quarta-feira, dezembro 29, 2021

A fábula da galinha

 

O presidente chamou os deputados, senadores, ministros e os homens mais ricos do país e para mostrar-lhes algo e pediu que lhe trouxessem uma galinha.
Um soldado a segurou e o presidente tirou-lhe todas as penas, uma a uma, reduzindo a galinha uma massa de dor e sangue.
“Como podem ver, eu lhe tirei tudo”, disse o presidente, “inclusive a dignidade. Agora observem o que faço”.
O presidente pegou um saco de farelos e começou fingir que os jogava no chão. A pobre galinha esqueceu a dor e o sofrimento e correu atrás do presidente, suplicando pelas migalhas que ele fingia que lhe oferecia, enquanto dizia: "Está vendo? Se não fosse eu, iam lhe tirar até esses farelos!".
Ministros, deputados, senadores, milionários, todos estavam atônitos com a cena, sem acreditar. “Assim é o povo”, explicou o presidente aos homens mais poderosos do país. “Nós podemos lhe tirar tudo, os direitos, a aposentadoria, tudo, e ainda assim, se eu fingir lhes dar umas migalhas, correrão atrás de mim, me amarão e me defenderão contra tudo e contra todos”.
Ao ouvirem essa grande verdade, aqueles homens se regozijaram, pegaram um helicóptero e foram para uma mansão comemorar com um grande banquete regado a champanhe e lagostas.

Perry Rhodan – Os espíritos de Gol

 


Os espíritos de Gol, episódio 16 da série, se passa quando Perry Rhodan e seus aliados estão em busca do segredo da imortalidade.

A pista revelada no número anterior levou a Stardust diretamente para Gol, um planeta gigante, com uma gravidade muito superior à terrana. Para piorar, o planeta é habitado por seres luminosos que se alimentam de energia.

Esse é um daqueles episódios de Perry Rhodan que demoram  engrenar e quando engrenam são, no máximo, mornos. Metade da obra é destinada à aproximação do planeta e os termos técnicos da empreitada. Exemplo: “Rhodan só precisaria uma única vez de um feixe antipartículas que por sua vez fariam o novo microacelerador funcionar por anos a fio. Acontece, todavia, que as as antiparticulas mostram uma tendência acentuada de combinar-se com as partículas normais, com o que sua massa se perde na irradiação”.

A Ediouro usou a capa americana. Aqui a capa original. 


Kurt Mahr não tinha a mesma habilidade de K. H. Scheer, então a grande quantidade de termos técnicos serve muito mais para tornar a narrativa arrastada e garantir o número de páginas do que para dar uma contextualização.

O livro se torna realmente interessante lá pelas últimas páginas, quando os seres luminosos atacam a fonte de energia da Stardust II e a nave parece condenada. Mas a solução para isso parece fácil demais, acontece muito rapidamente, especialmente na comparação com o restante arrastado do livro.

O Gralha – o herói, o pinhão, o louco e a morte

 


O Gralha é o personagem símbolo de Curitiba. Criado por mim e mais 8 artistas em 1997, ele se tornou bastante popular na capital paranaense a ponto de até mesmo que não curte quadrinhos conhece-lo. E tem toda a história do Capitão Gralha, que seria o personagem original e avô do herói.
Além de ter sido publicado por mais de um ano no jornal Gazeta do Povo, o Gralha ganhou três álbuns. O herói, o pinhão, o louco e a morte é o terceiro.
Neste eu colaborei com o roteiro de duas histórias. O que acho interessante no personagem é seu ecletismo. É um herói que você pode usar para histórias mais densas, mais de aventura, mais cotidianas ou até histórias de humor.

Na HQ Encontros e desencontros eu explorei o lado pouco convencional do personagem: ele vai fazer compras em um supermercado e encontra o vilão Bagre humano também fazendo compras. Começa um diálogo aparentemente pueril, mas recheado de suspeitas e sentidos ocultos (o vilão estaria apenas fazendo compras ou planejando um assalto ou um atentando?). O tom aí é de humor, acentuado pelo divertido traço de Paulo Gerloff.

Ainda nessa edição colaboro com a história final, Dias Duvidosos, que introduz na cronologia do Gralha o grande vilão do Capitão Gralha, o Doutor Destruição. A história começa metalinguística, com o herói lendo um gibi com as aventuras do avô. Uma curiosidade: o que é mostrado no gibi é a parte final da trama que aparece no livro Francisco Iwerten, a biografia de uma lenda, mas na forma de radionovela. Sim, o Gralha é um personagem intertextual e transmídia! Os desenhos de Edson Kohatsu, que consegue ir do vintage ao contemporâneo, dão todo o charme da história. 
O álbum está à venda na loja da Quadrinhópole: https://quadrinhopole.com/loja/

terça-feira, dezembro 28, 2021

Contos de imaginação e mistério

 

A obra de Edgar Alan Poe é básica para todos os fãs de horror, policial e fantasias. A popularidade do autor fez com várias editoras lançassem coletâneas com seus textos, mas poucas chegam ao nível de Contos de Imaginação e mistério lançado pela editora Tordesilhas em 2012.
O livro, em capa dura, é uma reprodução fiel do volume lançado em 1907 em Londres, com os desenhos do exímio ilustrador irlandês Harry Clarke e prefácio de Charles Baudelaire. Essa edição inglesa foi considerada já na época uma joia bibliográfica e ajudou a popularizar Poe no mundo.
Embora ignorado como um escritor menor por muitos anos, Edgar Allan Poe foi praticamente o iniciador de algumas das mais populares literaturas de gênero da atualidade. Ele definiu o gênero policial e a ficção científica, além de ter lançado as bases da fantasia moderna.
A miríade de escritores influenciados por ele vão de Ray Bradbury a Jorge Luís Borges, passando por Umberto Eco. Arthur Conan Doyle e Júlio Verne eram seguidores fieis do escritor norte-americano.
Conan Doyle dizia sobre ele: “Cada um dos contos policiais de Poe é uma raiz da qual desabrocha uma literatura inteira (...) O que eram os contos policiais antes que Poe aparecesse e soprasse vida neles?”.
Já Júlio Verne escreveu: “O homem e sua obra, ambos ocupam um lugar importante na história da fantasia, pois Poe criou um gênero diferente, sem precedentes e, me parece, levou o segredo consigo”.
O volume de mais de 400 páginas reúne o melhor dos contos de Poe. Há histórias bastante conhecidas, que costumam figurar na maioria das coletâneas, como William Wilson, O poço e o pêndulo e Manuscrito encontrado em uma garrafa.  Mas há algumas pérolas pouco exploradas.
Um dos contos excelentes que figuram na coletânea é a A Máscara da Morte Vermelha.
Outra dica fantástica é “O mistério de Marie Roget”.
Normalmente quando se pensa no Poe policial, lembra-se de “Os assassinatos da rua Morgue” ou “A carta roubada”, ambos protagonizados pelo detetive Dupin, que viria a ser um dos modelos para a criação de Sherlock Holmes.
O conto sobre Marie Roget é imerecidamente esquecido. Misto de jornalismo e ficção, Edgar Alan Poe aproveitou um crime real, acontecido em Nova York e transformou-o num caso a ser resolvido por Dupin. 
Sem ter acesso ao local do crime, o escritor usou apenas as notícias dos jornais da cidade como fonte de referência para desvendar o mistério. Mas revelou uma capacidade dedutiva tão impressionante que todos os detalhes foram confirmados posteriormente por duas testemunhas do crime. Ao por misturar personagem e criador, ambos gênios da hipótese dedutiva, Poe mostra estar pelo menos um século à frente de seu tempo. Além disso, o texto acaba sendo um verdadeiro manual de como escrever uma policial dedutiva.
A Mary Rogers em questão saiu um dia de casa dizendo que iria visitar a tia em outro bairro. Pediu ao noivo que a buscasse no final da tarde, o que se tornou impossível em decorrência de uma tempestade. No dia seguinte a garota não voltou para casa.  Quatro dias depois seu cadáver foi encontrado flutuando no rio Hudson.
O caso fez a festa dos jornais numa época em que os jornalistas estavam mais interessados em dar sua interpretação das notícias do que de fato relatá-las. Como a garota já havia sumido por uma semana em ocasião anterior, um jornal sugeriu que tratava-se de outra pessoa a mulher encontrada no rio Hudson. Outro creditou o crime a uma gangue de malfeitores que no mesmo dia havia violentado uma garota na cidade. Outro chamava atenção para o fato de que a sombrinha, o lenço e outros objetos pessoais da vítima haviam sido encontrados em um bosque, muito longe do rio, o que demonstrava que o homem deveria ter passado por muitas ruas com um corpo sobre as costas para ter a ocasião de jogá-lo no rio.
O principal argumento dos que defendiam que a mulher encontrada não era Mary Rogers é o tempo que cadáver levou para boiar, uma vez que normalmente em casos de afogamento o corpo leva de seis a dez dias para boiar.
Poe analisa e desconstrói cada um dos argumentos. Sobre a flutuação do corpo ele alega que de fato esse é o tempo no caso de afogamentos. Mas o mesmo não ocorre com pessoas jogadas na água já mortas. Com isso ele lança as bases das atuais perícias médicas. Mais um ponto para o homem que praticamente inventou a linha de pesquisa semiótico-informacional, a psicologia das massas, a literatura policial e de ficção científica.
O volume da Tordesilhas não traz todos os mais importantes textos de Poe (faltam, por exemplo, o conto “Um homem das multidões”), mas esse é um mal comum a qualquer antologia desse autor: seus textos são tão relevantes que só um livro com obra completa seria capaz de contemplar toda sua importância.
Ainda assim, Contos de imaginação é obrigatório em qualquer estante dos amantes da fantasia, do terror ou do policial. Não só pelos textos de Poe, pela encadernação de luxo, mas também pelos soturnos desenhos de Henry Clarke. Seu traço sujo, repleto de hachuras, captura com perfeição o clima do texto de Poe prenunciando uma tragédia a cada linha.

O desafio das capas

 O desafio das capas é uma brincadeira entre fãs de quadrinhos no Facebook. Um desafia o outro a publicar as capas que mais o marcaram. Eu fui desafiado pelo amigo Dennis Oliveira. A ideia era publicar apenas imagens, mas imaginem se eu ia resistir a fazer alguns comentários. Abaixo as imagens e os textos que publiquei.

Essa eu nunca li, mas foi o primeiro gibi de heróis que vi, na vitrine de uma mercearia, único local que vendia quadrinhos na cidade onde eu morava, Mococa - SP. Lembro que ficamos todos olhando através da vitrine, impressionados com a capa, mas ninguém tinha dinheiro para comprar.
Desafio das capas que mais me marcaram. Essa foi a primeira revista que comprei em banca. Não é nem de longe a melhor dessa série, mas adoro essa capa e foi aí que começou a saga da Fênix, uma das melhores HQs de heróis todos os tempos.
O primeiro número de Sandman teve um impacto muito grande, não só pelo texto de Gaiman, mas também pela capa incrível de Dave McKean. Nunca tinha visto nada parecido.


Aventura e ficção era uma publicação em PB da Abril que publicava material inicialmente da Marvel, depois de outras editoras americanas e, na fase final, material europeu e nacional. Essa capa de Joe Jusko abriu a série com chave de ouro.
Eu não comprei a Epic Marvel em banca por causa do preço, que não cabia no meu orçamento da época, mas depois fui comprando todas em sebo. Difícil escolher qual das capas me marcou mais, então vai a da número 1.
Quando comecei a gostar de quadrinhos, eu não tinha dinheiro para comprar meus gibis. Então, vasculhava os sebos de Belém em busca de números antigos da revista Heróis da TV, que um amigo de escola colecionava. Eu comprava, lia, vendia para ele pelo dobro do preço e, assim, ia fazendo caixa para comprar os meus próprios gibis (eu colecionava Superaventuras Marvel). E na revista o personagem que mais me chamava atenção era o Mestre do Kung Fu.
Essa foi a primeira revista de quadrinho nacional que comprei. Eu lia Turma da Mônica quando criança, mas nunca tinha lido material mais adulto. Eu fiquei totalmente fascinado com a capa de Rodval Matias e com as histórias de Mozart Couto. Lembro que na época eu pensei: "caramba, os brasileiros são tão bons quanto os americanos!".

A origem de Asterix

 

Asterix é o personagem mais famoso dos quadrinhos europeus e um dos mais importantes do mundo. O herói gaulês foi criado em 1959, por René Goscinny e Albert Uderzo e desde então tem arrebatado legiões de fãs no mundo todo e estrelado desenhos animados e filmes de sucesso.
     Goscinny é um filho de judeus ucranianos e poloneses. Ainda criança, mudou-se com os pais para a Argentina, onde começou a trabalhar com publicidade aos 17 anos. Em 1949 recebeu uma carta de um tio instalado em Nova York e foi para os EUA, onde trabalhou no mesmo estúdio que outros grandes artistas como Harvey Kurtzman, Will Elder e John Severin, que posteriormente viriam a criar a revista MAD.
     Em 1950 conheceu dois quadrinistas europeus, Jijé e Morris, que lhe apresentaram o editor Georges Troisfontaines. Este, por cortesia, disse que ele passasse em Bruxelas para lhe mostrar seus trabalhos. Só não esperava que Goscinny fosse levar esse convite a sério. Três semanas depois, Goscinny desembarcou na Bélgica e Troisfontaines não teve outro remédio senão empregá-lo em sua editora, destinando-lhe a sucursal parisiense da editora. Lá, Goscinny conheceu Uderzo e os dois começaram uma rica colaboração. Goscinny tinha um texto humorístico genial e Uderzo era um grande cartunista. Essas características já se revelam em U-pah-pah, um índio americano que tem muitas das características que depois viriam a fazer o sucesso de Asterix.
     Além de escrever para Uderzo, Goscinny colabora com vários outros artistas, como Morris na série Lucky Luke.
     Em 1955, Uderzo, Goscinny e o roteirista Charlier tentam criar um sindicato de quadrinistas para defender suas reivindicações.  Ao saber disso, Troisfontaines demitiu os três, que, desempregados, resolveram criar uma nova editora, cujo carro-chefe seria a revista Pilot. Para o número de estréia, Goscinny e Uderzo criaram um simpático gaulês chamado Asterix, mas nem de longe esperavam que eles fizessem tanto sucesso.
     Em 29 de outubro de 1959 surge o primeiro número da revista, trazendo o novo personagem e é um sucesso imediato. A história se passa no auge do Império Romano, quando toda a Gália foi dominada, toda não, uma única aldeia resiste e nela vivem Asterix e seu inseparável companheiro Obelix. O segredo dessa aldeia para resistir ao invasor é uma poção mágica que lhes dá força extrarodinária, preparada pelo druida Panoramix.
     Goscinny exercitou toda sua verve cômica e seu pendor para trocadilhos, que abundam na história. Mesmo os nomes dos personagens são trocadilhos. Asterix vem de asterisco e Obelix vem de Obelisco. A dupla tem um cachorro de estimação, Ideiafix, que ganhou esse nome por tinha a idéia fixa de segui-los para onde quer que eles fossem. Na história, todos os gauleses têm nomes terminados em ¨ix¨, os romanos nomes terminados em ¨us¨ (Acendealuz, Apagaluz, etc).
     O humor se dava principalmente através de situações que se repetiam, mas de modo diferente. Os romanos, por exemplo, estão sempre tentando conquistador a aldeia e sempre levando sopapos  (¨Esses romanos são uns neuróticos¨, diz Obelix), Obelix , que caiu na poção mágica quando bebê, está sempre querendo beber um pouquinho da poção, os piratas sempre têm seu navio afundado quando encontram com os dois heróis... (em uma das histórias mais engraçadas, os próprios piratas destroem o navio ao encontrar com Asterix e Obelix), Automatix sempre reclama dos peixes de Ordenalfabetix, o que gera uma briga na qual se envolvem todos os integrantes da aldeia... e as histórias sempre terminavam num banquete com javali assado, com o bardo Chatotorix amarrado para evitar que cante uma de suas músicas insuportáveis.
     Além das histórias serem muito boas, elas representavam um sentimento nacional francês. Na década de 1950 o país perdia sua importância para a nova potência mundial, os EUA e Asterix acabou se tornando símbolo da resistência cultural francesa.

Homem-formiga, o filme

 

Homem-formiga é um filme de 2015 dirigido por Peyton Reed baseado no herói da Marvel.
Após um breve período em que protagonizou sua própria revista, o Homem-formiga nunca foi uma estrela da Marvel. Ele se segurava, essencialmente, com sua participação nos Vingadores, junto com sua esposa Vespa. O personagem era tão instável que chegou a adotar mais duas outras identidades: Jaqueta Amarela e Gigante. E, além do criador da fórmula de encolhimento, Hank Pym, mais duas pessoas vestiram v o traje do Homem-formiga, um deles, Scott Lang, um ladrão que rouba o traje, mas é perdoado por Pyn. Era como se os roteiristas da Marvel estivessem tentando acertar no herói.
O filme de Reed brinca com essa mitologia, transformando, por exemplo, o Jaqueta Amarela em vilão. Na história, Pyn descobre que o novo presidente de sua empresa está desenvolvendo a tecnologia de encolhimento e que pretende usá-la em guerras e assassinatos políticos. Para evitar que isso aconteça, ele usa um ladrão, Scott Lang, para roubar a tecnologia. É uma trama simples, mas divertida. Aliás, o treinamento do herói é uma das melhores partes do filme. Enquanto os heróis da DC parecem já nascer sabendo usar seus poderes, Lang apanha muito antes de dominar suas habilidades (a sequência inicial, em que ele usa pela primeira vez o traje é impagável e lembra muito a primeira HQ do personagem, quando ele ainda não era de fato um herói).
Vale destacar também o encontro com o Falcão Negro, que, claro, termina em briga.
Personagens que não precisam ralar muito para aprender a usar seus poderes, humor misturado com aventura e confronto entre heróis. Homem-formiga é um típico filme da Marvel.

segunda-feira, dezembro 27, 2021

A arte japonesa das cordas nos quadrinhos de Cláudio Seto

 

A revista Imaginário, do Núcleo de Arte, Mídia e Informação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual da Paraíba, publicou meu artigo "Shibari: a arte japonesa das cordas nos quadrinhos de Cláudio Seto". Para ler, clique aqui.

Hulk contra as hordas do General Fang

 


No número 5 da revista The Incredible Hulk fica claro que Stan Lee e Jack Kirby ainda não sabiam o que fazer com o personagem.

A revista trazia duas histórias, as duas com versões muito diferentes do golias esmeralda que conhecemos atualmente.

Na primeira, um tal de Tiranus foi banido ao interior da terra por Merlim e lá encontrou uma legião de seres dispostos a servi-lo de todas as formas possíveis. É curioso como o interior da Terra era movimentado nessa época e como sempre havia seres dispostos a se transformarem em escravos de qualquer um que aparecesse por lá. O Toupeira que o diga.

O Hulk dessa época era falador e sabia usar armas. 


Aparentemente, a única coisa entre Tiranus e o domínio do mundo é o arsenal atômico dos EUA e para neutralizar isso, ele pega Betty Ross como refém. Aparentemente, ele só queria conquistar os EUA, já que não se preocupava com o arsenal atômico russo. Além disso, uma única refém seria o suficiente para que o governo dos EUA entregarem o país nas mãos de alguém chamado Tiranus?

Rick Jones e Hulk vão ao seu encalço, mas o Hulk é neutralizado pelo seu amor por Betty Ross, sendo transformando em prisioneiro e até escravo. Hoje em dia isso parece no mínimo estranho.

Mas o mais espantoso é a aventura seguinte, As ordas do general Fang!

A aventura é uma nítida referência à tomada do Tibet pela China. O Lama é avisado de que o exército chinês está se aproximando, chefiado pelo impiedoso general fang e pede ajuda internacional.

Só quem vai em seu socorro é Bruce Banner.

O general Fang era fanho? 



E aí começam os problemas. Nas primeiras histórias, Banner se transformava em Hulk durante a noite. Nesta história, sem nenhuma explicação anterior, ele começa a se transformar usando um aparelho acionado pelos pés. Além disso, o Hulk que emerge é inteligente, a ponto de ler livros e fazer estratégias (a estratégia criada por ele é se disfarçar de abominável homem das neves (Ok, talvez isso não seja uma estratégia muito inteligente). Além disso, o personagem resolve viajar até o local e ao invés de se transformar novamente em Bruce Banner, faz isso como o Hulk, o que gera o maior confusão no avião, cujo final não é mostrado.

Disfarçar-se de Abominável Homens das Neves. Que ideia, genial, Hulk! 


Além disso, não havia um modo de falar característico do personagem. Na verdade, seu jeito de falar era muito parecido com o do Coisa: “Chegamos em Formosa! Vou parar um pouco para recuperar o fôlego! No próximo salto, chegaremos na China vermelha! Você ainda está aí, pivete?”.

A revista mostra que Kirby e Lee estavam tateando, tentando encontar o tom e as características do personagem. Apesar disso, o clima divertido, que não se levava muito a sério, faz com que seja ainda hoje um prazer ler a história.

Touro Ferdinando

 

Touro Ferdinando é a história de um bezerro criado para touradas, mas que, ao invés de lutas, prefere flores. Ao saber que seu pai morreu na arena, ele foge e acaba sendo adotado por uma família de floristas. Dirigido por Carlos Saldanha (de Rio), o filme tem um ritmo perfeito, alternando entre cenas de ação vertiginosa e momentos idílicos. Os personagens também são bem construídos, a começar pelo pacifista Ferdinando (cuja índole contrasta com seu tamanho enorme) até a cabra, que é usada para acalmar os touros, mas que se revela uma das personagens mais estressadas do filme. Hilária a cena em que todos acreditam que Ferdinando está enfurecido (quando na verdade ele apenas está com o chifre preso) e a cabra tenta acalmá-lo. Em tempos de ódio, é um belo filme, com uma bela mensagem, cada vez mais necessária.

domingo, dezembro 26, 2021

Leitura e escola

 

A preocupação com a leitura parece cada vez mais urgente num país como o Brasil. Há tempos não se consegue formar uma geração de leitores, mas a situação parece ter piorado. A escola, que deveria ser a grande incentivadora da leitura, está provocando dois fenômenos preocupantes: o analfabetismo funcional e a fobia de livros. 

Os analfabetos funcionais são aqueles que frequentaram a escola mas, por falta de contato com a leitura e a escrita, foram perdendo a capacidade de compreensão do mundo das palavras. Luzia de Maria, no livro Leitura e colheita, conta que realizava uma oficina de leitura quando disse que um analfabeto funcional era aquele que não conseguia entender revistas como Veja, Isto e Época, e três professoras da plateia disseram: "eu". 
A fobia de livros é perfeitamente percebida quando se ouve alguém dizer que tem dor de cabeça quando começa a ler. É como se o organismo reagisse patologicamente a uma experiência traumática. 

Certa vez, eu lecionava um curso de histórias em quadrinhos para crianças da periferia de Belém e perguntei a elas qual era a diferença entre um gibi e um livro. Eu esperava que elas apontassem a ilustração como diferença, pois é possível publicar um livro sem desenhos, mas não é possível o mesmo com uma HQ. A resposta, dada por uma menina, surpreendeu-me: "O livro é chato; história em quadrinho é divertida". 

Na cabeça dela, o livro era algo lido por obrigação puramente escolar, sem nenhum prazer ou contato com a vida.

A grande pergunta que surge é: onde a escola errou? Por que, ao invés de despertar os alunos para a magia da leitura, ela os afastou dessa mesma magia? 

Esse desvio no caminho tem sua origem na noção de leitura que acompanha a maior parte da vida escolar. Nas escolas ainda predomina a visão do livro como objeto sagrado, típica da Idade Média. Nessa época, os escritos eram encadernados em couro, com ornamentação de metais preciosos. As Bíblias que existiam nas igrejas ficavam presas por correntes. O livro era um objeto caro, raro e distante.



Com a invenção da imprensa, surge aquilo que Marshall McLuhanchamou de "Galáxia Gutenberg". É inaugurado o pensamento linear e a visão cartesiana de mundo. 

É também a época das gramáticas normativas. Esses gramáticos viam na palavra escrita o lugar de acerto, de uma linguagem correta, a linguagem dos bons doutos. A linguagem oral, ao contrário, era o lugar do erro, do caos, da inconstância. Orientados pelo pensamento cartesiano, esses gramáticos se interessaram apenas pela ordem expressa da palavra escrita. 

Na escola, essa visão separou a fala e a escrita como ações contrárias, e os textos perderam contato com a vida real. Sua utilização na sala de aula privilegiava não o entendimento, não a atribuição de significado, mas a capacidade de decodificar os signos e de identificar classes gramaticais ou sintáticas. 

Assim, alfabetizado era aquele capaz de ler um texto em voz alta, ou tirar dele os substantivos, os verbos ou identificar as construções sintáticas. Pouco interessava se a pessoa estava conseguindo atribuir significado ao que lia.

Isso não faz parte de um passado remoto. Dia desses, meu filho trouxe um dever de caso que era a "interpretação" de um texto. A tal interpretação consistia apenas em descobrir encontros vocálicos no texto. Ou seja, a narrativa era apenas uma espécie refinada de tortura, com pouquíssima utilidade prática e sem nenhum significado. 

Rubem Alves diz que tem calafrios quando sabe que um de seus textos está sendo utilizado para isso. Enquanto escreve, nenhum escritor pensa em verbos, substantivos, ditongos, hiatos ou algo do gênero. 

Certa vez utilizaram um texto meu, sobre McLuhan, em um vestibular. Fui resolver as questões relacionadas ao meu texto e errei algumas. No texto eu explicava a teoria do filósofo canadense segundo a qual o homem inventou extensões de seu próprio corpo para melhorar seu desempenho. Uma das questões perguntava o que não era extensão do corpo humano. A resposta, segundo os elaboradores da prova, era roupa, porque eu não citava o vestuário em meu texto. Entretanto, uma compreensão correta do artigo levaria a identificar que o conceito era ampliável também para as roupas, afinal, elas são uma extensão da pele. O exemplo mostra que até a interpretação de um texto pode ser transformada em um ato mecânico, de retirar informações de um conjunto de palavras, sem a necessidade de entender seus conceitos. 

A falta de sentido desses exercícios é exemplificada num fato simples: gramática nenhuma jamais transformou alguém em escritor. Escrever é um ato criativo e pensar em hiatos e ditongos enquanto se escreve é provavelmente a melhor forma de se ter um bloqueio. 


Tenho um livro infantil, Os Gatos, publicado por uma editora de Curitiba. Na época a editora estava iniciando na área de literatura infantil e chamou um gramático para revisar os originais. A revisão tornou o texto totalmente incompreensível para uma criança e a editora foi obrigada a chamar uma professora de literatura infantil para refazer a revisão. Para o gramático, era mais importante que o livro fosse escrito nos moldes renascentistas da gramática normativa. Se haveria compreensão por parte da criança, pouco importava. 

Só existe uma maneira de tomar gosto pela leitura: lendo. Só existe uma forma de aprender a escrever bem: escrevendo. Nunca conheci um grande autor que não fosse um leitor voraz e um escritor compulsivo. 

Enquanto o texto for encarado apenas pelos seus aspectos gramaticais, enquanto a interpretação for a simples decodificação, sem a possibilidade de variedade de leituras ou de interpretação, a escola será sempre a criadora de analfabetos funcionais e de pessoas que têm dor de cabeça à simples visão de um livro.

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. Para ler, clique aqui.

Mulher-Maravilha – corporação da vilania

 


Entre todos os personagens surgidos na DC na Era de Ouro, a Mulher Maravilha se destacou tanto que se tornou popular até hoje, formando, junto com o Superman e Batman, a tríade da DC.
E não sem razão. Suas histórias da década de 1940 eram extremamente inventivas e originais, fruto direto da mente genial de William Moulton Marston. Exemplo disso é a saga conhecida como Corporação vilania, publicada em Wonder Woman 28, no ano de 1948.
Na história, Maligna, uma das mulheres saturninas que tentaram invadir a terra consegue não só se libertar, mas também libertar vários dos vilões da série,como Giganta, Rainha Cléa, O Homem azul das neves, Zara e Mulher Leopardo,  formando a tal Corporação Vilania.
Moulton não só criou a personagem Mulher Maravilha, mas criou toda uma rica mitologia ligada à ela. Exemplo disso são os cinturões de Vênus, mecanismos que removem da pessoa todo o desejo de fazer o mal e a faz obedecer a uma autoridade benigna. Outro é a máquina da evolução do Dr. Zool, capaz, por exemplo, de transformar uma gorila em mulher (que irá se tornar Giganta, uma das opositoras da Mulher Maraviha) ou involuir humanos para macacos (claro que essa é uma visão bastante equivocada da teoria da evolução, mas ainda assim, criativa).

A primeira coisa que salta aos olhos é a profusão de cordas e correntes que aparecem na história. Se dois personagens se encontram, a chance de que um deles saia amarrado é enorme.
Para a Era de Ouro, em que os roteiros eram geralmente infantilizados, as reviravoltas e subtextos da história estão muito à frente de seu tempo, assim como as splash pages a cada doze páginas, que marcam o início dos capítulos da história.
Sobre as reviravoltas, são muitas: As rebeldes conseguem dominar a ilha da transformação, sequestrar Hipólita, dominar todas as amazonas, incluindo a própria Mulher Maravilha, mas acabam sendo derrotadas pelas próprias saturnianas que haviam sido regeneradas pelo cinturão de Vênus.
Mas Zara, hipnota e Giganta fogem com o tesouro das amazonas e planejam comprar um submarino para fugir. Para isso criam um culto ao Deus da Chama, que seduz garotas e forçam a Mulher Maravilha a roubar um submarino para elas.
A experiência de Moulton como roteirista de cinema fez com que ele soubesse equilibar bem os elementos e conseguir fazer com que o leitor pensasse que a heroína estava finalmente derrotada, até apresentar uma reviravolta no roteiro. E ele faz isso mais de uma vez na mesma história!
Uma curiosidade é que a personagem nem de longe parecia tão forte e poderosa quanto é atualmente e seu laço, além de forçar a pessoa presa a falar a verdade, ainda a obrigava a obecer a quem o empunhava.
Aqui no Brasil essa aventura foi publicada na coleção DC 70 anos, da Panini.

Roberto Carlos - O divã

 

Na década de 1970, antes de ser substituído pelo clone, Roberto Carlos, em parceria com o amigo Erasmo Carlos, produzia músicas com letras extremamente profundas e psicológicas, que merecem ficar figurar em qualquer lista das melhores da MPB. Entre elas uma música sobre o acidente que o fez perder uma perna, hoje um tema tabu para ele – tanto que essa música foi simplesmente eliminada dos shows.
A genialidade da música, gravada no álbum de 1972, começa pela abordagem: o cantor está deitado no divã, contando a história para o psicólogo. Começa falando de sua infância. O clima, embora nostálgico, é depressivo:
Relembro a casa com varanda
Muitas flores na janela
Minha mãe lá dentro dela
Me dizia num sorriso
Mas na lágrima um aviso
Pra que eu tivesse cuidado
Na partida pro futuro
Eu ainda era puro
Mas num beijo disse adeus.
Minha casa era modesta mas
eu estava seguro
Não tinha medo de nada
Não tinha medo de escuro
Não temia trovoada
Meus irmãos à minha volta
E meu pai sempre de volta
Trazia o suor no rosto
Nenhum dinheiro no bolso
Mas trazia esperança.
Roberto, ainda criança, perdeu a perna ao ser atropelado por um trem durante uma festa em sua cidade, Cachoeiro do Itapemirim. Sua narrativa do fato, embora curta, é pungente. Ele narra isso através de fragmentos de pequenas cenas: a festa, o apito do trem, o homem que o socorre, o terno de linho branco usado por ele, agora sujo de sangue, tudo isso misturado aos seus próprios pensamentos:
Relembro bem a festa, o apito
E na multidão um grito
O sangue no linho branco
A paz de quem carregava
Em seus braços quem chorava
E no céu ainda olhava
E encontrava esperança
De um dia tão distante
Pelo menos por instantes
encontrar a paz sonhada.
A narrativa volta para o consultório e fica patente a relação conflituosa entre o cantor e o psicólogo e até mesmo o conflito interno do autor, que, se por um lado, diz que o problema é superado, por outro, afirma que essas recordações o matam – sinal de que não, ele não superou o trauma:
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Por isso eu venho aqui.
Eu venho aqui me deito e falo
Pra você que só escuta
Não entende a minha luta
Afinal, de que me queixo
São problemas superados
Mas o meu passado vive
Em tudo que eu faço agora
Ele está no meu presente
Mas eu apenas desabafo
Confusões da minha mente.
Difícil imaginar o Roberto Carlos de hoje, que tenta censurar biógrafos, se mostrando de forma tão aberta em uma música ou mesmo escrevendo sobre um momento tão dramático. A impressão que dá é que o Divã foi uma música que, inexplicavelmente, passou pela censura do próprio Roberto Carlos.  
Uma curiosidade é que essa se tornou uma das músicas mais obscuras do rei, sendo mais lembrada por ter servido de inspiração para o nome de um jogador de futebol. Sim, a mãe do Odivan era fã do Roberto, mas duvido que ela tenha entendido a letra.

Para ouvir a música, clique aqui

Clássicos revisitados – cinema & HQ

 


Clássicos revisitados é uma das coleções de quadrinhos mais interessantes já lançadas no Brasil. Publicada pela editora Quadrinhóle, ela propõe um desafio aos roteiristas: misturar temas distintos nas história.
A primeira edição misturava contos infantis e histórias de máfia.
No volume 5, lançado em 2018, a ideia era misturar clássicos dos quadrinhos com clássicos do cinema. Eu participei com três histórias.
Uma delas me deixou muito feliz por ter sido desenhada pelo grande Bira Dantas, um quadrinistas que admiro há décadas, com um fantástico traço de humor e com o qual sempre quis trabalhar.

O desafio era unir Os sobrinhos do Capitão com o filme Juventude transviada. Para que o roteiro funcionasse, tive que acrescentar mais um item à salada: o filme Curtindo a vida adoidado, clássico absoluto do cinema teen da década de 1980. Há várias outras referências, inclusive à série espanhola Mortandelo e Salaminho e à clássica personagem Betty Boop.
Na história um capitão de policia tenta pegar os protagonistas em fragrante enquanto eles realizam suas traquinagens, mas sempre se dá mal. É uma típica comédia de repetição, em que a mesma situação ocorre  diversas vezes, em contextos diversos.

Outra história para o volume era a junção do clássicos dos quadrinhos nacionais garra cinzenta com o clássico do cinema expressionista O gabinete do doutor caligari. Desenhada por Gabriel Lucas, a trama interliga as duas histórias através do depoimento do chefe de polícia que investigou o caso Garra Cinzenta, o vilão que avisa a polícia de seus crimes antes que eles acontecessem. O final, como no filme expressionista, apresenta reviravolta.

Era para ser apenas essas duas colaborações, mas um dos artistas deixou de entregar uma história e aí entrou em ação a dupla que resolve tudo nos 45 minutos do segundo tempo: Gian Danton e Biribinha. O desafio era unir Yellow Kids com Gremlins. O resultado foi uma sátira do mundo das redes virtuais, com um protagonista que acredita em tudo que vê no zap zap e é aconselhado por um chinês a comprar algo para proteger sua família.
Clássicos revistados 5 está à venda na loja da Quadrinhópole https://quadrinhopole.com/loja/