quinta-feira, julho 03, 2025

O que é um Bife no roteiro?

   Um roteiro, seja de quadrinhos ou de cinema, não é literatura. Ao contrário de um livro, ele deve ser feito para ser visto.


Quadrinhos e cinema são mídias visuais. O que pode ser mostrado com imagens, deve ser apenas imagem.

Se um personagem é um adolescente que gosta de rock, mostrá-lo num quarto com posteres de banda de rock ou com camisa de uma banda cantando uma canção de sua banda predileta é suficiente para repassar a mensagem. Não há necessidade de um narrador ou um personagem dizendo: "Fulano gosta de rock".

Algumas das melhores sequências do cinema são mudas, como a abertura do primeiro De volta para o futuro, com a sequência no laboratório que nos conta tudo que precisamos saber sobre o Dr. Brown, inclusive que ele roubou o urânio do qual se fala na TV.

Outra abertura genial é a de Dois filhos de Francisco. Toda a sequência inicial, do pai pelejando para conseguir pegar rádio na roça mostra sua paixão por música que será o fio condutor de toda a trama.
Assim, as ações é que contam a história e nos dão a motivação dos personagens. Em Contato, a sequência da morte do pai será fundamental para que a cientista Ellen busque comunicação com outros mundos e, quando os ETs aparecem para ela, sacamos que no fundo sua busca por contato era também uma forma de resgatar o pai (o alienígena aparece com o rosto do pai da cientista).

Maus roteiristas desconhecem isso e tendem a explicar tudo com diálogos ou narração em off. Um roteirista iniciante colocaria, na cena do encontro de Contato, uma narração em off, nos dizendo algo como: "Naquele momento Elleanor percebeu que sua busca por contato era, na verdade, uma forma de voltar a encontrar o pai". É o chamado texto ou diálogo expositivo. 

Isso de explicar a história com diálogos é algo tão irritante que ganhou até um nome próprio, uma gíria: bife (alguns também usam muleta).


Maus roteiristas usam e abusam do bife, explicando o tempo todo os fatos ao expectador. Exemplo disso é a novelista Glória Pérez, famosa por adorar um bife. Na novela Caminho da Índia, por exemplo, toda vez que tínhamos uma cena com a psicopata Yvone, na sequência aparecia uma psicóloga explicando as ações da psicopata.


Talvez o exemplo mais famoso de bife, ou muleta, tenha sido uma das cenas finais de Psicose, em que um psicólogo explica o comportamento de Norman Bates. A cena é tão didática que parece uma concessão do diretor, Alfred Hitchcock, para os produtores, no sentido de tornar o filme mais compreensível para a grande massa. Felizmente a cena seguinte, de Norman sentado na cadeira, olhando para o expectador e sua mãe falando por ele salvam o final. Aliás, bastava essa cena final e o expectador entenderia tudo - sem a necessidade do bife psicológico.

PS: Para terminar, uma página de Companheiros do Crepúsculo, de Bourgeon, que exemplifica a força narrativa das imagens.

Tropa Alfa – No reino das bestas

 


O confronto com as bestas, saga mais grandiosa da Tropa Alfa, teve o seu de clímax na edição 24 do título.

Na história anterior, Pássaro da Neve havia sido obrigada a matar Sasquatch, arrancando seu coração quando ele foi domiando por uma fera ancestral. Mas é possível trazê-lo de volta à vida resgatando seu espírito no mumbro sombrio governado pelas bestas.

Byrne usa o preto e branco para caracterizar o mundo das bestas. 


Aqui entra a genialidade narrativa de John Byrne: quando os personagens entram na outra dimensão, ele os continua fazendo na maneira convencional, com traço limpo e cores. Mas o mundo no qual eles chegam é representado em preto e branco, em um traço repleto de detalhes e hachuras. É uma forma eficiente de representar visualmente que os heróis estão em um local alienígena.

Lá eles encontram o demônio Somon, que governa o local e impede que as feras ataquem umas às outras.

Os heróis descem ao poço das lamentações para resgatar a alma do amigo. 


Somon lança contra eles as bestas, e não desiste nem mesmo depois de derrotado. Ele os envia a um tal poço da lamentações, onde estaria a alma de Walter, mas isso acaba se revelando uma armadilha.

O fato da história ser grandiosa não significa que não tenha problemas. Pássaro da Neve, por exemplo, derrota com muita facilidade Somon e a solução para resgatar Walter é quase um deus ex machina, uma situação que surge do nada e não é muito bem explicada.

Ainda assim, é uma história empolgante, principalmente grandas à narrativa visual de Byrme.

Novos Titãs

 


Durante décadas, todo super-herói deveria ter um parceiro mirim. Batman tinha Robin, o Arqueiro Verde tinha o Ricardito. Aquaman tinha o Aqualad. A Mulher Maravilha tinha a Moça Maravilha. Acreditava-se que os parceiros mirins eram o chamativo para a garotada por serem alguém com quem as crianças poderiam se identificar. Em 1964, a DC Comics teve a ideia de reunir os principais heróis juvenis em um grupo chamdo Turma Titã. Mas, surpreendentemente, o gibi não se saiu bem nas bancas. Na verdade, o grupo só viria a fazer sucesso na década de 1980, quando começou a ser escrito por um roteirista que odiava parceiros juvenis.
Marv Wolfman vinha de uma vitoriosa carreira na Marvel, onde escrevera alguns dos principais heróis da editora. Ao passar para a DC, fizera uma exigência: nada de histórias fechadas ou de parceiros.
Wolfman não gostava de histórias fechadas porque o que lhe dava prazer era justamente a possibilidade de desenvolver personagens. O ódio pelos parceiros tinha origem nas suas lembranças de infância: “Eles não se comportavam como eu e minha turma. Usavam uma gíria antiquada que nenhum garoto real usaria. Caramba! A maioria dos meus amigos nem usava gíria! Os parceiros também eram muito respeitosos com os mais velhos”. Além disso, eles eram desenhados muito, muito pequenos, só um pouco mais altos do que a cintura do herói. Difícil para um pré-adolescente se identificar com um personagem tão subserviente.
Curiosamente, Wolfman acabou propondo escrever exatamente a Turma Titã para mostrar como de fato deveriam ser esses heróis. Os fracassos anteriores haviam sido tão retumbantes que a diretoria da DC Comics disse não. Wolfman explicou que seria uma versão totalmente nova, com novos personagens e versões atualizadas dos parceiros clássicos. Criou até um novo nome: Novos Titãs. Acabou convencendo.
O roteirista acreditava que todos os bons heróis são nascidos na tragédia e que isso influencia em suas ações. Assim, a origem de cada um dos heróis acabaria influenciando suas ações e seu jeito de ser. E a maioria dos Titãs tinha origens dramáticas. Estelar era uma princesa alienígena cujo pai a vendeu como escrava para salvar o seu mundo. Ravena era uma terrestre cuja mãe engravidara de um demônio interdimensional. Ciborgue odiava o pai, que o transformara para salvá-lo da morte. “O mote dos Titãs começou e continuou como o novo em oposição ao velho e filhos em contraste com os genitores”, escreveu Wolfman sobre o assunto.
Além do conflito com os pais, os Titãs tinham conflitos entre si. Ravena, por exemplo, era tímida e pacifista. Estelar, uma guerreira nata, era extrovertida.
Para desenhar a revista foi chamado George Pérez, que havia se especializado em desenhar grupos e seria chamado sempre que se precisava mostrar vários heróis ao mesmo tempo. Seu traço realista encaixava perfeitamente com a proposta da revista de mostrar os heróis juvenis numa abordagem mais séria.
A dupla acreditava que a revista não duraria mais do que seis edições, mas o primeiro número vendeu muito até por conta de uma boa campanha de marketing da DC Comics. Mas as vendas começaram a cair a partir do número 2. Até o sexto número, que bateu recordes de vendas. A partir daí, Os Novos Titãs se tornaram uma das revistas mais populares da década de 1980.
O número 6 mostrava o início da saga de Trigon, o demônio que dominara toda uma dimensão e era pai de Ravena, que reunira os Titãs justamente para combater sua ameaça. A história unia os principais elementos que fariam o sucesso dos Titãs, especialmente o embate pais-filhos. Além disso, Trigon era um vilão de verdade. Não era um simples palhaço, como o Coringa, mas uma ameaça real para toda a humanidade.
Novos Titãs uniam boas tramas, vilões realmente terríveis e heróis adolescentes que realmente pareciam adolescentes. Tudo isso contribuiu para transformar o gibi em um dos maiores sucessos da DC na década de 1980 – um sucesso tão grande que foi para outras mídias, com várias animações e um seriado live action.  

Lembranças da biblioteca

 

Menino de engenho foi um dos livros que li por indicação da bibliotecária.

Na época em que eu fazia o ensino médio, um endereço certo, visitado todo dia depois das aulas, era a biblioteca do Centur, em Belém.

Eu lia uma barbaridade. Chegava a ler até mais de um livro por semana. Era meio que para tirar o atraso, pois até os 14 anos, quando descobri a biblioteca do Centur, eu só tinha lido Aventuras de Xisto (lido e relido mais de vinte vezes).

Eu ia direto à biblioteca circulante (que emprestava livros) e procurava algo interessante. Se não encontrava nada muito bom, levava um do Júlio Verne, que era diversão garantida.

Fiz amizade com as bibliotecárias e elas me indicavam livros. Uma delas me indicou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, um clássico da literatura regional nordestina. Mas o primeiro livro que li lá foi um volume de contos de H.G. Wells. A biblioteca tinha um mural em que ficavam as resenhas dos livros escritas pelos leitores. Incentivado pela bibliotecária, fiz uma resenha do livro de Wells (confesso que não lembro qual era o título). Com certeza foi minha primeira resenha. Chegou uma época em que todas as resenhas do mural eram de minha autoria. O curioso é que muitos anos depois, fui trabalhar no Centur e a bibliotecária que me dava dicas virou minha colega de trabalho...

Comecei a trabalhar no Centur quando eles resolveram montar a gibiteca. Antes disso, eu já freqüentava o local e ajudava as servidoras, inclusive dando dicas sobre como elas poderiam classificar as revistas em quadrinhos, que eram guardadas em caixas arquivo. Sugeri que elas fossem separadas por títulos ou por personagens. Aquelas que não tinham em quantidade suficiente para montar uma caixa, nós uníamos por gênero: humor, infantil, drama, terror, aventura, ficção-científica... antes de serem catalogcadas, as revistas ficavam todas guardadas em um armário de metal e para mim era mágico abrir aquelas portas e folhear as publicações. Era como nadar em um oceano de informação.

Nos dias de sábado eu podia ler clássicos, como o álbum de Flash Gordon da Ebal.


No Centur ninguém gostava de trabalhar aos sábado. Eu gostava, pois era o dia que dava menos gente e era possível sentar para ler. Era o dia em que eu aproveitava para ler os clássicos, publicados em álbuns da Ebal ou na enorme revista GIBI. Impossível ler esse material grande e grandioso nos dias de corre-corre. 

Foi nessa época em que li uma das melhores e mais desconhecidas HQs: Capitão César. O título original era Wash Tubs. O desenhista trabalhava  muito bem com papel reticulado, criando efeitos fantásticos. E as histórias eram envolventes. Lembro de uma em que o Capitão César, em missão na Alemanha, acaba indo parar em um campo de concentração e escapa de lá. Propaganda norte-americana do tempo de guerra, evidentemente, mas quem liga? Como diria Spielberg, os nazistas são ótimos vilões porque não aparece ninguém com cara de pau para defende-los.

quarta-feira, julho 02, 2025

Hulk contra os Vingadores

 


Um dos grandes momentos da revista O imortal Hulk, com roteiro de Al Ewing, foi o confronto do golias esmeralda com os Vingadores.

Essa mini-saga inicia no número 6 da revista com órgãos do governo tentando descobrir onde o Hulk se encontra. Já aqui percebemos as situações bizarras criadas por Ewing, em um estilo que lembra o cineasta David Cronemberg: as pessoas que monitoram os amigos do Hulk são mantidas de cabeça para baixo, com implantes que enviam imagens diretamente para seus olhos. 

Lee Garbett é competente, mas seu traço nem se compara com o de Joe Bennett. 


Ao final da história, Bruce Banner está pedindo carona na estrada quando se depara com a Capitã Marvel: “O Hulk ajudou a salvar o mundo muitas vezes, Bruce. Você ganhou muitos créditos. Mas... era um conjunto diferente de Vingadores e, pra ser sincera... seus créditos acabaram”... e vemos uma imagem dos Vingadores se aproximando ameaçadoramente. 

Essa primeira HQ é desenhada por Lee Garbett, que nem de longe tem a força e o impacto do traço de Joe Bennett. Só quando este assume o desenho, em The imortal Hulk 7, que a coisa engrena.

Com Joe Bennett a história explode em ação. 


A edição já começa matadora: um menino está brincando com bonecos da Capitã Marvel e do Homem de ferro quando o pai o pega nos braços e sai correndo: “Alerta verde significa deixa tudo para trás e corre, querida. A gente já demorou demais!”, diz ele... e na sequência a casa é destruída por um carro jogado contra o Motoqueiro Fantasma.

O Hulk está mais poderoso e violento que nunca.

O Homem de Ferro é quase morto, Thor tem o crânio partido: “Estou sugerindo, Capitão... que, em sua fúria, em sua dor, à sombra de seu armagedom... seu mundo mortal pode ter parido algo próximo de um deus... ou talvez um demônio!”, murmura ele.

Hulk está mais poderoso do que nunca. 


A luta se estende por páginas, numa sequência impressionante de ação.

Como medida extrema, o grupo usa o laser Helios, um raio de luz solar superconcentrado que destrói tudo ao redor.

A edição termina com uma splash page igualmente impressionante do Hulk dividido em partes guardadas em potes, numa prateleira de algum órgão secreto do governo norte-americano.

Essa imagem é um divisor de águas. Ela deixa claro que a série iria levar o personagem além de qualquer limite.

Novos Titãs – O início do pesadelo

 


Quando Marv Wolfman propôs para a DC sua nova versão da Turma Titã, os executivos gostaram tanto da proposta que resolveram usar uma estratégia de marketing ousada: encartar um número zero da revista na edição 26 da DC Comics Presents.

Para a estratégia dar certo, era necessário que fosse uma história fechada, não fizesse parte da cronologia (afinal, a história do grupo só iria começar de fato no número 1 a revista The New Teen Titans), mas ao mesmo tempo chamasse atenção o suficiente para fazer os leitores comprarem a nova publicação.

Robrin está no meio da ação quando começa o que parece uma alucinação... 


Marv Wolfman resolveu a situação de forma brilhante. A história começa com Robin na frente do prédio de um laboratório, onde terroristas ameaçam explodir um reator solar.

Quando vai entrar no prédio para resolver a situação, o garoto prodígio começa a ter flashs do que parecem delírios, mas na verdade são, vislumbres do futuro.

... e isso vira uma desculpa para apresentar os novos membros dos Titãs. 


Ele encontra com a Moça Maravilha, entra na Torre Titã, encontra com o Rapaz-Fera, que agora se chama Mutano (“Rapaz-fera era fim de carreira! Mutano tem estilo! Ritmo! Emoção!”) e todos os outros integrantes da equipe.

Ravena avisa que uma experiência científica trouxe, inadevertidamente para a Terra, uma criatura unicelular de outra dimensão e os Titãs precisam detê-la antes que ela transforme todo o oxigênio da Terra em metano.

O grupo enfrenta um ser unicelular vindo de outra dimensão. 


Mas, quando o grupo vai enfrentar a criatura, Robin volta para o presente, e a história vai assim, alternando entre o presente e o flash foward.

Quem, como eu, leu essa história em Heróis em Ação 1, empolgou-se com essa trama completamente diferente do que estávamos acostumados, que brilhava não só pelo bom roteiro de Wolfman, mas também pelos desenhos incríveis de George Pérez. A mesma coisa devem ter sentido os leitores norte-americanos, tanto que quando finalmente saiu a revista do grupo, foi um sucesso absoluto.

Billy Wilder: o mestre do cinema

 


Gian Danton e Alexandre Magno

Billy Wilder é um dos melhores diretores de todos os tempos. Sua inventividade e ousadia marcaram o cinema norte-americano. Além disso, algumas das cenas mais marcantes da sétima arte, como a de Marilyn segurando a saia levantada pelo vento, são criações suas.
Nascido em 22 de junho de 1906, na cidade de Sucha, que atualmente pertence à Polônia mas na época era parte do império austro-húngaro, filho de pai e mãe judeus, Samuel Wilder iniciou seus estudos com a intenção inicial de formar- se advogado, ainda bem que não seguiu por ai, ou o mundo teria várias obras primas cinematográficas a menos.
 Decidiu-se pelo jornalismo, exerceu a profissão em Viena (capital austríaca) quando por alguns anos. Nesse período aconteceu um episódio interessante. Wilder foi encarregado de entrevistar ninguém menos que Sigmund Freud, na residência do pai da psicanálise Wilder teria dito a Freud algo que o irritou, fazendo-o expulsa-lo de sua casa. O que ele disse? Sempre que perguntado Wilder respondia: “Esse segredo vou levar comigo para o túmulo”. E levou.
Emigrou para hollywood nos anos 30 e estreou na direção em na América em 1939 com A Incrível Suzana. Ganhou o Oscar de melhor diretor em duas ocasiões por Farrapo Humano (1945) e Se Meu Apartamento Falasse (1960). Aposentou-se em 1981 e faleceu em 2002, em Los Angeles.
Separamos aqui algumas das características que fazem de Billy Wilder um dos mais importantes cineastas de todos os tempos:
Pacto de sangue

Corajoso - Para começar, Wilder já se mostrou corajoso já em sua chegada aos Estados Unidos, nos anos 30, fugindo da perseguição nazista. Ele mal sabia falar inglês. Ao se apresentar no consulado, era apenas um jovem roteirista estrangeiro quase sem dinheiro e com documentação inadequada. O oficial que lhe atendeu leu seus documentos e fez apenas uma pergunta: “O que você faz?”; “Escrevo filmes” respondeu Wilder, surpreendentemente, o oficial validou seu visto e ao lhe entregar a documentação, acrescentando: “faça bons filmes”. 
Seus filmes de estreia na América não mostram muito de sua coragem. Ele começa a mostrar a que veio em Pacto de Sangue (1944), um clássico do gênero noir que alia uma trama complexa, contada em flash back, à influência do expressionismo alemão ao apostar em uma iluminação low key (fraca, o que torna a cena escura). O filme é corajoso por contar uma história cheia de assassinatos e erotismo em uma sociedade ainda conservadora, que não estava acostumada a ver violência na tela.
Também não poupou criticas à imprensa marron (sensacionalista) e ao bastidores do próprio cinema. Em filmes como Montanha dos sete abutres (1951) e Crepúsculo dos deuses (1950) o diretor mostra personagens aproveitadores, que não se importam com o mal que provocam para conseguirem o que querem. Crepúsculo dos deuses por sinal merece ser melhor analisado. Ao mostrar o personagem de William Holden, um roteirista medíocre que se aproveita e ao mesmo tempo é manipulado pela ex estrela de cinema interpretada por Gloria Swanson, o diretor expõe como hollywood pode ser cruel, como todos agem movidos por seus próprios interesses. Não por acaso, houve executivos que após verem o filme ficaram extremamente irritados com Wilder.
Além de corajoso era também ético. Durante o período de caça as bruxas (que teve como resultado o exílio de vários gênios como Orson Wells e Charles Chaplin) no auge da guerra fria, mesmo diante da pressão do governo e da postura de vários colegas de profissão, , recusou-se a delatar colegas investigados pelo FBI suspeitos de simpatizar com o comunismo.  
Finalmente, este tópico ficaria incompleto se Quanto mais quente melhor (1959) não fosse mencionado. O filme que hoje é considerado a melhor comédia da história causou rebuliço na época de seu lançamento. Na história, os personagens de Jack Lemmon e Tony Curtis são obrigados a se disfarçarem de mulheres para fugir de mafiosos. Wilder faz muitas brincadeira implícitas que puristas e a igreja católica acharam um flerte com o homossexualismo. Mesmo que o filme pareça comportado para os padrões de hoje, Quanto mais quente melhor foi um dos que iniciou uma revolução sexual nos filmes que explodiria nas décadas de 60/70. A partir dali, o Código Hays (que disciplinava o uso da violência e sexo nos filmes de Hollywood) foi lentamente perdendo força até ser arquivado. 
 
Se meu apartamento falasse.
Sintaxe cinematográfica – A maior limitação de alguns filmes do primeiro cinema (1895-1915) era o de serem teatrais demais. À época, não havia códigos narrativos próprios para o cinema e por conta disso alguns filmes parecem hoje uma espécie de teatro filmado. Billy Wilder jamais se utilizou de técnicas não cinematográficas em seus filmes. Sempre usando do artifício para mergulhar o espectador nas histórias, ele o fazia de tal modo que por momentos esquecemos até mesmo que aquilo é cinema.
Wilder era um diretor discreto. Não no sentido de sua vida pessoal, mas no sentido de o público não perceber a mão do diretor na película. Como ele também co-escrevia todos os roteiros de seus filmes, não permitia improvisações e seguia o roteiro à risca, ou seja, preferia enfatizar a história ao artifício que a conta.     
Alguns exemplos em seus filmes explicam como ele conseguia ser genial sem ser extravagante. No vencedor do Oscar de melhor filme de 1960 Se meu apartamento falasse, em uma das cenas finais, Wilder utiliza apenas um dolly in (aproximar a câmera frontalmente) para demonstra a solidão do personagem de Jack Lemmon. Em Farrapo humano (1945) ele só precisa mostrar mancha de água feitas por um copo em um balcão para nos demostrar a dimensão do drama do protagonista alcoólatra.


Inovador: Por se tratar de um diretor da Hollywood clássica muitos podem pensar que Wilder era conservador. Não é bem assim. Ele era conservador sim quando se tratava de movimentos de câmera por exemplo, mas  compensava isso criando cenas com composições extremamente inteligentes. Também não hesitava em utilizar novidades como a profundidade de campo em seus filmes logo após Orson Wells consagra-la em Cidadão Kane. Este é apenas um caso de como o diretor se envolveu em tendências e não tinha medo de ser criticado ao inovar. 
Mas suas maiores ousadias se encontravam mesmo nos roteiros. A metalinguagem presente em Crepúsculo dos Deuses por exemplo  é extremamente criativa e inovadora por utilizar vários elementos da Hollywood real no filme (uma das cenas se passa em um set de filmagem real e os diretores e atores figurantes interpretavam a si mesmos, tal como o diretor C.B. De Mille e o ator Buster Keaton). 
 Suas comédias com um humor ousado e irônico também são dignas de nota. Dispensava puritanismo e talvez tenha sido precursor da revolução no retrato do sexo no cinema que ocorreria anos mais tarde. 
Gian Danton e Alexandre Magno

Billy Wilder é um dos mais importantes diretores do cinema mundial. Judeu austríaco, mudou-se para a América fugindo do nazismo e fez obras-primas, como Crepúsculo dos Deuses. Conhecido por seu ecletismo, ele dirigia tanto ótimas comédias (a melhor delas Quanto mais quente, melhor) e ótimos dramas (como o filme sobre alcoolismo Farrapo Humano).
Em artigo anterior, destacamos alguns pontos que fazem de Wilder um diretor tão especial. Neste, apresentamos outras características:
A cena final de Quanto mais quente melhor. 

Bons finais sempre: Há muitos cineastas cujos filmes são obras primas. Filmes muito bem escritos, com composições visuais excelentes e interpretações impecáveis. Mas quando chegam ao final, acabam de maneira estranha, que não condiz com a qualidade do restante, enfim, finais passáveis. Com Billy Wilder chega a ser impressionante a coerência de sua carreira no que se trata de tramas bem construídas, e bem encerradas.
Talvez o caso mais emblemático deste quadro seja o filme Testemunha de Acusação (1958). Neste, o final é tão surpreendente e importante para a trama que quem assiste ao filme inteiro com exceção dos minutos finais pode ficar com a impressão de que se trata de um filme menor. Nos créditos, há um pedido para que os espectadores não comentem a respeito do final com amigos. Wilder sabia que a força do filme estava no final.  
Também temos o que possivelmente é o melhor final de um filme de todos os tempos. Na ultima cena de Quanto Mais Quente Melhor (1959) vemos aquele que é considerado o mellhor diálogo final de um filme em todos os tempos. Jack Lemmon, disfarçado de mulher e usando o nome de Daphne, tenta convencer o milionário Osgood que não pode se casar com ele:
Daphne: É, Osgood. Não posso me casar no vestido da sua mãe. É que – eu e ela, nós não temos o mesmo tamanho.
Osgood: Nós podemos alterá-lo.
Daphne: Oh não faça isso! Osgood, Eu vou falar de uma vez. Não podemos nos casar de forma alguma!
Osgood: Por que não?
Daphne: Bem, em primeiro lugar, eu não sou loira de verdade.
Osgood: Não importa.
Daphne: Eu fumo! Eu fumo o tempo todo!
Osgood: Eu não ligo.
Daphne: Bem, eu tenho um péssimo passado. Faz três anos que eu moro com um saxofonista.
Osgood: Eu te perdoo.
Daphne: Nunca poderemos ter filhos!
Osgood: Podemos adotar alguns.
Daphne: Mas você não entende, Osgood! Eu sou um homem!
Osgood: Bem, ninguém é perfeito!

Esse final, escrito em parceria com I. A. L. Diamond, grande parceiro do diretor, ficou tão famos que Wilder mandou escrever em seu túmulo: “Eu sou um escritor... mas ninguém é perfeito”.
Isso tudo só ocorre porque Wilder, seguindo o princípio consagrado por alguns movimentos cinematográficos que estabelece condições para que um diretor seja também um autor, também roteiriza todos os seus filmes. Esse fato que lhe permitia muito mais liberdade criativa. Esse fator, somado à liberdade que os estúdios lhe davam (poucos diretores desfrutavam deste luxo à época) contribuía para que ele quase sempre optasse pelo melhor final no seu ponto de vista.
A atuação de Marilin em Quanto mais quente melhor é memorável.

Direção de atores – Wilder não era um mestre só ao manejar a câmera. Era também um especialista em tirar de seus atores suas melhores interpretações. O exemplo mais clássico talvez seja Marilyn Monroe em Quanto mais quente melhor. Conta-se que na época ela já estava com problemas psicológicos tão graves que não conseguia decorar nem mesmo uma frase simples, como “I´m sugar!”. Ainda assim, sua atuação no filme é perfeita. A cena em que ela tenta conquistar Tony Curtis, que, por sua vez, tenta se fazer de tímido, é uma das melhores do cinema com atuação brilhante dos dois atores. Aliás, essa mesma cena é um exemplo perfeito da maneira como o diretor manejava o diálogo de modo a permitir várias interpretações. Nela, quase toda fala tem duplo sentido.
Inferno n. 17: filme de guerra de Wilder. 

Eclético -  Billy Wilder costumava dizer: “Ninguém gosta de comer todos os dias a mesma coisa” para justificar a variedade de seus filmes. Ele fez um dos melhores dramas jornalísticos de todos os tempos (A Montanha dos sete abutres) e a melhor comédia da história do cinema (Quanto mais quente, melhor). E passeou pelos gêneros noir (Pacto de sangue), comédia romântica (A incrível Suzana, Sabrina), filme de guerra (Sete covas do Egito e Inferno n. 17),  comédia de costumes (Se meu apartamento falasse, O Pecado mora ao lado), metalinguístico (Crepúsculo dos deuses) e até policial (A vida íntima de Sherlock Holmes). Dos gêneros mais conhecidos de Hollywood, os únicos que ele não abordou foram a ficção científica e o faroeste.
Kirk Dougla interpreta um jornalista sem escrúpulos em A montanha dos sete abutres.

Roteiros – Já foi dito sobre os finais perfeitos de seus filmes, mas quem conhece o trabalho Billy Wilder sabe que tudo em seus filmes era feito em torno do roteiro. A textura da trama era perfeita, sem pontas soltas ou deus ex-machinas (situações ou soluções que não se encaixam no contexto). Até mesmo quando Wilder parece falhar no roteiro, isso na verdade faz parte da trama, como em Testemunha de acusação, quando uma personagem aparece do nada apresentando provas fundamentais para o julgamento. Além disso, ele manejava o diálogo como poucos, revelando detalhes sobre os personagens a cada fala. Exemplo disso é quando Kirk Douglas, em A montanha dos sete abutres diz que irá conseguir uma grande notícia, mesmo que para isso precise morder um cachorro, mostrando, nessa simples fala, a falta de ética do personagem.
Todos esses fatores e muitos outros fazem com que Billy Wilder seja obrigatório para qualquer um que goste de cinema.  

O curupira

 


O curupira foi o primeiro ser encantado brasileiro registrado pelos europeus. Em uma carta de 1560, José de Anchieta já o citava. Em 1663, o padre Simão de Vasconcelas referia-se a ele como um gênio de pensamento “num exótico de mentiras e enganos”.
Esse ser mitológico mudava de local para local, chegando mesmo a mudar de nome: Curupira na Amazônia e Caipora ou Caapora no sul. Em comum, a característica de ser o protetor da floresta, que castiga quem mata caça pequena ou fêmeas ou prejudica a floresta de alguma forma.
Segundo Câmara Cascudo, “Vigiando árvores, dirigindo manadas de porcos-do-mato, arracadas de veados e pacas, assobiando estridentemente, passa a figura esguia e torta do Curupira, o mais vivo dos deuses da floresta tropical, presente às histórias infantis aos episódios de caça, aos acidentes da luta do homem n´Amazônia. É o eplicador dos mistérios, passando seus cabelos de fogo, seus pés virados como Enotocetos de Mégasthènes, registrados em Estrabão, seus dentes azuis, seus assobios açoitantes, na memória de todas as recordações”.
O maestro paraense Waldemar Henrique eternizou-o numa canção:

“Já andei três dias e três noites pelo mato
Sem parar
E no meu caminho não encontrei nenhuma
Caça pra matar
Só escuto pela frente pelo lado o Curupira
Me chamar
Ora aqui, ora ali, se escondendo sem
Parar num só lugar
Por esse danado muitas vezes me perdi
Na caminhada
E nem padre nosso me livrou desse
Danado da estrada”

O curupira aparece no meu romance Cabanagem desenhado pelo grande quadrinista Laudo numa imagem que representa bem o caráter do mestre do engano.

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