domingo, julho 06, 2025

Capas de revistas da Grafipar

 


Grafipar foi uma das mais importantes editoras brasileiras de quadrinhos. Especializada em quadrinhos eróticos, ela inundou as bancas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 com uma enorme variedade de revistas com a nata dos quadrinhos nacionais. Confira algumas capas da editora.
















Lanterna Verde e Arqueiro Verde – Ulysses Estrela está vivo

 

 

Em sua série sobre os dois heróis verdes da DC Comics, Denny O´Neil e Neal Adams falaram de várias mazelas dos EUA.  A situação dos indígenas norte-americanos foi abordada no número 79 da revista.

A história começa com um indígena sendo perseguido por dois homens que pretendem matá-lo. Ao interferir, os heróis descobrem que os perseguidores são o presidente do sindicato dos lenhadores e um brutamontes que se diz dono da área. Há 100 anos, o chefe Ulysses Estrela tinha feito um acordo com Washington, que cedia toda a madeira da região para sua tribo. O problema é que o registro desse acordo se perdeu e agora os lenhadores querem aproveitar para derrubar a floresta e lucrar com isso.

Neal Adams inovava nas soluções gráficas. 


A partir desse problema, cada herói tenta resolver o caso à sua maneira. O certinho Lanterna Verde procura os meios legais e chega a acionar um deputado em Washington, além de procurar o último descendente de Ulysses Estrela. Já o Arqueiro, em consonância com sua personalidade impetuosa, prefere se disfarçar como o fantasma de Ulysses Estrelas e convencer os indígenas a lutarem.

O Lanterna salva o último descendente de Ulysses Estrela de um incêncio criminoso... 


As divergências entre os dois termina com ambos lutando em um riacho.

O desenho de Adams está soberbo, como sempre, mas o roteiro tem problemas. Por exemplo, por que o descendente de Ulysses Estrela foi para a cidade ao invés de usar o documento para garantir os direitos da tribo? 

... enquanto o Arqueiro se disfarça como o fantasma do chefe indígena. 


Além disso, no final, as ações dos heróis não interferem em nada e tudo acaba se resolvendo de outra maneira. Talvez essa fosse uma forma O´Neil de afirmar que no final, quem deve resolver seus problemas são as pessoas normais, e não heróis, embora a história não deixe isso claro.

Perry Rhodan 90 – Atlan em perigo

 

 


O número 90 da série Perry Rhodan é uma continuação direta do número anterior, inclusive escrita pelo mesmo autor, Kurt Brand. Em A grande hora de Gucky, um patriarca saltador, influenciado pelo filho de Rhodan, Thomas Cardif, tenta tomar o poder no Império Solar. Mas, quando descobre que o computador regente de Árcon perdeu o poder para Atlan, resolve ir atrás do prêmio maior, afinal, o império arcônida é o maior conhecido na galáxia.

O volume tem partes interessantes, como por exemplo, introduzir um novo tipo de mutante, os parasenstivos, cujo primeiro exemplo é um preguiçoso agente do governo: “No caso, de Lemmon (o parasentido) era a capacidade de classificar à primeira vista as notícias recebidas segundo sua importância”.

O volume também se destaca por trazer detalhes até então não conhecidos sobre os mercadores galácticos, como o fato de nascerem e morrerem dentro de naves espaciais.

A capa alemã. 


Confesso que ao ler essa informação, primeira referência ao nascimento de saltadores, fiquei me perguntando como era o processo de procriação, já que até então, embora os saltadores já tivesse aparecido em dezenas de livros, nunca aparecera uma fêmea nas histórias, nem mesmo como uma referencia ocasional. Aparentemente, apesar de terem pensado em muitos detalhes sobre os saltadores, nenhum dos autores pensou em introduzir uma personagem feminina.

Além desses detalhes culturais, Brand introduz parágrafos e mais parágrafos desnecessários, alguns deles resumindo fatos que haviam sido mostrados nesse mesmo volume, além de reflexões óbvias para quem estava lendo a história, como: “Entretanto, no momento, o poder do Império Arcônida andava um tanto abalado e, por conseguinte, caso Árcon ruísse, desmoronaria também o Império Solar”. 

Na trama, Rhodan precisa ajudar o amigo Atlan a se livrar da revolução que surge a partir da revelação de quem realmente está mandando no Império Arcônida. Para isso ele elabora um plano ousado envolvendo os druufs que não haviam sido destruídos, mas também não tinha conseguido voltar para seu plano temporal. A ideia é usá-los para convencer os saltadores de uma invasão.

Há algo que me incomoda, pelo menos nesse ciclo: o fato dos geniais planos de Rhodan darem sempre errado e no entanto o resultado ser sempre positivo – e é isso que acontece aqui.

Para uma trama que prometia tanto, esse é um livro no máximo mediano.

Uma família segurada

 


Era uma família segurada. O pai, Rivaldo, fizera a primeira apólice como presente de casamento para a esposa. Se ele morresse nas núpcias, já estava tudo arranjado...

Em seguida nasceu a primeira filha, Patrícia, e Rivaldo providenciou logo um seguro para a esposa, tendo como beneficiária a filha.

Em uma noite escura e tempestuosa, berrara pela primeira vez Roberto, o caçula. O pai achou que era um mal agouro e fez um seguro para Patrícia, tendo como beneficiário o irmão.

Desde então, a família pegou a febre do seguro. Carro, bicicleta, casa, móveis, até os seios de Márcia (que, aliás, eram belíssimos) foram segurados.

Viveram felizes por vários anos, coberto pelo manto protetor de duas ou mais dezenas de apólices. Até aquela tarde...

Márcia fora visitar o marido no escritório e tivera de esperar ao lado da Secretária.

- O seu Rivaldo está ocupado. A senhora espera um instantinho... – sugeriu a Secretária.

- Só dez minutos, advertiu Márcia.

Esperou meia-hora. Só então a porta se abriu e saiu dela um homem gordo, vestindo um terno antigo e suando bicas. Era um segurador. Márcia conhecia-o muito bem. Vira-o várias vezes em sua casa. Mas, de tudo que tinham, apenas um candelabro velho que ficava jogado no porão ainda não fora segurado. Não, não podia ser. Não, a explicação era outra: o sacripanta arranjara uma amante. E, não satisfeito, ainda fazia um seguro para a concubina... Hipócrita, desavergonhado, fanfarrão!

Havia de se vingar!

A partir daquela tarde, a vida de Rilvado passou a ser uma contagem regressiva. Até que aconteceu. Numa noite de chuva, o freio falhou. Os pneus derraparam, o carro despencou num despenhadeiro e explodiu. Não sobrou muito para ser investigado.

Márcia recebeu o seguro do marido e do carro. Estava feita! Comprou uma casa nova – bem maior – contratou um motorista, colocou o resto do dinheiro no banco e viveu numa boa desde então. Ou viveria, se não fosse aquela tarde...

Se havia uma coisa que enervava completamente Patrícia, era a matemática. Odiava fazer as lições de casa e já tinha repetido um ano na escola por causa da dita. Naquela tarde, ela e a mãe tiveram uma briga dos diabos. Márcia queria obrigá-la a fazer a lição de casa.

- Eu não preciso fazer a lição de casa, eu sou rica! – gritou a garota.

- Ah, é? Pois fique sabendo que enquanto eu estiver viva, você não toca em um tostão... aliás, pode ir esquecendo a mesada, que este mês não tem!

Foi uma briga feia! Feia demais por sinal. Se fosse um pouco mais esperta, Márcia teria se preocupado com a expressão maquiavélica que a filha passou a ostentar desde então. Passava horas trancada no quarto e andava com ares de quem pensa – o que, aqui para nós, era bastante raro naquela família...

Por fim, aconteceu. Foi durante o banho. Um fio solto provocou um curto circuito e eletrocutou a dona da casa. Quando finalmente desligaram a chave, não havia sobrado muita coisa de Márcia para ser enterrado.

Estavam ricos. Patrícia com 18 anos e Roberto com 16, sozinhos em casa, donos de seu futuro. Era a vida que qualquer jovem pediria a Deus, mas não Patrícia. Pegara o gosto pela coisa e a lembrança de que teria de dividir a herança com o irmão simplesmente a aterrorizava. Resolveu, então, matá-lo. Mandou preparar um jantar especial, dispensou os empregados e armou o seu circo.

- Jantar à luz de velas, maninha? – perguntou Roberto, entrando na sala.

- Claro! Antes de morrer, papai fez um seguro para este candelabro velho. Coloquei aí para ver se quebra... pedi à cozinheira para fazer seu prato predileto... isso tudo para o meu irmãozinho predileto...

Sentaram-se.

- Vejo que temos vinho. – observou Roberto.

- É do Porto. Não faz mal mexer na adega de vez em quando, não é? Especialmente para ocasiões especiais.

- Claro, passe a garafa.

- Não, deixe que eu o sirva...

- Está bem, mas só se você deixar que eu a sirva...

- Claro.

Serviram-se. Disfarçadamente, Patrícia despejou um pouquinho de pó no copo. Era um veneno feito especialmente para não deixar vestígios. Tivera um grande trabalho para conseguir...

Tilintaram os cristais, beberam de uma só vez e ficaram sorrindo um para o outro.

Patrícia foi a primeira a falar:

- Sabe, maninho, que você é um tipo insuportável?

- Pode ter certeza de que tenho os mesmos sentimentos com relação a você...

Patrícia cortou-o:

- Mas eu tomei providências para que isso não dure muito!

De repente uma dor aguda despontou como uma alfinetada no peito de Patrícia. O sorriso desapareceu do rosto de Roberto. Foi substituído por grandes rugas de dor.

- Não me diga que... – gemeu ele.

- ... você colocou... – continuou Patrícia.

- ...Veneno no vinho! – completaram juntos.

Deram um último suspiro e morreram um nos braços do outro. Teria dado um bom dinheiro de seguro...

sábado, julho 05, 2025

Monstro do Pântano – Estranhos frutos

 


Em gótico americano, Alan Moore revisitou os principais monstros do terror. Nos números 41 e 42 ele abordou os zumbis, como sempre de maneira revolucionária.

Na trama, uma equipe de TV está gravando uma soap opera em um velho casarão sulista. Mas o local está impregnado de tragédia e maldição, um horror que virá à tona quando os atores encarnarem as pessoas reais que moraram ali.

A história começa com uma sequência em visão subjetiva. O leitor entra no casarão e parece ouvir os fantasmas. 


A história inicia como se o leitor estivesse entrando na casa e descendo ao porão até parar numa coluna manchada de sangue. O diálogo é colocado na forma de legendas, como se reverberasse pela estrutura da casa assombrada: a esposa do senhor envolveu-se com um negro. Quando descobriu, o senhor de escravos levou o escravo até o porão e esfolou-o.

A trama pula para os dias atuais e temos novamente um trio, mas agora com papéis trocados: a mulher é racista e tem nojo do ator negro, enquanto o ator que faz papel de seu marido faz de tudo para ser aceito pelo ator negro. Essa situação vai se invertendo quando os fantasmas do passado encarnam nos atores e eles passam a representar o drama real. Ao mesmo tempo, os mortos levantam da tumba e vão até o casarão, exigindo sua liberdade.

A sequência do morto que não consegue descansar é uma das melhroes. 


Curiosamente, as melhores sequências são focadas nos zumbis. É também quando o texto de Moore encontra seu ápice: “Mas uma coisa todos queriam sem exceção: liberdade. Liberdade desse solo ruim, onde ressentimentos enterrados envenenam as raízes do mundo e de todas as culturas. Liberdade dessas terras contaminadas que deitam frutos tão amargos”.

É um zumbi que protagoniza a impressionante sequência final, repleta de humor ácido e critica social. Um dos mortos vivos apresenta-se como candidato à vaga como bilheteiro em um cinema. O próprio dono do cinema afirma que é um trabalho lamentável, em que as pessoas são obrigadas a passar horas sem comer ou ir ao banheiro, por isso poucos ficam muito tempo. “Tudo bem, quando eu começo?”, responde o zumbi. “Olha, gostei da sua atitude. Você não resmunga sobre condições de trabalho nem vem com papo de sindicato. Não se fazem mais trabalhadores assim”. A metáfora é óbvia: algumas vagas de trabalhos são tão entediantes e deploráveis que só poderiam ser ocupadas por zumbis.

A parte final da história é cheia de homenagens a filmes de zumbis. 


Uma curiosidade é que, nessa sequência final, os filmes que estão passando no cinema são todos de zumbis, como A noite dos mortos vivos, o famoso filme de George Romero que redefiniu o gênero.

Roteiro de quarinhos - Menos é mais

 


Um sábio já dizia que escrever é cortar palavras. Em nenhum outro gênero textual isso é tão verdadeiro quanto nos roteiros para quadrinhos.

Quadrinhos são a arte da síntese. Escrever muito com pouquíssimas palavras. Tanto que muitos escritores que se aventuraram a produzir quadrinhos deram com os burros n´água.
Um dos poucos que fizeram obras-primas foi Paulo Leminiski. No começo dos anos 1980, ele escreveu algumas histórias para a editora Grafipar, de Curitiba e, mesmo poucas, entraram para a história dos quadrinhos nacionais. A razão é que Leminski vinha da publicidade, em que a síntese é essencial, e foi muito influenciado pela poesia hai-kai, também muito sintética, além de intimamente relacionada à imagem. Em outras palavras, quando foi para os quadrinhos, o poeta sabia que quadrinhos não são literatura.
Um exercício interessante é observar a evolução do texto de Stan Lee ao longo de histórias como as do Quarteto Fantástico. Nas primeiras HQs o texto parecia transbordar dos balões. Depois foram diminuindo, diminuindo e, ao mesmo tempo, tornaram-se mais poéticos, mas sensíveis. Ou seja: ao mesmo tempo em que os textos diminuíam de tamanho, iam ficando mais elaborados.
Quando comecei a escrever quadrinhos, eu logo descobri algumas dicas básicas: evita-se, por exemplo, orações subordinadas e frases que digam o que o leitor está vendo. Por que dizer “Flash, que corria velozmente, salvou a moça!”? Além de contar algo que o leitor já está vendo, o “que corria velozmente” só serve para entulhar o balão de texto. Além disso, nos quadrinhos, uma única palavra pode dizer muito.
A história Orquídea Negra, de Neil Gaiman mostra bem isso. Em uma sequência genial, o texto diz apenas: “Então o sonho me leva para longe... e/uma/vez/mais/eu/desco/ca/in/do”. Difícil não se sensibilizar com a beleza poética dessa sequência, em que o texto se une perfeitamente aos quadrinhos. Aliás, essa sequência lembra muito a poesia concreta, um movimento literário brasileiro que influenciou muito, adivinhem? Paulo Leminski.

Homem-aranha - longe de casa

 


O sucesso estrondoso do homem aranha está relacionado a uma fórmula que envolve ação, romance, drama e humor, cada um desses elementos na medida certa. 
É inevitável pensar nisso ao ver o novo filme do herói. 
Nesse filme temos a estreia de Mistério, um vilão menor do panteão de antagonistas do aracnídeo. Afinal, embora seja um dos primeiros antagonistas do aracnídeo, ele nunca teve uma grande história e nunca representou uma grande ameaça. Afinal, o personagem é apenas um ilusionista e, como tal, uma ameaça menor. 
Esse é o grande acerto do filme: transformar Mistério em uma ameaça real.
É um roteiro bem construído, apesar de algumas situações forçadas. O roteiro parece correr para que haja ação o tempo todo. Em determinado ponto, derrotado pelo vilão, perdido e sem dinheiro em um país desconhecido, a situação se resolve apenas com um telefone, usando o celular de um homem que fornece o aparelho sem sequer perguntar para onde será a ligação. Ali é tão óbvio que a solução não fazia parte do roteiro que os roteiristas incluíram uma piada, brincando com a situação.
Lembrando da afirmação inicial: parece haver algo errado na fórmula e no peso dos elementos. O excesso de ação não permite que os os outros elementos sejam devidamente explorados.Longe de casa é um filme melhor que seus antecessores, mas ainda é bastante inferior ao segundo filme de Sam Raimi.

O mistério de Edwin Drood

 


Charles Dickens foi um dos mais importantes escritores do século XX, responsável por criar a imagem que temos atualmente do natal. Ele tinha uma relação interessante com Edgar Allan Poe. O autor inglês excursionou pelos Estados Unidos quando Poe iniciava sua carreira literária e influenciou-o diretamente. No final da vida, Dickens foi influenciado por Poe e colocou seu talento a serviço do gênero criado pelo autor do conto “Os crimes da rua Morgue”. O resultado disso é o livro O mistério de Edwin Drood.          
Dickens escreveu seu texto e publicou-o em fascículos ao longo do ano de 1970. Quando estava pouco mais da metade, morreu, sem deixar nenhuma anotação de como pretendia resolver o mistério do estudante que desaparece em uma noite de tempestade.   
O romance ficou inacabado e se tornou, ele mesmo, um mistério. Quem teria matado Edwin Drood? Teria ele realmente morrido?
Dois anos depois de morto, Dickens terminou o texto através do médium norte-americano Thomas P. James (algo que parece ter saído diretamente de uma das histórias do próprio Dickens).
A edição que li, do Clube do Livro, de 1978, publica o final sem aviso sobre o adendo mediúnico. Além disso, traz diversos erros de revisão (em determinado ponto “livres” é grafado como “livros”), mas o volume permite perceber como Dickens se saía no gênero policial. Dickens parece estar mais preocupado com os personagens (e há vários deles antológicos, como o garoto Delegado), ao contrário de Poe, em que a ênfase está na construção da trama.
O final mediúnico apresenta um assassino óbvio, embora traga uma preocupação em mostrar o detalhamento da investigação. Mas não parece Dickens. A motivação do assassino é resumida em uma frase e quem leu Um conto de duas cidades sabe que o autor inglês era capaz de grandes reviravoltas em suas tramas.
O ideal é ler o livro como uma obra aberta, imaginado como teria sido o final escrito por Dickens vivo.

Em tempo, a edição da Lachâtr, mais recente,  é mais honesta que a do Clube do Livro, pois avisa que o parte do livro é de origem mediúnica.  

A arte espantosa de Will Eisner

 


 
Will Eisner é um dos mais importantes quadrinistas de todos os tempos. 

Ele começou sua carreira no final da década de 1930 aproveitando o boom provocado pelo surgimento dos comics books. Em 1937 ele e Jerry Iger criaram o estúdio Eisner-Iger, no qual começaram sua carreira alguns dos grandes nomes dos quadrinhos, como Jack Kirby. Nessa fase ele criou personagens como Sheena, a garota das selvas. 

Em 1940 ele criou seu personagem mais memorável, The Spirit, que era publicado em suplementos dominicais. 

Em The Spirit, Eisner testou ao máximo os limites dos quadrinhos, ajudando a estabelecer a linguagem dessa mídia. Na década de 1970 publicou Um contrato com Deus, que tornou popular o termo graphic novel,  amplamente adotado a partir da década de 1980. Esse trabalho inaugurou uma nova fase na sua produção, com um tom mais realista e auto-biográfico. 








Demolidor – O homem sem medo

 

A infância de Matt Murdock é um dos momentos mais importantes da história do Demolidor, mas também um dos menos explorados. Antes de Frank Miller, o que existia, era, essencialmente, a versão de Stan Lee e Bill Everett. Miller inovou, por exemplo, ao mostrar que o garoto teve um mestre, Stick, mas ali pela década de 1990 ele achou que era hora de explicar melhor como Matt Murdock virou o Demolidor, da mesma forma que já havia feito no Batman. O resultado, um verdadeiro Demolidor ano 1, foi a minissérie Demolidor – homem sem medo, publicada em 1991, com desenhos de John Romita Jr e Al Williamson.

Na história, Matt Murdock oscila entre a obediência ao pai e a vontade de realizar traquinagens – e resolve o conflito usando uma máscara. Assim, por exemplo, o vemos, na sequência inicial, roubando o cassetete de um policial por pura brincadeira, o mesmo policial que pouco antes estava dizendo para os garotos: “Por que vocês não são como o filho de Murdock? Ele nunca causa problemas...”.

A história começa com uma traquinagem do garoto Matt. 


Na história descobrimos também que o pai de Matt era, a contragosto, um capanga do mafioso chamado Manipulador, providenciando para que todos os comerciantes locais pagassem proteção.

Fortemente influenciado por Jack Kirby, John Romita Jr usa com perfeição quadros de impacto, a começar pela imagem de Matt Murdock após o acidente que o deixou cego, as feições infantis, a expressão de desalento.

A sequência do acidente é recontada. 


Em contraste, ainda no primeiro número, temos uma página dupla do jovem Murdock, já depois de treinado por Stick, percorrendo os telhados da cozinha do inferno em uma cena grandiosa.

Talvez o aspecto mais interessante da série seja a parte focada em Elektra, uma personagem pela qual Miller nitidamente era apaixonado e que se tornou um ponto fulcral da série ao se tornar uma mistura de heroína e vilã. A história mostra como ela e Matt Murdock se conheceram, a forma irresponsável e atrevida como Elektra vivia e a forma como ela manipulou o rapaz para se aproximar dele.

Boa parte da história é focada em Matt e Elektra. 


Mas a sequência mais impactante é aquela em que Elektra vai até o centro de Nova York e chama atenção de uma gang. “Ela não é louca. As vozes são reais”, diz o texto. “As vozes lhe falam de seu destino. Elektra não aprecia esse destino... mas elas fazem algo com sua mente, algo que a jovem mal pode controlar. Por isso ela escolhe as vítimas”. Estava ali, em toda a sua essência, a assassina comandada por forças das trevas, a mulher que oscila entre o amor por Matt Murdock e a necessidade de matar.

Elektra precisa matar. 


A série também nos mostra como o Rei chegou ao controle do crime organizado e como ele estabeleceu uma rede de sequestro de crianças para filmes sexuais – o que nos dá uma sequência eletrizante quando o Demolidor, ainda sem uniforme e usando apenas roupa e máscara preta, vai salvá-las.

O herói, ainda sem uniforme, salva crianças: sequência eletrizante. 


A união de Miller e Romitinha fez com que essa série se tornasse um clássico obrigatório para os fãs do Demolidor, tão relevante que nitidamente serviu de base para a série da Netflix (série, aliás, que não conseguiu manter o mesmo nível de qualidade).

Providence: Alan Moore explora do universo de Lovecraft

 


Providence é um dos trabalhos mais recentes de Alan Moore e a terceira investida do autor inglês na obra de H.P. Lovecraft (a primeira foi no Monstro do Pântano, a segunda em Neonomicon).

O plano de Moore é ousado: não só costurar todo o universo lovecraftiando em uma única história, mas interliga-lo com quase toda a literatura do século XX, tendo como pano de fundo a ideia de que a arte é um tipo de magia: quando, por exemplo, escrevemos sobre algo, estamos tornando aquilo real. Moore tem dissertado bastante sobre sua tese de que ficção e realidade são instâncias que se tocam e influenciam, de modo que a linha entre elas é tênue e nebulosa. Esse é o mote de Providence.
Moore transforma Lovecraft em personagem de sua série. 


A história, lançada aqui em três volumes encadernados pela Panini, acompanha um jornalista gay nova-iorquino e sua saga pela nova Inglaterra em busca de tradições locais. Com isso ele se depara com um estranho culto. A narrativa é lenta e se torna necessário conhecer a obra de Lovecraft para entende-la em plenitude: os personagens de diversas histórias de Lovecraft vão surgindo.

sexta-feira, julho 04, 2025

O cortiço

 


Publicado em 1890, O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, é um romance baseado na ideia equivocada do determinismo social, segundo o qual o caráter de uma pessoa e seu comportamento é determinado pelo meio. E, para o português Azevedo, um cortiço carioca era o pior dos meios, um local que corrompia todos que entrassem em contato com o mesmo.

Assim, O Cortiço é uma história de degradação moral, em que personagens desfilam diante do leitor, alguns até íntegros, como o português Jerônimo, mas vão sendo aos poucos tomados pela lubricidade do local e acabam contaminados.
O romance guarda forte conteúdo racista certamente influenciado por teorias em voga na época: o europeu é bom, íntegro, o brasileiro é uma raça degradada.
É curioso e irônico, no entanto, que de todos os personagens, o mais corrupto é justamente um português, João Romão, o dono do Cortiço. Perto de suas maldades e de seu egoísmo os moradores do cortiço parecem inocentes.
Muito além de sua mensagem determinista, O Cortiço é um dos melhores livros entre os clássicos da literatura brasileira. A forma como o autor lida com uma infinidade de personagens, caracterizando-os perfeitamente, dando a cada um deles uma uma história, um modo de reagir às alegrias e adversidades, tudo isso é genial.
É fácil aprofundar a personalidade de um único personagem. Mas lidar com uma galeria tão grande sem perder a mão é coisa para grandes autores.
Outro aspecto interessante é a inventividade na criação de situações. No cortiço sempre está acontecendo algo numa espiral vertiginosa de traições, brigas, intrigas.
Acrescente-se a isso afinadas descrições da psicologia dos personagens que lembram muito Eça de Queiros. Como exemplo, um trecho em que o autor descreve a descoberta da inveja por parte de João Romão: “E em volta de seu espírito, pela primeira vez alucinado, um turbilhão de grandezas, que ele mal conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de sedas e rendas, veludos e pérolas, colos e braços de mulheres seminuas, num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos cor de ouro”.