domingo, julho 06, 2025
Capas de revistas da Grafipar
Grafipar foi uma das mais importantes editoras brasileiras de quadrinhos. Especializada em quadrinhos eróticos, ela inundou as bancas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 com uma enorme variedade de revistas com a nata dos quadrinhos nacionais. Confira algumas capas da editora.
Lanterna Verde e Arqueiro Verde – Ulysses Estrela está vivo
Em sua série sobre os dois heróis verdes da DC Comics, Denny O´Neil e Neal Adams falaram de várias mazelas dos EUA. A situação dos indígenas norte-americanos foi abordada no número 79 da revista.
A história começa com um indígena sendo perseguido por dois homens que pretendem matá-lo. Ao interferir, os heróis descobrem que os perseguidores são o presidente do sindicato dos lenhadores e um brutamontes que se diz dono da área. Há 100 anos, o chefe Ulysses Estrela tinha feito um acordo com Washington, que cedia toda a madeira da região para sua tribo. O problema é que o registro desse acordo se perdeu e agora os lenhadores querem aproveitar para derrubar a floresta e lucrar com isso.
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| Neal Adams inovava nas soluções gráficas. |
A partir desse problema, cada herói tenta resolver o caso à sua maneira. O certinho Lanterna Verde procura os meios legais e chega a acionar um deputado em Washington, além de procurar o último descendente de Ulysses Estrela. Já o Arqueiro, em consonância com sua personalidade impetuosa, prefere se disfarçar como o fantasma de Ulysses Estrelas e convencer os indígenas a lutarem.
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| O Lanterna salva o último descendente de Ulysses Estrela de um incêncio criminoso... |
As divergências entre os dois termina com ambos lutando em um riacho.
O desenho de Adams está soberbo, como sempre, mas o roteiro tem problemas. Por exemplo, por que o descendente de Ulysses Estrela foi para a cidade ao invés de usar o documento para garantir os direitos da tribo?
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| ... enquanto o Arqueiro se disfarça como o fantasma do chefe indígena. |
Além disso, no final, as ações dos heróis não interferem em nada e tudo acaba se resolvendo de outra maneira. Talvez essa fosse uma forma O´Neil de afirmar que no final, quem deve resolver seus problemas são as pessoas normais, e não heróis, embora a história não deixe isso claro.
Perry Rhodan 90 – Atlan em perigo
O número 90 da série Perry Rhodan é uma continuação direta do número anterior, inclusive escrita pelo mesmo autor, Kurt Brand. Em A grande hora de Gucky, um patriarca saltador, influenciado pelo filho de Rhodan, Thomas Cardif, tenta tomar o poder no Império Solar. Mas, quando descobre que o computador regente de Árcon perdeu o poder para Atlan, resolve ir atrás do prêmio maior, afinal, o império arcônida é o maior conhecido na galáxia.
O volume tem partes interessantes, como por exemplo, introduzir um novo tipo de mutante, os parasenstivos, cujo primeiro exemplo é um preguiçoso agente do governo: “No caso, de Lemmon (o parasentido) era a capacidade de classificar à primeira vista as notícias recebidas segundo sua importância”.
O volume também se destaca por trazer detalhes até então não conhecidos sobre os mercadores galácticos, como o fato de nascerem e morrerem dentro de naves espaciais.
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| A capa alemã. |
Confesso que ao ler essa informação, primeira referência ao nascimento de saltadores, fiquei me perguntando como era o processo de procriação, já que até então, embora os saltadores já tivesse aparecido em dezenas de livros, nunca aparecera uma fêmea nas histórias, nem mesmo como uma referencia ocasional. Aparentemente, apesar de terem pensado em muitos detalhes sobre os saltadores, nenhum dos autores pensou em introduzir uma personagem feminina.
Além desses detalhes culturais, Brand introduz parágrafos e mais parágrafos desnecessários, alguns deles resumindo fatos que haviam sido mostrados nesse mesmo volume, além de reflexões óbvias para quem estava lendo a história, como: “Entretanto, no momento, o poder do Império Arcônida andava um tanto abalado e, por conseguinte, caso Árcon ruísse, desmoronaria também o Império Solar”.
Na trama, Rhodan precisa ajudar o amigo Atlan a se livrar da revolução que surge a partir da revelação de quem realmente está mandando no Império Arcônida. Para isso ele elabora um plano ousado envolvendo os druufs que não haviam sido destruídos, mas também não tinha conseguido voltar para seu plano temporal. A ideia é usá-los para convencer os saltadores de uma invasão.
Há algo que me incomoda, pelo menos nesse ciclo: o fato dos geniais planos de Rhodan darem sempre errado e no entanto o resultado ser sempre positivo – e é isso que acontece aqui.
Para uma trama que prometia tanto, esse é um livro no máximo mediano.
Uma família segurada
Era uma família segurada. O pai, Rivaldo, fizera a primeira apólice como presente de casamento para a esposa. Se ele morresse nas núpcias, já estava tudo arranjado...
Em seguida nasceu a primeira filha, Patrícia, e Rivaldo providenciou logo um seguro para a esposa, tendo como beneficiária a filha.
Em uma noite escura e tempestuosa, berrara pela primeira vez Roberto, o caçula. O pai achou que era um mal agouro e fez um seguro para Patrícia, tendo como beneficiário o irmão.
Desde então, a família pegou a febre do seguro. Carro, bicicleta, casa, móveis, até os seios de Márcia (que, aliás, eram belíssimos) foram segurados.
Viveram felizes por vários anos, coberto pelo manto protetor de duas ou mais dezenas de apólices. Até aquela tarde...
Márcia fora visitar o marido no escritório e tivera de esperar ao lado da Secretária.
- O seu Rivaldo está ocupado. A senhora espera um instantinho... – sugeriu a Secretária.
- Só dez minutos, advertiu Márcia.
Esperou meia-hora. Só então a porta se abriu e saiu dela um homem gordo, vestindo um terno antigo e suando bicas. Era um segurador. Márcia conhecia-o muito bem. Vira-o várias vezes em sua casa. Mas, de tudo que tinham, apenas um candelabro velho que ficava jogado no porão ainda não fora segurado. Não, não podia ser. Não, a explicação era outra: o sacripanta arranjara uma amante. E, não satisfeito, ainda fazia um seguro para a concubina... Hipócrita, desavergonhado, fanfarrão!
Havia de se vingar!
A partir daquela tarde, a vida de Rilvado passou a ser uma contagem regressiva. Até que aconteceu. Numa noite de chuva, o freio falhou. Os pneus derraparam, o carro despencou num despenhadeiro e explodiu. Não sobrou muito para ser investigado.
Márcia recebeu o seguro do marido e do carro. Estava feita! Comprou uma casa nova – bem maior – contratou um motorista, colocou o resto do dinheiro no banco e viveu numa boa desde então. Ou viveria, se não fosse aquela tarde...
Se havia uma coisa que enervava completamente Patrícia, era a matemática. Odiava fazer as lições de casa e já tinha repetido um ano na escola por causa da dita. Naquela tarde, ela e a mãe tiveram uma briga dos diabos. Márcia queria obrigá-la a fazer a lição de casa.
- Eu não preciso fazer a lição de casa, eu sou rica! – gritou a garota.
- Ah, é? Pois fique sabendo que enquanto eu estiver viva, você não toca em um tostão... aliás, pode ir esquecendo a mesada, que este mês não tem!
Foi uma briga feia! Feia demais por sinal. Se fosse um pouco mais esperta, Márcia teria se preocupado com a expressão maquiavélica que a filha passou a ostentar desde então. Passava horas trancada no quarto e andava com ares de quem pensa – o que, aqui para nós, era bastante raro naquela família...
Por fim, aconteceu. Foi durante o banho. Um fio solto provocou um curto circuito e eletrocutou a dona da casa. Quando finalmente desligaram a chave, não havia sobrado muita coisa de Márcia para ser enterrado.
Estavam ricos. Patrícia com 18 anos e Roberto com 16, sozinhos em casa, donos de seu futuro. Era a vida que qualquer jovem pediria a Deus, mas não Patrícia. Pegara o gosto pela coisa e a lembrança de que teria de dividir a herança com o irmão simplesmente a aterrorizava. Resolveu, então, matá-lo. Mandou preparar um jantar especial, dispensou os empregados e armou o seu circo.
- Jantar à luz de velas, maninha? – perguntou Roberto, entrando na sala.
- Claro! Antes de morrer, papai fez um seguro para este candelabro velho. Coloquei aí para ver se quebra... pedi à cozinheira para fazer seu prato predileto... isso tudo para o meu irmãozinho predileto...
Sentaram-se.
- Vejo que temos vinho. – observou Roberto.
- É do Porto. Não faz mal mexer na adega de vez em quando, não é? Especialmente para ocasiões especiais.
- Claro, passe a garafa.
- Não, deixe que eu o sirva...
- Está bem, mas só se você deixar que eu a sirva...
- Claro.
Serviram-se. Disfarçadamente, Patrícia despejou um pouquinho de pó no copo. Era um veneno feito especialmente para não deixar vestígios. Tivera um grande trabalho para conseguir...
Tilintaram os cristais, beberam de uma só vez e ficaram sorrindo um para o outro.
Patrícia foi a primeira a falar:
- Sabe, maninho, que você é um tipo insuportável?
- Pode ter certeza de que tenho os mesmos sentimentos com relação a você...
Patrícia cortou-o:
- Mas eu tomei providências para que isso não dure muito!
De repente uma dor aguda despontou como uma alfinetada no peito de Patrícia. O sorriso desapareceu do rosto de Roberto. Foi substituído por grandes rugas de dor.
- Não me diga que... – gemeu ele.
- ... você colocou... – continuou Patrícia.
- ...Veneno no vinho! – completaram juntos.
Deram um último suspiro e morreram um nos braços do outro. Teria dado um bom dinheiro de seguro...
sábado, julho 05, 2025
Monstro do Pântano – Estranhos frutos
Em gótico americano, Alan Moore revisitou os principais monstros do terror. Nos números 41 e 42 ele abordou os zumbis, como sempre de maneira revolucionária.
Na trama, uma equipe de TV está gravando uma soap opera em um velho casarão sulista. Mas o local está impregnado de tragédia e maldição, um horror que virá à tona quando os atores encarnarem as pessoas reais que moraram ali.
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| A história começa com uma sequência em visão subjetiva. O leitor entra no casarão e parece ouvir os fantasmas. |
A história inicia como se o leitor estivesse entrando na casa e descendo ao porão até parar numa coluna manchada de sangue. O diálogo é colocado na forma de legendas, como se reverberasse pela estrutura da casa assombrada: a esposa do senhor envolveu-se com um negro. Quando descobriu, o senhor de escravos levou o escravo até o porão e esfolou-o.
A trama pula para os dias atuais e temos novamente um trio, mas agora com papéis trocados: a mulher é racista e tem nojo do ator negro, enquanto o ator que faz papel de seu marido faz de tudo para ser aceito pelo ator negro. Essa situação vai se invertendo quando os fantasmas do passado encarnam nos atores e eles passam a representar o drama real. Ao mesmo tempo, os mortos levantam da tumba e vão até o casarão, exigindo sua liberdade.
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| A sequência do morto que não consegue descansar é uma das melhroes. |
Curiosamente, as melhores sequências são focadas nos zumbis. É também quando o texto de Moore encontra seu ápice: “Mas uma coisa todos queriam sem exceção: liberdade. Liberdade desse solo ruim, onde ressentimentos enterrados envenenam as raízes do mundo e de todas as culturas. Liberdade dessas terras contaminadas que deitam frutos tão amargos”.
É um zumbi que protagoniza a impressionante sequência final, repleta de humor ácido e critica social. Um dos mortos vivos apresenta-se como candidato à vaga como bilheteiro em um cinema. O próprio dono do cinema afirma que é um trabalho lamentável, em que as pessoas são obrigadas a passar horas sem comer ou ir ao banheiro, por isso poucos ficam muito tempo. “Tudo bem, quando eu começo?”, responde o zumbi. “Olha, gostei da sua atitude. Você não resmunga sobre condições de trabalho nem vem com papo de sindicato. Não se fazem mais trabalhadores assim”. A metáfora é óbvia: algumas vagas de trabalhos são tão entediantes e deploráveis que só poderiam ser ocupadas por zumbis.
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| A parte final da história é cheia de homenagens a filmes de zumbis. |
Uma curiosidade é que, nessa sequência final, os filmes que estão passando no cinema são todos de zumbis, como A noite dos mortos vivos, o famoso filme de George Romero que redefiniu o gênero.
Roteiro de quarinhos - Menos é mais
Um sábio já dizia que escrever é cortar palavras. Em nenhum outro gênero textual isso é tão verdadeiro quanto nos roteiros para quadrinhos.
Quadrinhos são a arte da síntese. Escrever muito com pouquíssimas palavras. Tanto que muitos escritores que se aventuraram a produzir quadrinhos deram com os burros n´água.
Um dos poucos que fizeram obras-primas foi Paulo Leminiski. No começo dos anos 1980, ele escreveu algumas histórias para a editora Grafipar, de Curitiba e, mesmo poucas, entraram para a história dos quadrinhos nacionais. A razão é que Leminski vinha da publicidade, em que a síntese é essencial, e foi muito influenciado pela poesia hai-kai, também muito sintética, além de intimamente relacionada à imagem. Em outras palavras, quando foi para os quadrinhos, o poeta sabia que quadrinhos não são literatura.
Um exercício interessante é observar a evolução do texto de Stan Lee ao longo de histórias como as do Quarteto Fantástico. Nas primeiras HQs o texto parecia transbordar dos balões. Depois foram diminuindo, diminuindo e, ao mesmo tempo, tornaram-se mais poéticos, mas sensíveis. Ou seja: ao mesmo tempo em que os textos diminuíam de tamanho, iam ficando mais elaborados.
Quando comecei a escrever quadrinhos, eu logo descobri algumas dicas básicas: evita-se, por exemplo, orações subordinadas e frases que digam o que o leitor está vendo. Por que dizer “Flash, que corria velozmente, salvou a moça!”? Além de contar algo que o leitor já está vendo, o “que corria velozmente” só serve para entulhar o balão de texto. Além disso, nos quadrinhos, uma única palavra pode dizer muito.
A história Orquídea Negra, de Neil Gaiman mostra bem isso. Em uma sequência genial, o texto diz apenas: “Então o sonho me leva para longe... e/uma/vez/mais/eu/desco/ca/in/do”. Difícil não se sensibilizar com a beleza poética dessa sequência, em que o texto se une perfeitamente aos quadrinhos. Aliás, essa sequência lembra muito a poesia concreta, um movimento literário brasileiro que influenciou muito, adivinhem? Paulo Leminski.
Homem-aranha - longe de casa
O mistério de Edwin Drood
A arte espantosa de Will Eisner
Will Eisner é um dos mais importantes quadrinistas de todos os tempos.
Ele começou sua carreira no final da década de 1930 aproveitando o boom provocado pelo surgimento dos comics books. Em 1937 ele e Jerry Iger criaram o estúdio Eisner-Iger, no qual começaram sua carreira alguns dos grandes nomes dos quadrinhos, como Jack Kirby. Nessa fase ele criou personagens como Sheena, a garota das selvas.
Em 1940 ele criou seu personagem mais memorável, The Spirit, que era publicado em suplementos dominicais.
Em The Spirit, Eisner testou ao máximo os limites dos quadrinhos, ajudando a estabelecer a linguagem dessa mídia. Na década de 1970 publicou Um contrato com Deus, que tornou popular o termo graphic novel, amplamente adotado a partir da década de 1980. Esse trabalho inaugurou uma nova fase na sua produção, com um tom mais realista e auto-biográfico.
Demolidor – O homem sem medo
A infância de Matt Murdock é um dos
momentos mais importantes da história do Demolidor, mas também um dos menos
explorados. Antes de Frank Miller, o que existia, era, essencialmente, a versão
de Stan Lee e Bill Everett. Miller inovou, por exemplo, ao mostrar que o garoto
teve um mestre, Stick, mas ali pela década de 1990 ele achou que era hora de
explicar melhor como Matt Murdock virou o Demolidor, da mesma forma que já
havia feito no Batman. O resultado, um verdadeiro Demolidor ano 1, foi a
minissérie Demolidor – homem sem medo, publicada em 1991, com desenhos de John
Romita Jr e Al Williamson.
Na história, Matt Murdock oscila entre a
obediência ao pai e a vontade de realizar traquinagens – e resolve o conflito
usando uma máscara. Assim, por exemplo, o vemos, na sequência inicial, roubando
o cassetete de um policial por pura brincadeira, o mesmo policial que pouco
antes estava dizendo para os garotos: “Por que vocês não são como o filho de
Murdock? Ele nunca causa problemas...”.
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| A história começa com uma traquinagem do garoto Matt. |
Na história descobrimos também que o pai
de Matt era, a contragosto, um capanga do mafioso chamado Manipulador,
providenciando para que todos os comerciantes locais pagassem proteção.
Fortemente influenciado por Jack Kirby,
John Romita Jr usa com perfeição quadros de impacto, a começar pela imagem de
Matt Murdock após o acidente que o deixou cego, as feições infantis, a expressão
de desalento.
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| A sequência do acidente é recontada. |
Em contraste, ainda no primeiro número,
temos uma página dupla do jovem Murdock, já depois de treinado por Stick,
percorrendo os telhados da cozinha do inferno em uma cena grandiosa.
Talvez o aspecto mais interessante da
série seja a parte focada em Elektra, uma personagem pela qual Miller
nitidamente era apaixonado e que se tornou um ponto fulcral da série ao se
tornar uma mistura de heroína e vilã. A história mostra como ela e Matt Murdock
se conheceram, a forma irresponsável e atrevida como Elektra vivia e a forma
como ela manipulou o rapaz para se aproximar dele.
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| Boa parte da história é focada em Matt e Elektra. |
Mas a sequência mais impactante é aquela
em que Elektra vai até o centro de Nova York e chama atenção de uma gang. “Ela
não é louca. As vozes são reais”, diz o texto. “As vozes lhe falam de seu
destino. Elektra não aprecia esse destino... mas elas fazem algo com sua mente,
algo que a jovem mal pode controlar. Por isso ela escolhe as vítimas”. Estava
ali, em toda a sua essência, a assassina comandada por forças das trevas, a mulher
que oscila entre o amor por Matt Murdock e a necessidade de matar.
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| Elektra precisa matar. |
A série também nos mostra como o Rei
chegou ao controle do crime organizado e como ele estabeleceu uma rede de
sequestro de crianças para filmes sexuais – o que nos dá uma sequência eletrizante
quando o Demolidor, ainda sem uniforme e usando apenas roupa e máscara preta,
vai salvá-las.
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| O herói, ainda sem uniforme, salva crianças: sequência eletrizante. |
A união de Miller e Romitinha fez com
que essa série se tornasse um clássico obrigatório para os fãs do Demolidor,
tão relevante que nitidamente serviu de base para a série da Netflix (série,
aliás, que não conseguiu manter o mesmo nível de qualidade).
Providence: Alan Moore explora do universo de Lovecraft
O plano de Moore é ousado: não só costurar todo o universo lovecraftiando em uma única história, mas interliga-lo com quase toda a literatura do século XX, tendo como pano de fundo a ideia de que a arte é um tipo de magia: quando, por exemplo, escrevemos sobre algo, estamos tornando aquilo real. Moore tem dissertado bastante sobre sua tese de que ficção e realidade são instâncias que se tocam e influenciam, de modo que a linha entre elas é tênue e nebulosa. Esse é o mote de Providence.
sexta-feira, julho 04, 2025
O cortiço
Publicado em 1890, O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, é um romance baseado na ideia equivocada do determinismo social, segundo o qual o caráter de uma pessoa e seu comportamento é determinado pelo meio. E, para o português Azevedo, um cortiço carioca era o pior dos meios, um local que corrompia todos que entrassem em contato com o mesmo.
Assim, O Cortiço é uma história de degradação moral, em que personagens desfilam diante do leitor, alguns até íntegros, como o português Jerônimo, mas vão sendo aos poucos tomados pela lubricidade do local e acabam contaminados.
O romance guarda forte conteúdo racista certamente influenciado por teorias em voga na época: o europeu é bom, íntegro, o brasileiro é uma raça degradada.
É curioso e irônico, no entanto, que de todos os personagens, o mais corrupto é justamente um português, João Romão, o dono do Cortiço. Perto de suas maldades e de seu egoísmo os moradores do cortiço parecem inocentes.
Muito além de sua mensagem determinista, O Cortiço é um dos melhores livros entre os clássicos da literatura brasileira. A forma como o autor lida com uma infinidade de personagens, caracterizando-os perfeitamente, dando a cada um deles uma uma história, um modo de reagir às alegrias e adversidades, tudo isso é genial.
É fácil aprofundar a personalidade de um único personagem. Mas lidar com uma galeria tão grande sem perder a mão é coisa para grandes autores.
Outro aspecto interessante é a inventividade na criação de situações. No cortiço sempre está acontecendo algo numa espiral vertiginosa de traições, brigas, intrigas.
Acrescente-se a isso afinadas descrições da psicologia dos personagens que lembram muito Eça de Queiros. Como exemplo, um trecho em que o autor descreve a descoberta da inveja por parte de João Romão: “E em volta de seu espírito, pela primeira vez alucinado, um turbilhão de grandezas, que ele mal conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de sedas e rendas, veludos e pérolas, colos e braços de mulheres seminuas, num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos cor de ouro”.




































