sábado, outubro 29, 2022

A belíssima arte de Ivo Milazzo

 

Ivo Milazzo se tornou mundialmente famoso ao desenhar a história em quadrinhos Ken Parker, com roteiro de Giancarlo Berardi. Ken Parker se destacou ao trazer o humanismo para os quadrinhos de faroeste, com tramas que giravam principalmente em torno dos personagens do período, com uma visão impressionista. O desenho de Milazzo se encaixaram perfeitamente na proposta. Seu traço limpo, quase minimalista era absolutamente perfeito para as histórias diferenciadas do personagem. Nas artes das capas, Milazzo se destacava pelas belíssimas aquarelas. Confira o belíssimo trabalho desse artista.













Palmeira e Biá - Disco voador - 1955

Um erro de pronome

 

Muitos alunos dão pouca importância ao estudo da Língua Portuguesa. De certa forma, é até compreensível. As atenções estão voltadas para as disciplinas específicas do curso. Entretanto, ignorar o estudo da língua portuguesa pode acabar se tornando um erro fatal.
    Muitos especialistas consideram a nossa época a era da comunicação. Assim, quem não sabe se comunicar corretamente, fica de fora  de sintonia com o mundo e tem menos chances de conseguir um bom emprego. Uma ficha preenchida com erros de português certamente  não ajuda a conseguir um bom emprego.
    E, vejam bem, expressar-se bem não significa apenas escrever corretamente, de acordo com a gramática. Significa também dar fluência ao texto, torná-lo agradável e objetivo. Um relatório claro, sem erros ortográficos ou de pontuação, com frases curtas, tem mais chances de ser lido. 
    Entretanto, um bom conhecimento de nossa língua pode acabar influenciado até em nossa vida amorosa. É o que mostra o escritor Monteiro Lobato no conto “O Colocador de Pronomes” do livro Negrinha.
    A história se passa em uma cidadezinha do interior. Havia ali um pobre moço que definhava de tédio no fundo do cartório. Era escrevente, mas gostava de ler e, pior, de escrever versos lacrimogêneos. 
    Tudo ia na santa paz até que o moço se apaixonou pela filha mais moça do Coronel da cidade, a Laurinda, linda flor de 17 anos.  A filha mais velha, Do Carmo, era o encalhe da família. Já velha para casar, não conseguia bom ou mau partido. Também, pudera: era vesga, histérica, manca de uma perna e meio aluada. Se a mais nova era o ideal de beleza, a outra era feia até não poder mais.
    Pois se apaixonou o pobre rapaz e, para extrema infelicidade, escreveu um bilhetinho à amada: “Anjo adorado. Amo-lhe”. 
    O Coronel, entretanto, interceptou o bilhetinho e chamou o seu autor:
-    É seu? – disse, estendendo o papel para o rapaz.
-   É... – gaguejou o rapaz.
-    Pois agora... – ameaçou o vingativo pai... é casar!
O moço, que já se imaginava morto, ressuscitou. Casar com a filha do Coronel! A moça mais bonita de Itaoca!
O Coronel gritou lá para dentro:
- Do Carmo! Vem abraçar o seu noivo!
O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro. O bilhete fora escrito para Laurinda...
- Sei onde trago o nariz, moço. – esbravejou o Coronel. Você mandou o bilhete à Laurinda dizendo que ama-lhe. Se amasse a ela, teria dito “amo-te”. Dizendo “amo-lhe”, declara que ama uma terceira pessoa, no caso a Do Carmo. 
E, pacientemente, o velho explicou que os pronomes se dividem em três: de primeira pessoa, quem fala; de segunda pessoa, a quem se fala, e de terceira pessoa, de quem se fala. E o lhe é pronome de terceira pessoa. 
Portanto, nada de dizer “amo-lhe” ou “convido-lhe”. Expressões com essas demonstram que se ama ou se está convidado uma terceira pessoa.
Quanto ao moço? Casou-se mesmo com a megera. Tudo por causa de um pronome...

Monstro do Pântano – lição de anatomia

 


Em 1984 Len Wein contratou o desconhecido escritor britânico Alan Moore para assumir o personagem Monstro do Pântano, que ele havia criado na década de 1970. O título estava ladeira abaixo e provavelmente seria cancelado, portanto o risco era pequeno para a DC Comics.

Alan Moore iniciou no título em Swamp Thing 20, terminando um arco de outro roteirista. A primeira história com a sua versão do personagem seria publicada no número 21. Intitulada “Lição de anatomia” e com desenhos de Stephen Bissette e John Totleben, a história revolucionou os quadrinhos de terror e mudou para sempre o mercado de quadrinhos.



O leitor percebia que estava diante de algo diferente desde a primeira página. Nela Jason Woodrue, o Homem florônico, está na janela de seu apartamento pensando nos acontecimentos que o levaram a conhecer o Monstro do Pântano. Ele pensa no velho que o contratou para dissecar a criatura e descobrir como a fórmula biorestauradora conseguiu transformar um homem normal no poderoso Monstro do Pântano: “Ele vai bater no vidro. Se não agora, daqui a pouco. De qualquer forma, vai bater, e... será que vai haver sangue? Torço para que haja. Muito sangue. Um volume formidável de sangue”. E o desenho mostra o velho de fato batendo no vidro do laboratório) que se confunde com o vidro do apartamento, com a água da chuva escorrendo como se fosse sangue. O título vinha logo abaixo, ocupando um terço da página e era uma referência direta ao cartaz do filme Anatomia de um crime, de Otto Preminger, com o texto vindo sobre partes de um corpo.

Nas histórias anteriores, o Monstro do Pântano havia sido morto a tiros pela Corporação Sunderland e seu corpo mantindo congelado. O “velho” Sunderland quer que Woodrue disseque o cadáver para descobrir seus segredos.

Mas parece tudo parece inverossímil: embora o monstro tenha coração, pulmão e até cérebro, nada disso parece ter função real. Além disso, a fórmula biorestauradora havia sido produzida para plantas e não deveria ser capaz de afetar tecido humano. “Era mais do que se poderia esperar que uma mente humana desvendasse”, diz o Homem-florônico “Em seis semanas achei a resposta”.

A resposta estava diretamente relacionada com as planárias, vermes que tinham a característica de ser renegerar quando cortadas. Cientistas ensinaram uma planária a percorrer um labirinto e depois a cortaram em pedaços e deram para outras comerem... e as canibais aprenderam a percorrer o labirinto (a experiência é real).

E era isso que tinha acontecido com Alec Holland. Quando seu laboratório explodira, ele mergulhara no pântano e fora devorado pelos micro-organismos do local, alterados pela fórmula biorestauradora. Essas plantas assimilaram a personalidade e a inteligência  de Holland e de posse dessas informações, simularam um corpo humano usando o material vegetal disponível. O Monstro do Pântano, que em todas as histórias anteriores tinha como principal motivação o desejo de voltar a ser humano, era na verdade uma planta que se esforçou ao máximo para parecer um ser humano. A implicação óbvia disso é que não se pode matar uma planta atirando nela.

Moore constrói a trama com maestria, dando um toque de suspense à história e, ao mesmo tempo, construindo a base do que viria a fazer com o personagem, inclusive modificando sua aparência para algo mais vegetal. Stephen Bissette e John Totleben foram primorosos no desenho, com a diagramação nada convencional, com quadrinhos distorcidos, imagens que vazam pela página um traço sujo, repleto de hachuras, perfeitos para uma história de terror.

A menina que matou os pais/O menino que matou meus pais

 



Os filmes A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais apresentam uma experiência cinematográfica instigante: contam a mesma história de dois pontos de vista completamente diferentes.

Escritos por Ilana Casoy e Raphael Montes, os filmes contam as versões de Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos para a morte dos pais de Suzane, baseados nos depoimentos dois dois réus.

Embora narrem essencialmente os mesmos fatos, tornam-se filmes muito diferentes.

Uma das cenas emblemáticas é a primeira relação sexual do casal.

Na versão de Suzane, ela era virgem, foi apresentada às drogas na ocasião e teve uma relação não totalmente consentida. Na versão de Daniel, Suzane lhe apresentou às drogas e comandou toda a relação. Roteiro, direção e atuação se juntam para fazer duas cenas com o mesmo fato, mas totalmente diversas.

Os filmes ganham muito com a ótima atuação de Carla Diaz. O fato dela ser pequena ajuda a compor a versão de Suzane, na qual ela era apenas uma criança manipulada pelo namorado ganancioso para matar os pais. E, curiosamente, a mesma atriz consegue compor uma mulher fatal, fria e mergulhada nas drogas, na versão de Daniel.

O grande desafio dos filmes é tentar identificar o que é verdade e o que é mentira em cada uma das versões, pois é uma obra na qual sabemos que um dos dois – ou, muito provavelmente os dois – está mentindo.  

A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais estão disponível na plataforma Amazon Video.

Jornada nas estrelas – O Dia da paz



Embora teoricamente a Enterprise tenha uma hierarquia militar, Jornada nas Estrelas é um seriado eminemente pacifista. Nenhum episódio deixou isso tão claro quanto O dia da paz, da terceira temporada.

Escrito por Jerome Bixby, o episódio mostra a Enterprise atendendo a um pedido de socorro de uma colônia terrestre. Mas quando chega lá, não há sequer vestígio da colônia. Nesse entremeio, uma nave klingon chega ao local também atendendo a um pedido de socorro e é destruída. Apenas o capitão e alguns homens sobrevivem e passam a culpar os humanos pelo ataque.

Levados para a nave, como prisioneiros, os klingons conseguem escapar quando os feisers da tripulação humana é transformada em espadas. A partir desse ponto instala-se uma guerra nas dependências da nave.

Por trás disso está um alienígena que se alimenta de situações de ódio e violência.

Para evitar que a nave seja destruída, Kirk precisa convencer o comandante klingon, Kang, de que as hostilidades devem cessar.

O episódio é repleto de fala emblemáticas de Kirk, entre elas: “Para o resto de nossas vidas, mil existências, numa luta sem sentido, enquanto um alienígena tem total controle sobre nós. O bom e velho jogo de guerra, peão contra peão, enquanto em algum lugar, uma coisa fica observando, rindo e começa tudo outra vez”. A fala, critica a guerra ao mostrar que os que que lutam são fantoches enquanto que os que lucram com a guerra se divertem e não correm nenhum risco.

O dia da paz faz o que Jornada faz de melhor: transformar um mote de ficção científica numa metáfora de nosso mundo.  

sexta-feira, outubro 28, 2022

Fundo do baú - Corrida Maluca

 


Corrida Maluca é uma série animada produzida pelo estúdio Hanna-barbera entre 1969 e 1968 num total de 34 episódios.

O que pouca gente sabe é que essa série é baseada num filme, A corrida do século, de 1965, dirigido por Blake Edwards. O filme acompanhava o egocêntrico O grande Leslie, que propõe aos construtores de veículos na virada do século XIX para o século XX uma corrida de Nova York a Paris, cruzando o estreito de Bering. Mas o bigodudo e diabólico Professor Fate está disposto a derrotar o galã usando de todos os meios sórdidos possíveis.

Entre os competidores estava Maggie DuBois, uma linda jornalista que luta esgrima e está muito à frente de seu tempo.

Corrida Maluca aproveita diretamente esses personagens. O Grande Leslie transformou-se em Peter Pefeito. O Professor Fate tornou-se o Dick Vigarista. O fiel escudeiro do professor Fate, Max Meen, deu origem ao cachorro Muttley, um cachorro louco por medalhas.

Já Maggie DuBois deu origem à mais carismática personagem da animação, Penélope Charmosa.

A trama de Corrida Maluca trata de várias corridas com os carros mais bizarros possíveis (incluindo um carro de pedra, pilotado por homens da caverna, um carro mal-assombrado e um carro pilotado por simpáticos gangesteres).

Em todas as competições, Dick Vigarista parece mais interessado em criar armadilhas para os outros competidores (que sempre dão errado) do que de fato ganhar a corrida. De fato, na maioria dos episódios ele está liderando por uma grande vantagem quando para no meio do caminho para montar uma das suas muitas armadilhas. Invariavelmente isso fazia com que ele terminasse em último lugar.

O sucesso da série fez com que o estúdio criasse duas outras animações derivadas, Os apuros de Penélope, focado na Penélope Charmosa e Dick Vigarista e Muttley. O primeiro mostrava Penélope como herdeira de uma grande fortuna sendo perseguida pelo vilão Tião Gavião e contando com o apoio da Quadrilha da Morte para protegê-la. O segundo mostrava Dick Vigarista perseguindo o pombo-correio Doodle, que levava mensagens para os aliados durante a I Guerra Mundial. 

Cobra Kai

 

Lançado em 1984, Karatê Kid foi um fenômeno e renovou um gênero, trazendo um novo olhar para filmes de luta. Na história, um garoto, Daniel Larusso se muda para uma nova cidade e se torna vítima dos valentões locais. Para aprender a se defender, ele convence um mestre japonês, o senhor Miyagi, a ensiná-lo karatê. O método de Miyagi é totalmente não convencional, como por exemplo coloca-lo para polir o carro, o que introduzia humor na história. Além disso, o mestre constantemente trazia filosofia oriental para as suas lições e ensinava que o karatê só pode ser usado para se defender.

Era uma quebra com com o que se via até então. O protagonista era um perdedor. A violência era vista como algo negativo e era mostrada a filosofia por trás das artes marciais.

Mais de 30 anos depois, os personagens e atores originais voltam em uma nova história, o seriado Cobra Kai, da Netflix. E, surpreendentemente, o seriado acrescenta camadas a mais na mitologia, mostrando principalmente que nem tudo é preto e branco, bom e mau (o que, aliás, reflete a filosofia taoista).

Na história, o valentão Johnny Lawrence virou um fracassado bêbado, que não consegue parar no emprego e vive de empréstimos de seu padastro. Já Daniel Larusso tornou-se um rico revendedor de carros. Curiosamente, aqui será Lawrence que exercerá o papel de mestre (que no filme original era a função do senhor Miyagi) ao ensinar karatê para um rapaz que é vítima de bullying. A experiência faz com que ele retome o Cobra Kai, a academia dos valentões dos filmes.

Nessa linha de explorar as complexidades dos personagens, ocorre uma curiosa inversão: em alguns momentos, Lawrence parece um herói, enquanto Larusso age como vilão. No fundo, entratanto, os dois são bem-intencionados e pretendem usar o karatê para ajudar seus alunos, cada um a seu modo. Há um episódio em que cada um deles, Lawrence e Larusso estão ensinando seus pupilos, e os métodos são completamente diferentes, mas ambos conseguem os resultados desejados.

É interessante também ver a versão de Johnny sobre os fatos que são mostrados em Karatê Kid. Na sua visão, Daniel era o vilão.

Tudo isso entremeado com flash backs dos filmes da década de 80 entremeados com temas atuais, como o ciberbuyilling e um elenco que convence.

Cobra Kai é uma bela surpresa.

O rei de porcelana

 


O rei de porcelana, série coreana dirigida por Song Hyun-wook, parte de uma situação real: antigamente, em países como Coréia e Japão, o nascimento de gêmeos era visto como mau agouro. Se fosse na nobreza então, a situação era ainda pior.

A história começa com o nascimento do filho do príncipe herdeiro. Quando se descobre que se trata de uma casal de gêmeos, o desespero toma conta de todos. Quem aceitaria ser governado por um homem que dividiu o útero com uma mulher? Assim, o rei decide por matar a menina e esconder a história, matando todos os criados que de alguma forma participaram do parto.

Mas a princesa não quer ver sua filha morrer e convence o médico real a usar acumputura para simular a morte da menina, que depois é levada para local desconhecido.

Anos depois, essa menina reaparece no palácio, como uma dama de companhia e o príncipe, percebendo a semelhança entre ambos, começa a trocar de lugar com ela. Numa dessas trocas, ele acaba sendo morto e quem assume seu lugar é a irmã gêmea. A situação, entretanto, é extremamente perigosa: se um dia descobrirem a troca, todos os envolvidos podem ser mortos.

Esse mote cria a espinha dorsal de uma trama viciante, que envolve romance (a princesa, disfarçada de príncipe, apaixona-se por seu preceptor), aventura, suspense, humor e cenas de ação.

Esse talvez seja o aspecto mais interessante desse dorama (ou, o que seria mais apropriado dizer, k-drama): é uma história de amor misturada com tramas palacianas.

A direção traz algo inusitado para os ocidentais: o uso das mãos como elemento dramático. Em diversas cenas são usados planos detalhes das mãos dos personagens para demonstrar seu estado de espírito (raiva, paixão, medo) ou suas intenções.

Também vale destacar a boa escolha do elenco. Park Eun-bin, que faz o papel principal é extremamente expressiva. Embora visualmente não seja nada parecida com um homem, consegue entregar uma atuação muito diferente de quando não está como mulher. O astro K-pop Rowoon, que faz seu par romântico destaca-se por trazer alívio cômico para diversas cenas.

O rei de porcelana irá agradar diversos públicos e não só quem se interessa por histórias românticas, mas um aviso: cada capítulo tem aproximadamente uma hora e são vinte capítulos. Ou seja, é  necessário um grande comprometimento de tempo para assistir.

O Guerreiro, de Mike Grell

 

 


Na década de 1960, Conan se transformou numa febre. A adaptação da Marvel da obra de Robert E. Howard não só vendia muito, como gerou outras séries igualmente populares, como Sonja e Kull.

Enquanto isso, a DC comia poeira. A única série da distinta concorrente no estilo espada e magia que chegou a fazer sucesso foi o personagem Guerreiro (Warlord), de Mike Grell, publicado pela primeira vez em 1976.

A primeira história mostrava um aviador norte-americano, Travis Morgan, que, ao sobrevoar o polo norte e de repente se vê numa terra totalmente ensolarada e desconhecida, Skartaris.

Já na sua chegada ele se depara com uma mulher sendo atacada por um dinossauro que será seu interesse romântico durante toda a saga. Já nessa primeira história eles conhecem Deimos, o mago da cidade de Thera que com o tempo se tornará um dos grandes vilões da série. Aparentemente essa terra, na qual o sol jamais se punha, se encontrava no centro oco da terra e era aquecido por uma bola de gases (posteriormente o autor decidiu que o personagem tinha, na verdade, ido para outra dimensão).  



Com esse enredo, Grell fazia uma bela salada: misturava espada e magia com ficção científica, teorias da conspiração e... dinossauros! Por incrível que pareça, essa mistureba funcionou, fazendo com que o título chegasse a ser o mais vendido da DC por um período e sendo publicado por mais de uma década, perfazendo 133 edições, fora seis edições anuais.

Grell tinha o péssimo defeito de abusar do deus ex machina nas primeiras edições. Quando o personagem estava para ser morto, aparecia algo que o salvava, mas com o tempo isso foi reduzido. Além disso, Grell manejava bem a narrativa gráfica e foi melhorando cada vez mais seu desenho, tornando as histórias do personagem visualmente empolgantes. As páginas duplas da série, com uma imagem de ação espetacular, se tornaram célebres e destacavam a revista de outras publicações.

No Brasil, O Guerreiro foi publicado pela editora Ebal em revista própria e pela editora Abril na Heróis em Ação e depois na Superamigos.

Homem-aranha – a saga original do clone

 


A saga do clone é um dos momentos mais controversos da história do aracnídeo. Arrastada, complicada, quase incompreensível, era um ótimo exemplo do que de pior a Marvel produziu na década de 1990. Entretanto, ela é baseada em uma ótima HQ, publicada aqui pela editora Salvat na coleção definitiva do Homem-aranha.
Escrita por Gerry Conway e desenhada por Ross Andru, uma das melhores duplas já reunidas no título do Aranha, a saga surgiu para resolver um problema: Gwen Stacy, a namorada do herói, havia morrido em um dos momentos mais dramáticos dos quadrinhos de todos os tempos. Mas Stan Lee, que não tinha sido consultado, não gostou. E exigiu que a equipe trouxesse a personagem de volta. Hoje em dia é comum um herói morrer de manhã e aparecer à tarde tomando café, mas naquela época, na Marvel, quando alguém morria, morria mesmo. Trazer de volta alguém que havia batido as botas era considerado uma quebra do pacto de verossimilhança.
Então, a solução foi trazer Gwen de volta na forma de um clone.
A solução poderia parecer forçada nas mãos de uma equipe menos habilidosa. Mas Conway e Andru transformaram isso num verdadeiro clássico dos quadrinhos, a começar por todo o suspense. O clone é apresentado aos poucos, deixando o leitor indeciso sobre o que está vendo.
O álbum da Salvat inicia com uma edição anterior, Spiderman 129, que apresenta o personagem Chacal. Depois pula para uma história em que Peter Parker viaja para Paris e enfrenta um vilão chamado Ciclone. Geralmente essa história em duas partes é pulada e não sem razão: é um ponto fora da curva, com um vilão ridículo, que o aracnídeo derrota usando um ventilador!
Mas na edição seguinte, vemos a dupla Conway-Andruu no seu melhor, a começar pela splash page na qual Peter Parker, ao ver Gwen, acha que enlouqueceu.

Andru é um especialista na figura humana e sua composição é perfeita, com Peter Parker no centro, sentado no degrau da escada, os olhos vidrados, em posição fetal, sendo atormentado pela figura espectral do Homem-aranha, que lhe diz coisas como: “Finalmente aconteceu, não é? Depois de todos esses anos, depois de todas essas batalhas que lutou sendo eu... você finalmente surtou”. E, ao fundo, Gwen Stacy estática, como um fantasma assombrando Parker.
O texto de Conway é fluído, parecendo ter sido escrito de maneira automática, e explora bem tanto a ação quanto os aspectos psicológicos do personagem. E a arte de Andru contribui para ainda mais para isso.
É interessante notar, por exemplo, porque Conway gostava mais de Mary Jane: Gwen Stacy parece uma garota dos anos 1960, enquanto Mary Jane é uma descolada garota dos anos 1970. Essa diferença entre elas fica nítida tanto nas roupas que usam quanto na personalidade.
Lendo esse álbum percebemos porque a revista do aracnídeo se tornou a mais vendida da Marvel. Pena que essa obra-prima tenha dado a origem a um dos momentos mais constrangedores da história do Homem-aranha de todos os tempos. 

Características da informação

 


 

A informação tem como característica a possibilidade de ser transportada, armazenada e traduzida.

Na maioria das vezes em que estabelecemos uma comunicação, estamos transportando informação (Há certa controvérsia sobre isso. Alguns autores dizem que a informação não é uma propriedade da mensagem e, portanto, pode haver mensagens sem informação. É o que acontece, por exemplo quando usamos a função fática da linguagem, cujo objetivo é testar o canal, como quando, por exemplo, indagamos; “Você está ouvindo?”).
              O transporte da informação pressupõe a existência de um canal.
              Imaginemos uma situação. Sei que a mãe de um amigo morreu e devo informá-lo do acontecido. Posso procurá-lo e repassar diretamente a ele a mensagem.  Nesse caso, a informação foi transportada através de ondas sonoras. Posso, no entanto, utilizar outros canais. Posso telefonar, ou mandar um e-mail ou uma carta.
              Cada canal tem o seu custo de transmissão de mensagem. Em alguns, o custo é maior, em outros, menor (isso inclusive é verificável em termos financeiros. Se a ligação for para um telefone comum custará menos que uma ligação para um celular). O custo do canal se relaciona muito com a vulnerabilidade do mesmo aos ruídos.
              A informação também pode ser armazenada. Antigamente, a única forma de armazenar a informação era guardá-la em nossa mente. Com a invenção da escrita, foi possível armazenar as informações em livros. Criou-se a memória externa, o grande passo da humanidade na direção da evolução tecnológica, pois as novas gerações estavam dispensadas de lembrar todos os conhecimentos das gerações anteriores e podiam utilizar sua capacidade mental para criar coisas novas.
              Por fim, a informação pode ser traduzida.
              Ao transportar a informação, utilizamos um código para que a mesma possa ser compreendida pelo receptor.
O processo de tradução da informação é muito óbvio quando se trata de transferir uma mensagem de uma língua para outra (um texto do inglês para o português, por exemplo), mas utilizamos a tradução da informação em diversas situações de nosso cotidiano.
Quando dizemos “A casa está pegando fogo”, estamos traduzindo a informação visual para o código lingüístico.

Por outro lado, a pessoa, quando recebe a informação, a decodifica, a frase “A casa está pegando fogo”, transforma-se, em sua mente, na visualização da casa em chamas.  Esse fenômeno é bem explicado pela semiótica. 

quinta-feira, outubro 27, 2022

Introdução à metodologia científica

 

Escrito em linguagem clara e simples, este livro explica os principais conceitos da metodologia e do texto científico. Atualizado de acordo com a NBR 6023:2018. Valor: 32 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

O Capitão Gralha

 

Em meados da década de 1940 surgiu nas bancas de Curitiba o que talvez seja o primeiro super-herói brasileiro. Criado por Francisco Iwerten e usando um bigodinho característico, asas e camisa gola polo, o Capitão Gralha foi esquecido e redescoberto, marcando para sempre os quadrinhos nacionais.
O super-herói surgiu após uma viagem aos EUA. Em plena II Guerra Mundial, os americanos temiam que o Brasil se aliasse ao Eixo e iniciaram a politica de boa-vizinhança, que tinha como objetivo estreitar as relações dos Estados Unidos com os países vizinhos. Assim, artistas viajaram para o Brasil, a exemplo de Disney e Orson Welles, e brasileiros foram levados a conhecer a terra de Tio Sam, a exemplo de Érico Veríssimo.
Mas os americanos queriam alguém ligado aos quadrinhos,  já que as histórias em quadrinhos estavam tendo papel fundamental na propaganda de guerra (a maioria dos heróis dos gibis se engajaram na guerra, a exemplo do Capitão América, que aparecia socando Hitler na capa de seu primeiro gibi).
O escolhido acabou sendo Francisco Iwerten especialmente por conta de sua história familiar. Ele fugira da Alemanha nazista ainda criança e fora adotado por um casal de tios, em Curitiba.
Iwerten ficou maravilhado com o sucesso dos quadrinhos de super-heróis e mais ainda ao conhecer o estúdio de Bob Kane, que seria para sempre seu modelo a ser seguido. Ele decidira que o Brasil também teria seu herói!
O personagem foi criado na viagem de volta e foi de uma versão inicial que lembrava o herói mitológico Ícaro à ficção científica. Também surgiu uma curiosa galeria de vilões capitaneada pelo Dr. Destruição, um maníaco fascinado pela letra D, que falava apenas usando palavras iniciadas por essa letra.
Apesar de um sucesso mediano no começo, a revista foi diminuindo suas vendas até ser cancelada. Iwerten passou a publicá-la então num esquema alternativo, com baixas tiragens e acabou gastando todo o dinheiro da herança com isso. Morreu pobre, desconhecido e os montes e gibis que lotavam sua casa foram queimados.
Essa é a história que foi resgatada na revista Metal Pesado Curitiba, em 1997, por um grupo de quadrinistas curitibanos. Num texto inicial, explicava-se que o personagem O Gralha era uma releitura e homenagem ao Capitão Gralha.
A partir daí o quadrinista e seu herói foram redescobertos, surgiram artigos em jornais, revistas, Iwerten ganhou prêmio e quase foi tema de escola de samba.
Em 2015, os criadores do Gralha vieram a público revelar a verdade: Iwerten nunca existira. Ele seu herói haviam sido criados para promover e dar um passado célebre para o personagem O Gralha. Para alguém que não existia de fato, Francisco Iwerten se tornou bastante célebre.

Ópera de sabão, de Marcos Rey

 

Em 1954, após uma crise política gigantesca provocada por um atentado ao jornalista Carlos Lacerda, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se. O ato provocou uma grande comoção nacional e fez reascender a chama do getulismo. Marcos Rey situa a ação de seu romance Ópera de Sabão, escrito em 1980, nos três dias após a morte do presidente.
A ação é centrada em uma família de origem italiana, os Manfredi. O pai, ao saber da morte de Getúlio, fecha a transportadora e sai armado de um revólver, disposto a matar Carlos Lacerda, mas na verdade, acaba se encontrando e vivendo dias idílicos e sexuais com uma professora de piano.
A situação mostra bem a ótica do livro: uma mistura de história do Brasil com dramalhão e comédia. Marcos Rey foi redator do rádio e coloca sua experiência no meio a serviço da história, a começar pelo título, Opera de sabão, uma referência direta às soap operas, melodramas radiofônicos quase sempre patrocinados por marcas de sabonete, daí o nome.
Os personagens são impagáveis. Hilda, a esposa, transforma-se na Madame Zohra, conselheira radiofônica cujo programa já foi uma das maiores audiências da agora decandente Rádio Ipiranga. Como Madame Zohra, Hilda é porta voz de uma rigorosa campanha contra o aborto, mas se vê em uma cinuca ética quando seu filho engravida uma menina e esta, sem saber, envia-lhe uma carta pedindo conselhos.
O filho mais velho chama-se Benito, homenagem a Mussoline de quando o pai era fascista. O mais novo, Lenini. “Quando Leinie nasceu, meu pai era comunista”, explica a outra filha do casal, Adriana, à certa altura da história. “E não é mais?” “Não, agora está nos transportes”. Uma sequência que exemplifica o humor afinado de Marcos Rey.
O autor, que foi roteirista de rádio, televisão e cinema, constrói sua mistura de melodrama com comédia de erros como se fosse um roteiro de rádio, a começar pela abertura:
SPEAKER1 – No ar...
SPEAKER2 – sob o alto patrocínio do sabão minerva...
SPEAKER1 - ... a Rádio Ipiranga, PRG-10, 2000 quilociclos, canal exclusivo, apresenta...
TÉCNICA – Sobe o prefixo (La vie em Rose). Cai em bg.
SPEAKER2 - ... sonhos de juventude!
SPEAKER1 – Radionovela de Marcos Rey
Isso soma ao livro mais um aspecto, o metalinguísticos. Há momentos, por exemplo, em que o autor comenta a história, descrevendo a estratégia utilizada pelo roteirista: “Ainda a perigosa criatividade do radioautor. Faça os personagens sofrerem, coloque-os em situações aparentemente sem saída e a audiência se multiplica”.
E como bom roteirista, Marcos Rey nos surpreende no final quando a história dá uma guinada, mudando completamente de tom: sai o humor, a crítica de costumes, a metalinguagem, e entra uma sequência emocionanente e arrebatadora acontecida dez anos depois, quando do golpe militar.

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. Para ler, clique aqui.