domingo, março 05, 2023

Monstro do Pântano – O fim

 


Sempre que leio a edição 50 de Swamp Thing, eu me lembro da música Trem das Sete, de Raul seixas (“Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais”). A razão é que Rauzito, da mesma forma que Alan Moore, usou a arte como metáfora para discussões transcendentais e filosóficas. E, de certa forma, ambos contam a mesma história. Assim, começo a resenha por essa dica de trilha sonora para a história que talvez represente o ponto alto de toda a série do Monstro do Pântano.

Na edições anteriores, a sociedade secreta Brujeria forjara uma pérola de medos e a enviara no bico de um corvo. O objetivo é acordar uma antiga entidade capaz de destruir o paraíso. O que emergira do oceano primordial era alto tão imenso que parecia uma enorme montanha. Como resultado, dois exécitos se posicionam: de um lado os que defendem a criatura, do outro, os que a combatem, incluindo demônios, como Etrigan (“Frente ao que se aproxima, eles têm tanto a perder quanto nós. Mesmo o inferno tem uma situação estabelecida”, explica o Monstro do Pântano).

A ameaça que se aproxima é incomensurável grande. 


Na terra, magos reunidos por John Constantine tentam canalizar suas energias para os combatentes, tendo Mento como guia (“Será que vocês não entendem? Não podemos enfrentar aquilo! É maior do que conseguimos imaginar, nos deixa insignificantes!”, descreve ele).

A criatura percebe que está sendo vigiada e reage. Um a um, os magos reunidos por John Constantine começam a morrer queimados, mas eles continuam agindo (o encanto exige que não se quebre a corrente, de modo que os que estão do lado dos que morreram precisam continuar segurando sua mão).

Os magos são mortos um a um. Quem será o próximo? 


Desse modo, Moore une duas tramas paralelas: os exércitos na periferia do inferno e os magos, cada um com seu nível de suspense e drama, de modo que é quase impossível parar de ler... até porque a ameaça literalmente cresce a cada minuto. Os magos só conseguem ter uma visão melhor da criatura quando Espectro cresce a um tamanho inimaginável e consegue agarrá-la. “Agora ele enxerga a criatura inteira. É como uma... uma lesma em carapaça de besouro. Um capuz de osso, do tamanho de um continente, protege a cabeça preta e cega”, descreve Mento.

Espectro é o único que consegue ter noção do tamanho da criatura. 


Um a um os heróis são absorvidos pela criatura: Etrigan, Espectro, Senhor Destino... a cada um ela faz uma pergunta, e todos eles são simplesmente cuspidos para fora. O único que entra espontaneamente é o Monstro do Pântano, e para sua surpresa, o conselho do Parlamento das Árvores, que ele até então achara inútil, é o que resolve tudo.

Não vou dar spoilers, mas posso dar uma dica sobre o final: ouça a música de Raul Seixas.

sábado, março 04, 2023

A arte fantástica de Even Amdundsen

 


Even Amundsen é um artista da Noruega que produz ilustrações de fantasia. Ele fez ilustrações para diversas empresas de games, como a Blizzard, Riot e Wizards of the Coast. Suas imagens geralmente apresentam personagens de fantasia, como dragões, elfos, orcs, feiticeiros e guerreiros medievais. Atualmente ele trabalha como freelancer para diversas empresas.












Dark – segunda temporada

 


Se a primeira temporada mostrava que os produtores de Dark queriam levar o conceito de viagem do tempo ao seu extremo, a segunda temporada consegue ser ainda mais complexa.
Agora, ao invés de três linhas temporais, tempos cinco linhas temporais, com personagens que aparecem mais jovens em uma linha temporal e adultos ou velhos em outra. Personagens mais importantes, como Jonas, Claudia e Noah, chegam a aparecer em versões diferentes na mesma linha temporal.
O grande desafio é que é preciso manter a cronologia não só das linhas temporais, mas também dos personagens que viajam por essas linhas e tudo deve estar conectado.
Dark é um verdadeiro exercício intelectual.

Argo - o cinema como farsa

 

 

Argo é um filme de 2012 dirigido por  Ben Affleck, ganhador de diversos prêmios, entre eles o Oscar de melhor filme. O sucesso de público e de crítica é merecido. A história é intrigante e o filme muito bem dirigido, criando uma espécie de "triller cabeça", em que o suspense se mistura a questões políticas e históricas.
A película é baseada em fatos reais: em 1979 a embaixada americana no Irã é invadida por manifestantes e todos os seus ocupantes são feitos reféns. Mas seis pessoas conseguem escapar pelas portas dos fundos e se refugiam na casa do embaixador canadense. Para resgatar essas pessoas um agente do FBI cria um filme falso de ficção científica chamado Argo. A ideia é tirar os funcionários da embaixada disfarçados de membros da equipe de filmagem.
Affleck surpreende, criando um filme denso, repleto de suspense: o perigo surge a todo momento e, se a farsa for descoberta, todos serão mortos pelo regime iraniano. Fatos reais, como pessoas enforcadas em gruas de construção, ajudam a dar o clima das cenas.
Uma curiosidade é que para tornar a farsa crível foi criado até um cartaz, um story board e desenhos de produção. Boa parte desses desenhos ficou a cargo de Jack Kirby, o rei dos quadrinhos de super-heróis. Reproduzo abaixo algumas dessas imagens.



Superman - lendas do Homem de Aço

 


Superman lendas do homem de aço José Luiz-Garcia López 2 é uma daquelas publicações absolutamente imperdíveis para fãs de super-heróis. 
Este volume reúne histórias do Super-homem em encontro com outros heróis publicadas na coleção DC Comics Presents (essas histórias foram publicas no Brasil pela Ebal na coleção Clássicos da década pouco antes da editora perder os direitos dos heróis DC para a Abril). 
O destaque aqui vai todo para o desenhista. Na verdade, o desenho é tãobom que os roteiristas ficam em desvantagem - nenhum dos roteiros parece ir além do bom comparado com a arte fantástica de Garcia-López.


Chama atenção principalmente a primeira história, escrita por Martin Pasko, em que o Super e Flash. É uma história longa, que explora perfeitamente os heróis e principalmente o contexto de ficção-científica, na qual o desenhista era um mestre. A solução final é frustante (eu fiquei me perguntando: por que os heróis não fizeram isso antes?), mas o desenvolvimento vale.
O encontro do Super com Adam Strange, com roteiro de David Micheline, também é um bom momento. A dupla enfrenta uma ameaça grandiosa, que coloca em perigo dois mundos e explora bem o visual FC.


O encontro do Super com o Arqueiro Verde é certamente o momento mais fraco do álbum, com os heróis enfrentando um empresário ganancioso. O escritor Denny O´Neil usa o estilo social que havia feito sucesso nas histórias do Lanterna e do Arqueiro, mas aqui, com alguém tão poderoso quanto o Super-homem, parece que a história simplesmente não funciona.
Mas mesmo nessa história vale a pena perder alguns minutos só apreciando a belíssima arte.
Em tempo: a primeira história DC que li, quando era criança, foi justamente o encontro do Super-homem com o Flash. Posteriormente, quando a Abril passou a publicar a revista do personagem, li alguma coisa e não vi nada parecido com o heroismo grandiloquente dessa HQ (não sei porque, a Abril, que eu saiba nunca publicou essas histórias).

Karatê Kid

 

Filmes sobre artes marciais fizeram enorme sucesso na década de 1970, mas em 1984 um filme revitalizou o interesse pelo assunto ao focar menos nas lutas e muito mais no treinamento e na relação entre professor e aluno. Além disso, surpreendentemente, apresentava um mestre de Karatê pacifista. Seu nome? Karatê Kid.

Na trama, Daniel Larusso se mudou com sua mãe de Nova York para o Vale do São Francisco, na Califórnia. Daniel não aceita a mudança, considerando que não irá se encaixar na nova cidade. Tudo muda quando ele conhece uma garota, Ali, e se apaixona por ela. Mas a garota tinha um namorado campeão de karatê, Johnny Laurence, que não aceita a separação e irá enfernizar a vida de Daniel.

Numa das situações em que está apanhando do grupo liderado por Laurence, Daniel é salvo por senhor Miyagi, aparentemente apenas alguém que vive de pequenos serviços. Mas o japonês na verdade é um mestre de karatê. A contragosto ele aceita ensinar Daniel a lutar, com a ressalva de que Karatê é apenas para defesa. O objetivo é participar do campeonato local, onde ele deverá enfrentar Johnny Laurence.

A trama em si é interessante e chamaria a atenção dos adolescentes da década de 80, até pela escolha da ótima trilha sonora. Mas o que eleva esse filme acima da média de filmes adolescentes é o processo de treinamento de Daniel, uma mistura de humor, filosofia oriental e situações inusitadas.

A sequência em que o senhor Miyagi coloca Daniel para lavar carros, lixar assoalho e pintar a cerca é antológica: o expectador é levado a acreditar que o velhinho na verdade está se aproveitando do rapaz, forçando-o a fazer serviços em sua casa ao invés de ensiná-lo artes marciais.

Quando fica claro que tudo aquilo fazia parte do treinamento, o expectador se sente maravilhado (eu assisti no cinema, na época e lembro da reação entusiasmada da plateia). Em meio a isso, situações de humor (o senhor Miyagi tentando pegar um mosca com palitinhos, vendo Daniel conseguir isso de primeira e comentando: sorte de principiante!) e a relação terna entre os dois. Soma-se a isso uma trilha sonora característica da década de 80.

Não bastasse, quando finalmente o combate acontece, é apoteótico. Como um herói clássico da jornada do herói, Daniel tem tudo contra si: é o único contra uma academia de fortões, sofre uma lesão na perna, depois outra, mas no final consegue superar as dificuldades e ganhar o torneio com um golpe inusitado.

Todos os elementos se encaixam tão bem, de uma forma tão fluída que não é de surpreender que o filme tenha se tornado um sucesso estrondoso, dando origem a duas continuações e atualmente a uma série de sucesso, Cobra Kai. Aliás, é curioso que em Cobra Kai a situação tenha se invertido: no seriado é Johnny Laurence que exerce a função do sensei que ensina seus alunos com métodos inusitados em meio a situações de humor.

Emoji – O filme

 


Se há um filme do qual não se poderia esperar nada é Emoji, de Tony Leondis (2017). Afinal, os emojis são um símbolo da superficialidade e banalidade das redes sociais. Um filme sobre eles só poderia refletir essa banalidade.

Mas Emoji – o filme, surpreende, por levantar discussões profundas sobre essas mesmas redes sociais e sobre um mundo em que tudo é aparência. Mais ainda: é uma ótima reflexão sobre os papeis sociais assumidos pela pessoa em sociedade.

O protagonista é Gene, um emoji que deveria representar o “Eh”, a indiferença diante dos fatos. Mas Gene, ao contrário de outros emojis, é capaz de demonstrar diversas emoções. O envio de uma mensagem com Gene cria um desastre que poderá fazer com que o rapaz dono do celular resolva resetá-lo, o que provocaria a morte de todos os emojis.

Gene passa a ser caçado por robôs anti-vírus enviados pela vilã Sorridedente. No processo conhece a mãozinha do “Toca Aqui” e uma hacker chamada Rebelde, que pode “consertar” seu defeito, mas para isso eles precisam sobreviver aos ataques do robôs e chegar ao Dropbox.

Essa trama é usada para discutir como as pessoas se alinham aos papéis sociais mesmo que isso vá contra sua essência, algo que foi feito pelo pai de Gene. A sociedade espera que o protagonista seja indiferente, mas ele transborta emoções. Em sua jornada ele descobrirá como construir sua identidade fugindo do papel que a sociedade lhe impôs.

A saga de Gene é uma metáfora que reflete sobre as próprias redes sociais em que as pessoas criam personas para seus seguidores e muitas vezes guiam sua vida a partir dessa personas e do que se espera delas. A metáfora não é escancarada, mas tem várias pistas. À certa altura, por exemplo, Gene e Toca Aqui entram no Facebook e Gente comenta que o dono do celular tem muitos amigos, ao que a mãozinha responde que ele nem mesmo conhece essas pessoas: “o importante não é ter muitos amigos, mas ter muitas curtidas”.

Além disso, outra personagem importante, a Hacker Rebelde, também é alguém que está fugindo do papel social que lhe foi destinado.

Emoji consegue balancear essas reflexões com uma narrativa que agrada tanto adultos quanto crianças (meu neto adorou).

Homem-aranha – A volta do Dr. Octopus

 


No número 11 da revista do Homem-aranha, Stan Lee E Steve Ditko trouxeram de volta um vilão que se tornaria um dos mais importantes do panteão do personagem e inauguraram algo que seria uma das marcas da série: a identidade secreta interferindo na vida amorosa de peter Parker.

A splash page inicial, genial por sua capacidade narrativa, já dava o tom da história. Betty Brand soca o peito do homem-aranha e diz: “Eu te odeio, Homem-aranha! Vou te odiar até o dia da minha morte!”. A legenda, acondicionada dentro de um ponto de interrogação: “Estará o Homem-aranha fadado a perder sua amada Betty Brand? Como isso aconteceu e por quê?”. Ao fundo, a sombra do doutor Octopus estende seus tentáculos sobre os dois. A legenda afirma no melhor estilo marqueteiro da Marvel: “Ninguém a não ser Stan Lee, poderia ter escrito essa história épica! Ninguém menos que Steve Ditko poderia ter desenhado cenas tão arrebatadoras”.

Uma aula narrativa numa única página. 


Na história, o Dr. Octopus termina de cumprir sua sentença e vai ser libertado. O Homem-aranha resolve visitar o presídio para tentar convencer o diretor a não libertar o vilão, o que mostra que Peter Parker poderia ser um gênio da ciência, mas não entendia nada de direito.

Claro que o diretor não aceita a sugestão e Parker resolve monitorar o vilão criando o rastreador aranha, que aparece pela primeira vez nessa história, embora ainda não tivesse esse nome.

Homem-aranha, seu desastrado. 


Para provar que o Homem-aranha era um personagem diferente até mesmo dos diferentões da Marvel, temos uma situação inusitada: à certa altura, ele cai de mal jeito e machuca o tornozelo. Quem poderia imaginar o Thor passando por algo semelhante?

sexta-feira, março 03, 2023

Separa que melhora

 


Cavaleiro da Lua - O retalhador

 


No início da década de 80, o Cavaleiro da Lua era um dos títulos mais quentes da Marvel. Mérito da dupla Doug Moench (roteiro) e Bill Sienkiewicz (desenhos). Exemplo dessa qualidade já era visível no segundo número, com a história O retalhador (tradução da Paninin).

A primeira página já dava uma boa amostra do que viria. Mostrava o protagonista e uma personagem secundária, a garçonete Gena, sob a ameaça de uma foice empunhada em primeiro plano, numa cena de grande impacto. O texto, pungente, seguia o mesmo nível do desenho: “Sangue. Há sangue. Sangue no coração, nas veias e na carne. Sangue quente afluindo vermelho, dando vida. Há sangue. Sangue na cidade, nas ruas e nos becos. Sangue frio, escoando escarlate, deixando morte”.

A RGE trazudiu o título como O Cortador. 


A trama sobre um seril killer que assassinava mendigos era uma desculpa perfeita para Moench abordar temas sociais, como a invisibilidade social. À certa altura, por exemplo, um policial diz: “Até Jack, o estripador, teve mais atenção que o retalhador, e o safado só matava prostitutas... mendigos tão num nível ainda mais baixo. Ninguém liga para mendigos. Se ligassem, eles não seriam mendigos”.

A história toda vai muito além de um relato de super-herói, sendo emocionamente, especialmente quando descobrimos que Crawley, o mendigo amigo do taxista Jacke Lockley (uma das identidades do Cavaleiro) tem relação direta com o assassino.

Doug Moench usou a história para discutir temas socias. 


É também um capítulo em que se forma a equipe que iria ajudar o herói, dando ao título uma cara de pulp fiction. Além do piloto francês e do mendigo, entram na equipe a garçonete Gena e seus filhos.

Fundo do baú - Superamigos

 


Na década de 1970 um desenho animado fez as crianças se apaixonarem pelos heróis da DC. Criado em parceria com a Hanna Barbera, a série, baseada na Liga da Justiça, se chamava Superamigos e teve oito temporadas de muito sucesso.
O seriado tinha design do grande artista Alex Toth, o mesmo de Johnny Quest, o que garantia um visual inesquecível.
Mas se o visual era muito bom, não se podia dizer o mesmo dos roteiros. Como sua especialidade era animações humorísticas, a Hanna Barbera colocou no seriado personagens cômicos. A primeira temporada tinha Wendy, Marvin e Marvel, o supercão, que se parecia muito com o Scooby Doo. A partir da segunda temporada eles foram substituídos por uma dupla de heróis, os supergêmeos Zan e Jayna. Jayna podia se transformar em qualquer animal e Zan podia transformar-se em água em seus diversos estados e até mesmo controlar água. Com esse poder ele poderia até criar maremotos, mas na grande maioria das vezes ele só se transformava mesmo em um balde de água. Posteriormente esses personagens foram incorporados à DC Comics.
Outros heróis que surgiram nesse seriado e também acabaram incorporados foram Samurai, Chefe Apache e Eldorado.
Os heróis da Liga usados inicialmente foram Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Batman e Robin. Aliás, foi graças a esse seriado que o Aquaman ganhou a sua fama de ser pouco útil. O meme dele viajando em cima de dois golfinhos surgiu num dos desenhos.
Outro destaque era a Legião do Mal, um grupo de malfeitores que se reunia num pântano para elaborar planos de dominação mundial.
Mas, apesar dos pesares, a série era diversão garantida e foi para muitos o primeiro contato com os heróis da DC.

Lições literárias

 


Quando conheci Afonso, aos 14 anos, eu só tinha lido um livro, Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida. Afonso já  tinha lido todo Lobato, infantil e adulto, alguns livros de Freud e estava começando a ler Jung  em edições bonitas, encadernadas, que ornavam a sala de sua casa.
Essas  três coleções tinham história. Haviam pertencido ao seu padrinho, sargento do exército. Em plena ditadura, era um militar de esquerda. Um dia bateu na porta da família do afilhado com caixas repletas dessas coleções:
- Me descobriram. Eu vou sumir. Esses livros ficam de presente para o Afonso.
Nunca mais ouviram falar dele. Não se sabe se foi pego pelos órgãos de repressão, ou se fugiu para outro país.
Afonso tinha um ciúme atroz  desses volumes encadernados. Coisa de colecionador. Mostrava o que estava lendo, comentava, lia um trecho, mas não me deixava nem tocar no exemplar.
Talvez isso tenha aguçado minha curiosidade pela leitura.  Como não tinha livros em casa, tive que ir desbravando outros caminhos. Descobri os sebos e muitas vezes voltava a pé para casa, pois havia gastado o dinheiro da passagem com livros e gibis. 1984, de George Orwell, custou exatamente o valor de uma passagem de ônibus, depois de muito choro com o dono do sebo. Um outro livro que custou o preço exato de uma passagem de ônibus foi um volume argentino sobre história romana, com o qual não só aprendi sobre Roma, mas também comecei a dar os primeiros passos na língua espanhola.
Descobri também a biblioteca pública, em especial a seção circulante, que emprestava  livros. Pegava um livro por semana, religiosamente. Passava horas  olhando entre as estantes, lendo trechos, sorvendo um gostinho da obra. Na dúvida, levava Júlio Verne.  E nunca me arrependi. Entre os vários xodós, um exemplar de Viagem ao centro da terra com um texto  delicioso e ilustrações de um artista espanhol. Talvez  da mesma coleção (lembro que o ilustrador também era espanhol), um outro livro que me fascinou por seu intimismo: Robison Crusoe, um livro com um único personagem na maioria dos capítulos. E, claro, Lobato, mas esse eu emprestava pouco. Havia muitos livros dele em sebos e fui comprando um a um, muitos da mesma coleção encadernada em verde que eu via na casa do Afonso.
Na circulante havia um quadro onde eram colocadas pequenas resenhas escritas pelos leitores. Quando emprestei meu primeiro livro (um ótimo volume de contos de HG Wells), a bibliotecária sugeriu que eu escrevesse uma resenha para o quadro. Escrevi e na semana seguinte escrevi outra, e outra e outra, até que o quadro fosse totalmente tomado por resenhas de minha autoria.
Eu seguia também as sugestões da bibliotecária, algo muito útil para quem leu um livro por semana, por anos a fio. Meninos de engenho, de José Lins do Rego, foi dessa safra.
Ler era um prazer e, ao mesmo tempo, uma competição. Como na fábula do coelho e da tartaruga, eu largara muito atrás, mas queria vencer a corrida. Queria ler mais livros que o Afonso. Felizmente para mim, ele era como a tartaruga, lento para ler e preguiçoso para escrever. Aos 17 anos  eu já  tinha lido mais livros que ele, todos registrados em um caderno.
Além de, mesmo por vias tortas, me despertar o interesse pela leitura, Afonso, muito influenciado por Lobato, me ensinou uma grande lição: a propriedade no uso das  palavras.
No meio da  conversa ele soltava uma expressão que eu não conhecia e perguntava:
- Entendeu?
- Entendi, claro.
Ele  ralhava:
- Entendeu nada. Você nem sabe o que essa palavra significa.
Como eu negasse, ele me desafiava a definir o verdadeiro sentido da expressão.
Eu gaguejava, gaguejava, gaguejava, até que finalmente admitia ser era ignorante com relação àquele termo. 
Era humilhante, mas era  também uma lição: nunca finja entender de algo que não sabe  e, principalmente, nunca use palavras cujo significado não esteja muito claro para você.
Hoje vejo muitas pessoas  ansiosas por “falar difícil” usando expressões cujo significado desconhecem e penso: essas aí deveriam ter tido um amigo como o Afonso e um mestre como Lobato.  
Afonso passou anos se preparando nos melhores colégios, mas, mesmo com sua inteligência a e seu texto irrepreensível, não passou no vestibular. Foi para o Rio de Janeiro e nunca mais nos falamos. Era  época pré-internet e as minhas cartas levavam semanas para chegar e as respostas  às vezes  meses, até se esgotarem completamente. À moda de Carlota Joaquina, ele dizia que não queria levar nada de sua estada em Belém, nem mesmo os amigos.  A última notícia que tive dele é que tinha se envolvido com drogas e tinha abandonado dois curso de graduação, um deles de psicologia. Eu já trabalhava como jornalista  quando uma conhecida em comum me disse que ele ainda era sustentando pelos pais e não estava  estudando ou  trabalhando.
Mesmo com toda sua arrogância e egoísmo, Afonso despertou em mim o lado intelectual, o interesse pela leitura e o gosto por escrever de maneira clara.  Foram verdadeiras lições literárias. 

O orgulho da ignorância

 

Sócrates dizia que era o homem mais sábio da Grécia justamente porque ele era o único que sabia que não sabia. Esse conhecimento de sua própria ignorância sempre foi o que impulsionou os grandes pensadores. Mas hoje vivemos tempos estranhos, em que não saber algo, ou saber de forma superficial, é considerado um mérito.
Hoje, alguém que viu um meme na internet ou um vídeo de cinco minutos se considera uma autoridade no assunto. Mais: considera-se uma autoridade mais competente do que quem passou a vida estudando aquele assunto, escreveu livros, artigos etc.
Um exemplo: em uma discussão sobre educação, um indivíduo defendia que a solução para a educação no Brasil era apenas mudar a "grade" curricular. Feito isso, tudo se resolvia por mágica. Segundo a pessoa, era preciso esquecer ignorar todos os pensadores da educação e se focar apenas nisso: mudar a "grade". Não sabia exatamente que tipo de mudança, mas sabia que a solução para tudo estava na mudança da "grade". Onde ele aprendera isso? Num meme.
Outro exemplo é a questão dos que defendem que o nazismo era comunista. Leandro Karnall, doutor em história e um dos mais importantes historiadores brasileiros, diz que em décadas participando de congressos internacionais, nunca ouviu falar disso. Mas, segundo os defensores do nazismo-comunista, Leandro Karnall é suspeito para falar justamente por ser um historiador.
Eu já escrevi um livro sobre o nazismo e, durante a pesquisa em vários outros livros e sites sérios na época não encontrei nenhuma referência a isso de nazismo-comunista. Mas, segundo alguns comentadores de internet eu sou suspeito para falar sobre assunto justamente por ter escrito um livro sobre o nazismo. Ou seja: o fato de eu ter pesquisado o suficiente para escrever um livro, faz com que eu tenha menos autoridade para falar sobre o assunto do que uma pessoa que viu um meme com uma imagem de uma moeda com a suástica e a foice e o martelo (uma imagem que ninguém sabe dizer a fonte) ou viu um vídeo de dois minutos.
Por outro lado, os tais "especialistas de meme" são incapazes de explicar, por exemplo, por que os nazistas usavam um símbolo budista sem serem budistas.
São pessoas que não sabem sequer o que é uma variável independente ou o que é um grupo placebo, mas dizem que entendem mais de remédios do que os pesquisadores que pesquisam o assunto há anos. São as mesmas pessoas que dizem que um remédio que nunca passou por um teste científico é mais seguro do que uma vacina testada em milhões de pessoas em todo o mundo seguindo todos os protocolos de uma pesquisa experimental.
Essas são pessoas que fazem campanha contra a mídia e contra os livros. Nos comentários das páginas de jornais é comum encontrar postagens com telefones para cancelar a assinatura. Em postagens sobre livros, os comentários argumentam que livros são mentirosos. Para essa geração, orgulhosa de sua própria ignorância, a verdade está lá fora: no zap zap.
Tristes tempos em que ser ignorante virou motivo de orgulho.

Os atributos de Xuxulu são inomináveis

 

O processo de elaboração da capa do livro Cabanagem

 

O ilustração da capa elaborada por Chris Ciuffi para meu livro Cabanagem está recebendo os mais diversos elogios. De fato, é uma ilustração poderosa, belíssima, que conseguiu reunir os diversos elementos do livro, em especial o histórico e o mitológico. É uma capa que "conta a história".
Mas para chegar a esse resultado realmente fenomenal foi necessário todo um processo. Entenda quais foram os passos desse processo. 
Esse foi o primeiro esboço do desenhista, só com os elementos básicos, mostrando como seria a composição da ilustração. 

Aprovado o esboço, Chris produziu uma imagem mais detalhada de como seria a capa. Eu considerei que o personagem dentro da água deixaria a cena mais emocionante. Além disso, na imagem final, o personagem trocou o facão e a arma de fogo de mão. Um problema deste desenho que foi consertado foi justamente a arma de fogo: Chris desenhou um revólver, que não existia na época, e foi substituído por uma garrucha no desenho seguinte. 

Aqui o lápis definitivo. Eu gostei muito da imagem, mas o rosto do personagem me incomodou, pois os traços davam um ar de maldade, deixando a impressão de que ele era o vilão da história. .Nessa imagem já aparecem sombras ao fundo, que representam os seres da floresta. A ideia aí não era mostrar diretamente esses seres mitológicos, mas apenas sugeri-los, algo que faço muito no próprio livro. O desenhista inclui aqui uma cobra vindo na direção do cabano. Embora essa cena não exista no romance, ela deu dramaticidade à imagem e a impressão de perigo ininente.  
Essa foi a versão definitiva do lápis. A imagem ficou tão boa que bastou colorir. A versão colorida dessa imagem se tornou a capa definitiva, sendo necessários apenas alguns ajustes.
 Essa é a versão colorida do último desenho. Ficou muito boa, mas foi necessário uma pequena mudança: o facão estava confundindo com o fundo e sugeri que fosse dado um brilho de metal nele, destacando sua lâmina.
O livro já pode ser comprado no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem. 

Perry Rhodan – O olho vermelho do sistema Beta



O número 48 de Perry Rhodan, escrito por Clark Darlton, é um livro viciante por ser a continuação de uma trama muito bem elaborada, que fechava o primeiro ciclo.

Nos números anteriores, os aras resolvem acabar com a Terra e para isso usam os saltadores e superpesados, mas os mutantes conseguem entrar na nave do único superpesado que sabe a posição de nosso planeta e mudam as informações do computador.

A ideia era enganar os aras, saltadores e superpesados, fazendo-os atacar o terceiro planeta do sistema Beta como se fosse a Terra.

O olho vermelho do sistema Beta é focado nas duas naves terrenas que são envidas para esse sistema com a missão de rechaçar os ataques dos superpesados, simulando uma defesa terrena. Mas o major Deringhouse está curioso com o quarto planeta, onde há registro de vida inteligente e resolve investigar, o que leva à trama do volume e à solução magistral para o conflito que se avizinha.

A capa original amelã. 


É o próprio Deringhouse que batiza o quarto planeta, chamando-o de Aqua.

O planeta é uma incógnita, pois é quase todo tomado por um mar, com uma pequena faixa de terra do tamanho da Europa. No entanto, a única construção que os terrestres encontram é uma construção baixa, com cúpulas, na beira da água. “É uma coisa singular”, pensa o major. “O planeta só tem esse continente e a gente supõe que os habitantes teriam que aproveitar cada metro quadrado. Devia haver lá embaixo um emaranhado de casas e instalações como em nossas capitais. E o que vemos? Nada, absolutamente nada. Onde estão os homens?”.

Essa pergunta estabelece o clima de mistério do volume e é a principal razão pela qual a leitura é interessante no início.

Entretanto, depois, quando os humanos dão de cara com os tópsidas, a trama pega fogo e ganha uma reviravolta inteligentíssima. Os tópsidas foram um dos primeiros adversários siderais dos terranos. Seres reptilianos, eles tentavam invadir o sistema Veja e foram impedidos pelo grupo de Rhodan, que chegou ao ponto de lhes roubar uma nave.

Ao colocar os tópsidas nesse volume, Scheer, o autor da trama geral, costura perfeitamente a história, criando uma situação em que estão no palco todos os principais inimigos dos terranos nesse primeiro ciclo, o que deixa o leitor ainda mais apreensivo para ler o volume seguinte.