domingo, abril 06, 2025

A última flecha

 


Lançada em 2019, a graphic novel A últim flecha, de Emerson Medina (roteiro) e Romahs (desenhos) é um quadrinho atípico.

A trama conta a história de uma tribo indígena exterminada por um grupo de exploradores que buscam a fonte da juventude. Um último sobrevivente resolve empreender uma jornada de vingança e essa jornada avança até os dias atuais.

As sequências de ação são impressionantes. 


O que há de diferente aí, além da ambientação amazônica, é a forma como a história é narrada, praticamente sem textos ou diálogos. Além disso, a narrativa é não linear, com camadas temporais se sobrepondo. Tudo isso torna a leitura um verdadeiro quebra-cabeças. É preciso ler os detalhes, as simbologias (a última flecha do título tem significado simbólico, por exemplo) e amarrar as várias narrativas para entender a história.

A primeira aparição da personagem Pollacka é uma boa amostra da qualidade do desenho de Romahs.  


E não se trata de uma história simples. A última flecha daria tranquilamente um romance ou até uma série se os detalhes fossem preenchidos.

Embora a história bolada por Medina seja envolvente, quem se destaca aqui é Romahs com sua narrativa visual impecável e seu desenho lindo, repleto de detalhes.

sábado, abril 05, 2025

Flash Gordon e Jornada nas Estrelas - as versões animadas

 


Consegui com amigos algumas preciosidades: os desenhos animados de Jornada nas Estrelas, Planeta dos Macacos e Flash Gordon. Todos foram produzidos pela Filmation, a mesma que depois ficaria famosa com os desenhos de He-mam e She-ha.

A Filmation conseguia ser particularmente irritante quando queria fazer desenhos humorísticos. Alguns devem se lembrar de pelo menos umas três séries em que os personagens andavam duros e tocava uma musiquinha repetitiva de fundo, algo como íon íon íon...

Mas era uma boa produtora de desenhos mais sérios, especialmente de Ficção-científica.



O desenho de Flash Gordon é relativmente fiel à série de Alex Raymond, o que talvez seja um defeito. Flash Gordon é uma space opera, um tipo de ficção que se sustentava com um perigo a cada tira e um monstro a cada semana. Aprofundamento de personagens ou tramas mais elaboradas, nem pensar. A série da Filmation pega exatamente esse clima juvenil de catarse em que um herói vence todos os perigos e ainda conquista todas as moças bonitas que passam pela sua frente. Uma única mudança estranha é o visual da filha do vilão Ming. Nos quadrinhos ela é uma gata com saias esvoaçantes semi-transparentes. Nos desenhos ela parece um protótipo de She-ha.

Em Flash Gordon eles repetem à exaustão uma cena em que o herói corre na direção da câmera. Ela obviamente foi feita com uma técnica, a rotoscopia, em que se filma atores e depois se desenha em cima, o que dá um ar realista. Ficou tão bom que depois eles repetiram a mesma cena em He-man e Tarzan, só mudando os personagens e o fundo.



Bem melhor é a série animada de Jornada nas Estrelas. Produzida pelo mesmo pessoal que fazia a série live-action, ela tem todos os elementos do original, mais o charme da animação. Há epsiódios pavorosos, como O vulcano infinito, que lembra muito um episódio da série original, o cérebro de Spock. Na história, seres vegetais raptam spock para cloná-lo em tamanho gigante e transformá-lo numa espécie de campeão da paz na galáxia. Lamentável. Mas também há bons episódios, como Perdido no esquecimento, que explora a infância de Spock e suas dúvidas sobre seguir mais sua origem vulcana ou humana. Há episódios divertidos, como O computador humorista, ou Mais pingos, mais problemas e outros mais críticos como A mágica de Megas-tu. Outros são muito criativos, como Paralelos, em que a Enterprise vai parar em uma dimensão em que tudo é ao contrário.

No final, entre mortos e feridos, salva-se todos. Pelo menos para os fãs.

Infelizmente o desenho só teve 22 episódios produzidos. As histórias, apesar de algumas concessões, eram adultas demais para crianças e os adultos não tinham costume de assistir a desenhos animados. Também pesou negativamente o fato de que a série foi transmitada em horário ruim, de manhã, na hora do trabalho, quando os fãs não podiam assistir. 

A arte espetacular de Horácio Altuna

 

Horácio Altuna é um desenhista argentino famoso pelo detalhismo de seu desenho e pela sensualidade de suas mulheres. No Brasil ele ficou conhecido em especial graças à revista Porrada Especial, publicada na década de 1990.












Filosofia teen

 



Na época da faculdade, tivemos uma discplina chamda Introdução à filosofia. Eram duas horas de tortura. Ninguém, absolutamente ninguém na turma conseguia entender o que a professora falava. Ela pulava de Platão para Descartes, dele para o taxista da esquina e dele para as eleições presidenciais. Um colega definou filosofia como tentar encontrar uma pedra de gelo num campo de neve. Essa visão aterradora tem acompanhado muitos jovens ao longo de todos esses anos. A filosofia, ou é vista como algo indecifrável, sem qualquer nexo com a realidade, ou é ensinada de maneira totalmente descontextualizada, consistindo apenas em fazer os alunos discutirem determinados assuntos, sem qualquer embasamento.
Assim, qualquer tentativa de trazer a filosofia para o mundo dos jovens deve ser aplaudida. Já houve alguns exemplos notáveis, como o Filosofando (de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins) , ou O Mundo de Sofia (de Jostein Gaarder), e agora temos mais um exemplo. Trata-se de Filosofia para adolescentes, de Yves Michaud (Escala educacional, 2007, 134 páginas).  
Yves Michaud é filósofo, professor de Filosofia da Universidade de Rouen, ex-diretor da École Nationele de Beaux Arts de Paris. Ele maneja bem o assunto, mas faz abordagem diferente de livros predecessores, como O Mundo de Sofia. Ao invés de apresentar o assunto através de uma história da filosofia, Michaud prefere dividir o livro em temas de interesse dos jovens, em reflexões filosóficas, como ¨Por que precisamos de amor?¨, ¨Será a morte o fim de tudo?¨, ¨Somos livres?¨, ¨Pode a ciência explicar tudo?¨.
Cada capítulo inicia com um diálogo entre o autor e um grupo de adolescentes sobre o assunto em questão. É um ponto positivo, já que o volume parece ser direcionado a objetivos didáticos. A mesma discussão que o filósofo estabelece com os jovens pode ser travada em sala de aula, entre professor e alunos.
Para tornar a leitura mais agradável, o texto é entremeado de ilustrações cômicas (de autoria de Manu Boisteau) e de boxes com notas sobre filosófosos famosos. O recurso dos boxes permite aprofundar os temas, dando um embasamento sobre o que se está lendo. Espera-se que o leitor fique curioso e decida conhecer melhor o filósofo e suas idéias sobre o tema em reflexão no capítulo.
O livro seria todo excelente, uma ótima introdução para quem está dando os primeiros passos no assunto, não fossem por alguns pequenos detalhes. Não há, por exemplo, nenhuma informação biográfica sobre o autor. Além disso, o volume peca na revisão. Há erros bobos de digitação, como ¨engrançada¨ no lugar de ¨engraçada¨.
A capa também não parece muito chamativa para um livro que se pretende direcionado aos jovens.
Colocando na balança, os pontos positivos pesam mais que os pontos negativos. Filosofia para adolescentes pode ser uma boa introdução ao pensar ao mostrar que as a reflexão filosófica pode ser usada em assuntos de interesse dos jovens.

Os quadrinhos e o castelo do Graal

    No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

Conan – Os demônios da montanha

 


Estamos acostumados a ver Conan desenhado pelo ítalo americano John Buscema. No entanto, diversos outros grandes artistas tiveram suas passagens pelo personagens. Entre eles o filipino Tony DiZuniga. Isso aconteceu na história Os demônios da floresta, publicada em Savage Sword of Conan 3, de dezembro de 1974.

Na história, escrita por Roy Thomas, Conan e um outro soldado estão sendo perseguidos por Khozgaris quando encontram uma bela mulher sozinha nas montanhas. Ela se identifica como Shanya, filha do chefe dos Khozgaris.

A habilidade de Tony DeZuniga para desenhar mulheres é uma grande contribuição para a história. 


“Mentira!”, afirma Conan. “A filha de um chefe aqui... sozinha... sem uma guarda armada?”

“Ninguém ousa por as mãos em Shanya... então eu vou aonde eu quiser!”, responde a garota.

O cimério resolve tomá-la como refém até que eles estejam em segurança, o que irá assegurar um dos elementos básicos das histórias de espada e magia: uma bela mulher em trajes sumários. A grande habilidade de Tony DiZuniga, cujo traço é quase fotográfico, ajuda muito nesse sentido.

O soldado é rapidamente descartado. 


Enquanto o trio atravessa um despenhadeiro, uma pedra caí, matando o outro soldado, o que deixa a trama focada apenas em Conan e na princesa. Aqui é necessário fazer um parêntese. É impressionante como é comum que as histórias iniciem com um ou mais soldados além de Conan. Todos morrem até a terceira página.

A garota é sequestrada por seres disformes e Conan resolve ir em seu socorro. Afinal, ele é um selvagem e tudo que interessa para os selvagens é salvar princesas em perigo.

A princesa será usada como procriadora. 


A garota é levada para o líder local, que pretende usá-la para procriar. “Nenhum sangue novo foi misturado à raça do povo do cume por mais de 200 anos. Você será uma companheira adequada para mim e para meu filho!”. Depois de usá-la como procriadora, o líder local pretende dá-la de comer a uma criatura monstruosa, cuja simples visão faz a princesa desmaiar.

A história tem um deus ex-machina: quando derrota o primeiro do povo do cume, Conan vê que ele usa uma máscara e resolve simplesmente colocar o artefato no rosto, o que faz com que ele veja no espesso vapor usado como arma pelos locais.

Apesar dessa situação forçada,  Os demônios da montanha tem todos os elementos de uma boa história de conan.

Blueberry – A pista dos Sioux


Embora o nono álbum seja continuação de uma aventura eletrizante Blueberry, ele provavelmente ficou célebre por uma razão visual: é aqui que vemos, pela primeira vez, o traço pelo qual Giraud ficaria conhecido como Moebius.

Na história, o vilão Jethro Stellfingers consegue arranjar as coisas para que todos pensem que Blueberry é responsável pelo roubo do dinheiro da Union Pacific, o que faz com que ele seja preso. Pior: todos no local querem se vingar dele, em um linchamento. Além do alerta do roteirista Charlier a respeito das notícias falsas e da justiça com as próprias mãos, essa sequência se destaca pelo encademamento de ação, com o protagonista conseguindo resistir aos atacantes que tentam botar fogo na prisão.

Finalmente começa a surgir o traço pelo qual Moebius ficaria conhecido. 


Mas é a página 8 que chama atenção do leitor atento. Nela um senhor idoso recebe uma mensagem pelo telégrafo. As suas feições quebram com o estilo que Giraud usava até então na série, usando um traço mais limpo e solto.

Mas o destaque vem na página 41, em que o desenhista abandona o esquema de divisão da página em dois grandes conjuntos de quadros, deixando a diagramação mais orgânica. Há inclusive uma imagem de Blueberry que se sobrepõe aos outros quadros, quebrando com o esquema rígido de diagramação usado até então. A partir daí temos quadros irregulares, quadros só com os personagens em fundo branco, sem delimitação de requadro. É nítido que o desenhista está experimentando e buscando cada vez um estilo próprio, distinto de Jijé, que havia sido seu mestre e mentor e que ele imitara nas primeiras histórias.

Blueberry na prisão tenta se defender dos que querem linchá-lo. 


No final, embora Blueberry tenta costurado um acordo com os indígenas, a chegada de um general fanático que pretende atacar as tribos enquanto os guerreiros caçam, matando mulheres, crianças e idosos, pode colocar tudo a perder e fazer o oeste se tornar um mar de sangue. O texto final diz: “A guerra voltará a manchar o oeste de sangue? Blueberry conseguirá evitá-la? Você ficará sabendo lendo... General Cabeça-Amarela”.

O desenhista começa a inovar também na diagramação. 


Uma curiosidade sobre essa história é que quando ela foi publicada pela primeira vez no Brasil, os editores da Abril sabiam que a revista seria cancelada e quiseram dar aos leitores a ideia de que a trama terminava ali. Assim, o texto final da história foi alterado para: “Confiantes na palavra dos caras-pálidas, e de nariz-quebrado, os peles-vermelhas podem, enfim, retomar suas atividades normais. O oeste está em paz!”.  

Hulk – A Rocha Lunar é uma senhora implacável

 


Uma das características da Marvel na Era de Bronze era a reciclagem de ideias. Isso pode ser percebido, por exemplo, em Rocha Lunar, que era um homem, vilão do Capitão América e foi transformado por Roger Stern em uma mulher, inimiga do Hulk (uma opção, aliás, que parece muito mais apropriada).

Nessa nova versão, publicada nos número 228 e 229 de The incredible Hulk, ela é Karla Sofen, uma psiquiatra que manipula o Rocha Lunar original para fazer com que ele lhe entregue a pedra que lhe dá poderes. Ela se candidata a ajudar o Dr. Sanson na cura do Hulk, mas na verdade sua intenção é roubar segredos militares.

Rocha Lunar se apresenta como psiquiatra. 


Entretanto, para seu azar, o Hulk está com insônia... e encontra com ela justamente quando ela está na calada da noite tentando efetuar seus roubos.

Aqui temos uma dinâmica que seria muito abordada na fase de Bill Mantlo: o Hulk agindo como herói, mas sendo mal interpretado pelas autoridades que o consideram um monstro descontrolado.

Mas seu objetivo é roubar segredos militares. 


A luta entre o golias esmeralda e a vilã destrói o prédio, mas todos, inclusive o Dr. Sanson, acreditam que isso é resultado da fúria do Hulk. Claro que contribui muito para isso as artimanhas da Dr. Karla, que chega a atingir o herói com um pequeno raio em uma hora em que ele está calmo, fazendo com que ele se enfureça na frente de dezenas de repórteres.

Manipulados pela vilão, todos acreditam que o Hulk é responsável pela destruição do prédio. 


Esse aspecto, de herói incompreendido, associado à ação avassaladora desenhada por Sal Buscema seriam a fórmula para a fase mais lembrada do personagem.

sexta-feira, abril 04, 2025

Mazagão – a cidade que atravessou o atlântico

 

Mazagão é, provavelmente, a única cidade do mundo transplantada de um continente para o outro: de Marrocos, na África, para o Amapá, no Brasil. É a história dessa cidade sui generis que Laurent Vidal conta no livro Mazagão – a cidade que atravessou o Atlântico.

Mazagão surgiu em 1514 no processo de expansão portuguesa na África – o objetivo era estabelecer entrepostos para os navios portugueses que pretendiam contornar o continente para chegar à Ásia.

A fortaleza de Mazagão é instalada num ponto privilegiado, exatamente no meio dos dois extremos do Marrocos lusitana. Também é o porto mais seguro para ancoragem em toda a costa do norte da áfrica.

Mas a reação dos marroquinos não demora e uma a uma, todas as praças portuguesas vão sendo derrotadas e abandonadas, até que sobra apenas Mazagão. Durante mais de um século, Mazagão irá resistir aos mulçumanos, tornando-se o bastião cristão na África. Em um dos cercos morrem 25 mil mouros, enquanto que no lado português apens 98 soldados e 19 civis. Mazagão torna-se o orgulho de Portugual.

Mas a situação vai mudar com a chegada de Marquês de Pombal ao poder. Ele percebe que seria impossível para um pequeno país manter-se em Marrocos e no Brasil ao mesmo tempo e decide-se pelo Brasil.

Um dos melhores capítulos do livro é justamente o que trata da saída dos portugueses da fortaleza, desde a tensão anterior, como muitos dos habitantes decididos a desobedecer a ordem do rei – e continuar defendendo a cidade – até a fuga planejada, com soldados explodindo a fortaleza para não deixar nada para os mouros. Prédios, igrejas, tudo é depredado.

Ao mazaganeses sentem-se duplamente traídos. Por um lado, queriam continuar na África, local em que eram considerados heróis. Por outro lado, é difícil aceitar serem enviados para a Amazônia, local para onde só eram enviados os degregados. Laurent Vidal explora bem esses sentimentos ao resgatar e analisar documentos, como um poema escrito por um mazaganês e guardado numa biblioteca em Portugal.

O transalado dura meses. Os mazaganeses são enviados primeiro para Portugal, depois para Belém, onde aguardam as construções das casas.

Como demonstra o livro de Vidal, a burocracia portuguesa é desastrosa. Para começar, escolhem um local insalubre, pantanoso, que apodrece a comida e as paredes das casas (algumas desmoronam com menos de um ano). O local, inclusive, é de difícil acesso – só é possível chegar através de canoas.

Além disso, não contam com as mudanças nas famílias no período de mais de um ano de translado (casamentos, mortes, nascimentos), de modo que a divisão das casas é feita rigorosamente a partir de uma lista feita em Portugual. Novas famílias surgem, outras perdem seu patriarca (que deveria ser quem assumiria a casa na nova cidade). Para fechar com chave de ouro, a burocracia portuguesa decide que a nova Mazagão deve plantar arroz, produto que Portugal precisava àquela altura. Mas os mazaganeses eram guerreiros e não entendiam nada de agricultura. Os escravos doados a eles vêm da África, e não sabem como plantar na Amazônia. Os únicos que poderiam ensinar seriam os índios, mas esses são proibidos por Portugal de participar de qualquer plantio (eles são usados exclusivamente na construção de casas).

O resultado não poderia ser outro: a experiência é um desastre. Tirando um outro mazaganês que consegue se adaptar e ganhar dinheiro com a plantação de arroz, a maioria vive em situação de miséria – mais uma humilhação para aqueles que se consideram heróis da cristandade.

Mas os mazaganeses encontram um jeito de reviver as glórias da Mazagão africana. Em 1777, quando o rei Dom José morre, Lisboa ordena que cada região do império organize uma festa para comemorar a coroação de D. Maria I.

Os mazaganeses fazem mais de uma semana de festa, e, entre as várias atrações, encenam um combate naval entre mouros e cristãos, algo completamente imaginário, já que os mouros nunca tiveram uma frota que pudesse contrapor os navios portugueses, razão pela qual as batalhas sempre eram terrestres. É uma batalha imaginada, para uma cidade imaginada, uma cidade de memória, como diz Vidal.

D. Maria, compadecida da situação dos mazaganeses, permitiu que eles deixassem a vila, razão pela qual muitos se espalharam por outras localidades do Amapá, muitos deles para Vila Nova de Anauerapucu, que passa a se chamar Mazaganópolis e depois Mazagão Novo, e a vila antiga passou passou a ser conhecida como Mazagão Velho, nome pela qual é conhecida até hoje. É uma trajetória impressionante de uma cidade que se desdobrou em três.

Mazagão Velha passou a ser habitada, majoritariamente, pelos negros, descendentes dos escravos dos mazaganeses, ou vindos de um quilombo das proximidades. E, surpreendemente, são esses mesmos descendentes de escravos que vão manter a lembraça das glórias dos portugueses na África, resgatando aquela festa em honra a Dona Maria, que em algum momento da história se torna festa de São Tiago e hoje é uma das principais atrações turísticas do amapá. A batalha naval da festa original se torna uma intricada trama de batalha entre mouros e cristãos.  E, da mesma forma que a batalha naval encenada pelos primeiros mazaganeses, é uma encenação de uma cidade de memória, muito mais fruto da imaginação do que dos fatos.

Laurent Vidal conta essa história incrível em 294 páginas. Trata-se de um livro acadêmico, repleto de notas, mas a escrita é agradável, de modo que mesmo que aqueles não acostumados a textos acadêmicos podem se interessar. O ponto mais difícil talvez seja a transcrição de textos portugueses da época, de difícil leitura nos dias atuais. Exemplo: “Com estas famílias ordena El Rey Nosso Senhor que se estabeleça huma nova povoação na costa septentrional do Amazonas para se darem as maons com Macapá e Vila Vistoza”.

Sargento Rock – O soldado sorvete

 


Muitas das histórias da série Sargento Rock são sobre soldados que encontram forças para feitos extraordinários, superando as expecativas que todos têm a respeito deles. Exemplo disso é a história o soldado sorvete, publicada em Our Arm at war 85.

A história começa com o sargento explicando que o lema de sua companhia é “quando você está na moleza... não há moleza para você!”. Em seguida começa a falar dos vários tipos de aparecem por lá, entre eles alguns que parecem menos aptos, a exemplo do soldado Phil. Em sua missão, o garoto se jogou no chão da trincheira quando começou o fogo inimigo: “Eu tava na cobertura, sargento, quando vi a artilharia pesada do inimigo. Era chumbo quente suficiente para nos derreter!”.

O soldado sorvete não faz nada certo... 


Pronto, o recruta acabara de ganhar um apelido: “Então ele tem medo de derreter... deve ser um soldado sorvete!”.

A história continua com situações e mais situações em que o soldado sorvete parece cada vez mais inapto para o serviço militar, se jogando chão na hora errada, congelando nos momentos mais decididos. Enquanto isso, o tempo vai esfriando e o garoto sofre uma ulceração nos pés. Mas é nesse momento que o soldado sorvete mostra o seu valor, salvando sua companhia.

... mas no final encontrará a redenção. 


Como é comum nas histórias escritas por Robert Kanigher, a história conclui com uma piada sobre o mote da história e ao mesmo tempo, uma lição, quando o rapaz diz: “Lutar no gelo não é difícil... pelo menos para um soldado sorvete, certo?”.

Vale destacar nessa história o desenho espetacular do Joe Kubert, que consegue transmitir tanto a insegurança do personagem no início, quanto sua resolução, no final.

Cavaleiro da Lua – um comitê de 5

 

No quarto volume de sua revista, o Cavaleiro da Lua enfrentou um grupo de mercernários: um especialista em explosivos, um especialista em lâminas, um atirador de elite, um campeão de karatê e Touro, um homem enorme e igualmente forte.

Esse grupo havia sido contratado pelo Comitê – e aqui Doug Moench aproveitou para costurar a primeira aventura do personagem com essa nova versão. O personagem tinha surgido como vilão da série do Werewolf, contratado pelo Comitê para aprisonar o Lobisomem, mas se revoltava contra seus empregadores. Na nova versão, o herói e Francês se infiltraram e apenas fingiram trabalhar para o grupo, quando na verdade seu objetivo era desbaratá-lo.

Nessa nova HQ, o Comitê, reestruturado, resolve se vingar e contrata os mercenários.

Cinco mercenários são contratados para matar o Cavaleiro. 

Algo que chama atenção na história é facilidade com que o Cavaleiro da Lua vence cada um dos mercenários – e o fato de que eles preferem atacá-lo individualmente e não em grupo, o que seria mais lógico. Mas o texto e o desenvolvimento da história de Doug Moench é tão eficiente que esse aspecto deve ter passado batido da maioria dos leitores, em especial porque Moech fazia uma parceria realmente memorável com Bill Sienkiewcz. 

A sintonia entre desenhista e roteirista era visível. 

A sintonia da dupla é perceptível desde as primeiras páginas, com o número 5 do título formado pelos mercenários ou o texto introduzido na capa no formato de lua do personagen, na segunda página. Além disso, os personagens vão sendo melhor desenvolvidos, incluindo Marlene, a namorada do herói, que aqui atua como espião ao paquerar um dos espiões.

Um aspecto negativo é a arte-final de Klaus Janson. Jason funcionava muito bem na parceria com Frank Miller, mas não se pode dizer o mesmo na parceria com Bill Sienkiewcz.