terça-feira, julho 02, 2024

O Cavaleiro das Trevas

 


No início da década de 1980, Frank Miller era o grande nome dos quadrinhos americanos. Depois de salvar a revista do Demolidor do cancelamento, transformando-a num campeão de vendas, ele foi contratado para a DC Comics na qualidade de astro.
Seu primeiro trabalho para a editora, Ronin, foi aplaudido pela crítica, fez sucesso e abriu as portas para a invasão dos mangás, mas não chegou a ser algo bombástico. O grande sucesso mesmo viria com a minissérie Batman - Cavaleiro das Trevas, de 1986.
Cavaleiro das Trevas foi um arrasa-quarteirão que mudaria para sempre a história dos quadrinhos de super-heróis, a começar pelo formato de luxo em que foi lançado, chamando atenção dos leitores adultos e da imprensa.
A história se passa em um futuro em que os super-heróis foram proibidos. Aposentado após a morte de seu parceiro Robin, Bruce Wayne é um homem amargurado pelos fantasmas do passado e pela percepção de que a cidade que protegeu durante anos está se transformando em um completo caos de violência urbana.
Sua volta à ação marca também o retorno dos vilões Duas Caras e Coringa e a tensão com o Super-homem, o único herói com autorização para agir.
Miller foi revolucionário em tudo, a começar pela forma de contar a história, usando e abusando das elipses. Elipses são pulos na narrativa, partes não mostradas pelo quadrinistas e que são completadas pelo leitor. Os quadrinhos usam as elipses o tempo todo: o personagem se levanta da cadeira, no quadro seguinte está na porta de casa: todo o trajeto entre uma ação e outra é completado pela imaginação do leitor. Miller levou o recurso a patamares nunca explorados em especial na sequência em que o Batman volta à ação: o leitor nunca vê o herói, e sim as consequências de sua ação. Quando ele finalmente surge é numa grandiosa splash page, de enorme impacto.
Outra revolução de Miller foi introduzir quadros televisivos como elementos narrativos. Quando vemos Batman pela primeira vez, por exemplo, as telas mostram pessoas comuns comentando sua aparição. Além disso, a narrativa televisiva muitas vezes ajudando o leitor a entender as elipses – exemplo disso é a mulher cuja bolsa é revistada pela gangue mutante e que sai feliz ao descobrir que não foi roubada – na sequência, uma jornalista informa: “Mulher explode numa estação de metrô! Noticiário completo às onze...”.
As telas de televisão também funcionam como um acréscimo de aprofundamento ao mostrar debates sobre a ação do herói. É nesses inserts que Miller irá colocar uma das questões mais interessantes da obra: seriam os vilões uma consequência dos super-heróis? Ou seria o contrário? A obra não dá respostas fáceis, deixando muito mais perguntas que certezas.
Outra inovação de Miller foi mostrar o Batman como alguém que capaz de qualquer coisa para conseguir seus objetivos – inclusive usar uma criança como aliada no combate ao crime ou torturar um bandido para conseguir uma informação. Maníaco? Visionário? Herói? Vilão? Junto com A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, Cavaleiro das Trevas transformou o Batman em um herói tridimensional, um dos mais complexos do universo DC.
Miller continuou sua abordagem sobre o personagem em uma outra série, Batman ano um, com desenhos de David Mazzuchelli, em que contava os primeiros anos do herói.
Como resultado, Batman se tornou o herói mais popular da época, uma verdadeira mania, com várias revistas derivadas e especiais.
No Brasil, Cavaleiro das Trevas foi a obra que inaugurou a era das graphic novels. O sucesso da série fez com que a Abril lançasse várias outras minisséries de luxo e até uma coleção, Graphic Novel, apenas com histórias fechadas, em papel gouchê.

Perry Rhodan – O atentado

 


O número 57 apresenta uma história isolada dentro da saga, quase um conto.

Escrito por Kurt Mahr, o volume é centrado em Horace O. Mullon, líder do grupo conhecido como Democratas autênticos. Ele se dirige a Terrânia com um objetivo muito claro: matar Perry Rhodan, que ele considera um ditador. Mas, antes que consiga seu objetivo, ele se depara com outro grupo, os Filósofos da Natureza, liderados por Walter Hollander, que também pretende assassinar Rhodan.

A trama gira em torno das tratativas desse plano de assassinato. Em uma narrativa paralela, o administrador do Império Solar é informado de todos os passos dos dois grupos, o que parece uma estratégia narrativa burra, já que tira todo o suspense da história, já que sabemos de antemão que o atentado irá fracassar (se bem que, qualquer leitor minimamente inteligente desconfiaria que o protagonista da série não seria morto no volume).

A capa original alemã. 


Há também uma atenção muito parca às motivações dos dois grupos. Não fica muito claro porque os democratas autênticos, que parecem um grupo bem intencionado, consideram Rhodan um ditador. Dos filósofos da natureza, temos apenas a impressão que se trata de um grupo que professa uma volta a um passado menos tecnológico, o que de fato não se bate com a realidade, já que os mesmos não fazem qualquer objeção a usar meios tecnológicos.

Essa pouca atenção às motivações e a ausência de suspense da primeira parte do volume são compensadas por um plot twist no final do primeiro ato: a história não é sobre o atentado a Rhodan, mas sobre o que acontece com as pessoas que se envolveram de alguma forma nesse atentado.

Nesse sentido, Mahr consegue escrever uma história envolvente, cheia de ação e suspense, com um final que se não chega a ser surpreendente, é, para dizer o mínimo, engenhoso.

Em outras palavras, O atentado é um daqueles livros que parecem não prometer nada, mas entregam muito.

O curupira

 


O curupira foi o primeiro ser encantado brasileiro registrado pelos europeus. Em uma carta de 1560, José de Anchieta já o citava. Em 1663, o padre Simão de Vasconcelas referia-se a ele como um gênio de pensamento “num exótico de mentiras e enganos”.
Esse ser mitológico mudava de local para local, chegando mesmo a mudar de nome: Curupira na Amazônia e Caipora ou Caapora no sul. Em comum, a característica de ser o protetor da floresta, que castiga quem mata caça pequena ou fêmeas ou prejudica a floresta de alguma forma.
Segundo Câmara Cascudo, “Vigiando árvores, dirigindo manadas de porcos-do-mato, arracadas de veados e pacas, assobiando estridentemente, passa a figura esguia e torta do Curupira, o mais vivo dos deuses da floresta tropical, presente às histórias infantis aos episódios de caça, aos acidentes da luta do homem n´Amazônia. É o eplicador dos mistérios, passando seus cabelos de fogo, seus pés virados como Enotocetos de Mégasthènes, registrados em Estrabão, seus dentes azuis, seus assobios açoitantes, na memória de todas as recordações”.
O maestro paraense Waldemar Henrique eternizou-o numa canção:

“Já andei três dias e três noites pelo mato
Sem parar
E no meu caminho não encontrei nenhuma
Caça pra matar
Só escuto pela frente pelo lado o Curupira
Me chamar
Ora aqui, ora ali, se escondendo sem
Parar num só lugar
Por esse danado muitas vezes me perdi
Na caminhada
E nem padre nosso me livrou desse
Danado da estrada”

O curupira aparece no meu romance Cabanagem desenhado pelo grande quadrinista Laudo numa imagem que representa bem o caráter do mestre do engano.

Compre o livro Cabanagem no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem

Lanterna e Arqueiro Verde – Meu ódio será sua herança

 


Ao assumirem o título do Lanterna e do Arqueiro Verde, Dennis O´Neil e Neal Adams se propuseram a explorar os grandes males da América. No volume 78 do título, eles abordaram um tema de pouco destaque, mas de grande relevância até os dias atuais: os líderes que criam em torno de si um grupo de fanáticos irracionais.

A história começa com a Canário Negro sendo abordada por uma gangue de motoqueiros. Eles querem roubar a sua moto, mas logo descobrem que não estão lidando com uma mulher indefesa. Entretanto, quando as habilidades em artes marciais da heroína já deram conta de quase todo o bando, um deles atropela a moça com uma moto.

A Canário é atacada por uma gangue de motoqueiros...


Duas semanas depois, o Lanterna, o Arqueiro e o Guardião chegam  a um restaurante administrado por um indígena. Enquanto estão comendo, aquela mesma gangue ataca o local. Quando são finalmente derrotados, o Arqueiro percebe que a moto usada por um deles é a mesma da Canário, o que os leva a procurar por ela. Só que a moça foi resgatada por um falso messias chamado Joshua e passou a fazer parte de sua seita. Joshua quer usar seu grupo massificado para uma guerra contra negros e índios.

A trama ecoa diretamente situações reais, como Charles Manson, cujos seguidores mataram diversas pessoas, entre elas a atriz Sharon Tate, e o Pastor Jim Jones, que levou mais de 900 pessoas a se suicidarem. O roteiro mostra que até mesmo uma heroína pode ser lobotizada e nas situações corretas passar a seguir cegamente um líder fanático.

...  o que faz com que ela entre numa seita. 


Não bastasse o tema relevante, temos aqui um roteiro primoroso de Dennis O´Neil, com uma ótima caracterização de personagens (poucas vezes o Arqueiro foi tão bem trabalhado em sua personalidade impetuosa) e diálogos afinados.

Falar da qualidade do desenho de Adams é chover no molhado, mas aqui, além de todas as outras características que diferenciam seu desenho, como a diagramação inovadora e planos inusitados, ainda descobrimos que ele é simplesmente um mestre ao desenhar mulheres. Sua Canário oscila entre o meigo e o obstinado.

Uma sequência magistral como essa não precisa de texto. 


Em determinada sequência, quando Joshua ordena que ela atire no Arqueiro, vemos uma sequencia de vários quadros, num close cada vez mais próximo, que vão revelando o conflito interno da personagem. De maneira inteligente, O´ Neil não coloca texto. Ele seria desnecessário. O desenho ali fala por si.

Quando a Marvel era a casa das Ideias

 

Revistas como a do Doutor Estranho refletiam a criatividade da Marvel na década de 70. 


Quando Alan Moore, Steve Bissett e John Totleben assumiram o Monstro do Pântano, muitos se surpreenderam com a diagramação inovadora. Mas a diagramação psicodélica não era novidade: o Doutor Estranho de Englehart e Frank Brunner já tinha essa característica.
A Marvel na década de 1970 era pura inovação.
Alguns fatores contribuíram para tornar isso possível.
Um deles foi o fato da Marvel não ser uma grande empresa, como a DC, mas que ter uma grande produção de revistas. Então eles precisavam urgente de profissionais e não podiam pagar tanto quanto a DC. Compensavam com liberdade criativa.
Por outro lado, a maioria dos roteiristas eram também editores, de forma que tinham controle do processo criativo, uma tradição que começara com Stan Lee e se tornara norma com Roy Thomas.
Por último, o lema de Stan Lee que foi regra até a entrada de Jim Shoter como editor-chefe da Marvel no final década de 1970: "se uma revista está vendendo bem, não interfira".
Todos esses fatores juntos faziam com que Marvel fosse o local ideal para quem queria inovar. E a lista dos que que aproveitaram isso é enorme: Steve Englehart, Frank Brunner no Doutor Estranho, Jim Starlin na saga de Thanos, Bill Mantlo no Hulk e Micronautas, Steve Gerber em Howard, o pato, Don McGregor no Pantera Negra...
Na década de 1980 a DC se tornou mais inovadora. Monstro do Pântano é um exemplo disso. 

Na década de 1980 essa situação muda completamente: a Marvel se torna uma grande empresa, a primeira em vendas, os roteiristas deixam de ser editores e o editor-chefe se pedia modificações nas revistas, mesmo que ela estivessem vendendo bem (há uma caso famoso de uma capa de quadrinhos que Shoter mandou redesenhar três vezes porque não gostou do tênis que um personagem usava).
O ápice desse processo foi a série Guerras Secretas. Tudo ali foi decidido pelo departamento de marketing, inclusive o nome da série (uma pesquisa mostrou que essas eram as palavras que mais chamavam a atenção dos meninos). A partir daí passou a ser o departamento de marketing - e não os criadores - que decidiam os rumos das histórias. 
Resultado: foi exatamente nessa época em que a DC se tornou mais criativa que a Marvel. Foi exatamente nessa época que Alan Moore Steve Bissett e John Totleben fizeram o Monstro do Pântano para a DC.

Encantado

 


A princípio minha colaboração com a revista Causos do meio do mundo 2 era para ser com roteiro para apenas uma história. Mas conversando com a Natália Muniz, ela, que não ia desenhar nenhuma HQ, acabou se empolgando. Eu tinha gostado muito do quadrinho Jaguadarte, em especial da forma impressionante como ela tinha desenhado a cobra que ataca a tribo indígena, e sugeri que ela seria a pessoa ideal para desenhar uma história do Cabano.

Assim nasceu Encantado, uma HQ que reconta o mito das cobras Norato e Caninana.

Na história, o Cabano está em um bar quando um desconhecido lhe oferece pinga e narra a história das duas cobras abandonadas logo após o nascimento que se transformam em cobras gigantes de personalidades opostas: uma boa e uma má. A missão do Cabano será livrar Norato do encamento que o transformou.



Quando a Natália me enviou os primeiros esboços, fiquei impressionado, especialmente com a segunda página, que mostra as duas cobras em plena luta. A cena era grandiosa e captava perfeitamente o clima de terror da história.

No meu roteiro eu havia proposto que o corpo de uma cobra percorresse as páginas, com o rabo na primeira página e a cabeça na última. Natália fez isso tão bem que no final, o resultado da diagramação ficou melhor do que eu esperava.

Se em trabalhos anteriores, Natália se revelava uma artista promissora, aqui vemos ela em plena maturidade artística. Embora atualmente seja conhecida apenas no Amapá, não duvido que em breve a veremos concorrendo e até vencendo prêmios nacionais.



Em tempo: a revista Causos do Meio do Mundo pode ser adiquirida ao preço de 25 reais pelo e-mail jvggaia@hotmail.com.

Roteiro de quarinhos - Menos é mais


Um sábio já dizia que escrever é cortar palavras. Em nenhum outro gênero textual isso é tão verdadeiro quanto nos roteiros para quadrinhos.

Quadrinhos são a arte da síntese. Escrever muito com pouquíssimas palavras. Tanto que muitos escritores que se aventuraram a produzir quadrinhos deram com os burros n´água.
Um dos poucos que fizeram obras-primas foi Paulo Leminiski. No começo dos anos 1980, ele escreveu algumas histórias para a editora Grafipar, de Curitiba e, mesmo poucas, entraram para a história dos quadrinhos nacionais. A razão é que Leminski vinha da publicidade, em que a síntese é essencial, e foi muito influenciado pela poesia hai-kai, também muito sintética, além de intimamente relacionada à imagem. Em outras palavras, quando foi para os quadrinhos, o poeta sabia que quadrinhos não são literatura.
Um exercício interessante é observar a evolução do texto de Stan Lee ao longo de histórias como as do Quarteto Fantástico. Nas primeiras HQs o texto parecia transbordar dos balões. Depois foram diminuindo, diminuindo e, ao mesmo tempo, tornaram-se mais poéticos, mas sensíveis. Ou seja: ao mesmo tempo em que os textos diminuíam de tamanho, iam ficando mais elaborados.
Quando comecei a escrever quadrinhos, eu logo descobri algumas dicas básicas: evita-se, por exemplo, orações subordinadas e frases que digam o que o leitor está vendo. Por que dizer “Flash, que corria velozmente, salvou a moça!”? Além de contar algo que o leitor já está vendo, o “que corria velozmente” só serve para entulhar o balão de texto. Além disso, nos quadrinhos, uma única palavra pode dizer muito.
A história Orquídea Negra, de Neil Gaiman mostra bem isso. Em uma sequência genial, o texto diz apenas: “Então o sonho me leva para longe... e/uma/vez/mais/eu/desco/ca/in/do”. Difícil não se sensibilizar com a beleza poética dessa sequência, em que o texto se une perfeitamente aos quadrinhos. Aliás, essa sequência lembra muito a poesia concreta, um movimento literário brasileiro que influenciou muito, adivinhem? Paulo Leminski.

 

Esquadrão Atari – Contra Ataque

 


Até a edição 7, Morféa era vista como o membro mais inofensivo do Esquadrão Atari. Afinal, seu poder era apenas a empatia e ela até então se revelara uma pacifista, fazendo o possível para evitar conflitos (não por acaso ela atua como psicóloga).

No número 7, intitulado Contra ataque, vemos Morféa em todo o seu esplendor, a começar pela capa, na qual ela enfrenta o ser que na edição anterior havia torturado Tormenta.

Na história, Martin Champion se entregara ao vilão achando que com isso este libertaria seu filho, o que não acontece. Embora Dart e Paco Rato ainda estejam soltos, percorrendo os dutos de ventilação da nave, tudo parece perdido.

É quando a empata vai até a nave disposta a resolver a situação.

Então descobrimos que ela tem um ferrão mental forte o suficiente para deixar desacordado qualquer um dos soldados inimigos.

Morféa enfrenta um ser que se alimenta da dor...


Ao tentar libertar Tormenta ela se defronta com Psyklops, um ser que se alimenta da dor alheia. Usando seus poderes sobre a empata, ele a faz reviver seu passado, uma forma extremamente eficiente de aprofundar a personagem, pois acontece no meio da ação e está diretamente relacionada com ela. Não é o tipo de flash back que parece uma quebra da narrativa e, portanto, muitas vezes é pulado pelo leitor.

Nesse flash back descobrimos que Morféa foi criada numa sociedade em que todos são iguais, como formigas e o pronome “eu” é proibido. Levada à rainha por sua inadequação, ela se lamenta: “Eu sou tão solitária”. Por sua incapacidade de fazer parte da massa, ela é punida.

... e relembra seu passado. 


Todas essas recordações trazem muita dor para a personagem, para deleite de Psyklops, mas Morféa consegue se recompor numa sequência genial, em que texto e desenhos se unem perfeitamente. Ela inicialmente está caída no chão, com o uniforme usado por todos no mundo natal, mas vai se levantando aos poucos e sua roupa se transformando. Sua fala: “Este ser é importante! Este ser é real! Eu... sou importante! Eu... sou real! Eu... não serei destruída! Eu... não permitirei”. O uso do pronome pessoal se associa ao empoderamento da personagem, sua afirmação de identidade, que ganha vulto quando ela finalmente contra-ataca.

A sequência genial mostra a personagem superando o domínio do vilão. 


Essa união de ação empolgante, cenários e personagens diferenciados e aprofundamento psicológico fez com que Esquadrão Atari se tornasse uma das séries mais célebres da DC de todos os tempos. Cortesia de Gerry Conway e José Luís Garcia-Lopez.

segunda-feira, julho 01, 2024

Tempestade e a claustrofobia

 


A primeira vez que vi uma história dos X-men foi em Almanaque Marvel 10, da editora RGE. Um colega tinha levado a revista para a escola e me emprestou, mas queria de volta. Devorei a revista no horário do recreio.
Na história, os X-men vão passar férias no castelo de Banshee na Irlanda e lá são surpreendidos pelo primo de Banshee, Black Tom Cassidy, que se aliou com o Fanático para destruir os mutantes.
O que mais me chamou atenção na história, na época, foi a reação de Ororo. Ao entrar no castelo ela se sente claustrofóbica e, paralisada pela sensação, ela fica incapaz de ajudar os amigos, massacrados pelo irrefreável Fanático.
A imagem que me impressionou à época: Ororo paralisada pelo medo. 


A splash page com ela em primeiro plano, em um grito suspenso, as mãos sobre o rosto em pânico, enquanto, ao fundo, Fanático derruba Colossus, Wolverine e Noturno, foi de um impacto tremendo para mim na época.
Enquanto a batalha ocorre, embarcamos num flash back que não só conta a história de Tempestade, como explica a origem de sua fobia – quando criança, sua casa foi atingida por um avião, ela ficou soterrada e seus pais morreram.
Um flash back conta a origem de Tempestade... 



Aquela aventura não era só sobre heróis uniformizados trocando socos. Era, essencialmente, um conflito psicológico, era sobre a odisseia de Ororo para vencer os seus medos mais profundos para conseguir salvar seus amigos.
... e a razão pela qual ela sofre de claustrofobia. 


Essa história, de 1976, escrita por Chris Claremont e desenhada por Dave Cockrun e publicada em X-men 102, é muito anterior à melhor fase do grupo, nas mãos de Claremont e  Byrne, mas já mostrava que aquela era uma série que logo se tornaria uma das mais revolucionárias do mercado de super-heróis.  
Essa história foi publicada pela primeira vez pela RGE. 

 

Em tempo: essa HQ foi publicada pela editora Abril em X-men Classic 2. Lida muito tempo depois, já não tinha o mesmo impacto da primeira vez, mas continuava sendo muito acima da média.

A Bíblia do roteiro de quadrinhos

 

Há algum tempo, os roteiristas Alexandre Lobão e Leonardo Santana me convidaram para escrever a seis mãos um livro sobre roteiro para quadrinhos.
Na época eu não poderia imaginar a proporção que isso iria ganhar. O projeto foi aumentando, aumentando, até se transformar no que é, provavelmente, o mais completo livro sobre roteiro já publicado no Brasil.
A obra tem praticamente tudo que um roteirista precisaria saber para escrever boas histórias para qualquer mídia.
Alguns assuntos foram tratados no Brasil apenas nesse livro. Já outros assuntos é a primeira vez que são tratados num livro de roteiro provavelmente no mundo, como a verossimilhança hiper-real.
É uma obra de peso (340 páginas!), tanto que decidimos chamar de A bíblia do roteirio de quadrinhos. Essa obra teve seu lançamento oficial em Curitiba sexta-feira passada e já está vendida no site da editora.
Quem quiser comprar comigo, o valor é 70 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com

Uma Advogada extraordinária

 


Há uma série de características que estão fazendo com que as séries sul-coreanas, as K-Drama, se tornem sucessos absolutos: personagens carismáticos, bons atores, romances quase platônicos e uma direção leve e divertida. Uma advogada extraordinária parece reunir todos esses elementos, tanto que se tornou uma das atrações mais assistidas da Netflix.

A história gira em torno de uma advogada Woo Young-woo que tem Transtorno do Espectro Autista. A belíssima abertura, com uma música meiga e cativante consegue passar muito sobre a personagem: ela acordando em um quarto repleto de imagens de baleias, comendo shushi (uma comida confiável, já que ela pode ver todos os ingredientes), colocando os protetores de ouvindo, indo para o trabalho e chegando finalmente ao tribunal. No meio do caminho baleias vão surgindo numa poça d´água ou em nuvens.

Se por um lado, Woo Young-woo tem uma série de dificuldades por ser autista (ela não consegue, por exemplo, atravessar uma porta giratória), por outro lado, ela é um gênio, que sabe de cor toda a legislação coreana.

O autismo, aliás, é a razão pela qual ela é recusada por todos os escritórios de advocacia, mas quando ela é contratada pela Hanbada suas habilidade extraordinárias fazem com que ela se revele. Ela consegue ver ângulos inusitados em casos, brechas legais, usar uma legislação para aplicar a um caso em que ninguém tinha pensado em usar aquela legislação.

Woo Young-woo cativa o expectador desde o primeiro momento, quando se apresenta explicando que seu nome pode ser lido e trás para frente, como catraca, caneca, casaca, cômico, careca. Nisso, contribuiu muito a atuação espetacular de Park Eun-bin. A atriz parece se sentir à vontade exatamente em papéis que a tirem da área de conforto. Em o rei de porcelana ela faz o papel de um homem. Aqui, como autista, ela entrega uma atuação meiga e ao mesmo tempo carismática. É impossível não simpatizar com a personagem e essa simpatia aumenta ainda mais quando percebemos os seus lances de genialidade ao atuar nos casos. Sua relação romântica com um colega de trabalho, fundada principalmente no platonismo (eles trocam um único beijo durante toda a temporada de 16 episódios) também contribuiu para fazer o público simpatizar com a personagem.

Mas Uma advogada extraordinária não fica apenas no meigo, no cômico ou no romântico. A série aborda temas complexos, como o preconceito contra autistas, a falta de ética do meio jurídico e o excesso de trabalho dos advogados coreanos.

Um dos episódios mais interessantes é O flautista, cujo título remete diretamente à história clássica do Flautista de Hamelin. Na história, o filho de uma diretora de escola leva crianças para um dia inteiro de brincadeiras nas montanhas. Ele é acusado de sequestro e Woo Young-woo deve defendê-lo. A história é uma dura crítica à severa educação coreana, em que crianças chegam a passar 12 horas estudando sem direito a se alimentar ou ir ao banheiro.

Uma advogada extraordinária é tão cativante que mal percebemos quando se passaram os 16 longos episódios.

Mineirices

 


Quando entrevistava o mestre Cláudio Seto para meu livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, comentei com ele que Minas é o local do Brasil mais parecido com o Japão em termos de cultura – ao que ele concordou.
No Japão há uma espécie de dívida de gentileza. Se alguém nos faz um favor, ficamos em dívida com essa pessoa e devemos em outro momento, retribuir esse favor. Sônia Luyten me contava que quando foi fazer doutorado no Japão certa vez recebeu uma encomenda que era para a vizinha e entregou assim que ela chegou. No dia seguinte, a vizinha bateu-lhe na porta com um presente em retribuição à gentileza de ter recebido a encomenda.
Eu cansei de ver isso na minha infância e vejo isso quando visitos meus parentes mineiros. É uma gentileza tão grande que às vezes chega a ser constrangedora. Você não sai sem tomar um cafezinho - e esse cafezinho logo se transforma num verdadeiro banquete de quitandas. 
Seto conta que comprava dinheiro com o dinheiro dos ovos. Ele sempre acompanhava sua avó à granja do tio para comprar ovos. Chegavam lá eram tratados da melhor forma possível e, ao final, quano a avó queria pagar, o tio não aceitava. Paga, não paga, paga não paga, a velhinha deixava o dinheiro em algum lugar. Quando o tio descobria, corria atrás deles para devolver o dinheiro. Como a avó se recusava a receber, as notas acabava parando nas mãos do Seto, que usava para comprar gibis.
Mas isso, claro, tem o outro lado, tanto em Minas quanto no Japão: a pessoa só aceita uma favor, uma gentileza de alguém na qual ela confia. Afinal, ela não vai querer ficar devendo um favor para alguém que não é confiável. Por essa razão que recusar uma gentileza é tão ofensivo: significa que a pessoa considera que o outro não é confiável e, portanto, não quer ficar em dívida com ele.
Durante anos, embora tenhamos saído de Minas, a guardiã das tradições mineiras era minha avó. Enquanto morei com ela, nunca perdi o “uai” e sempre comia angu em todas as refeições.
Minha avó foi uma das pessoas mais admiráveis que já conheci. Estudou apenas até a quarta-série, mas escrevia melhor que vários estudantes universitários. Quando eu trabalhava em jornal e trazia os exemplares para casa, ela devorava da primeira à última página. Foi a única pessoa que conheci que leu a Bíblia de cabo a rabo mais de uma vez. Hoje em dia, a pessoa lê um versículo e já sai dizendo que leu a Bíblia.
E foi com ela que aprendi mais uma parte da cultura mineira que lembra muito o modo japonês de ser: a honra.
Ela sempre me dizia:
- Meu filho, pobre não tem nada, só tem a própria honra.
Exemplo disso aconteceu quando ela aceitou fazer, de graça, um vestido para uma vizinha.
Minha avó era costureira prendada, do tipo de costurava para esposa do prefeito, vereador e cobrava bem, mas para a vizinha, que era amiga, se recusou a cobrar (mais uma vez a história da gentileza mineira – imagina se ela ia cobrar de uma amiga!).   
Quando recebeu o vestido, a vizinha reclamou:
- E a minha tesoura?
- Como assim, que tesoura?
- Quando levei o vestido, levei também uma tesoura nova. Cadê a tesoura?
Minha avó insistiu que não tinha visto tesoura nenhuma e nem precisava, pois tinha tesoura em casa. E a outra instindo:
- Cadê a tesoura?
Resumo da ópera: minha avó foi até a loja, comprou uma tesoura nova e levou para a vizinha, ainda na embalagem. Preferiu ficar no prejuízo a ser chamada de ladra.
No dia seguinte a vizinha achou a tal tesoura e veio devolver a que recebera. Minha avó recusou. Deixou a vizinha com as duas tesouras. Mas também nunca mais falou com ela. Ela não poderia ser amiga de alguém que desconfiava de sua honestidade. Como ela sempre dizia: “Pobre não tem nada, meu filho, só tem a própria honra”.

Kull – O vale as sombras

 

Escrita por Alan Zelenetz e desenhada pelo filipino Tony De Zuniga, a história O vale das sombras parte de uma premissa interessante: a história se passa em um momento em que o rei está entre a vida e a morte, depois de ter sido ferido em batalha. Várias pessoas à sua volta observam o que parece ser o delírio final (na verdade o rei conversa com a deusa da morte) e, ao mesmo tempo, rememoram fatos da história do rei.

Em uma das histórias, por exemplo, um jovem Kull estava pescando com companheiros quando seu barco é abordado por um navio picto. Todos morrem com o impacto, menos Kull, que passa a caçar cada um dos que o haviam atacado. Em outra sequência, é mostrado como ele foi manipulado para matar o rei e como os manipuladores viram suas esperanças malograrem quando Kull decidiu se coroar rei.

O rei está no leito de morte e os seus auxiliares lembram seus momentos mais épicos. 


Seria uma história realmente sensacional, não fosse pelas limitações de Zelenetz. Ele não consegue imprimir à HQ o ar grandioso que ela exigia. Em nenhum momento seu texto vai além do mediano.

Enquanto isso, o rei conversa com a deusa da morte. 


Embora De Zuniga seja um desenhista espetacular, é nítido que ele carece de um roteiro mais elaborado guiando sua arte, o que faz inclusive que algumas sequências fiquem de difícil compreensão.


Publicada originalmente em Marvel graphic novel 47 de 1989, essa história saiu no Brasil pela abril em Conan em cores 13.