sexta-feira, junho 02, 2023
O massacre do Brigue Palhaço
Editorialite
Vindo da televisão e do cinema, Marcos Rey era um escritor
muito rápido. Quando foi convidado a escrever livros para a coleção Vaga-Lume,
ele escreveu o primeiro volume em menos de um mês e enviou. Pediram várias
alterações.
Foi quando ele percebeu que os editores consideravam que a
rapidez se devia à falta de qualidade - daí os pedidos de mudanças.
A solução foi simples: escrever o livro em janeiro e
guardar, para só entregar em dezembro. Os editores consideravam que o livro
estava ótimo, afinal o autor tinha passado um ano inteiro trabalhando nele, e não
pediam mudança nenhuma.
O episódio demonstra a doença da editorialite, situação em
que os editores se sentem na obrigação de pedir mudanças no texto mesmo quando
nenhuma mudança é necessária.
Homem-Aranha contra o rei do crime
O rei do crime é um personagem normalmente associado ao Demolidor. Algo que poucas pessoas lembram é que ele surgiu como vilão das histórias do Homem-aranha, mais especificamente em The Amazing Spiderman 50 em uma trama que se estendeu até o número 52.
O rei torna-se o comandante do crime de nova York estimulado pelo desaparecimento do aracnídeo, que no número 50 desistira de ser um herói, deixando seu uniforme numa lata de lixo. Sem o principal vigilante da cidade, foi fácil para o Rei tomar o poder e comandar uma onda de roubos.
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| O Rei aproveita a ausência do aracnídeo para comandar uma onda de crimes. |
Nessa fase, John Romita já se convencera que Ditko não iria voltar para o título e deixara de imitá-lo. Com isso, a diagramação ficou mais leve, com menos quadros, o que permitiu ao desenhista mostrar todo o seu talento em maravilhosas cenas de ação, a exemplo da luta entre o aracnídeo e o Rei.
Também é um momento em que Romita, até então um especialista em quadrinhos românticos, brilha. Gwen Stacy e Mary Jane estão mais bonitas do que nunca.
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| JJJ e o Homem-aranha presos juntos numa sala que irá alagar. Que situação! |
Stan Lee também cria situações interessantes, como quando JJ Jameson e o herói são presos numa sala que irá inundar de água e, ao ser salvo pelo Homem-Aranha, o editor do Clarin se convence mais uma vez de que se trata de uma ameaça.
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| O Rei do Crime fugindo da polícia? Esse não é o vilão que nós amamos odiar. |
Mas a caracterização do Rei é fraca, especialmente se considerarmos tudo que viria depois. Não sabemos praticamente nada sobre ele. E, à certa altura, ele simplesmente foge porque a polícia está chegando. Muito distante do estrategista desenvolvido por Frank Miller nas histórias do Demolidor.
No Brasil essas histórias foram reunidas em Grandes Heróis Marvel 23.
A pedagogia humanista
“Não sabemos quanta capacidade de criação é morta nas salas de aula”
Aos que acusavam seu método de criar deliquentes, Neill respondia que o que torna as pessoas neuróticas e delinqüentes são o moralismo e a repressão sexual. Para ele, a neurose é conseqüência da falta de amor e de aceitação. Para Neill, por exemplo, o interesse das crianças em assuntos escatológicos surge da própria repulsa com que os pais tratam esse assunto: “Lembro-me de uma menina de 11 anos. Seu único interesse na vida eram os banheiros, os buracos de fechadura. Substituí aulas de geografia por outras referentes ao seu assunto predileto, o que a fez muito feliz. Dez dias depois, quando quis continuar as lições especiais, ela protestou, entediada: Não quero mais ouvir falar nisso. Estou farta de falar nessas coisas”, conta Neil.
Ou seja, facilitador é alguém que cria condições para o aprendizado, incentivando os alunos a se aprofundarem nos assuntos de acordo com seus interesses. Por exemplo, após uma aula sobre a África, os alunos poderiam se aprofundar em temas como o tráfico de escravos, as religiões africanas, etc... e depois compartilharem suas descobertas com os colegas. É muito diferente de simplesmente deixar os alunos darem aulas no lugar do professor, como alguns têm entendido a proposta humanística.Surge o Quarteto Fantástico!
O lançamento do primeiro número do Quarteto Fanstástico, em novembro de 1961, mudou para sempre o mercado de quadrinhos norte-americanos. De uma editora decadente, que se resumia a Stan Lee e uma secretária, a Marvel (que na época não se chamava Marvel), começou uma caminhada que a transformaria na grande estrela do mercado, superando a gigante DC ainda na década de 60.
A leitura desse primeiro gibi (disponível no número dois da Coleção Clássicos Marvel), permite observar alguns segredos desse sucesso, a começar pela impressionante capa de Jack Kirby com o quarteto envolvido numa luta contra um monstro que surge das profundezas. A capa inteira é um exemplo perfeito de composição em que tudo funciona harmonicamente, com os elementos muito bem distribuídos, incluindo os balões de diálogos. “Eu não consigo ficar invisível rápido o bastante! Como vamos deter essa criatura, Tocha?”, pergunta Sue, enquanto seu irmão responde: “Espere e verá, irmã! O Quarteto Fantástico só começou a lutar!”.
Aqui temos várias inovações. Entre elas, o sentido de família, que iria ser a principal característica do título em todo esse tempo. Ao contrários de outros grupos de heróis, que se encontram aleatoriamente, os quatro vivem juntos, são uma família e enfrentam todos os problemas relacionados a isso, o que era uma tremenda novidade na época. Dá para imaginar a sensação que essa capa causou entre os garotos do início da década de 60.
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| Os autores criam mistério para instigar a curiosidade do leitor. |
O miolo também não deixa por menos. Os personagens são apresentados de forma a instigar a curiosidade do leitor. Reed atira um sinalizador, chamando o restante da família para o edifício Baxter, mas não vemos seu rosto. Então acompanhamos cada membro do quarteto vendo o sinal e respondendo ao chamado. Eles são apresentados de forma a instigar ainda mais o leitor, muitas vezes com toque de humor. Sue, por exemplo, fica invisível para pegar um taxi invisível, deixando o taxista aturdido.
Só quando atendem o chamado é que a narrativa paralisa e nos é contada a origem do grupo. E aqui mais uma inovação: a história é dividida em capítulos, sempre iniciados com uma imagem de impacto (posteriormente Jack Kirby usaria splash pages).
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| A demonstração dos poderes dos personagens é bem-humorada. |
A razão pela qual foram chamados: monstros estão surgindo das profundezas e destruindo usinas nucleares, um enredo que remetia diretamente aos gibis de monstros da Atlas na década de 50, versões suaves dos quadrinhos de terror.
Então, o Quarteto não só era uma família, era também um título que unia super-heróis, terror e ficção científica!
O vilão, o Toupeira, é apresentado como alguém rejeitado pela sociedade em razão de sua feiúra, que indo para o centro da terra se torna cego. Já ali observamos algo que caracterizaria os vilões da Marvel: nenhum deles era mal por ser. Todos eles tinham uma motivação, uma razão para suas ações.
Tirando um outro deslize (à certa altura o Sr. Fantástico tira de ação, jogado no mar, um monstro que tem asas!), é uma edição deliciosa de ler e totalmente inovadora.
quinta-feira, junho 01, 2023
Revista Imaginário traz artigo de Gian Danton sobre a evolução do texto nos quadrinhos americanos
A revista Imaginário é uma das mais importantes publicações acadêmicas do Brasil sobre quadrinhos e cultura pop. No número 21 ela trouxe um artigo meu, escrito em parceria com Rodrigo Bandeira, sobre como texto evoluiu nos quadrinhos americanos, indo desde a abordagem redundante em que texto e desenhos competiam para transmitir as mesmas informações, até o uso criativo e revolucionário do texto.
Leia mais sobre essa edição:
Abrimos esse número mais uma vez com o texto de Daniel Baz dos Santos, em análise aprofundada da obra de Sergio Toppi. Segue com a reflexão de Robson Carlos da Silva sobre a HQ “As aventuras de Machado de Assis, caçador de monstros”, com foco na excepcionalidade do protagonismo de um personagem negro e capoeirista.
Temos ainda estudo sobre “Jessica Jones e o protagonismo feminino: uma narrativa sobre Sororidade e o ‘pseudo-herói’ de gênero”, por Marcelo Bolshaw Gomes; “O arco ‘Corporação Batman’ e as novas relações do sistema do capital”, por Romir de Oliveira Rodrigues.
Fechando a edição, temos “O artista e sua interpretação do mundo”, entrevista com Edgar Vasques proposta por Marcelo Engster; resenha do fanzine QI e prancha com a personagem “Maria”, por Magalhães.
Para acessar a revista clique aqui.
Para ir direto ao meu artigo, clique aqui.
O internato – Las cumbres
A série espanhola O internato – Las cumbres, disponibilizada no Brasial pela Amazon vídeo, é uma grata surpresa. O que parecia uma simples série juvenil sobre adolescentes presos em um internato linha dura vivendo os dramas da adolescência se revela uma trama complexa, amedrontadora e cheia de camadas.
A história se passa num internato isolado no alto de uma montanha, na Espanha. O local é repleto de lendas e histórias sobre bruxos. A trama é focada em quatro estudantes que resolvem escapar do local. No processo, três são recapturados, mas um desaparece na floresta, levado por um homem vestido de preto com uma máscara que lembra o bico de um corvo.
Sua namorada e seu melhor amigo tentam, a partir daí, descobrir o que aconteceu com ele. No processo, descobrem que o local onde foi construído o internato era o ponto de culto de um grupo satanista. Ao mesmo tempo, um dos professores descobre que os estudantes estão sendo usados como cobaias no uso de um medicamento. Os dois fatos estão relacionados ou é apenas uma coincidência?
Soma-se aí as relações entre os próprios estudantes, que incluem traições, vinganças, amores e sexo (sim, há muitas cenas quentes).
O ritmo é rápido, com as várias tramas se entrelançado e fatos se sucedendo rapidamente, o que torna a narrativa viciante como nos melhores seriados.
A teoria comportamental na educação
Pavlov conclui que o comportamento dos seres vivos pode ser controlado através de um processo de condicionamento. Para isso, basta associar à resposta desejada uma outra resposta, já natural do organismo e agradável. Para Pavlov a recompensa deveria vir um pouco antes do estímulo que se quer condicionar para que se estabeleça uma relação. Para o cientista, também é necessário um reforço constante para manter o comportamento desejado. Essa técnica é utilizada pela publicidade, quando os anúncios associam situações de prazer (viagens, esportes, sexualidade) com produtos. Da mesma forma, ao se associar determinado comportamento a respostas negativas, pode-se eliminar esse comportamento. No filme Laranja Mecânica, cientistas tentam reabilitar um delinquente aplicando injeções que o fazem ter enjôos enquanto observa cenas de violência e sexo.
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| No filme Laranja mecânica, a teoria comportamental é usada para reabilitar um delinquente juvenil. |

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro
A edição, totalmente dedicada aos quadrinhos, tem a colaboração de vários grandes nomes da pesquisa em quadrinhos no Brasil, como Gazy Andraus, Natania A S Nogueira e Valéria Fernandes Da Silva.
Para acessar os artigos, clique no link:https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/issue/view/1023
Hell´s angels, de Hunter Thompson
Tarzan: a aventura chega aos quadrinhos
Dizem que quando se deparou com o original de um livro de Tarzan, o editor teria dito: “É a história mais excitante que já conheci!”.
Megalópoles de informação
Demolidor – Marcado para morrer
Assim que assumiu os desenhos na revista do Demolidor, Frank Miller
chamou atenção por seu senso narrativo e começou a dar sugestões para o título,
sugestões que foram acatadas pelo roteirista Roger McKenzie.
Esses pitacos já podem ser observados na segunda história
desenhada por Miller, em Daredevil 159. Essa edição já destoa do tom
super-heroiesco da revista até então, aproximando-se mais do gênero policial.
Na história um homem misterioso, cujo rosto não vemos em
detalhes, contrata um mafioso chamado Slaughter para matar o Demolidor,
prometendo um pagamento de meio milhão de dólares.
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| A página dupla é um exemplo da maestria narrativa de Miller. |
As primeiras páginas já são um ótimo exemplo do estilo
narrativo que seria característico de Miller (vale lembrar que na Marvel usa-se
o Marvel way, em que o desenhista recebe apenas um resumo, desenvolve
visualmente a história e depois o roteirista coloca o texto). A primeira página
mostra trechos de uma batalha entre o Demolidor e o Mercenário em quatro
imagens com uma variedade de ângulos e planos.
Então o leitor se depara com uma imagem em página dupla. Um
homem misterioso apontando para a tela, onde passam as imagens do conflito
enquanto o mafioso, em primeiro plano, tem seu cigarro aceso por um lacaio e
diz: “Tudo é possível por um preço... até mesmo assassinato!”. O impacto é
enorme.
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| Miller varia planos, ângulos, joga com a luz e a sombra. |
O mafioso manda bandidos ameaçarem Matt Murdock e enviarem
uma mensagem para o Demolidor: ele deve comparecer no cais à meia-noite. Claro
que o local está infestado de malfeitores, armados até os dentes, prontos para
matar o herói.
Mas o Demolidor usa seu sentido de radar e sua audição
super-desenvolvida par ir eliminando os adversários um a um em sequências de
ação simplesmente magistrais. Miller joga com luz e sombras, varia ângulos e
planos, usa a elipse quadrinística com genialidade, faz quadros verticais que
se esticam por toda a lateral da página quando o Demolidor cai na água, usando
o recurso para mostrar visualmente sua queda.
Uma curiosidade é que Miller introduz aqui um personagem que
seria usado à exaustão como alívio cômico na sua fase como roteirista do
título: o criminoso Tucão.
No final descobrimos que quem está por trás dessa tentativa
de assassinato é um vilão Mercenário. A história termina com a promessa de um
grande confronto.





















