que mostra o escritor Monteiro Lobato no conto “O Colocador de Pronomes” do livro Negrinha.
    A história se passa em uma cidadezinha do interior. Havia ali um pobre moço que definhava de tédio no fundo do cartório. Era escrevente, mas gostava de ler e, pior, de escrever versos lacrimogêneos. 
    Tudo ia na santa paz até que o moço se apaixonou pela filha mais moça do Coronel da cidade, a Laurinda, linda flor de 17 anos.  A filha mais velha, Do Carmo, era o encalhe da família. Já velha para casar, não conseguia bom ou mau partido. Também, pudera: era vesga, histérica, manca de uma perna e meio aluada. Se a mais nova era o ideal de beleza, a outra era feia até não poder mais.
    Pois se apaixonou o pobre rapaz e, para extrema infelicidade, escreveu um bilhetinho à amada: “Anjo adorado. Amo-lhe”. 
    O Coronel, entretanto, interceptou o bilhetinho e chamou o seu autor:
-    É seu? – disse, estendendo o papel para o rapaz.
-   É... – gaguejou o rapaz.
-    Pois agora... – ameaçou o vingativo pai... é casar!
O moço, que já se imaginava morto, ressuscitou. Casar com a filha do Coronel! A moça mais bonita de Itaoca!
O Coronel gritou lá para dentro:
- Do Carmo! Vem abraçar o seu noivo!
O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro. O bilhete fora escrito para Laurinda...
- Sei onde trago o nariz, moço. – esbravejou o Coronel. Você mandou o bilhete à Laurinda dizendo que ama-lhe. Se amasse a ela, teria dito “amo-te”. Dizendo “amo-lhe”, declara que ama uma terceira pessoa, no caso a Do Carmo. 
E, pacientemente, o velho explicou que os pronomes se dividem em três: de primeira pessoa, quem fala; de segunda pessoa, a quem se fala, e de terceira pessoa, de quem se fala. E o lhe é pronome de terceira pessoa. 
Portanto, nada de dizer “amo-lhe” ou “convido-lhe”. Expressões com essas demonstram que se ama ou se está convidado uma terceira pessoa.
Quanto ao moço? Casou-se mesmo com a megera. Tudo por causa de um pronome...

Decadence, a HQ manifesto da dupla Gian-Bené

 


Decadence foi produzida para ser uma espécie de manifesto do novo tipo de horror que a dupla Gian Danton - Joe Bennett estava introduzindo no Brasil. Depois de uma rejeição inicial de alguns editores, o sucesso das primeiras histórias da dupla fez com que surgissem pedidos de novas histórias - e aí surgiu a ideia de fazer uma HQ que confrontasse o horror antigo, datado e o novo (não é à toa que o título da história é Decadence). Os dois quebraram a cabeça durante dias para tentar transformar isso numa trama, mas no final, a ideia acabou vindo num sonho de Gian Danton, que acabou sonhando até mesmo com a diagramação da história, logo transformada num rafe, seguido à risca por Joe Bennett. Decadence foi publicada na revisa Mephisto, terror negro. 

Perry Rhodan – Gom não responde

 


Gom não responde, volume 47 da série Perry Rhodan é uma continuação direta de Projeto aço arcônida, na qual Bell e um grupo de mutantes vai à conferência dos aras com os superpesados e os mercadores galácticos para tentar mudar as coordenadas da Terra no computador do único que sabe onde fica nosso planeta.

No final do volume, eles escapam, mas uma força paranormal faz com que sua nave caía no planeta Gom. O que acontece com eles e os perigos enfretados é mostrado nesse volume escrito por Kurt Mahr.

Mahr descreve Gom como uma verdadeira ante-sala do inferno: “Gom era um mundo de oxigênio, com uma gravitação na superfície de 1,9 e uma pressão do ar de vinte atmosferas. Um mundo onde o homem não poderia parar de pé mais que dois minutos e onde precisaria de proteção de trajes espaciais para não ser esmagado pela fortíssima pressão”.

Se não bastasse isso, o planeta tem como habitantes locais os solhas, placas marrom escuro que têm grande poder paranormal, sugam matéria e podem se unir em seres gigantescos. Outra ameaça são os bios, seres artificiais criados pelos aras.


A capa original alemã. 

Como é possível perceber, esse volume é um verdadeiro triller de sobrevivência, que vai muito além daqueles que se passavam no planeta Vênus.

Uma surpresa do volume é a forma como Mahr trata Betty Toufry. O volume, escrito no início da década de 1960 mostra a mutante de forma pouco usual naquela época eminentemente machista, em que a maioria das heroínas se limitava a gritar e ser salva pelos heróis.

Quando a nave cai no planeta, por exemplo, todos os homens acreditam que a teriam que voltar para a nave para resgatar a garota que estaria morrendo de medo. Mas encontram Betty sentada numa pedra, sorrindo. Já no final da aventura, Bell aconselha a garota a ficar dentro da nave num momento de perigo: “O negócio vai começar a pegar fogo, senhorita, o melhor é ficar dentro da nave”. “Eu gosto de fogo, senhor Bell.”, responde ela. “Além disso, não gosto que ninguém diga que sou covarde.”.