terça-feira, julho 02, 2024
O Cavaleiro das Trevas
Perry Rhodan – O atentado
O número 57 apresenta uma história isolada dentro da saga, quase um conto.
Escrito por Kurt Mahr, o volume é centrado em Horace O. Mullon, líder do grupo conhecido como Democratas autênticos. Ele se dirige a Terrânia com um objetivo muito claro: matar Perry Rhodan, que ele considera um ditador. Mas, antes que consiga seu objetivo, ele se depara com outro grupo, os Filósofos da Natureza, liderados por Walter Hollander, que também pretende assassinar Rhodan.
A trama gira em torno das tratativas desse plano de assassinato. Em uma narrativa paralela, o administrador do Império Solar é informado de todos os passos dos dois grupos, o que parece uma estratégia narrativa burra, já que tira todo o suspense da história, já que sabemos de antemão que o atentado irá fracassar (se bem que, qualquer leitor minimamente inteligente desconfiaria que o protagonista da série não seria morto no volume).
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| A capa original alemã. |
Há também uma atenção muito parca às motivações dos dois grupos. Não fica muito claro porque os democratas autênticos, que parecem um grupo bem intencionado, consideram Rhodan um ditador. Dos filósofos da natureza, temos apenas a impressão que se trata de um grupo que professa uma volta a um passado menos tecnológico, o que de fato não se bate com a realidade, já que os mesmos não fazem qualquer objeção a usar meios tecnológicos.
Essa pouca atenção às motivações e a ausência de suspense da primeira parte do volume são compensadas por um plot twist no final do primeiro ato: a história não é sobre o atentado a Rhodan, mas sobre o que acontece com as pessoas que se envolveram de alguma forma nesse atentado.
Nesse sentido, Mahr consegue escrever uma história envolvente, cheia de ação e suspense, com um final que se não chega a ser surpreendente, é, para dizer o mínimo, engenhoso.
Em outras palavras, O atentado é um daqueles livros que parecem não prometer nada, mas entregam muito.
O curupira
Lanterna e Arqueiro Verde – Meu ódio será sua herança
Ao assumirem o título do Lanterna e do Arqueiro Verde, Dennis O´Neil e Neal Adams se propuseram a explorar os grandes males da América. No volume 78 do título, eles abordaram um tema de pouco destaque, mas de grande relevância até os dias atuais: os líderes que criam em torno de si um grupo de fanáticos irracionais.
A história começa com a Canário Negro sendo abordada por uma gangue de motoqueiros. Eles querem roubar a sua moto, mas logo descobrem que não estão lidando com uma mulher indefesa. Entretanto, quando as habilidades em artes marciais da heroína já deram conta de quase todo o bando, um deles atropela a moça com uma moto.
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| A Canário é atacada por uma gangue de motoqueiros... |
Duas semanas depois, o Lanterna, o Arqueiro e o Guardião chegam a um restaurante administrado por um indígena. Enquanto estão comendo, aquela mesma gangue ataca o local. Quando são finalmente derrotados, o Arqueiro percebe que a moto usada por um deles é a mesma da Canário, o que os leva a procurar por ela. Só que a moça foi resgatada por um falso messias chamado Joshua e passou a fazer parte de sua seita. Joshua quer usar seu grupo massificado para uma guerra contra negros e índios.
A trama ecoa diretamente situações reais, como Charles Manson, cujos seguidores mataram diversas pessoas, entre elas a atriz Sharon Tate, e o Pastor Jim Jones, que levou mais de 900 pessoas a se suicidarem. O roteiro mostra que até mesmo uma heroína pode ser lobotizada e nas situações corretas passar a seguir cegamente um líder fanático.
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| ... o que faz com que ela entre numa seita. |
Não bastasse o tema relevante, temos aqui um roteiro primoroso de Dennis O´Neil, com uma ótima caracterização de personagens (poucas vezes o Arqueiro foi tão bem trabalhado em sua personalidade impetuosa) e diálogos afinados.
Falar da qualidade do desenho de Adams é chover no molhado, mas aqui, além de todas as outras características que diferenciam seu desenho, como a diagramação inovadora e planos inusitados, ainda descobrimos que ele é simplesmente um mestre ao desenhar mulheres. Sua Canário oscila entre o meigo e o obstinado.
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| Uma sequência magistral como essa não precisa de texto. |
Em determinada sequência, quando Joshua ordena que ela atire no Arqueiro, vemos uma sequencia de vários quadros, num close cada vez mais próximo, que vão revelando o conflito interno da personagem. De maneira inteligente, O´ Neil não coloca texto. Ele seria desnecessário. O desenho ali fala por si.
Quando a Marvel era a casa das Ideias
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| Revistas como a do Doutor Estranho refletiam a criatividade da Marvel na década de 70. |
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| Na década de 1980 a DC se tornou mais inovadora. Monstro do Pântano é um exemplo disso. |
Encantado
A princípio minha colaboração com a revista Causos do meio do mundo 2 era para ser com roteiro para apenas uma história. Mas conversando com a Natália Muniz, ela, que não ia desenhar nenhuma HQ, acabou se empolgando. Eu tinha gostado muito do quadrinho Jaguadarte, em especial da forma impressionante como ela tinha desenhado a cobra que ataca a tribo indígena, e sugeri que ela seria a pessoa ideal para desenhar uma história do Cabano.
Assim nasceu Encantado, uma HQ que reconta o
mito das cobras Norato e Caninana.
Na história, o Cabano está em um bar quando
um desconhecido lhe oferece pinga e narra a história das duas cobras
abandonadas logo após o nascimento que se transformam em cobras gigantes de
personalidades opostas: uma boa e uma má. A missão do Cabano será livrar Norato
do encamento que o transformou.
Quando a Natália me enviou os primeiros
esboços, fiquei impressionado, especialmente com a segunda página, que mostra
as duas cobras em plena luta. A cena era grandiosa e captava perfeitamente o
clima de terror da história.
No meu roteiro eu havia proposto que o corpo
de uma cobra percorresse as páginas, com o rabo na primeira página e a cabeça
na última. Natália fez isso tão bem que no final, o resultado da diagramação
ficou melhor do que eu esperava.
Se em trabalhos anteriores, Natália se
revelava uma artista promissora, aqui vemos ela em plena maturidade artística. Embora
atualmente seja conhecida apenas no Amapá, não duvido que em breve a veremos
concorrendo e até vencendo prêmios nacionais.
Em tempo: a revista Causos do Meio do Mundo pode
ser adiquirida ao preço de 25 reais pelo e-mail jvggaia@hotmail.com.
Roteiro de quarinhos - Menos é mais
Um sábio já dizia que escrever é cortar palavras. Em nenhum outro gênero textual isso é tão verdadeiro quanto nos roteiros para quadrinhos.
Quadrinhos são a arte da síntese. Escrever muito
com pouquíssimas palavras. Tanto que muitos escritores que se aventuraram a
produzir quadrinhos deram com os burros n´água.
Um dos poucos que fizeram obras-primas foi Paulo
Leminiski. No começo dos anos 1980, ele escreveu algumas histórias para a
editora Grafipar, de Curitiba e, mesmo poucas, entraram para a história dos
quadrinhos nacionais. A razão é que Leminski vinha da publicidade, em que a
síntese é essencial, e foi muito influenciado pela poesia hai-kai, também muito
sintética, além de intimamente relacionada à imagem. Em outras palavras, quando
foi para os quadrinhos, o poeta sabia que quadrinhos não são literatura.
Um exercício interessante é observar a evolução
do texto de Stan Lee ao longo de histórias como as do Quarteto Fantástico. Nas
primeiras HQs o texto parecia transbordar dos balões. Depois foram diminuindo,
diminuindo e, ao mesmo tempo, tornaram-se mais poéticos, mas sensíveis. Ou
seja: ao mesmo tempo em que os textos diminuíam de tamanho, iam ficando mais
elaborados.
Quando comecei a escrever quadrinhos, eu logo
descobri algumas dicas básicas: evita-se, por exemplo, orações subordinadas e
frases que digam o que o leitor está vendo. Por que dizer “Flash, que corria
velozmente, salvou a moça!”? Além de contar algo que o leitor já está vendo, o
“que corria velozmente” só serve para entulhar o balão de texto. Além disso,
nos quadrinhos, uma única palavra pode dizer muito.
A história Orquídea Negra, de Neil Gaiman mostra
bem isso. Em uma sequência genial, o texto diz apenas: “Então o sonho me leva
para longe... e/uma/vez/mais/eu/desco/ca/in/do”. Difícil não se sensibilizar
com a beleza poética dessa sequência, em que o texto se une perfeitamente aos
quadrinhos. Aliás, essa sequência lembra muito a poesia concreta, um movimento
literário brasileiro que influenciou muito, adivinhem? Paulo Leminski.
Esquadrão Atari – Contra Ataque
Até a edição 7, Morféa era vista como o membro mais inofensivo do Esquadrão Atari. Afinal, seu poder era apenas a empatia e ela até então se revelara uma pacifista, fazendo o possível para evitar conflitos (não por acaso ela atua como psicóloga).
No número 7, intitulado Contra ataque, vemos Morféa em todo o seu esplendor, a começar pela capa, na qual ela enfrenta o ser que na edição anterior havia torturado Tormenta.
Na história, Martin Champion se entregara ao vilão achando que com isso este libertaria seu filho, o que não acontece. Embora Dart e Paco Rato ainda estejam soltos, percorrendo os dutos de ventilação da nave, tudo parece perdido.
É quando a empata vai até a nave disposta a resolver a situação.
Então descobrimos que ela tem um ferrão mental forte o suficiente para deixar desacordado qualquer um dos soldados inimigos.
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| Morféa enfrenta um ser que se alimenta da dor... |
Ao tentar libertar Tormenta ela se defronta com Psyklops, um ser que se alimenta da dor alheia. Usando seus poderes sobre a empata, ele a faz reviver seu passado, uma forma extremamente eficiente de aprofundar a personagem, pois acontece no meio da ação e está diretamente relacionada com ela. Não é o tipo de flash back que parece uma quebra da narrativa e, portanto, muitas vezes é pulado pelo leitor.
Nesse flash back descobrimos que Morféa foi criada numa sociedade em que todos são iguais, como formigas e o pronome “eu” é proibido. Levada à rainha por sua inadequação, ela se lamenta: “Eu sou tão solitária”. Por sua incapacidade de fazer parte da massa, ela é punida.
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| ... e relembra seu passado. |
Todas essas recordações trazem muita dor para a personagem, para deleite de Psyklops, mas Morféa consegue se recompor numa sequência genial, em que texto e desenhos se unem perfeitamente. Ela inicialmente está caída no chão, com o uniforme usado por todos no mundo natal, mas vai se levantando aos poucos e sua roupa se transformando. Sua fala: “Este ser é importante! Este ser é real! Eu... sou importante! Eu... sou real! Eu... não serei destruída! Eu... não permitirei”. O uso do pronome pessoal se associa ao empoderamento da personagem, sua afirmação de identidade, que ganha vulto quando ela finalmente contra-ataca.
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| A sequência genial mostra a personagem superando o domínio do vilão. |
Essa união de ação empolgante, cenários e personagens diferenciados e aprofundamento psicológico fez com que Esquadrão Atari se tornasse uma das séries mais célebres da DC de todos os tempos. Cortesia de Gerry Conway e José Luís Garcia-Lopez.
segunda-feira, julho 01, 2024
Tempestade e a claustrofobia
Em tempo: essa HQ foi publicada pela editora Abril em X-men Classic 2. Lida muito tempo depois, já não tinha o mesmo impacto da primeira vez, mas continuava sendo muito acima da média.
A Bíblia do roteiro de quadrinhos
Na época eu não poderia imaginar a proporção que isso iria ganhar. O projeto foi aumentando, aumentando, até se transformar no que é, provavelmente, o mais completo livro sobre roteiro já publicado no Brasil.
A obra tem praticamente tudo que um roteirista precisaria saber para escrever boas histórias para qualquer mídia.
Alguns assuntos foram tratados no Brasil apenas nesse livro. Já outros assuntos é a primeira vez que são tratados num livro de roteiro provavelmente no mundo, como a verossimilhança hiper-real.
É uma obra de peso (340 páginas!), tanto que decidimos chamar de A bíblia do roteirio de quadrinhos. Essa obra teve seu lançamento oficial em Curitiba sexta-feira passada e já está vendida no site da editora.
Uma Advogada extraordinária
Há uma série de características que estão fazendo com que as séries sul-coreanas, as K-Drama, se tornem sucessos absolutos: personagens carismáticos, bons atores, romances quase platônicos e uma direção leve e divertida. Uma advogada extraordinária parece reunir todos esses elementos, tanto que se tornou uma das atrações mais assistidas da Netflix.
A história gira em torno de uma advogada Woo Young-woo que tem Transtorno do Espectro Autista. A belíssima abertura, com uma música meiga e cativante consegue passar muito sobre a personagem: ela acordando em um quarto repleto de imagens de baleias, comendo shushi (uma comida confiável, já que ela pode ver todos os ingredientes), colocando os protetores de ouvindo, indo para o trabalho e chegando finalmente ao tribunal. No meio do caminho baleias vão surgindo numa poça d´água ou em nuvens.
Se por um lado, Woo Young-woo tem uma série de dificuldades por ser autista (ela não consegue, por exemplo, atravessar uma porta giratória), por outro lado, ela é um gênio, que sabe de cor toda a legislação coreana.
O autismo, aliás, é a razão pela qual ela é recusada por todos os escritórios de advocacia, mas quando ela é contratada pela Hanbada suas habilidade extraordinárias fazem com que ela se revele. Ela consegue ver ângulos inusitados em casos, brechas legais, usar uma legislação para aplicar a um caso em que ninguém tinha pensado em usar aquela legislação.
Woo Young-woo cativa o expectador desde o primeiro momento, quando se apresenta explicando que seu nome pode ser lido e trás para frente, como catraca, caneca, casaca, cômico, careca. Nisso, contribuiu muito a atuação espetacular de Park Eun-bin. A atriz parece se sentir à vontade exatamente em papéis que a tirem da área de conforto. Em o rei de porcelana ela faz o papel de um homem. Aqui, como autista, ela entrega uma atuação meiga e ao mesmo tempo carismática. É impossível não simpatizar com a personagem e essa simpatia aumenta ainda mais quando percebemos os seus lances de genialidade ao atuar nos casos. Sua relação romântica com um colega de trabalho, fundada principalmente no platonismo (eles trocam um único beijo durante toda a temporada de 16 episódios) também contribuiu para fazer o público simpatizar com a personagem.
Mas Uma advogada extraordinária não fica apenas no meigo, no cômico ou no romântico. A série aborda temas complexos, como o preconceito contra autistas, a falta de ética do meio jurídico e o excesso de trabalho dos advogados coreanos.
Um dos episódios mais interessantes é O flautista, cujo título remete diretamente à história clássica do Flautista de Hamelin. Na história, o filho de uma diretora de escola leva crianças para um dia inteiro de brincadeiras nas montanhas. Ele é acusado de sequestro e Woo Young-woo deve defendê-lo. A história é uma dura crítica à severa educação coreana, em que crianças chegam a passar 12 horas estudando sem direito a se alimentar ou ir ao banheiro.
Uma advogada extraordinária é tão cativante que mal percebemos quando se passaram os 16 longos episódios.
Mineirices
Kull – O vale as sombras
Escrita por Alan Zelenetz e desenhada pelo filipino Tony De Zuniga, a história O vale das sombras parte de uma premissa interessante: a história se passa em um momento em que o rei está entre a vida e a morte, depois de ter sido ferido em batalha. Várias pessoas à sua volta observam o que parece ser o delírio final (na verdade o rei conversa com a deusa da morte) e, ao mesmo tempo, rememoram fatos da história do rei.
Em uma das histórias, por exemplo, um jovem
Kull estava pescando com companheiros quando seu barco é abordado por um navio
picto. Todos morrem com o impacto, menos Kull, que passa a caçar cada um dos
que o haviam atacado. Em outra sequência, é mostrado como ele foi manipulado
para matar o rei e como os manipuladores viram suas esperanças malograrem
quando Kull decidiu se coroar rei.

O rei está no leito de morte e os seus auxiliares lembram seus momentos mais épicos.
Seria uma história realmente sensacional, não
fosse pelas limitações de Zelenetz. Ele não consegue imprimir à HQ o ar
grandioso que ela exigia. Em nenhum momento seu texto vai além do mediano.

Enquanto isso, o rei conversa com a deusa da morte.
Embora De Zuniga seja um desenhista
espetacular, é nítido que ele carece de um roteiro mais elaborado guiando sua
arte, o que faz inclusive que algumas sequências fiquem de difícil compreensão.
Publicada originalmente em Marvel graphic
novel 47 de 1989, essa história saiu no Brasil pela abril em Conan em cores 13.










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