domingo, novembro 28, 2021

Feliz Natal

 


O gabinete do Dr. Caligari

 

Pouco conhecido no Brasil, O Gabinete do Dr. Caligari é uma das mais importantes obras do cinema mundial. Antes dele, o cinema era diversão das classes pobres, algo a ser totalmente ignorado pelas camadas mais intelectualizadas da população. Ao definir uma nova relação entre o cinema comercial e as vanguardas artísticas, Caligari chamou atenção de todos aqueles que até então desprezavam essa nova linguagem. Para a Alemanha, a importância foi ainda maior. Depois da I Guerra Mundial, o cinema germânico enfrentava um bloqueio cultural das outras nações. Foi Caligari que rompeu esse bloqueio e abriu caminho para grandes cineastas, como Fritz Lang conquistarem fama internacional.
A origem do filme foi o roteiro escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer. Janowitz nasceu em Podebrand, Boêmia, em 1890 e passou a infância em praga. Talento precoce, ele era escritor e crítico de teatro. Muito cedo travou conhecimento com o expressionismo, colaborando com a revista Arkadia, de Max Brod. Em 1914 ele alistou-se como voluntário no exército, chegando ao posto de capitão. Mas essa experiência só contribuiu para lhe insuflar uma feroz aversão à guerra. Em 1918 foi apresentado por um amigo de infância a Carl Mayer. Este era filho de um homem rico que perdera toda a fortuna no jogo e despejou os filhos na rua, com uma pequena quantia. 

Quando a guerra eclodiu, Mayer começou uma batalha com o psiquiatra do exército, pois não queria lutar numa guerra que considerava criminalmente insana. Para não lutar, ele argumentava que era mentalmente desarranjado. Mesmo assim, o psicólogo tentou de todas as formas levá-lo a lutar. Mesmo sendo dispensado por causa de uma lesão no pé, a má experiência o marcou profundamente. O psiquiatra representava a pressão autoritária que era aplicada sobre os jovens alemães e serviria de modelo para Caligari.



Em 1918, Mayer apresentou Janowitz à atriz Gilda Langer, que serviria de inspiração para personagem Jane. Gilda sugeriu que os dois trabalhassem juntos num roteiro cinematográfico, que seria estrelado por ela. Na mesma época eles consultaram uma cartomante que predisse que Janowitz voltaria vivo da guerra, mas que Gilda morreria. As duas previsões se realizaram, mais um acontecimento que teria influência sobre a elaboração do roteiro de Caligari. 

Os dois escritores começaram a trabalhar no texto em 1918. A história partiria de duas premissas: 1) a atmosfera de mistério de Praga, cidade em que Janowitz cresceu; 2) um incidente que este observara em uma feira. 

O roteirista estava em uma feira em Holstenwal quando viu uma jovem muito bonita e se apaixonou por ela, seguindo-a. Quando ela entrou num bosque, ele acabou perdendo-a de vista, mas não antes de ver que ela era seguida por um burguês. No dia seguinte, leu no jornal que a jovem havia sido morta. Ao comparecer ao seu enterro, viu o burguês escondendo-se atrás de uma coluna. Quando o viu, o homem fugiu. Era o assassino. O personagem Cesare teria sido inspirado num espetáculo assistido em Berlin pela dupla, no qual um homem hipnotizado demonstrava extrema força e fazia previsões sobre o futuro de pessoas da platéia. 

Esses dois eventos montaram a espinha dorsal do texto. Mas faltava um nome para o vilão da história. Este surgiu das páginas de um livro raro de Stendhal, no qual ele afirmava ter conhecido um oficial italiano de nome Caligari. 

O roteiro contava a história de um hipnotizador, Caligari, que comete vários crimes usando para isso o sonâmbulo Cesare. Mas Cesare apaixona-se por uma de suas vítimas, Jane, e morre por conta disso. No final, descobria-se que Caligari era o diretor de um hospital psiquiátrico, revelando-se assim a face ditatorial e perniciosa da autoridade. 

Os dois tinham pressa de vender o roteiro, pois estavam sem dinheiro. A situação era tão ruim que eles tiveram de empenhar suas cigarreiras de prata para poder comer. 

Por intermédio do cineasta Fritz Lang, Janowitz conhecera Erich Pommer, chefe de produção da produtora independente Decla Bioscop. Janowitz e Mayer bateram à sua porta e resistiram a todas as tentativas que este fez para se livrar deles. Como não teve êxito, Pommer pediu que eles deixassem o roteiro com ele. Os dois recusaram, insistindo para que o texto fosse lido ali mesmo, por Mayer. 

Pommer ficou tão impressionado que decidiu assinar um contrato na hora. Os dois roteiristas tinham decidido que o preço seria 10 mil marcos, mas acabaram aceitando quatro mil. Os dois estavam entusiasmados com as qualidades estéticas da história, mas o produtor ficou mais interessado no fato de que a produção seria barata e chamaria atenção por seu ar gótico. 

Fritz Lang (Metropolis) foi o primeiro diretor escalado para o projeto, e, de fato, chegou a trabalhar numa segunda versão do roteiro, mas logo precisou abandonar o Caligari para se dedicar à segunda parte de seu seriado Die Spinnen. Robert Wiene, cujo roteiro para Satanás, deMurnau, já havia demonstrado uma predileção para o fantástico, assumiu a direção. 

Se por um lado o produtor via em Caligari uma produção barata com grande chance de se tornar um sucesso, por outro incomodava-se com o fato do filme ser uma denúncia da autoridade. Assim, ele encomendou uma mudança no roteiro. A solução encontrada foi colocar uma moldura, na qual o personagem Francis (namorado de Jane) aparece contando a história para um homem. No final do filme, voltamos à moldura e se revela que o narrador na verdade é um louco. Essa mudança foi feita por Fritz Lang, pouco antes deste abandonar o projeto. Os roteiristas não gostaram da alteração, que exaltava quem deveria denunciar (a autoridade, simbolizada por Caligari) e condenava o seu antagonista como um demente. Eles protestaram abertamente e chegaram a orientar seus advogados a tomar as medidas cabíveis. 
 

E
ssa moldura é um dos aspectos mais discutidos e criticados emCaligari. 
O historiador Kracauer, no livro De Caligari a Hitler, afirmou que ela deformou completamente o sentido do roteiro. Mas muitos autores chamaram a atenção para o fato de que os cenários deformados, símbolos da loucura, não voltam ao normal ao se revelar que Francis é louco. Falha da produção ou não, o fato é que isso dá abertura para outras leituras, entre elas a de que Caligari é, de fato, um tirano. Além disso, a moldura, ao invés de acomodar a o espectador, incomoda-o, pois este perde a principal referência de uma história, o fato do narrador estar contando uma história verdadeira. Em uma história, o narrador é a autoridade em quem se deve acreditar e o narrador louco de Caligariperturba as certezas do receptor. Nesse sentido, a moldura é absolutamente revolucionária ao mostrar uma realidade imaginária. É surpreendente que, em 1919, ainda na aurora da criação da linguagem cinematográfica, um filme mostrasse não um mundo objetivo, mas uma realidade subjetiva. Além disso, o roteiro inovava ao apresentar pelo menos duas estratégias narrativas totalmente inovadoras. A moldura apresenta um insert imaginativo que só se tornou comum muito recentemente. Além disso, mesmo sem a moldura, o filme apresenta umflashback, na cena em que vemos a chegada de Cesare ao hospital e a alegria de Caligari ao recebê-lo. Essa junção de estratégias narrativas cria uma história que foge completamente da narrativa cinematográfica da época.

Tal estratégia revolucionária só poderia acontecer em um filme expressionista e, nesse sentido, a atuação dos atores, cenários e até as roupas são essenciais. Esses elementos em conjunto fizeram com que o filme se transformasse numa pintura expressionista em movimento.

Os cenários pintados em pano e madeira criavam um clima onírico de pesadelo, colocando em prática a ideia expressionista de ultrapassar os limites de realidade, tornando-se expressão pura da subjetividade psicológica e emocional. 

Depois do sucesso do filme, todos quiseram ser autores da proposta, até mesmo o produtor, que, segundo a maioria dos relatos, havia sido contra os cenários pintados. Janowitz sempre afirmou que os cenários expressionistas faziam parte da proposta do filme desde o roteiro. Outros creditam a ideia dos cenários ao diretor, e outros, finalmente, ao cenarista-chefe da Decla, Herman Warm. 

A quantidade de supostos pais mostra a importância do cenário para esse filme clássico e uma mudança de paradigma: até então os cenários eram apenas um enfeite sem importância narrativa. Caligari mostrou que os cenários eram parte da linguagem do cinema e podiam ser usados para ajudar a contar a história. 

Outro fator que salta aos olhos de um observador mais atento é a interpretação expressionista dos atores, em especial dos personagens principais, Caligari (Werner Krauss) e Cesare (Conrad Veidt). Os dois já tinham aparecido no palco juntos no drama expressionista Seeschlacht, dirigido por Reinhard Goering. 

Quando chegou para o primeiro dia de filmagem, Krauss se reuniu com os atores e disse: "Temos de usar outra maquiagem. Olhem os cenários!". Assim, ele pediu ao maquiador que fizesse uma linha grossa debaixo de cada olho. 

Havia uma loja na cidade, num porão, onde vendiam roupas velhas. Krauss comprou um cobre-nuca e uma cartola, além de uma bengala com punho de marfim, tudo fora de moda e estranho. 

 

Os papéis secundários também revelam detalhes expressionistas, como o secretário da Câmara Municipal em seu tamborete alto, ou os guardas que se movimentam sempre em estranha simetria. Os criados de Jane, ao acordar com seus gritos na cena em que ela é raptada por Cesare, também revelam uma perfeita sincronização, acordando e levantando ao mesmo tempo (um detalhe curioso é que as camas dos dois não estão paralelas, mas inclinadas uma na direção da outra, de forma a destacar o efeito estranho). 

Mesmo os personagens mais "certinhos", como Alan (Hans-Heinz Von Twardowski) e Francis (Friedrich Feher) revelam aspectos curiosos de interpretação. Twardowski interpretou seu personagem com rosto estranho e atormentando e Feher fazia movimentos amplos e angulares.

A influência de Caligari pode ser vista até o dias de hoje, em filmes como os de Tim Burton e nas histórias em quadrinhos de terror.

Pijama Selvagem - o site das crônicas humorísticas

 


Pijama Selvagem foi um site lançado por Nemo Nox em 1999 e durou até o ano de 2001. Publicava essencialmente crônicas humorísticas e quadrinhos de humor. Chegou a ser indicado em publicações como Revista da Web e O Globo. Era uma época em que os sites atualizavam semanalmente: você se inscrevia e recebia por e-mail os avisos das atualizações. Eu comecei como fã. Um dia me aventurei a enviar uma crônica, que foi aceita. Acabei virando colunista fixo. Uma prévia do site ainda está disponível aqui.

Fundo do baú - Além da imaginação

 

"Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação." Essa era a narrativa inicial de todos os episódios de Além da Imaginação, série criada por Rod Serling entre 1959 e 1964 em preto e branco, para o canal CBS nos EUA. Uma curiosidade é que a série era apresentada pelo seu criador, que sempre aparecia no início dos episódios. Em cinco anos foram dezenas de episódios memoráveis, como o do homem que vê um gremlin na asa de um avião ou os policiais que precisam descobrir um marciano entre os fregueses de um restaurante de beira da estrada. Serling foi roteirista do primeiro filme do Planeta dos Macacos e foi ele que sugeriu o final, baseado em um dos episódios, atirei uma flecha no ar. Um dos meus prediletos é tempo suficiente, de 1959, em que o caixa de um banco não tem tempo para ler, um exemplo perfeito de ironia do destino. O seriado voltou a ser exibido na década de 1980 e fez muito sucesso no Brasil, sendo exibido pela Rede Globo.

A Noite das Bruxas, de Agatha Christie

 


 Certa vez, tentei ler Agatha Christie em uma edição de banca e odiei. A tradução era horrível, a edição idem e a história parecia fútil. Quando recebi A Noite das Bruxas para resenhar, reclamei. "Faça uma tentativa. Dê uma chance à dama do crime", respondeu-me o editor do Digestivo Cultural. Resolvi seguir seu conselho e não me arrependi. O volume tem tudo que faltava ao meu primeiro contato com a autora inglesa: edição primorosa, com um belo cuidado gráfico, boa tradução e uma história que nos fisga desde as primeiras páginas.


A Noite das Bruxas faz parte de uma coleção que reúne as obras completas de Agatha Christie. São 68 volumes padronizados com a assinatura da autora em alto relevo na capa. É uma tentativa, certamente bem-sucedida de voltar a transformar a dama do crime em um best seller tupiniquim.

O livro em questão conta a história de uma festa de Hallowen. Uma das personagens é Ariadne Oliver, um paródia da própria Agatha. Ariadne também é uma autora famosa de histórias policiais. A escritora resiste à tentação de dar glamour à sua versão literária e a mostra como uma senhora desajeitada e dispersiva. Durante o preparo da festa, uma das meninas, ao saber que a convidada é uma autora de histórias policiais, gaba-se de já ter presenciado um assassinato.

Como não poderia deixar de ser, a garota aparece morta, afogada em um balde de água cheio de maçãs. É quando a senhora Oliver chama à cena seu amigo Hercule Poirot. Daí para frente, a história segue o caminho que já foi eternizado pelo cinema: o inspetor belga deverá investigar todas as pessoas que estiveram na festa e tentar desvendar não apenas um, mas dois assassinatos.

Agatha Christie é a escritora mais bem sucedida do século XX. Seus livros já venderam um bilhão de cópias em língua inglesa e mais um bilhão em traduções para outros 45 idiomas. Algumas de suas muitas histórias foram adaptadas para a TV e o cinema, com destaque para Testemunha de Acusação (dirigido por Billy Wilder, 1957) e Assassinato no Expresso do Oriente (de Sidney Lumet, 1974).

A Noite das Bruxas, apesar de ser uma história policial, tem uma narrativa calma e bucólica. Há uma tendência por parte da autora de ser repetitiva. Na página 75, por exemplo, uma personagem diz: "Bem, era uma mulher rica, muito rica mesmo. Sua morte não foi inesperada, mas foi súbita. Foi tão de improviso que surpreendeu o próprio dr. Ferguson". Alguns parágrafos depois, outro personagem diz: "Sua morte não foi surpresa, dado seu estado de deficiência cardíaca, mas foi súbita". Erro típico de quem produz muito. Mas nem isso tira o prazer da leitura. Um bom livro para um domingo de chuva.

sábado, novembro 27, 2021

Wolverine antes de se tornar Wolverine

 

O personagem Wolverine representou na Marvel o pior dos quadrinhos dos anos 1990, naquela que ficou conhecida como a Era Image. Houve uma história, por exemplo, que iniciava com três páginas duplas do Dentes de Sabre pulando sobre o carcaju. Seis página de pura enrolação e dentes rangendo. História, nenhuma.  
Mas antes de se tornar um personagem raso envolto em violência sem sentido, maus roteiros e páginas que eram pensadas como pôsteres para serem vendidas para colecionadores, antes disso, o Wolverine teve histórias memoráveis nas mãos de grandes mestres.
Um exemplo disso é a saga que estreou a revista do personagem na editora Abril. Publicada originalmente em 1988, na revista Marvel Comics Presents, a HQ em dez partes tinha roteiro de Chris Claremont, desenhos de John Buscema e arte-final de Klaus Jason.
À primeira vista, a arte de Buscema parece não se encaixar com o traço de Jason, famoso pela dupla com Frank Miller. Mas o arte-finalista dá uma força e um dinamismo para o traço do mestre Buscema que se encaixam perfeitamente no estilo da história, em especial nas splash pages que abrem cada parte da trama.
A história se passa na cidade fictícia de Madripoor, dominada por gangues e pela máfia e tem a ver com uma história anterior dos X-men. Mas é possível ler e gostar sem saber o que aconteceu antes na complicada cronologia mutante. A cidade está vivendo uma guerra pelo controle da máfia. De um lado, o chefão O´Donnell e seu campanga Punho de Lâmina. Do outro, um misterioso personagem chamado Tigre. O Wolverine acaba sendo pego no meio dessa disputa e é preso ao se deparar com uma mutante vampira, que suga sua essência vital, deixando-o totalmente à mercê de seus inimigos.
Claremont sempre foi um bom roteirista, mas costuma abusar do tom novelesco, do excesso de texto e da cronologia mirabolante. A história não tem nenhum desses defeitos. Claremont estabelece bem a tipologia de fala do personagem, coloquial e cheia de gírais, que fica explícita na narrativa em off.
No final, tudo, desenhos, arte-final e texto, tudo se encaixa perfeitamente.  
A Abril ainda fez uma capa em alto relevo, com o personagem pulando na direção do leitor com suas garras em posição. Como diz a capa, edição de colecionador.

A arte fantástica de Arthur Rackham

 


Arthur Rackham foi um dos mais importantes ilustradores de livros do século XIX. Sua veia fantástica era ideal para livros como Alice no país das maravilhas ou Contos dos irmãos Grim. Ele também ilustrou Rip van Winkle, Peter Pan e até a ópera O anel de Nibelungo. Confira alguns trabalhos desse fantástico desenhista inglês. 








Juba & Lula – Operação Super-homem


Na década de 1980  o seriado Armação Ilimitada se tornou o grande azarão da TV. A ideia tinha sido de dois atores surfistas, Kadu Moliterno e André De Biase ao qual se juntou Andréa Beltrão. Os roteiros eram non-sense e a direção de Guell Arraes garantia uma boa dose de metalinguagem e humor.

Essa mistureba fez tanto sucesso que levou a editora Nova Fronteira a lançar uma versão em quadrinhos dos personagens Juba e Lula. Para desenhar escolheram o argentino Héctor Gomes Alísio e para o roteiro o  desconhecido Régis Rocha Moreira.

O roteirista exagerava nos textos, fazendo com que o desenho ficasse apertado entre os balões. 


A história Operação Super-homem mostra a dupla lutando contra um nazista que pretende criar um super-homem. E qual seria o objetivo de um nazista ao criar uma pessoa extremamente forte? Montar um exército e reviver o III Reich? Não, transformar o soro numa droga e vender nas ruas. Era para ser non-sense, mas é simplesmente algo que não faz sentido, assim como quase tudo nessa história.

Logo no início, os protagonistas estão chegando na praia quando quase batem em um carro que está saindo do estacionamento. Algo relacionado à trama? Não. Apenas uma desculpa para eles conhecerem duas garotas... que aparecem apenas em um quadrinho! A situação, que parece ser apenas uma piada solta, sequer é desenvolvida. Aliás, por esse único quadro fica evidente que Héctor é um excelente desenhista de mulheres. Mas o roteirista simplesmente não aproveita isso: 90% das cenas tem apenas homens.

A história cria toda uma situação para uma paquera que só dura um quadro. 

Junte a isso piadas que não funcionam, diálogos expositivos (os famosos bifes) enormes e um final abrupto, que parece indicar que o roteirista só pensou no final da história na última página.

Ao final das contas, Jula e Lula Operação super-homem acaba sendo uma curiosidade quadrinistica dos anos 1980, que vale apenas pelo desenho.

O escaravelho do diabo

 

Um dos livros mais célebres da coleção Vaga-lume era O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida.

A história foi publicada originalmente em capítulos, no ano de 1953, na revista Cruzeiro. Mas se tornou realmente popular quando foi publicada em 1974 pela editora ática, dentro da coleção vaga-lume. Na década de 1980, auge da coleção, tornou-se um dos títulos mais vendidos.

Na trama, a pequena cidade paulista de Vista Alegre é aterrorizada por uma série de assassinatos. Antes das mortes, o criminoso envia para a vítima um besouro – e o nome científico do mesmo indica como acontecerá o crime. O protagonista é um jovem estudante de medicina, Alberto, cujo irmão é a primeira vítima do assassino. É ele quem descobre a relação entre os besouros e os crimes e é quem passa a ajudar a polícia a decifrar o enigma.

Lúcia Machado de Almeida era uma escritora primorosa, cujo estilo marcou a literatura infanto-juvenil brasileira, influenciado muitos outros autores posteriores. Embora seja uma história de crimes, o livro é contado de maneira leve para agradar o público mais jovem.

Uma curiosidade é que esse livro é, provavelmente, um dos primeiros da literatura nacional a descrever um psicopata: “O assassino, certamente um anormal, raciociona com lucidez e possui inteligência fora do comum. De outro modo, jamais planejaria e levaria a cabo crimes tão perfeitos e que não deixam o menor vestígio. Possivelmente deve ser alguém igual a nós, de comportamente, aparentemente normal, alguém que arquitetou um plano e estudou-o com calma e tempo nos seus mínimos detalhes”.

Escrito na década de 50, a obra tem alguns aspectos que parecem estranhos hoje em dia. Motorista de taxi, por exemplo, é chamado de chofer. Em uma sequência, é necessário ligar para a polícia e não há nenhum telefone em todo o bairro, fazendo com que a pessoa se desloque pessoalmente à delegacia. Ainda assim, é um livro prende a atenção, especialmente pelo suspense criado sobre o que está de fato acontecendo. É uma trama que instiga a imaginação do leitor.

Infelizmente, embora a descrição do perfil psicológico do assassino fosse totalmente inovadora e incrivelmente acertada para a época, a descoberta do assassino e da motivação do caso passava longe disso. Compreensível, considerando-se que na década de 50 a psicologia praticamente desconhecia a psicopatia. É de se imaginar como a autora teria terminado o livro se tivesse acesso ao que se sabe hoje sobre o assunto.

Escreva um roteiro agradável de se ler

 


A maioria dos roteiristas se esquece completamente que o roteiro, antes de se tornar uma história em quadrinhos, será lido por alguém. E esse alguém geralmente é um desenhista. E, posso garantir: a maioria dos desenhistas não são leitores vorazes.
Assim, se o desenhista não ler, ou ler com pouca atenção, não irá desenhar, ou irá cometer erros, e alguns podem tornar sua história quase incompreensível.
Uma boa tática é “conversar” com o desenhista no roteiro, se você já souber quem é ele. Em uma das histórias que escreveu para Supreme, Alan Moore escreveu para o desenhista paraense Joe Bennett: “Joe, sei que você gosta de prédios expressionistas. Você vai adorar essa história!”.
Eu gosto de fazer pequenas piadinhas em meus roteiros. Pequenas anedotas que prendem a atenção do desenhista e ajudam a explicar o que quero (não sei você consegue entender exatamente, mas infelizmente não posso desenhar isso para você. Afinal, você é o desenhista! rs).
Outra coisa que aprendi é que nem sempre termos técnicos são uma boa solução, especialmente se forem termos técnicos do cinema. Logo que comecei a escrever, usei uma vez a expressão “câmera subjetiva”. Eu queria que a sequência de imagens daquela página fosse vista sob o ponto de vista de determinado personagem e é isso o que significa câmera subjetiva. Mas o desenhista não entendeu e desenhou como quis. Mas para me satisfazer, desenhou uma câmera de vídeo no fundo do quadro. Detalhe: uma câmera que não tinha a menor razão para estar ali!
Ler roteiros de outros escritores pode ser uma boa solução para tornar os seus agradáveis. Você verá que o que se o roteiro é gostoso de ler, provavelmente o resultado final também será. Uma vez tive acesso a um roteiro de um capítulo de novela O cravo e a rosa, de Walcyr Carrasco. Esse é um noveleiro conhecido por novelas divertidas, leves, com um toque de humor sutil e saudosista. O roteiro era exatamente assim. Até mesmo as partes técnicas tinham essas características. 

Batman – Gotham 1889

 


 

Lançado no ano de 1989, Gotham By Gaslight: An Alternative History of The Batman trazia uma proposta interessante: o cavaleiro das trevas lutando contra Jack, o estripador, em pleno século XIX.

O nome da série era uma referência aos lampiões de gás que iluminavam as ruas antes da popularização das lâmpadas elétricas.

Dificilmente poderia ser encontrado um artista melhor do que Mike Mignola para desenhar uma história desse tipo. Seu traço repleto de sombras e contrastes casava perfeitamente com a narrativa sombria e vintage.



O roteiro também tinha uma abordagem interessante: mostrava Bruce Wayne contando a Freud um sonho recorrente, o que servia de desculpa para o roteirista contar ao leitor a forma como os pais do herói haviam morrido. Durante anos o milionário vagara pela Europa conhecendo os principais gênios da época, do criador da psicanálise ao detetive Sherlock Holmes. Depois dessa longa preparação, ele volta para Ghotam City, onde estão acontecendo diversos assassinatos de mulheres, repetindo o que aconteceu na Inglaterra. 

A história traz referências a outros aspectos do universo do morcego, como quando o inspetor Gordon mostra a Wayne o retrato de um homem que acabara de prender: um psicopata que matava mulheres ricas com estricnina e que tentara se matar com o veneno, o que lhe provocara um eterno sorriso. Era um Coringa desse universo.

Um outro aspecto interessante da narrativa era usar recortes de jornais e até um cartão postal para ajudar a contar a história.

Era, portanto, uma HQ que prometia muito, mas entrega pouco. Apesar de toda a propalada capacidade dedutiva de Bruce Wayne, ele resolve o caso apenas por estar, sem explicação, no lugar certo, na hora certa.

No final, a história valia mesmo pelo visual incrível de Mignola.

No Brasil essa história foi renomeada de Gotham 1889 tanto pela Abril quanto pela Panini, que a republicou no ano de 2018.  

sexta-feira, novembro 26, 2021

Informação relevante

 


“Como faço para conservar meu casamento?”; “De que maneira posso me tornar mais feliz?”; “O que posso fazer para que formigas não ataquem minhas flores?”; ”Que tipo de filme devo assistir no final de semana?”; "Qual o melhor local para viajar no final de semana?".
              Essas são perguntas que dificilmente serão respondidas consultando-se um catálogo de biblioteca. No entanto, são perguntas importantes para as pessoas. As respostas a essas perguntas fazem parte do universo relevante.
              Esse é o tipo de informação que não se encontra em bibliotecas ou na educação formal (muitas bibliotecas talvez contenham essas respostas, mas a organização dos catálogos, essencialmente classificadora, torna quase impossível encontra-las).
              Geralmente essas notícias são fornecidas por amigos ou conhecidos. Se quero viajar no final de semana e não sei para onde ir, é mais prático pedir sugestão a um amigo do que consultar uma biblioteca ou um site.
              O cérebro humano lida melhor com a informação relevante do que qualquer computador ou biblioteca. Para uma pessoa que viaja muito, lembrar-se de locais agradáveis é uma informação muito relevante e, portanto de fácil recuperação.
              Embora nossa cultura dê pouca importância ao universo relevante, ele é de grande importância.
              Na verdade, o universo classificador está tão entranhado em nosso pensamento que a própria divisão de informação classificador, relevante e relacional tem como base o universo classificador.
              Entrentanto, o desenvolvimento da inteligência artificial só pode ocorrer se for construída uma máquina capaz de processar os três tipos de informação.

Feliz Natal!!!

 


Como as estrelas na terra

 


Como as estrelas na terra, filme indiano de 2007 lançado recentemente aqui pela Netflix é uma obra que entrará para qualquer lista de melhores obras sobre a educação.

O filme conta a história de Ishaan Awasthi, um menino de nove anos que já reprovou a terceira série e irá reprovar novamente de ano, o que faz com que os pais o coloquem num colégio interno.

Visto como rebelde e preguiçoso, o garoto na verdade sofre de dislexia. As letras “dançam” na frente dele, o que faz com que ele seja incapaz de ler ou escrever.

A história do garoto muda quando o professor de artes do colégio interno percebe o problema do garoto e começa a ajudá-lo (a sequência em que ele ensina contas usando uma escada é um dos momentos mais interessantes). Mais ainda: o professor descobre que  Ishaan não só não é burro, como é um gênio da pintura.

A primeira parte peca por um problema que dizem ser comum nos filmes indianos: o excesso de musicais. Há momentos em que eles funcionam, como quando estão mesclados com animações. Mas chega num ponto de exagero em que tudo vira motivo para um musical. O garoto está triste? Música. A família vai deixá-lo no colégio interno? Música. Entra o novo professor de música? Música com dança.

A história engrena de fato quando o diretor  Aamir Khan  se concentra em contar a história, deixando as sequências de música mais pontuais.

Descontado esse exagero nos musicais, Como as estrelas na terra é um filme divertido e emocionante que aborda perfeitamente o assunto dislexia.

Fundo do baú - Popeye

 

Popeye é um famoso personagem de desenho animado, cujas aventuras encantaram gerações na TV. Mas o personagem surgiu nas tiras de quadrinhos e nem mesmo era o protagonista. Os personagens principais da tira eram a família Palito. Em uma das histórias, o irmão de Olívia Palito está procurando marinheiros no caís e perguntando para Popeye se ele é um marinheiro. “Pareço um cowboy?”, pergunta ele, nesse início promissor. Popeye era baseado numa pessoa real da infância de Elzie Segar, o autor da tira. Era um marinheiro aposentado que vivia com o olho direito fechado e mentia muito a respeito de aventuras e brigas imaginárias nas quais eram sempre vencedor. Popeye significa olho estourado (pop eye) e de fato nas primeiras histórias o personagem não tinha um olho. Com o tempo, Popeye se tornou o personagem mais popular do título e virou até namorado de Olívia (antes ela tinha outro namorado, que foi devidamente esquecido). Em 1932 o marinheiro chegou às animação, mais uma vez como secundário de um desenho de Betty Boop. Os responsáveis eram os irmãos Fleischer, cujo estúdio era o mais revolucionário da época. Mas logo Popeye seria popular a ponto de ter sua própria série. Nessa época os desenhos eram exibidos nas telas de cinema. Depois disso, o personagem passaria por vários estúdios, sempre com sucesso, especialmente na TV. Uma curiosidade é que o marinheiro só começou a comer espinafre como estratégia de marketing. Acredita-se que uma fábrica de espinafre enlatado teria dado dinheiro a Segar para que ele introduzisse espinafre na tira. Deu tão certo que as vendas de espinafre aumentaram consideravelmente a ponto de uma das cidades produtoras de espinafre nos EUA ter uma estátua em homenagem ao Popeye.

Coleção histórica Marvel: Demolidor

Um dos volumes mais interessantes da coleção histórica Marvel é Paladinos Demolidor.

A Coleção histórica Marvel resgata histórias antigas de personagens da editora. Na grande maioria das vezes são histórias relativamente conhecidas, ou sagas famosas, republicadas.
A edição dedicada ao Demolidor, no entanto, é mais interessante. O que conhecemos dele é praticamente o que veio de Frank Miller em diante.  
Este volume faz um apanhado das fases anteriores do personagem, com os diversos desenhistas responsáveis por essas fases.
Demolidor no traço de Joe Orlando. 


E foram muitos.
A começar por Bill Everett, criador visual do personagem. Dizem que Stan Lee bolou o personagem como forma de valorizar Everett, que havia criado Namor na década de 1940 e há tempos não desenhava quadrinhos. Colocá-lo em um título de super-heróis Marvel era uma forma de mostrar o mestre para a nova geração.
Mas Everett, que então trabalhava com publicidade, não deu conta e abandonou o título depois do primeiro número.
Aí veio Joe Orlando, logo substituído por Wallace Wood, que foi substituído por John Romita, que foi relocado para o título do Homem-aranha após a saída de Steve Ditko. Só aí entrou Gene Colan, o desenhista que passou mais tempo com o Homem sem medo.
Wally Wood emprestou seu traço elegante para o personagem. 


A edição de Paladinos reúne histórias desses diversos artistas, numa belíssima amostra do estilo de cada um com o personagem (particularmente gosto muito de Wally Wood, que introduziu o uniforme vermelho, embora nitidamente ele não estivesse fazendo o que gostava e não se esforçou muito).
Do ponto de vista de roteiro, a história mais interessante do volume é “Eis que surge o Gladiador”.
Nessa historia, Stan Lee estava saindo de férias, e, após escrever as sete primeiras páginas, deixou o texto a cargo de um novato, Denny O´Neil. O´Neil (que pouco depois seria responsável por reformular o Batman na DC) mostra que tinha uma visão própria do Demolidor.
O personagem já no traço de Gene Colan numa história que antecipava as inovações de Frank Miller


Na HQ, Foggy Nelson tenta convencer Karen Page de que é o Demolidor como forma de conquista-la e, sem querer, enfrenta um vilão, o Gladiador.
Ao ver os diálogos do amigo, o Demolidor percebe que suas falas parecem ridículas. De fato, Stan Lee parecia ver o Demolidor como uma espécie de Homem-aranha cego (o primeiro número inclusive fazia essa comparação, trazendo a capa do primeiro número do aracnídeo). O Demolidor de Denny O´Neil reflete: “Pareço bobo feito o Foggy! De agora em diante serei um combatente do crime do tipo fortão e calado”.
O roteirista também reflete sobre o vilão, Gladiador, antecipando seus problemas mentais que seriam depois explorados por Miller.
Essa pequena participação de Denny O´Neil teve pouco impacto sobre o personagem. Logo Stan Lee retornou das férias e o Demolidor voltou a ser o herói brincalhão, que fazia piadas com os vilões durante as lutas.
Mas anos depois, Denny O´Neil se tornou o editor do personagem e um jovem inovador chamado Frank Miller teve a oportunidade de reformular o herói. É de se pensar até que ponto as mudanças de Miller foram sugeridas por O´Neil. 

quinta-feira, novembro 25, 2021

O Capitão Gralha

 

Em meados da década de 1940 surgiu nas bancas de Curitiba o que talvez seja o primeiro super-herói brasileiro. Criado por Francisco Iwerten e usando um bigodinho característico, asas e camisa gola polo, o Capitão Gralha foi esquecido e redescoberto, marcando para sempre os quadrinhos nacionais.
O super-herói surgiu após uma viagem aos EUA. Em plena II Guerra Mundial, os americanos temiam que o Brasil se aliasse ao Eixo e iniciaram a politica de boa-vizinhança, que tinha como objetivo estreitar as relações dos Estados Unidos com os países vizinhos. Assim, artistas viajaram para o Brasil, a exemplo de Disney e Orson Welles, e brasileiros foram levados a conhecer a terra de Tio Sam, a exemplo de Érico Veríssimo.
Mas os americanos queriam alguém ligado aos quadrinhos,  já que as histórias em quadrinhos estavam tendo papel fundamental na propaganda de guerra (a maioria dos heróis dos gibis se engajaram na guerra, a exemplo do Capitão América, que aparecia socando Hitler na capa de seu primeiro gibi).
O escolhido acabou sendo Francisco Iwerten especialmente por conta de sua história familiar. Ele fugira da Alemanha nazista ainda criança e fora adotado por um casal de tios, em Curitiba.
Iwerten ficou maravilhado com o sucesso dos quadrinhos de super-heróis e mais ainda ao conhecer o estúdio de Bob Kane, que seria para sempre seu modelo a ser seguido. Ele decidira que o Brasil também teria seu herói!
O personagem foi criado na viagem de volta e foi de uma versão inicial que lembrava o herói mitológico Ícaro à ficção científica. Também surgiu uma curiosa galeria de vilões capitaneada pelo Dr. Destruição, um maníaco fascinado pela letra D, que falava apenas usando palavras iniciadas por essa letra.
Apesar de um sucesso mediano no começo, a revista foi diminuindo suas vendas até ser cancelada. Iwerten passou a publicá-la então num esquema alternativo, com baixas tiragens e acabou gastando todo o dinheiro da herança com isso. Morreu pobre, desconhecido e os montes e gibis que lotavam sua casa foram queimados.
Essa é a história que foi resgatada na revista Metal Pesado Curitiba, em 1997, por um grupo de quadrinistas curitibanos. Num texto inicial, explicava-se que o personagem O Gralha era uma releitura e homenagem ao Capitão Gralha.
A partir daí o quadrinista e seu herói foram redescobertos, surgiram artigos em jornais, revistas, Iwerten ganhou prêmio e quase foi tema de escola de samba.
Em 2015, os criadores do Gralha vieram a público revelar a verdade: Iwerten nunca existira. Ele seu herói haviam sido criados para promover e dar um passado célebre para o personagem O Gralha. Para alguém que não existia de fato, Francisco Iwerten se tornou bastante célebre.