segunda-feira, abril 27, 2020

Os quadrinhos e o castelo do Graal

No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.

Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

Homem-Aranha – Origens




O Homem-Aranha é um dos personagens mais populares da Marvel – senão o mais popular. Entretanto, poucas pessoas da nova geração conhecem as primeiras histórias do personagem. Conheço até mesmo gente que faz quadrinhos de super-heróis e nunca leu essas histórias. Uma falha de formação quadrinística que pode ser remediada com número 16 da coleção da Salvat dedicada ao herói.
O volume inclui a primeiração aparição do personagem, na revista Amazing Fantasy 15, uma revista que estava para ser cancelada e que Stan Lee aproveitou para testar um novo personagem que o dono da Marvel insistia que seria um fracasso. Afinal, as pessoas odeiam aranhas, não? Além disso, um herói magrelo, feio, paparicado pela tia? Uma receita de fracasso. No entanto, foi um sucesso tão grande que o personagem acabou ganhando revista própria já naquele ano de 1963.
O Homem-aranha se diferenciava por ser magrelo e feio. 


Embora a primeira capa tenha sido feita por Jack Kirby (aliás, a capa do volume da Salvat), quem ficou responsável pelo visual do personagem foi Steve Ditko. Os desenhos de Ditko apresentavam uma anatomia estranha, especialmente quando o personagem estava em ação. No entanto, o que seria defeito, virava qualidade: um herói aracnídeo deveria mesmo ficar em poses estranhas, não?
Embora essas histórias ainda puxem muito para o infantil, há um charme inequívoco nessas HQs. Parker sendo zoado pelos colegas, azarado em tudo, tia May tão ingênua que, quando é sequestrada pelo Octopus o acha um senhor muito respeitável e se assusta quando o aracnídeo chega para salvá-la. O aracnídeo em seu estado puro.
Além disso, vale destacar a incrível habilidade de Ditko de contar muita coisa em poucas páginas. Ditko era um narrador nato e lendo essas histórias é possível perceber o quanto Frank Miller deve a ele.
As splash pages eram emocionantes. 


E, claro, temos o texto de Stan Lee, com o bom humor que caracterizou o personagem. Aliás, o textos de aberturas das histórias são impagáveis sempre em splash pages emocionantes. Na abertura do número 5 da revista, Lee diz aos leitores que eles já devem ter visto várias histórias em que a introdução a qualifica como a mais espetacular aventura já escrita (na verdade, algo que o próprio Lee fazia em profusão) e que daquela vez ele seria totalmente honesto: “Esta pode não ser a maior história de todos os tempos! Talvez você possa conhecer outros vilões piores ou até mesmo tenha lido um roteiro mais emocionante... mas, sinceramente, nós duvidamos que isso seja possível!”.
A união da narrativa de Ditko com o texto divertido de Lee fez com qua o personagem se tornasse popular a ponto de ganhar uma edição anual, na qual ele enfrenta seis vilões apresentados no primeiro ano, o Sexteto Sinistro, uma aventura presente no volume, que Lee usa para promover outras revistas da Marvel, colocando os personagens das mesmas para fazerem pequenas participações na trama. É um bom termômetro do sucesso do aracnídeo já naquele primeiro ano.

Um grande perigo paira sobre o Brasil


O Brasil está sob ataque. Há uma enorme egrégora de espíritos malignos atuando em nosso país tendo como objetivo provocar o máximo de mortes possível.
Essa egrégora se materializa em mensagens de zap zap negacionistas segundo as quais não existe pandemia, ou minimizando-a, ou dizendo que existe um remédio simples para ela, que não é usado pelos médicos porque querem prejudicar o presidente.
São protestos em várias cidades criados com objetivo de convencer as pessoas a saírem de casa – e que estão funcionando.
Um blog de um conhecido publicou uma postagem dizendo que o uso de máscaras era uma modinha e tentando convencer as pessoas a não usarem. Para essa pessoa, inclusive, a obrigatoriedade do uso da máscara seria um atentando contra a liberdade individual.
Todos os países do mundo tentando fazer alguma coisa para impedir a pandemia de se alastrar. Enquanto isso, no Brasil, o governo usa uma rede de fake news paga com dinheiro público para inundar as redes sociais com mensagens negacionistas tentando convencer as pessoas de que não há nenhum perigo. E, como vimos, milhartes de pessoas, influenciados por essa egrégora genocida, que se prestam ao papel de compartilhar essas mensagens. 
E essa egrégora maligna parece estar vencendo: cada vez mais pessoas saem de casa, na maioria das vezes sem razão nenhuma. Em Macapá os balneários estão lotados, pessoas fazendo festas, churrascos.
O resultado disso é que o número de casos já dobra no Brasil a cada cinco dias, um número maior que a Itália e Espanha. Fora a subnotificação. Conheço uma família com sete pessoas com todos os sintomas e nenhuma delas fez teste, pois o Ministério da Saúde não envia testes para os estados, então não tem teste para todo mundo.
Vai ser um genocídio.


Starlight - space opera em quadrinhos

Mark Millar é um cara que quando acerta, acerta maravilhosamente. Exemplo disso a série Starlight, lançada no Brasil como álbum pela editora Panini.
Na história, um aventureiro espacial – no melhor estilo Flash Gordon e Adam Strange – de repente se descobre velho e sozinho após a morte da esposa. Os filhos, assim como todos os outros, não acreditam nas suas histórias sobre como ele foi transportado para um planeta distante e lá se tornou o principal responsável pela queda de um tirano global. Lembranças da época de suas aventuras misturam-se com cenas patéticas de supermercado, em que garotos ironizam sua ida para outro mundo.
Tudo muda quando uma nave aterrissa em seu quintal. É um garoto alienígena que pede seu socorro: mais uma vez o planeta distante precisa de sua ajuda, agora para combater uma invasão alienígena.
A série oscila bem entre a aventura, a nostalgia, os conflitos psicológicos e físicos do protagonista e entrega ótima ação, numa história que é impossível deixar de lado. Contribui muito para isso o ótimo desenho do croata Gorlan Parlov, perfeito nas cenas urbanas e caseiras, mas simplesmente deslumbrante quando mostra o planeta extraterrestre.
Há muito tempo não via um quadrinho de ficção científica bom como esse.

Contos do Loop




Contos do Loop, série da Amazon Vídeo que estreou este mês é toda baseada nas incríveis pinturas de Simon Stalenhag. Isso resume as maiores qualidades e os maiores problemas da nova atração da Amazon Video. Trata-se de uma atração com aparência incrível, em que alta tecnologia se associa a um visual retrô e a eventos estranhos. Mas é também uma série de diretor, em que o roteiro parece estar a serviço das imagens.
A história se passa num local no qual está instalada uma empresa misteriosa chamada Loop. Nunca sabemos exatamente o que o Loop faz, mas vislumbramos algumas possibilidades através de pequenos acontecimentos que impactam os moradores locais: uma menina cuja casa desapareceu com a mãe, dois amigos que trocam de corpos, o homem que compra um robô para proteger sua família, a moça que descobre uma forma de congelar o tempo, um rapaz que vai para outra dimensão na qual encontra consigo mesmo. Aliás, deveria haver uma regra básica, sempre ignorada pelos moradores do Loop: jamais mexer em qualquer coisa que encontre na floresta ou em qualquer outro lugar.
Os episódios contam histórias completas, mas que se conectam, são interligadas. O personagen secundário de uma história vira protagonista na história seguinte e assim em diante até que a história de todos seja contada.
Há episódios muito bons, como “Êxtase”, em que uma garota descobre uma maneira de congelar o tempo e usa esse recurso para ter um interlúdio amoroso com seu namorado. Os dois passam um mês vivendo como querem na cidade paralisada. Curioso é que esse episódio vai fazer os moradores acharem que há uma quadrilha de assaltantes agindo, o que vira o gancho para o episódio do homem que compra um robô para proteger sua família.
Uma das ilustrações de Simon Stalenhag que serviram de inspiração para os episódios.
Outro que merece destaque é “Inimigos”: um rapaz é abandonado pelos colegas em uma ilha aparentemente deserta e descobre que há um habitante misterioso. O episódio tem um bom equilíbrio entre terror e poesia e se liga diretamente ao episódio seguinte, “Casa”, com a história do filho do protagonista de “Inimigos”.
Por outro lado, há episóidos como “Ecoesfera” que são decepcionantes. Nele, algo fantástico está acontecendo, mas não existem pistas do que seja. Deixar que o expectador imagine tudo pode ser interessante num quadro de Simon Stalenhag, mas não funciona em um seriado.
Contos do Loop foi anunciado como um anti Black Mirror, o que é uma boa definição. Se em Black Mirror a visão sobre a tecnologia quase sempre é pessimista e o resultado desastroso é quase certo, no seriado da Amazon há um otimismo inerente, mesmo quando tudo parece levar ao desastre.

domingo, abril 26, 2020

O mundo real e imaginário de Crepúsculo

A primeira revista sobre a série Crepúsculo publicada no Brasil foi escrita por mim, Matheus Moura e Leide Vonlins. O filme estava para ser lançado e a editora Escala viu aí um filão.O mundo real e imaginário de Crepúsculo era uma revista no estilo perguntas e respostas que fazia sucesso à época. Eu não tinha lido os livros e pedi para minha irmã, Leide Vonlis para ler as obras e escrever sobre ela. A Leide não gostava de vampiros, mas acabou aceitando (no final, virou uma das maiores especialistas em Crepúsculo do Brasil, com textos em diversas revistas sobre o assunto). Eu fiz perguntas sobre vampiros e Matheus focou mais no filme. No final, Crepúsculo acabou sendo aquele sucesso estrondoso e inesperado e a revista deve ter vendido muito bem, tanto que depois eles lançaram outra publicação, aproveitando 100 perguntas das que havíamos feito.

Panteão de Paris


O Panteão era originalmente uma igreja dedicada a Santa Genoveva. Quando eclodiu a Revolução Francesa, o prédio foi transformado em um ponto histórico, onde são enterrados os grandes nomes franceses. Voltaire e Rousseau estão enterrados lá, um de frente para o outro. Ali também está o túmulo do famoso escritor Victor Hugo.
A arquitetura neo-clássica, por si só já é digna de nota, mas o local tem muitos outros atrativos. O edifício é no formato de uma cruz grega e tem várias pinturas e estátuas, inclusive dois conjuntos frente a frente: um em homenagem a Rousseau, outro em homenagem a Voltaire.
Revolucionários saúdam a deusa da razão (Danton é o último da esquerda) 

Homenagem a Voltaire
A nave principal é curiosa: o altar foi substituído por um monumento em homenagem à revolução francesa (é possível ver, entre as estátuas, Danton, saudando Marianne, a deusa da razão e da liberdade). 
Pêndulo de Foucault

Um pouco antes temos o Pêndulo de Foucault, a experiência realizada por Jean Bernard Léon Foucault para demonstrar a rotação da terra.
O panteão é uma verdadeira viagem pela história e ciência francesas.
Túmulo de Voltaire
Túmulo de Rousseau.

Bem-vindos a Alflolol



Uma das características que fazem de Valerian algo totalmente diferente de outras séries de ficção científica é a humanidade, filosofia e poesia das histórias. Como diz o roteirista Christin, “Mesmo que a aventura renda sempre uma leitura agradável, o verdadeiro tema é a reflexão, antes da ação”. Exemplo perfeito disso é o álbum Bem-vindos a Alflolol.
Na história, os dois aventureiros espaciais, Valerian e Laureline, estão visitando um planeta repleto de recursos naturais que estão sendo explorados pelos terrestres. É quando se deparam com uma nave ancestral. Na nave estão os habitantes originais do planeta, seres tão longevos que vivem milhares de anos. E que têm o costume de fazer passeios de turismo pela galáxia de tempos em tempos, em embarcações movidas por seus poderes mentais. E eles estão voltando para casa depois de uma breve viagem... que durou quatro mil anos terrestres!
Os habitantes originários voltam depois de uma longa viagem e descobrem que o planeta foi tomado por invasores. 


Isso gera uma crise: os executivos são obrigados a aceitar os alfaloloseses , mas temem que os habitantes originais possam atrapalhar a produção (a todo momento temos algum executivo dizendo algo como “A produção não pode parar!”, “A economia não pode parar!”).
Para evitar prejuízos à empresa, os habitantes originais do planeta são confinados em uma reserva.
A história é uma metáfora para a forma como os povos indígenas foram tratados nos EUA. 


A HQ nitidamente é uma metáfora da situação dos índios norte-americanos, habitantes originais das terras americanas, mas aprisionados em reservas.
A dupla de criadores, Christin e Méziéres, no entato, dá à história, que poderia ser um dramalhão, um tom leve e irônico, constantemente humorístico.   E transformam a coisa toda numa grande aventura, deliciosa de se ler.
Bem-vindos a Alflolol faz parte do segundo volume da série de álbuns dos personagens lançada pela editora SESI de São Paulo.

Fundo do baú - Superamigos



Na década de 1970 um desenho animado fez as crianças se apaixonarem pelos heróis da DC. Criado em parceria com a Hanna Barbera, a série, baseada na Liga da Justiça, se chamava Superamigos e teve oito temporadas de muito sucesso.
O seriado tinha design do grande artista Alex Toth, o mesmo de Johnny Quest, o que garantia um visual inesquecível.
Mas se o visual era muito bom, não se podia dizer o mesmo dos roteiros. Como sua especialidade era animações humorísticas, a Hanna Barbera colocou no seriado personagens cômicos. A primeira temporada tinha WendyMarvin e Marvel, o supercão, que se parecia muito com o Scooby Doo. A partir da segunda temporada eles foram substituídos por uma dupla de heróis, os supergêmeos Zan e Jayna. Jayna podia se transformar em qualquer animal e Zan podia transformar-se em água em seus diversos estados e até mesmo controlar água. Com esse poder ele poderia até criar maremotos, mas na grande maioria das vezes ele só se transformava mesmo em um balde de água. Posteriormente esses personagens foram incorporados à DC Comics.
Outros heróis que surgiram nesse seriado e também acabaram incorporados foram Samurai, Chefe Apache e Eldorado.
Os heróis da Liga usados inicialmente foram Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Batman e Robin. Aliás, foi graças a esse seriado que o Aquaman ganhou a sua fama de ser pouco útil. O meme dele viajando em cima de dois golfinhos surgiu num dos desenhos.
Outro destaque era a Legião do Mal, um grupo de malfeitores que se reunia num pântano para elaborar planos de dominação mundial.
Mas, apesar dos pesares, a série era diversão garantida e foi para muitos o primeiro contato com os heróis da DC.   

Efeito borboleta




sábado, abril 25, 2020

Micronautas: os brinquedos que viraram um clássico dos quadrinhos


Na década de 1970 a Marvel era mais do que nunca a Casa das ideias. Enquanto a DC patinava, a Marvel lançava diversas séries que se tornariam sucesso de público e clássicos dos quadrinhos. Um desses clássicos é a série Micronautas, de Bill Mantlo (roteiro) e Michael Golden (desenhos).
Micronautas, uma curiosa mistura de Guerra nas Estrelas com Terra de Gigantes mostrava um grupo de pequenos rebeldes que vem para nosso mundo após sua dimensão ser dominada por um vilão, o Barão Karza (um personagem muito parecido com Dart Vader, diga-se de passagem). Em nosso mundo os personagens e suas naves eram pequenos como brinquedos.
Os personagens eram baseados em uma série de brinquedos japoneses chamados Microman e lançados nos EUA pela Mego como Micronauts. Aliás, esses bonecos eram filhos do nosso conhecido Falcon: os fabricantes japoneses licenciaram os soldados d GI Joe para fabricá-los no Japão, mas logo perceberam que os meninos japoneses não se interessavam por soldados americanos, que haviam lutado contra o país na II Guerra Mundial. A solução foi transformar o molde em robôs. Com a crise do petróleo, os fabricantes tiveram que diminuir o tamanho dos bonecos, e assim surgiram os microman. 
A ideia de transformar esses brinquedos toscos em uma história em quadrinhos veio do roteirista Bill Mantlo ao observar o filho brincar com um dos presentes que ganhara de Natal. Especializado em histórias de fantasia e FC, com passagens memoráveis pelo Hulk e Rom (que era também baseado em um brinquedo), o roteirista conseguiu convencer o editor-chefe da Marvel, Jim Shooter a lincenciar os direitos dos personagens. 
Os brinquedos que deram origem aos quadrinhos

Mantlo conseguiu dar profundidade à história, incluindo detalhes como o fato de que o Barão oferecia à elite aliada a imortalidade através da troca de corpos (de opositores ou das classes mais baixas).
Para ilustrar a HQ fizeram uma aposta arriscada: escalaram Michael Golden, até então desconhecido. Golden começa de forma insegura (e convenhamos que o material original, os brinquedos, não ajudavam). Mas consegue uma grande evolução já ao longo da primeira história. Com o tempo ele se tornaria um dos mais cultuados desenhistas da Marvel, com um estilo que se preocupava pouco com regras anatômicas, mas era muito expressivo e inovador, sendo uma das principais referências de artistas como Arthur Adams e Todd McFarlane.
Lançada em 1979, a revista dos Micronautas ganhou o Eagle Award daquele ano como a melhor estréia nos quadrinhos.
Essas histórias foram publicadas no Brasil na revista Heróis da TV, arrebatando uma legião de fãs, especialmente para o desenhista. Infelizmente a Abril não publicou todas as 59 histórias, deixando a saga incompleta.

A arte belíssima de Alphonse Mucha

Alphonse Mucha foi um dos principais nomes do art nouveau (um movimento de arte caracterizado por uso de formas orgânicas de maneira decorativa). Os painéis de Mucha geralmente retratavam belíssimas mulheres com contornos suaves e penteados luxuosos e sensuais, geralmente repletos de adornos. Os quadros eram preenchidos por molduras com formas como flores e folhas que contribuíam ainda mais para a beleza do conjunto. Confira algumas de suas belíssimas imagens.









O grande pai


Tenho visto em vários programas sensacionalistas situações de filhos de mães solteiras que buscam a todo custo o pai que os abandonou. Em alguns casos, situações aviltantes, em que o “pai” não reconhece o filho mesmo após exames de DNA. Filhos chorando diante de pais impassíveis implorando para serem aceitos.
Eu ficava me perguntando: o que leva alguém a se sujeitar a situação tão humilhante?
Pode parecer apenas carência afetiva, mas é muito mais: é a necessidade extrema de uma figura de autoridade.
Minha mãe conta que quando eu era pequeno, ela saía mais cedo para ir para o trabalho. Algumas vezes o ônibus da empresa atrasava e ela me via passando, todo empacotado, encolhido de frio, indo para a escola.
E pensava: “Ele poderia ficar em casa com esse frio, mas mesmo assim vai para a escola”.
De fato, eu tomava café, me arrumava e saía para a escola sem a necessidade de ninguém por perto para mandar.
A mesma coisa com todas as outras responsabilidades da vida: nunca precisei de ninguém por perto me dizendo: faz isso, faz aquilo. Eu sabia sempre soube o que fazer e fazia.
Há uma piada entre meus amigos professores. Certa vez que fomos a um terreno no interior, meu carro foi o único parado em uma blitz da Polícia Federal. A anedota é que eu tinha sido parado por excesso de legalidade...
Mas há muitas pessoas que não são assim. Se não tiverem uma figura de autoridade ali, do lado, cobrando, não levantam cedo para a ir para a escola, não acordam para ir para o trabalho, não pagam suas contas, faltam ou se atrasam em seus compromissos. É a pessoa que gasta todo o salário no bar, esquecendo as dívidas do dia seguinte. Elas precisam de uma figura de autoridade que lhes diga o que fazer e como se comportar.
Essa figura de autoridade é simbolicamente representada pelo pai. Tiranos usam isso. Elas se apresentam como figuras simpáticas, mas principalmente autoritárias. São figuras de autoridade, representantes paternos. São pessoas a quem se deve obedecer.
Pelo que tenho visto, quem adere a essas figuras de autoridade são justamente aqueles que carecem de uma figura de autoridade para nortear-lhes a vida. É a pessoa que precisa de alguém que os mantenha no cabresto, uma figura de autoridade que lhes diga o que fazer e quais são as responsabilidades que devem ser cumpridas. Eleger como ídologo uma figura de autoridade é uma forma de compensar a própria falta de freios.
É também a razão de tanto fanatismo: qualquer crítica ou mesmo satíra ao ídolo é como se fosse uma ofensa ao pai.
George Orwell errou ao chamar seu ditador de Grande Irmão. Deveria se chamar Grande Pai.

Milagre na cela 7



Prepare-se para se emocionar. Esse é o melhor conselho para quem for assistir Milagre na cela 7, o filme turco que está fazendo sucesso na Netflix.
A trama conta a história de um homem com deficiência intelectual que é injustamente acusado e preso pela morte de uma garota que escorregou de uma pedra e caiu no mar. Um homem, desertor do exército, viu o que aconteceu e a menina filha do acusado tenta a todo custo encontrá-lo para que ele testemunhe e livre seu pai da pena de morte.
É aquele tipo de filme que não só emociona, como revolta: o homem com nítida deficiência cerebral é torturado e obrigado a assinar, com a impressão digital, uma confissão. Depois, no julgamento, é considerado são e condenado à forca. Quando chega à prisão, é espancado pelos companheiros de cela.
Mas sua docilidade e inocência vão, aos poucos, convencendo todos de que ele seria incapaz de matar alguém – todos, menos o pai da garota morta e juiz, que o condena à forca mesmo com nítidos sinais de que o homem tem deficiência cognitiva.
O ator Aras Bulut Iynemli, que interpreta o protagonista, dá um verdadeiro show de interpretação, encarnando com perfeição o ingênuo Memo, que apesar de tudo ainda acha que pode voltar para casa e reencontrar a filha. Nisa Sofiya Aksongur, que interpreta a filha do protagonista também se destaca.
Milagre na cela 17 é uma refilmagem turca de um filme sul-coreano do mesmo nome. O filme também ganhou uma versão filipina e vai ser refilmado na Indonésia este ano.
Em tempo: esse é um filme indicado para os que pedem a volta do AI 5 e do regime militar. Na Turquia do filme a vontade de um militar de alta patente prevalece sobre a justiça e até sobre a humanidade, condenando um homem nitidamente inocente à pena de morte. Em regimes militares é assim: militares fazem o que querem, quando querem e como querem. Não é por acaso que, embora o filme seja originalmente sul-coreano, ele tem feito sucesso em países com histórico autoritário-militar, como a Turquia, a Indonésia e as Filipinas.

O prazer do sexo


Atualmente, no mundo ocidental, temos uma visão muito específica da sexualidade. Inventamos categorias sexuais excludentes, como homossexual, heterossexual, bissexual e congêneres, tentamos enjaular toda a diversidade sexual nesses rótulos. Entretanto, embora essas palavras usem radicais gregos e latinos, elas não refletem a maneira como gregos e romanos viam o sexo. Para eles, por exemplo, um homem que se relacionava com outro homem não era homossexual pela simples razão de que o conceito não existia. É essa variedade de comportamentos (que podia incluir desde o incesto dinástico aos agrupamentos militares de amantes) que se debruça o livro O prazer do sexo, de Vicki León (Apicuri, 334 páginas).
Vicki León é especialista em pesquisas em documentos históricos, tendo escrito os livros Mulheres audaciosas da antiguidade, Mulheres audaciosas da Idade Média e Meu chefe é um senhor de escravos.
As fontes históricas originais consultadas pelo autor fazem a diferença do livro no meio de vários lançamentos sobre sexualidade que abarrotam as livrarias recentemente, muitos dos quais com pouco conteúdo. Para entender como gregos e romanos viam o sexo, o autor consultou documentos oficiais, como leis, cartas, narrativas teatrais e vários outros.
Uma das informações que certamente irão chocar o leitor é a relação entre sexo e religiosidade.  Num mundo dominado pela religião cristã, no qual a sexualidade é vista como pecado, pode ser espantoso descobrir que os antigos constantemente uniam as duas coisas.  No Egito antigo, por exemplo, o novo Faraó deveria semear o Egito. Ele fazia isso se masturbando e ejaculando no rio Nilo. O ritual garantiria a inundação anual do rio, providenciando a prosperidade da região.
A palavra orgia, por exemplo, tem origem em uma cerimonia em honra aos deuses (o mais famoso deles, Dionísio, deus grego do vinho, ou seu equivalente romano Baco – de onde vem a palavra bacanal). As orgias, ou bacanais, envolviam bebidas alcóolicas, danças frenéticas e segredos espirituais – afinal, era uma cerimônia religiosa, não?
Em quase toda a antiguidade, eram comuns prostíbulos sagrados. Havia centenas de escravas religiosas vinculadas a centenas de templos diferentes, chamadas de cortesãs sagradas.
Na Roma antiga, um dos rituais mais famosos eram os lupercais, ou lupercalis, em homenagem a Inuo, deus do sexo e realizado no dia 15 de fevereiro. Os mancebos começavam o dia reunindo-se nos arredores da cidade, onde sacrificavam um bode à divindade, tiravam a pele do bode, cortavam em tiras e faziam chicotes com elas.  Depois percorriam as ruas da cidade, seminus, o corpo reluzindo de óleo. As moças se aglomeravam para receber uma chibatada nas nádegas. Acreditava-se que isso afastava os espíritos maléficos, tornava a mulher mais receptiva ao marido, dava-lhe uma boa gravidez e um parto sem incidentes. Ou seja: o sonho de toda mulher romana.
Além disso, havia pênis na maioria dos templos. O deus Príapo, conhecido por sua enorme ereção, era famoso na península itálica e sua imagem aparecia em casas e muros. Objetos fálicos eram considerados uma espécie de talismã contra o mau-olhado e as forças malignas e por essa mesma razão era comum encontra-los na maioria das casas.  
Outro aspecto interessante é a análise do autor sobre a sexualidade, em especial grega e romana, que ele chama de polissexualidade. Para esses povos, deveria parecer absurdo definir esta ou aquela opção sexual como opções de vida ou práticas anti-naturais: “A questão era que não tinham de escolher isto ou aquilo. Podiam provar de tudo, ou quase tudo”.
Na verdade, a variedade sexual era vista como natural e muitas vezes parte do aprendizado. Na Grécia antiga, por exemplo, os casais masculinos eram invariavelmente cidadãos livres, sempre um homem adulto com um jovem de uma família não imediata. Essa relação era considerada pedagógica para o jovem e podia incluir aspectos sexuais e eróticos, nos quais o jovenzinho era sempre passivo. “Quando o adolescente atingia a plena idade adulta, o relacionamento acabava; mais tarde ele, por sua vez, tornava-se o mentor (erastés) de um erómenos, um jovem amado de doze a dezessete anos”.
Na verdade, se for necessária uma definição, esta será através da dicotomia ativo versus passivo. A grande questão na antiguidade clássica não era se a pessoa se relacionava com homens ou mulheres, mas quem penetrava e quem era penetrado. Havia aí, por exemplo, uma relação de poder. Um nobre poderia tranquilamente ter uma relação com seu escravo e isso não era visto com maus olhos pela sociedade (dependo da situação, poderia até mesmo ser elegante, como no caso dos delicatus, meninos bonitos e escravos sexuais usados para penetração anal por parte dos homens ricos). Mas o nobre deveria sempre manter na condição de ativo. Um escravo penetrando um nobre seria um verdadeiro escândalo.
O ato sexual passivo era visto como tão degradante que podia ser usado até mesmo como castigo. O adultero poderia, por exemplo, ser sodomizado pelo marido ofendido. Mais degradante que a penetração anal passiva, só o sexo oral. Os adeptos da felação e da cunilíngua que acabavam caindo na boca do povo nunca eram convidados para jantar. Dizia-se que sua conduta pervertida lhes dava um mau hálito terrível.
De aspecto negativo, o fato do livro em alguns momentos resvalar no que podemos chamar de fofoca histórica, aspecto destacado inclusive por alguns títulos, como “Otávia & Marco Antonio: o amor materno supera o resto”. O leitor, no entanto, pode simplesmente ignorar essas partes.

sexta-feira, abril 24, 2020

Isaac Asimov fala sobre o ensino do criacionismo nas escolas

Trechos de um texto de Isaac Assimov sobre o ensino criacionismo nas escolas e publicado no jornal The New York Times:

Se o governo pode mobilizar sua polícia e suas prisões para assegurar que os professores
dêem tempo igual ao criacionismo, eles podem em seguida usar a força para assegurar que os professores declarem o criacionismo como vitorioso, de forma que a evolução seja banida das salas de aula. Teremos estabelecido uma base, em outras palavras, para a ignorância legalmente estabelecida e para o controle de pensamento totalitário. E o que acontece se os criacionistas vencerem? Eles poderiam vencer, você sabe, pois há milhões que se tiverem que escolher entre a ciência e sua interpretação da Bíblia, escolherão a Bíblia e rejeitarão a ciência, apesar dos indícios.
Isso não ocorre somente devido à reverência tradicional e irracional das palavras literais da
Bíblia; existe também um desconforto – mesmo medo – da ciência que joga mesmo aqueles que se importam pouco com o fundamentalisimo nos braços dos criacionistas. Por um motivo: a ciência é incerta. As teorias estão sujeitas a revisão, as observações estão abertas a uma variedade deinterpretações, e os cientistas discutem entre si. Isso é decepcionante para aqueles não treinados no método científico, que assim, preferem se voltar para a rígida certeza da Bíblia. Existe algo de confortável sobre uma visão que não admite desvio e que poupa a pessoa da dolorosa necessidade de ter de pensar.
Em segundo lugar, a ciência é complexa e desafiante. A linguagem matemática da ciência é
compreendida por muito poucos. Os cenários que ela apresentam são assustadores – um universo enorme regido pelo acaso e por regras impessoais, vazio e indiferente, indomável e vertiginoso.
Quão confortável, por outro lado, é um mundo pequeno, com uns poucos milhares de anos, sob o cuidado pessoal e imediato de Deus; um mundo em que você conta com Seu cuidado pessoal e ondeEle não te condenará ao inferno se você for cuidadoso e seguir cada palavra da Bíblia da forma que o pastor da televisão interpretar para você.
Terceiro, a ciência é perigosa. Não há dúvida de que gás venenoso, engenharia genética,
armas nucleares e usinas de força são aterrorizantes. Pode ser que a civilização esteja se destruindo e que o mundo que conhecemos esteja chegaodo ao fim. Nesse caso, por que não se voltar para a religião e esperar pelo Dia do Julgamento, quando você e os seus companheiros crentes serão elevados ao eterno êxtase e terão ainda a alegria de ver os gozadores e descrentes se contorcerem em tormento para sempre?
Então por que eles não poderiam vencer?
Há varios casos de sociedades em que os exércitos da noite têm cavalgado triunfantes sobre
as minorias a fim de estavelecer uma ortodoxia poderosa que dita o pensamento oficial.
Invariavelmente, a cavalgada triunfante vai na direção de um desastre de longo alcance. A Espanha dominou a Europa e o mundo no século 16, mas na Espanha a ortodoxia vinha primeiro, e toda divergência de opinião era suprimida implacavelmente. O resultado foi que a Espanha ficou na obscuridade e não compartilhou do fermento científico, tecnológico e comercial que borbulhava em outras nações da Europa Ocidental. A Espanha permaneceu numa estagnação intelectual por séculos.
No final do século 17, a Franca, em nome da ortodoxia, revogou o Edito de Nantes e expulsou muitos milhares de huguenotes, que adicionaram seu vigor intelectual a terras de refúgio como a Grã-Bretanha, a Holanda e a Prússia, enquantoa Franca foi enfraquecida permanentemente.
Numa época mais recente a Alemanha perseguiu os cientistas judeus da Europa. Eles
chegaram aos Estados Unidos e contribuíram imensamente para o seu avanço científico, enquanto a Alemanha perdia tão pesadamente que não se pode dizer quanto tempo vai levar até que elarecupere sua antiga eminência científica.
A União Soviética, em sua fascinação com Lysenko,destruiu seus geneticistas, e atrasou as ciências biológicas por décadas.
A China, durante a
Revolução Cultural, voltou-se contra a ciência ocidental e ainda luta para superar a devastação resultante.
Como iremos agora, com todos esses exemplos diante de nós, cavalgar de volta ao passado
sob a mesma bandeira esfarrapada da ortodoxia? Com o criacionismo a tiracolo, a ciência
americana definhará. Criaremos uma geração de ignorantes mal-equipados para dirigir a indústria de amanha, e muito menos para gerar os novos avanços dos dias de depois de amanhã.
Vamos inevitavelmente retroceder à retaguarda da civilização e aquelas nações que
mantiverem aberto o pensamento científico tomarão a liderança do mundo e da fronteira do
progresso humano.
Não creio que os criacionistas planejem realmente o declínio dos Estados
Unidos, mas o seu patriotismo expresso em altas vozes é tão ingênuo quanto sua “ciência”. Se eles tiverem sucesso, eles irão, em sua loucura, obter o oposto do que dizem desejar.