sexta-feira, junho 02, 2023

O massacre do Brigue Palhaço

 


A adesão do Pará à independência foi marcada por uma tragédia.
O Grão Pará foi a última província à aderir à independência do Brasil. A província era comandada por portugueses e estava mais próxima de Lisboa do que do Rio de Janeiro e, portanto, a classe dominante não tinha o menor interesse na independência.
Em 1823, para resolver a situação, Dom Pedro I chamou um militar inglês, John Pascoe Grenfell, que rumou para a capital da província com um navio de guerra. Mas, ao encontrar a elite portuguesa que governava a província, blefou dizendo que tinha toda uma esquadra. Os portugueses concordaram em aderir à independência, com uma condição: continuar mandando no Pará.
Os soldados paraenses e a população local ficaram revoltados. Afinal, esperava-se que a independência mudasse a configuração de poder. O acerto feito não mudava nada: quem mandava continuava mandando.
Estourou uma revolta. Casas comerciais de portugueses foram depredadas.
Grenfell foi implacável: fez com que suas tropas percorressem as ruas de Belém, prendendo qualquer um que parecesse suspeito. Mais de 250 pessoas foram detidas.
O inglês mandou fuzilar cinco dos detidos e prendeu o cônego Batista Campos à boca de um canhão, ameaçando atirar. Grenfell acreditava que o religioso tinha sido responsável pela revolta. Só depois de inúmeros apelos inclusive das principais famílias, Batista Campos foi libertado.
Mas o que fazer com os outros 252 presos?
Grenfell decidiu transferi-los para o porão de um navio, chamado Brigue Palhaço. Lá, apertados, em calor extremo, com pouco ar e sem água, os prisioneiros começaram a agonizar. Um dos soldados, apiedando-se deles, pegou um balde de água do rio e jogou lá dentro, o que só piorou a situação, pois a correria para beber um pouco do líquido provocou várias mortes. Grenfell mandou atirar no porão para calar seus gritos, mas isso só fez aumentar  o lamento dos sobreviventes. A situação afetava os nervos dos soldados e o inglês temia que sua tripulação se rebelasse.
Enfim, alguém achou uma solução: trouxeram cal virgem de uma obra, jogaram no porão e fecharam a entrada. 252 pessoas morreram sufocadas.
A tragédia marcou a história do Pará e seria um dos principais estopins da revolta cabana, que aconteceria treze anos depois.  
O massacre do brigue palhaço aparece no meu romance Cabanagem. Para comprar o livro, clique aqui

Editorialite

 


Vindo da televisão e do cinema, Marcos Rey era um escritor muito rápido. Quando foi convidado a escrever livros para a coleção Vaga-Lume, ele escreveu o primeiro volume em menos de um mês e enviou. Pediram várias alterações.

Foi quando ele percebeu que os editores consideravam que a rapidez se devia à falta de qualidade - daí os pedidos de mudanças.

A solução foi simples: escrever o livro em janeiro e guardar, para só entregar em dezembro. Os editores consideravam que o livro estava ótimo, afinal o autor tinha passado um ano inteiro trabalhando nele, e não pediam mudança nenhuma.

O episódio demonstra a doença da editorialite, situação em que os editores se sentem na obrigação de pedir mudanças no texto mesmo quando nenhuma mudança é necessária.

Homem-Aranha contra o rei do crime

 



O rei do crime é um personagem normalmente associado ao Demolidor. Algo que poucas pessoas lembram é que ele surgiu como vilão das histórias do Homem-aranha, mais especificamente em The Amazing Spiderman 50 em uma trama que se estendeu até o número 52.

O rei torna-se o comandante do crime de nova York estimulado pelo desaparecimento do aracnídeo, que no número 50 desistira de ser um herói, deixando seu uniforme numa lata de lixo. Sem o principal vigilante da cidade, foi fácil para o Rei tomar o poder e comandar uma onda de roubos.

O Rei aproveita a ausência do aracnídeo para comandar uma onda de crimes. 


Nessa fase, John Romita já se convencera que Ditko não iria voltar para o título e deixara de imitá-lo. Com isso, a diagramação ficou mais leve, com menos quadros, o que permitiu ao desenhista mostrar todo o seu talento em maravilhosas cenas de ação, a exemplo da luta entre o aracnídeo e o Rei.

Também é um momento em que Romita, até então um especialista em quadrinhos românticos, brilha. Gwen Stacy e Mary Jane estão mais bonitas do que nunca.

JJJ e o Homem-aranha presos juntos numa sala que irá alagar. Que situação! 


Stan Lee também cria situações interessantes, como quando JJ Jameson e o herói são presos numa sala que irá inundar de água e, ao ser salvo pelo Homem-Aranha, o editor do Clarin se convence mais uma vez de que se trata de uma ameaça.

O Rei do Crime fugindo da polícia? Esse não é o vilão que nós amamos odiar. 


Mas a caracterização do Rei é fraca, especialmente se considerarmos tudo que viria depois. Não sabemos praticamente nada sobre ele. E, à certa altura, ele simplesmente foge porque a polícia está chegando. Muito distante do estrategista desenvolvido por Frank Miller nas histórias do Demolidor.

No Brasil essas histórias foram reunidas em Grandes Heróis Marvel 23.  

A pedagogia humanista

   “Não sabemos quanta capacidade de criação é morta nas salas de aula”

Alexander Neill

  
            Em oposição à pedagogia tradicional, que tinha como valores a disciplina, a transmissão de conteúdos do professor para o aluno e a memorização, surgiram vários paradigmas educacionais propondo novos pontos de vista. Um deles foi a educação humanística, também chamada de não-diretiva, representada pelo escocês Alexander Neill e pelo norte-americano Carl Rogers.
            Nessa abordagem o aluno não é um simples depositário de conhecimentos e a função do professor não é apenas transmitir informações, mas principalmente criar condições para que os alunos aprendam.
            Para esse paradigma, o objetivo da educação é a realização plena do ser humano e o uso pleno de suas potencialidades e capacidades.
            O homem é visto como uma totalidade, um organismo em processo de integração, uma pessoa na qual os sentimentos e as experiências exerçam um papel muito importante, como fator de crescimento. Enquanto na educação tradicional, o professor deve se manter o mais distante possível do aluno, e não deve se envolver emocionalmente, na educação humanística só há aprendizado quando há envolvimento emocional.
            Essa postura não aceita qualquer projeto social que seja baseado no controle e na manipulação das pessoas, ainda que isso seja feito com a justificativa de “tornar as pessoas mais felizes”. Ao contrário, as pessoas devem ser acostumadas desde pequenas à autonomia e a assumirem a responsabilidade das suas decisões pessoais.
            Na escola de Summerhill, que Alexander Neil fundou e dirigiu durante anos na Inglaterra, todas as decisões importantes eram tomadas em assembléias aos sábados, em que participava toda a comunidade acadêmica, do diretor aos alunos mais jovens. Ali todos tinham direito a um voto. Eram nessas reuniões que se estabeleciam as regras da escola: quando e como ver televisão, a que horas ir deitar, quando acordar, qual a próxima peça de teatro a ensaiar, que comida a maioria prefere, o que fazer com a menina que gosta de quebrar janelas...
            Segundo Rogers, o indivíduo é capaz de dirigir-se a si mesmo, de encontrar na sua própria natureza o seu equilíbrio e os seus valores. A alienação do homem consiste em não ser fiel a si mesmo. Para esse autor, somente quando o homem sente-se incondicionalmente aceito, ele se atreve a aceitar-se como é e abrir-se para o processo de aprendizado.
            Um testemunho de um professor de Summerhill, publicado na revista Realidade (1968), dá o tom da relação dos professores com os alunos em uma escola em que não era obrigatório nem mesmo freqüentar as aulas: “Você não sabe o que é ter uma classe onde quem está lá porque quer, porque escolheu aprender... Como em Summerhill ninguém pergunta a ninguém se vai ou não para a escola, ficamos logo viciados em sinceridade. Preciso estudar para acompanhar a criançada. Quem resolve aprender, não só vai a todas as aulas, como não dá folga para a gente: quer saber cada vez mais”.
            Esse paradigma parte da crença rousseauriana na bondade original: “Crianças livres e felizes não têm probabilidade de ser cruéis. A crueldade, em muitas crianças, nasce da crueldade que adultos exercem sobre eles”, dizia Neill. Da mesma forma, as crianças têm uma curiosidade natural, uma vontade de aprender, que a escola deve estimular.
            Aos que acusavam seu método de criar deliquentes, Neill respondia que o que torna as pessoas neuróticas e delinqüentes são o moralismo e a repressão sexual. Para ele, a neurose é conseqüência da falta de amor e de aceitação. Para Neill, por exemplo, o interesse das crianças em assuntos escatológicos surge da própria repulsa com que os pais tratam esse assunto: “Lembro-me de uma menina de 11 anos. Seu único interesse na vida eram os banheiros, os buracos de fechadura. Substituí aulas de geografia por outras referentes ao seu assunto predileto, o que a fez muito feliz. Dez dias depois, quando quis continuar as lições especiais, ela protestou, entediada: Não quero mais ouvir falar nisso. Estou farta de falar nessas coisas”, conta Neil.
            É importante destacar a diferença que Neil faz entre liberdade é licenciosidade. Licenciosidade é fazer o que se quer. Liberdade é agir dentro de limites estabelecidos pela liberdade do outro. Um aluno de Summerhill podia fazer o que quiser, desde que não incomodasse os outros. Se isso acontecesse, o caso seria levado à assembléia.
Um equívoco comum é com relação à forma como esse paradigma via a figura do professor. Rogers preferia chamar os professores de facilitadores. Essa palavra foi se deformando com o tempo e hoje perdeu quase completamente seu significado original. Para muitos, o facilitador é alguém que transfere a responsabilidade de aprendizado para o aluno. Exemplos disso são os professores que no primeiro dia de aula dividem os assunto pelos diversos alunos e os mandam depois apresentar o resultado dessa pesquisa (que quase nunca é pesquisa, mas apenas repetição de idéias de um autor já demarcado, numa relação, no fundo, bastante autoritária). Muitas vezes os professores não fazem nem comentários aos trabalhos dos alunos.
O facilitador, para Rogers, é alguém que: tem confiança na relação pedagógica e cria um clima apropriado para a convivência; informa, apresenta aos alunos uma base para que eles possam avançar; aceita o grupo e cada um de seus membros (essa aceitação deve ser não só intelectual, mas também afetiva); alguém que se converte em um membro do grupo e participa ativamente do ato coletivo da aprendizagem; é congruente, isto é, consciente de suas próprias idéias e sentimentos.  
Ou seja, facilitador é alguém que cria condições para o aprendizado, incentivando os alunos a se aprofundarem nos assuntos de acordo com seus interesses. Por exemplo, após uma aula sobre a África, os alunos poderiam se aprofundar em temas como o tráfico de escravos, as religiões africanas, etc... e depois compartilharem suas descobertas com os colegas. É muito diferente de simplesmente deixar os alunos darem aulas no lugar do professor, como alguns têm entendido a proposta humanística.
Anos depois de serem expostas, as idéias humanísticas ainda nos fazem pensar. Especialmente porque boa parte de suas propostas foram deturpadas. A não-diretividade tem sido vista como um “deixai fazer, deixai passar” que não é encontrado na proposta original. Pensadores como Alexander Neill e Carl Rogers nos mostram que a educação deve ser centrada no aluno, mas que o professor deve providenciar-lhe uma base que lhe permita aprender. Além disso, eles nos ensinam a importância da afetividade no processo educacional. Os alunos só aprenderão se for estabelecido um clima de amizade, em que todos sejam aceitos com suas próprias características.

Surge o Quarteto Fantástico!

 


O lançamento do primeiro número do Quarteto Fanstástico, em novembro de 1961, mudou para sempre o mercado de quadrinhos norte-americanos. De uma editora decadente, que se resumia a Stan Lee e uma secretária, a Marvel (que na época não se chamava Marvel), começou uma caminhada que a transformaria na grande estrela do mercado, superando a gigante DC ainda na década de 60.

A leitura desse primeiro gibi (disponível no número dois da Coleção Clássicos Marvel), permite observar alguns segredos desse sucesso, a começar pela impressionante capa de Jack Kirby com o quarteto envolvido numa luta contra um monstro que surge das profundezas. A capa inteira é um exemplo perfeito de composição em que tudo funciona harmonicamente, com os elementos muito bem distribuídos, incluindo os balões de diálogos. “Eu não consigo ficar invisível rápido o bastante! Como vamos deter essa criatura, Tocha?”, pergunta Sue, enquanto seu irmão responde: “Espere e verá, irmã! O Quarteto Fantástico só começou a lutar!”.

Aqui temos várias inovações. Entre elas, o sentido de família, que iria ser a principal característica do título em todo esse tempo. Ao contrários de outros grupos de heróis, que se encontram aleatoriamente, os quatro vivem juntos, são uma família e enfrentam todos os problemas relacionados a isso, o que era uma tremenda novidade na época. Dá para imaginar a sensação que essa capa causou entre os garotos do início da década de 60.

Os autores criam mistério para instigar a curiosidade do leitor. 


O miolo também não deixa por menos. Os personagens são apresentados de forma a instigar a curiosidade do leitor. Reed atira um sinalizador, chamando o restante da família para o edifício Baxter, mas não vemos seu rosto. Então acompanhamos cada membro do quarteto vendo o sinal e respondendo ao chamado. Eles são apresentados de forma a instigar ainda mais o leitor, muitas vezes com toque de humor. Sue, por exemplo, fica invisível para pegar um taxi invisível, deixando o taxista aturdido.

Só quando atendem o chamado é que a narrativa paralisa e nos é contada a origem do grupo. E aqui mais uma inovação: a história é dividida em capítulos, sempre iniciados com uma imagem de impacto (posteriormente Jack Kirby usaria splash pages).

A demonstração dos poderes dos personagens é bem-humorada. 


A razão pela qual foram chamados: monstros estão surgindo das profundezas e destruindo usinas nucleares, um enredo que remetia diretamente aos gibis de monstros da Atlas na década de 50, versões suaves dos quadrinhos de terror.

Então, o Quarteto não só era uma família, era também um título que unia super-heróis, terror e ficção científica!

O vilão, o Toupeira, é apresentado como alguém rejeitado pela sociedade em razão de sua feiúra, que indo para o centro da terra se torna cego. Já ali observamos algo que caracterizaria os vilões da Marvel: nenhum deles era mal por ser. Todos eles tinham uma motivação, uma razão para suas ações.

Tirando um outro deslize (à certa altura o Sr. Fantástico tira de ação, jogado no mar, um monstro que tem asas!), é uma edição deliciosa de ler e totalmente inovadora.

quinta-feira, junho 01, 2023

Revista Imaginário traz artigo de Gian Danton sobre a evolução do texto nos quadrinhos americanos

 


 
A revista Imaginário é uma das mais importantes publicações acadêmicas do Brasil sobre quadrinhos e cultura pop. No número 21 ela trouxe um artigo meu, escrito em parceria com Rodrigo Bandeira, sobre como texto evoluiu nos quadrinhos americanos, indo desde a abordagem redundante em que texto e desenhos competiam para transmitir as mesmas informações, até o uso criativo e revolucionário do texto. 

Leia mais sobre essa edição: 

Abrimos esse número mais uma vez com o texto de Daniel Baz dos Santos, em análise aprofundada da obra de Sergio Toppi. Segue com a reflexão de Robson Carlos da Silva sobre a HQ “As aventuras de Machado de Assis, caçador de monstros”, com foco na excepcionalidade do protagonismo de um personagem negro e capoeirista.

Temos ainda estudo sobre “Jessica Jones e o protagonismo feminino: uma narrativa sobre Sororidade e o ‘pseudo-herói’ de gênero”, por Marcelo Bolshaw Gomes; “O arco ‘Corporação Batman’ e as novas relações do sistema do capital”, por Romir de Oliveira Rodrigues.

Fechando a edição, temos “O artista e sua interpretação do mundo”, entrevista com Edgar Vasques proposta por Marcelo Engster; resenha do fanzine QI e prancha com a personagem “Maria”, por Magalhães.

Para acessar a revista clique aqui

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O internato – Las cumbres

 



A série espanhola O internato – Las cumbres, disponibilizada no Brasial pela Amazon vídeo, é uma grata surpresa. O que parecia uma simples série juvenil sobre adolescentes presos em um internato linha dura vivendo os dramas da adolescência se revela uma trama complexa, amedrontadora e cheia de camadas.

A história se passa num internato isolado no alto de uma montanha, na Espanha. O local é repleto de lendas e histórias sobre bruxos. A trama é focada em quatro estudantes que resolvem escapar do local. No processo, três são recapturados, mas um desaparece na floresta, levado por um homem vestido de preto com uma máscara que lembra o bico de um corvo.

Sua namorada e seu melhor amigo tentam, a partir daí, descobrir o que aconteceu com ele. No processo, descobrem que o local onde foi construído o internato era o ponto de culto de um grupo satanista. Ao mesmo tempo, um dos professores descobre que os estudantes estão sendo usados como cobaias no uso de um medicamento. Os dois fatos estão relacionados ou é apenas uma coincidência?

Soma-se aí as relações entre os próprios estudantes, que incluem traições, vinganças, amores e sexo (sim, há muitas cenas quentes).

O ritmo é rápido, com as várias tramas se entrelançado e fatos se sucedendo rapidamente, o que torna a narrativa viciante como nos melhores seriados.

Por sua estrutura, com estudantes lutando contra uma ameaça satânica, O internato lembra Harry Potter, embora seja uma versão muito mais adulta e se aproximar muito mais do horror.

A teoria comportamental na educação

 


Um dos pensadores mais importantes da educação no século passado foi o norte-americano Frederic Skinner. Suas idéias influenciaram a educação a tal ponto que, de uma análise dos CD-ROM educativos de meus filhos, conclui-se que todos eles são baseados na teoria de Skiner de condicionamento e reforço. 
As origens do pensamento de Skinner remontam ao fisiologista russo Ivan Pavlov. Ganhador do prêmio Nobel de 1904 na categoria de medicina fisiológica, Pavlov ficou famoso por sua experiência com um cachorro. Ao mostrar comida para um cão, o cientista percebeu que este salivava e chamou a isso reflexo incondicionado. Em um segundo momento, o cientista tocou uma campainha e anotou que a resposta do cão era apenas virar a cabeça para olhar de onde se originava o som. Pavlov passou a tocar a campainha toda vez que apresentava a carne ao cão. Em um terceiro momento, apenas o toque da campainha já era capaz de provocar salivação no animal.

Pavlov conclui que o comportamento dos seres vivos pode ser controlado através de um processo de condicionamento. Para isso, basta associar à resposta desejada uma outra resposta, já natural do organismo e agradável. Para Pavlov a recompensa deveria vir um pouco antes do estímulo que se quer condicionar para que se estabeleça uma relação. Para o cientista, também é necessário um reforço constante para manter o comportamento desejado. Essa técnica é utilizada pela publicidade, quando os anúncios associam situações de prazer (viagens, esportes, sexualidade) com produtos. Da mesma forma, ao se associar determinado comportamento a respostas negativas, pode-se eliminar esse comportamento. No filme Laranja Mecânica, cientistas tentam reabilitar um delinquente aplicando injeções que o fazem ter enjôos enquanto observa cenas de violência e sexo.
No filme Laranja mecânica, a teoria comportamental é usada para reabilitar um delinquente juvenil. 


Skinner reformulou a teoria de Pavlov, lançando as bases do neo-behavorismo ou teoria do condicionamento. Para eles, existem dois tipos de comportamento.
O comportamento respondente são os reflexos e respostas inatas ao ser humano. São respostas naturais. Quando nosso corpo começa a tremer quanto está frio, por exemplo, temos um comportamento respondente.
O comportamento operante é aquele cuja freqüência foi aumentada ou diminuída como resultado de um condicionamento.
Para Skinner, todos os comportamentos têm a mesma possibilidade de ocorrer, mas se determinada resposta for reforçada, esse comportamento terá maior chance de ocorrer do que outros. Correr é um comportamento inato do rato, assim como andar, mas se, ao final da corrida, ele recebe comida, a chance dele passar a correr se torna maior.
Skinner discordou de Pavlov afirmando que o reforço à resposta deve ocorrer depois, e não antes do comportamento desejado. Para ele, se, no momento em que houver uma resposta correta, houver um reforço, o sujeito terá uma tendência a repetir esse comportamento. Por outro lado, se não houver reforço, o comportamento terá uma tendência a ser extinto. Um exemplo é a criança que faz bagunça para chamar atenção dos pais. Se os pais não demonstrarem nenhuma atitude, a tendência da criança será parar esse comportamento. Por outro lado, a criança que é aplaudida e parabenizada ao guardar os brinquedos de forma organizada, terá a tendência de apresentar novamente esse comportamento.
Para essa corrente de pensamento, a inteligência é vista como a capacidade do organismo de responder aos estímulos do ambiente. Uma pessoa inteligente é aquela que responde melhor ao condicionamento. Um exemplo disso é a chamada caixa de Skinner, em que um rato é deixado em uma caixa e deve apertar uma tecla. A toda vez que a tecla é apertada, o animal recebe alimento. Ou seja, a resposta correta à situação foi premiada com alimento. Um rato inteligente é aquele que percebe logo essa relação e passa a agir de acordo com o condicionamento.

Para a teoria comportamental, a função da escola é manter e conservar os padrões de comportamento aceitos como úteis e desejáveis para uma determinada sociedade, dentro de um determinado contexto cultural, assim como eliminar os comportamentos indesejáveis.
Como o comportamento é moldado a partir da estimulação externa, o aluno não deve participar das decisões curriculares. Essas decisões são tomadas pelos dirigentes e pelo professor, sempre amparados nos objetivos e tendo em vista as necessidades da sociedade.

Os comportamentos desejáveis por parte dos alunos são mantidos através de reforços imediatos, como elogios, notas, prêmios, e reforços remotos, como diploma, vantagens na futura profissão e possibilidade de ascensão social.

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro

 

Meu artigo Verossimilhança hiper-real nos quadrinhos de Alan Moore foi publicado na revista Cajueiro. No artigo, eu analiso uma estratégia, usada por Alan Moore, para fazer com que seus quadrinhos pareçam reais a ponto de alguns leitores acreditarem que aquilo que é narrado aconteceu mesmo. Alguns exemplos: os anexos de Watchmen e a série 1963, que emula perfeitamente as revistas da Marvel na década de 1960.
A edição, totalmente dedicada aos quadrinhos, tem a colaboração de vários grandes nomes da pesquisa em quadrinhos no Brasil, como Gazy AndrausNatania A S Nogueira e Valéria Fernandes Da Silva.
Para acessar os artigos, clique no link:https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/issue/view/1023 

Hell´s angels, de Hunter Thompson

 


Em 1965 a cidade de Monterey, nos EUA, foi tomada por centenas de motoqueiros cabeludos, a maioria deles pertencente à gangue Hell´s Angels. A razão da reunião era reunir fundos para mandar para a casa da mãe o corpo de um amigo atropelado por um caminhão. O encontrou teve um tom solene que ganhou o respeito até mesmo da polícia da cidade. Os motoqueiros haviam sido recebidos com certa hospitalidade, mas essa seria a última vez em que isso aconteceria. Em 24 horas a gangue estaria no meio de uma denúncia de estupro que provocaria uma verdadeira paranóia. Em seis meses, todas as pequenas cidades norte-americanas estariam armadas até os dentes esperando a invasão dos motoqueiros.
A situação que chocou o país foi o estupro de duas garotas, de 14 e 15 anos, uma delas grávida. De acordo com os jornais, elas foram arrancadas dos braços de seus namorados e levadas para as dunas, onde seriam violentadas diversas vezes. O senador Fred Farr exigiu uma investigação e o procurador-geral Thomas C. Lynch produziu um relatório a partir de um questionário enviado a mais de 100 delegacias. A procura por esse relatório foi tão grande que tiveram que imprimir uma segunda tiragem.  O jornal New York Times produziu um extenso e tempestuoso comentário sobre o relatório. A Time trouxe na capa: “Os mais selvagens”. A Newsweek contra-atacou com a capa “Os selvagens”.
A maioria da imprensa simplesmente pulou as primeiras partes do relatório, em que se diziam que os motoqueiros acusados do estupro foram soltos por falta de provas e se concentraram nos aspectos mais sensacionalistas. Quase todos se limitaram a repassar as informações fornecidas pelas fontes oficiais e ninguém se preocupou em ouvir a versão dos motoqueiros. A revista Time chegou a inventar um caso para dramatizar a notícia.
A missão de entender o outro lado da história coube ao jornalista Hunter Thompson, que ficaria famoso ao criar o gonzo jornalismo. Hell´s angels não é uma reportagem gonzo, mas é um belo ensaio para o que viria a ser o gonzo, inclusive com um dos elementos importantes dessa variação jornalística: para cobrir o assunto, Thompson passou um ano convivendo com os motoqueiros e chegou até a comprar uma moto (como resultado acumulou uma grande quantidade de multas e foi expulso de sua casa).
A crítica à maneira como a imprensa cobriu o caso é um dos melhores momentos do livro e serviu de base para a prática posterior de Thompson, na qual ele colocou a ideia de objetividade jornalística de cabeça para baixo.
Já no primeiro capítulo, o autor pergunta-se o que as meninas faziam numa praia deserta lotada de motoqueiros e descobre que as garotas haviam passado a tarde no bar, conversando e bebendo com os motoqueiros e depois ido para a praia com eles. “Droga, aquelas garotas não foram para lá cantar uma música”, disse um dos Hells. “Elas estavam afim de agito e queriam uma sacanagenzinha, mas o problema foi que era muitos caras. No começo estava legal para elas. Depois foram chegando cada vez mais caras, se empilhando sobre as dunas”. Nesse ponto, as garotas devem ter se arrependido da aventura, mas era tarde demais.
A versão de que garotas inocentes haviam sido arrancadas dos braços de seus namorados e violentadas por bárbaros selvagens logo desmoronou.
Ao mostrar o outro lado da história, Thompson não pretendeu pintar os motoqueiros como santos. Ao contrário: os Hells Angels são vistos como foras da lei violentos, ressentidos com a sociedade: “Em um mundo cada vez mais adaptado aos especialistas, técnicos e máquinas fantásticas e complicadas, os Hell´s Angels são perdedores óbvios e isso os chateia”.
Um dos princípios básicos da gangue, inscrito no estatuto do clube, é a crença na retaliação total: “Quando pedem para você não voltar mais a um bar, você não apenas bate no dono – você volta com o seu exército e destrói o lugar, quebra a casa inteira e tudo que ela representa. Sem acordo. Se um homem se meter com você, quebre a cara dele. Se uma mulher não quiser nada com você, estupre-a”. O próprio Thompson sentiu esse princípio na prática ao levar uma surra de um grupo de motoqueiros.
Rejeitados pela sociedade e sem ter nada a mais além do companheirismo, os Hell´s Angels se agarram a isso: “A maioria dos outros são fora da lei em meio período, ao passo que os Angels cumprem o papel sete dias por semana: usam o emblema em casa, na rua, e às vezes até no trabalho. Eles vão de moto comprar um litro de leite no mercadinho do bairro. Um Angel sem o seu emblema se sente nu e vulnerável, como um cavaleiro sem armadura”.
Esse tudo ou nada se refletia até mesmo no uniforme usado por eles, pensado para criar o máximo de perigo numa atividade que, por si só, já é perigosa (dirigir motos grandes). Segundo Thompson, os Angels arriscavam a sorte até o limite: não usavam capacete, jaquetas ou calças de couro (que protegem no caso de um tombo). Eles chegavam a usar jaquetas sem manga, para aumentar o perigo: “Os Angels não querem que ninguém pense que eles estão diminuindo os riscos”.  
A chegada do bando de motoqueiros coloca em pânico os postos de gasolina e, na maioria das vezes, é mais barato fazer vista grossa e deixá-los roubar um litro de óleo do que se arriscar a ver o local destruído.
Mas o grupo também sentia um prazer perverso em ser amigável. O dono de um posto de gasolina entrevistado por Thompson lembra de uma vez em que um grupo pediu para usar o local para consertar umas motos. Amedrontado, ele disse que ficassem à vontade e saiu do lugar o mais rápido que podia. Depois de uma hora, finalmente criou coragem para voltar e descobrir se o local ainda estava de pé. Ficou estarrecido ao descobrir que o local estava impecável, mais limpo que antes. Os motoqueiros haviam chegado ao ponto de varrer o chão e limpar as ferramentas.
Esses dois lados dos Hell´s Angels só poderiam ser percebidos por alguém que convivesse com eles. A total honestidade de Hunter Thompson, ao revelar seu método de investigação, e ao mostrar até mesmo suas limitações e dificuldades (inclusive os vexames) abriram caminho para o gonzo jornalismo e para uma crítica devastadora do fazer jornalístico. Um conselho: se você gosta de reportagens e não tem preconceitos, leia Hell´s Angels e depois Medo e delírio em Las Vegas. Na sequência.

Tarzan: a aventura chega aos quadrinhos

 

 

Além de Buck Rogers, outro grande expoente da fase aventura foi Tarzan. O personagem foi criado por Edgar Rice Burroughs em 1912, numa revista pulp. O primeiro livro foi vendido para a editora por apenas 700 dólares. Um ano depois já tinha se tornado um dos maiores best sellers da literatura universal.
Com o tempo o rei dos macacos tornou-se o mais consagrado personagem do século XX e legou ao seu criador uma fortuna de 20 milhões de dólares.
Ao contrário da versão cinematográfica, em que Tarzan era um selvagem monossilábico, na literatura ele era um Lord inglês, que fora criado pelos macacos e, de tão inteligente, aprendera a ler sozinho. Seu nome, na linguagem dos macacos criada por Burroughs, significa pele branca (Tar – branca, zan – pele).
     Dizem que quando se deparou com o original de um livro de Tarzan, o editor teria dito: “É a história mais excitante que já conheci!”.
Logo cartas de fãs começaram a chegar na editora exigindo uma segunda aventura. Os livros, 26 ao todo, foram traduzidos em 31 línguas, incluindo o mandarim e o esperanto. Até os soviéticos se renderam ao carisma do rei dos macacos.
O personagem estreou no cinema em 1918, com Tarzan dos Macacos, sendo o primeiro filme da história a arrecadar mais de um milhão de dólares.
Com o dinheiro que ganhou, Burroughs montou uma fazenda em homenagem ao personagem e deu-lhe o nome de Tarzana.
No início da década de 1930 a marca Tarzan estava em tudo. Além do cinema, o personagem estrelava propagandas de cremes dentais, sorvetes e até gasolina (“Dirija com o poder de Tarzan!”). Eram vendidos a faca de tarzan, estatuetas de Tarzan e calções de Tarzan.
Com tanto sucesso, não foi surpresa quando o personagem apareceu nas tiras de quadrinhos. Mas, com medo de que seu personagem fosse mais uma vez deturpado, como foi no cinema, Burroughs exigiu que a versão fosse a mais fiel possível.  
Para ilustrá-la foi chamado Harold Foster, um desenhista publicitário de talento.
Foster, antes de se tornar desenhista, fizera de tudo um pouco. Passara a infância nas florestas do Canadá, caçando, pescando. Depois trabalhara como guarda-florestal. Depois disso, vendeu jornais, foi boxeador profissional e  garimpeiro. Chegou a descobrir uma mina no valor de um milhão de dólares, que lhe foi usurpada.
Em 1921 foi de bicicleta a Chicago, onde estudou desenho de noite enquanto trabalhava de dia.
Embora o tempo de execução fosse muito curto, Foster acabou aceitando desenhar as tiras diárias de Tarzan, mas se recusou a usar balões. O texto e os diálogos eram colocados abaixo dos quadros, um recurso que lhe dava a certeza de que seu desenho não sofreria perdas.
A primeira tira de Tarzan surgiu no dia 7 de janeiro de 1929 e foi um sucesso imediato. Além da popularidade do personagem, a história ganhava muito com o ótimo traço de Hall Foster, um dos mais perfeitos desenhistas de quadrinhos de todos os tempos.
Depois de 60 tiras, Foster completou a história do primeiro livro e abandonou o personagem. Fazer uma tira por dia era um sufoco grande demais. Mas, como Burroughs gostava muito de seu traço, ele foi chamado para fazer páginas dominicais, um novo formato no qual ele se tornaria mestre.
Em 1937 ele abandona Tarzan para se dedicar ao Príncipe Valente, uma criação sua, e é substituído por Burne Hogarth. Hogarth era considerado um mestre da anatomia e levou o personagem ao seu ponto alto. Depois dele vieram outros nomes igualmente importantes, como Russ Manning e Joe Kubert.
Realista somente no desenho, o Tarzan dos quadrinhos era, acima de tu­do, um aventureiro. Encontrando cida­des perdidas (parece que havia muitas naquela época), lutando com gorilas gigantes­cos, enfrentando dinossauros e salvan­do lindas princesas, o único limite para suas aventuras era a imaginação dos ro­teiristas... e esse limite era tão elástico quanto o interesse dos leitores.

Megalópoles de informação

 

Em plena década de 60, o filósofo Marshall McLuhan fez uma previsão curiosa: “ A cidade do futuro, de circuitos elétricos, não será esse fenomenal aglomerado de propriedade imobiliária concentrada ao redor da ferrovia. Ela adquirirá um significado inteiramente novo sob condições de movimentação extremamente rápida. Será uma megalópoles de informação. O que resta da configuração das cidades “anteriores” se parecerá muito com as feiras mundiais – lugares onde se exibem novas tecnologias, não lugares de trabalho ou moradia”. Na época a maioria das pessoas não deu muita bola. Entretanto, a tendência está mostrando que o autor do conceito de Aldeia Global acertou mais uma vez. As cidades do futuro serão megalópoles de informação.
                Para entender o que isso quer dizer, é necessário voltar no tempo e entender porque as cidades se formaram.
Os povoados surgiam para suprir algumas necessidades. A primeira delas, a de contato humano. Aristóteles já dizia que o homem é um ser social. Não conseguimos viver sozinhos e a cidade nos permite conseguir facilmente relacionamentos com outras pessoas.
Além disso, as vilas eram os locais onde você poderia encontrar tudo que necessitava. Não é por acaso que muitas surgiram ao redor de feiras, como é o caso de Feira de Santana, na Bahia. Morar próximo ao local em que as pessoas comercializam é a certeza do acesso aos produtos essenciais sem grande gasto de energia.
Muitas cidades surgiam ao redor de ferrovias e portos justamente pela facilidade de acesso ao transporte e aos produtos transportados.
É interessante notar que tudo que os agrupamentos humanos ofereciam (produtos, relacionamento humano, transporte) pode ser considerado informação. Informação é tudo que é novidade, que foge do comum e a cidade era o local onde a informação estava.
                Pois bem. Hoje não há mais necessidade de proximidade física para o acesso à informação.  Através da internet eu consigo me comunicar com amigos que moram em outros estados com mais facilidade que com pessoas que moram no mesmo bairro. Através das lojas virtuais, é possível comprar qualquer produto e recebê-lo em casa sem precisar se deslocar um único quilômetro.
Até mesmo os produtos estão se tornando virtuais. Os livros, por exemplo. Antes era necessário se deslocar até a livraria. Se a pessoa não morasse em um local que tivesse livraria, precisaria viajar, gastar com a ida e a volta. Hoje basta “entrar” em uma livraria virtual, dar o número do cartão de crédito, receber uma senha e fazer o download.. O processo, da compra ao produto, passando pela transferência de propriedade, é completamente virtual.
                Além disso, o próprio ambiente de trabalho está se tornando virtual. Muitas pessoas fazem seu trabalho em casa, enviam pelo computador e recebem pelo banco virtual. Um amigo meu mora no subúrbio de Belém e trabalha para os EUA. E eu mesmo colaboro com publicações nas quais nunca coloquei o pé.
                Se não é mais necessário morar na cidade grande para trabalhar, comprar produtos ou ter contato com as pessoas, para que as pessoas enfrentariam engarrafamentos, poluição, violência e todas as coisas negativas das metrópoles?
                A tendência, portanto, é que as pessoas comecem a se afastar dos grandes centros, procurando locais que não tenham os problemas das grandes cidades. A cidade irá se dispersar, e cada um que tiver acesso aos meios de comunicação será seu cidadão. As megalópoles serão definidas não mais por suas extensões físicas, mas por sua capacidade de transmissão de informações.

Demolidor – Marcado para morrer

 


Assim que assumiu os desenhos na revista do Demolidor, Frank Miller chamou atenção por seu senso narrativo e começou a dar sugestões para o título, sugestões que foram acatadas pelo roteirista Roger McKenzie.

Esses pitacos já podem ser observados na segunda história desenhada por Miller, em Daredevil 159. Essa edição já destoa do tom super-heroiesco da revista até então, aproximando-se mais do gênero policial.

Na história um homem misterioso, cujo rosto não vemos em detalhes, contrata um mafioso chamado Slaughter para matar o Demolidor, prometendo um pagamento de meio milhão de dólares.

A página dupla é um exemplo da maestria narrativa de Miller. 


As primeiras páginas já são um ótimo exemplo do estilo narrativo que seria característico de Miller (vale lembrar que na Marvel usa-se o Marvel way, em que o desenhista recebe apenas um resumo, desenvolve visualmente a história e depois o roteirista coloca o texto). A primeira página mostra trechos de uma batalha entre o Demolidor e o Mercenário em quatro imagens com uma variedade de ângulos e planos.

Então o leitor se depara com uma imagem em página dupla. Um homem misterioso apontando para a tela, onde passam as imagens do conflito enquanto o mafioso, em primeiro plano, tem seu cigarro aceso por um lacaio e diz: “Tudo é possível por um preço... até mesmo assassinato!”. O impacto é enorme.

Miller varia planos, ângulos, joga com a luz e a sombra. 


O mafioso manda bandidos ameaçarem Matt Murdock e enviarem uma mensagem para o Demolidor: ele deve comparecer no cais à meia-noite. Claro que o local está infestado de malfeitores, armados até os dentes, prontos para matar o herói.

Mas o Demolidor usa seu sentido de radar e sua audição super-desenvolvida par ir eliminando os adversários um a um em sequências de ação simplesmente magistrais. Miller joga com luz e sombras, varia ângulos e planos, usa a elipse quadrinística com genialidade, faz quadros verticais que se esticam por toda a lateral da página quando o Demolidor cai na água, usando o recurso para mostrar visualmente sua queda.

Uma curiosidade é que Miller introduz aqui um personagem que seria usado à exaustão como alívio cômico na sua fase como roteirista do título: o criminoso Tucão.

No final descobrimos que quem está por trás dessa tentativa de assassinato é um vilão Mercenário. A história termina com a promessa de um grande confronto.