sábado, outubro 29, 2022
A belíssima arte de Ivo Milazzo
Um erro de pronome
Muitos especialistas consideram a nossa época a era da comunicação. Assim, quem não sabe se comunicar corretamente, fica de fora de sintonia com o mundo e tem menos chances de conseguir um bom emprego. Uma ficha preenchida com erros de português certamente não ajuda a conseguir um bom emprego.
E, vejam bem, expressar-se bem não significa apenas escrever corretamente, de acordo com a gramática. Significa também dar fluência ao texto, torná-lo agradável e objetivo. Um relatório claro, sem erros ortográficos ou de pontuação, com frases curtas, tem mais chances de ser lido.
Entretanto, um bom conhecimento de nossa língua pode acabar influenciado até em nossa vida amorosa. É o que mostra o escritor Monteiro Lobato no conto “O Colocador de Pronomes” do livro Negrinha.
A história se passa em uma cidadezinha do interior. Havia ali um pobre moço que definhava de tédio no fundo do cartório. Era escrevente, mas gostava de ler e, pior, de escrever versos lacrimogêneos.
Tudo ia na santa paz até que o moço se apaixonou pela filha mais moça do Coronel da cidade, a Laurinda, linda flor de 17 anos. A filha mais velha, Do Carmo, era o encalhe da família. Já velha para casar, não conseguia bom ou mau partido. Também, pudera: era vesga, histérica, manca de uma perna e meio aluada. Se a mais nova era o ideal de beleza, a outra era feia até não poder mais.
Pois se apaixonou o pobre rapaz e, para extrema infelicidade, escreveu um bilhetinho à amada: “Anjo adorado. Amo-lhe”.
O Coronel, entretanto, interceptou o bilhetinho e chamou o seu autor:
- É seu? – disse, estendendo o papel para o rapaz.
- É... – gaguejou o rapaz.
- Pois agora... – ameaçou o vingativo pai... é casar!
O moço, que já se imaginava morto, ressuscitou. Casar com a filha do Coronel! A moça mais bonita de Itaoca!
O Coronel gritou lá para dentro:
- Do Carmo! Vem abraçar o seu noivo!
O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro. O bilhete fora escrito para Laurinda...
- Sei onde trago o nariz, moço. – esbravejou o Coronel. Você mandou o bilhete à Laurinda dizendo que ama-lhe. Se amasse a ela, teria dito “amo-te”. Dizendo “amo-lhe”, declara que ama uma terceira pessoa, no caso a Do Carmo.
E, pacientemente, o velho explicou que os pronomes se dividem em três: de primeira pessoa, quem fala; de segunda pessoa, a quem se fala, e de terceira pessoa, de quem se fala. E o lhe é pronome de terceira pessoa.
Portanto, nada de dizer “amo-lhe” ou “convido-lhe”. Expressões com essas demonstram que se ama ou se está convidado uma terceira pessoa.
Quanto ao moço? Casou-se mesmo com a megera. Tudo por causa de um pronome...
Monstro do Pântano – lição de anatomia
Em 1984 Len Wein contratou o desconhecido escritor britânico Alan Moore para assumir o personagem Monstro do Pântano, que ele havia criado na década de 1970. O título estava ladeira abaixo e provavelmente seria cancelado, portanto o risco era pequeno para a DC Comics.
Alan Moore iniciou no título em Swamp Thing 20, terminando um arco de outro roteirista. A primeira história com a sua versão do personagem seria publicada no número 21. Intitulada “Lição de anatomia” e com desenhos de Stephen Bissette e John Totleben, a história revolucionou os quadrinhos de terror e mudou para sempre o mercado de quadrinhos.
O leitor percebia que estava diante de algo diferente desde a primeira página. Nela Jason Woodrue, o Homem florônico, está na janela de seu apartamento pensando nos acontecimentos que o levaram a conhecer o Monstro do Pântano. Ele pensa no velho que o contratou para dissecar a criatura e descobrir como a fórmula biorestauradora conseguiu transformar um homem normal no poderoso Monstro do Pântano: “Ele vai bater no vidro. Se não agora, daqui a pouco. De qualquer forma, vai bater, e... será que vai haver sangue? Torço para que haja. Muito sangue. Um volume formidável de sangue”. E o desenho mostra o velho de fato batendo no vidro do laboratório) que se confunde com o vidro do apartamento, com a água da chuva escorrendo como se fosse sangue. O título vinha logo abaixo, ocupando um terço da página e era uma referência direta ao cartaz do filme Anatomia de um crime, de Otto Preminger, com o texto vindo sobre partes de um corpo.
Nas histórias anteriores, o Monstro do Pântano havia sido morto a tiros pela Corporação Sunderland e seu corpo mantindo congelado. O “velho” Sunderland quer que Woodrue disseque o cadáver para descobrir seus segredos.
Mas parece tudo parece inverossímil: embora o monstro tenha coração, pulmão e até cérebro, nada disso parece ter função real. Além disso, a fórmula biorestauradora havia sido produzida para plantas e não deveria ser capaz de afetar tecido humano. “Era mais do que se poderia esperar que uma mente humana desvendasse”, diz o Homem-florônico “Em seis semanas achei a resposta”.
A resposta estava diretamente relacionada com as planárias, vermes que tinham a característica de ser renegerar quando cortadas. Cientistas ensinaram uma planária a percorrer um labirinto e depois a cortaram em pedaços e deram para outras comerem... e as canibais aprenderam a percorrer o labirinto (a experiência é real).
Moore constrói a trama com maestria, dando um toque de suspense à história e, ao mesmo tempo, construindo a base do que viria a fazer com o personagem, inclusive modificando sua aparência para algo mais vegetal. Stephen Bissette e John Totleben foram primorosos no desenho, com a diagramação nada convencional, com quadrinhos distorcidos, imagens que vazam pela página um traço sujo, repleto de hachuras, perfeitos para uma história de terror.
A menina que matou os pais/O menino que matou meus pais
Os filmes A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais apresentam uma experiência cinematográfica instigante: contam a mesma história de dois pontos de vista completamente diferentes.
Escritos por Ilana Casoy e Raphael Montes, os filmes contam as versões de Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos para a morte dos pais de Suzane, baseados nos depoimentos dois dois réus.
Embora narrem essencialmente os mesmos fatos, tornam-se filmes muito diferentes.
Uma das cenas emblemáticas é a primeira relação sexual do casal.
Na versão de Suzane, ela era virgem, foi apresentada às drogas na ocasião e teve uma relação não totalmente consentida. Na versão de Daniel, Suzane lhe apresentou às drogas e comandou toda a relação. Roteiro, direção e atuação se juntam para fazer duas cenas com o mesmo fato, mas totalmente diversas.
Os filmes ganham muito com a ótima atuação de Carla Diaz. O fato dela ser pequena ajuda a compor a versão de Suzane, na qual ela era apenas uma criança manipulada pelo namorado ganancioso para matar os pais. E, curiosamente, a mesma atriz consegue compor uma mulher fatal, fria e mergulhada nas drogas, na versão de Daniel.
O grande desafio dos filmes é tentar identificar o que é verdade e o que é mentira em cada uma das versões, pois é uma obra na qual sabemos que um dos dois – ou, muito provavelmente os dois – está mentindo.
A menina que matou os pais e O menino que matou meus pais estão disponível na plataforma Amazon Video.
Jornada nas estrelas – O Dia da paz
Embora teoricamente a Enterprise tenha uma hierarquia
militar, Jornada nas Estrelas é um seriado eminemente pacifista. Nenhum
episódio deixou isso tão claro quanto O dia da paz, da terceira temporada.
Escrito por Jerome Bixby, o episódio mostra a Enterprise
atendendo a um pedido de socorro de uma colônia terrestre. Mas quando chega lá,
não há sequer vestígio da colônia. Nesse entremeio, uma nave klingon chega ao
local também atendendo a um pedido de socorro e é destruída. Apenas o capitão e
alguns homens sobrevivem e passam a culpar os humanos pelo ataque.
Levados para a nave, como prisioneiros, os klingons
conseguem escapar quando os feisers da tripulação humana é transformada em
espadas. A partir desse ponto instala-se uma guerra nas dependências da nave.
Por trás disso está um alienígena que se alimenta de
situações de ódio e violência.
Para evitar que a nave seja destruída, Kirk precisa
convencer o comandante klingon, Kang, de que as hostilidades devem cessar.
O episódio é repleto de fala emblemáticas de Kirk, entre
elas: “Para o resto de nossas vidas, mil existências, numa luta sem sentido,
enquanto um alienígena tem total controle sobre nós. O bom e velho jogo de
guerra, peão contra peão, enquanto em algum lugar, uma coisa fica observando,
rindo e começa tudo outra vez”. A fala, critica a guerra ao mostrar que os que
que lutam são fantoches enquanto que os que lucram com a guerra se divertem e não
correm nenhum risco.
sexta-feira, outubro 28, 2022
Fundo do baú - Corrida Maluca
Corrida Maluca é uma série animada produzida pelo estúdio Hanna-barbera entre 1969 e 1968 num total de 34 episódios.
O que pouca gente sabe é que essa série é baseada num filme, A corrida do século, de 1965, dirigido por Blake Edwards. O filme acompanhava o egocêntrico O grande Leslie, que propõe aos construtores de veículos na virada do século XIX para o século XX uma corrida de Nova York a Paris, cruzando o estreito de Bering. Mas o bigodudo e diabólico Professor Fate está disposto a derrotar o galã usando de todos os meios sórdidos possíveis.
Entre os competidores estava Maggie DuBois, uma linda jornalista que luta esgrima e está muito à frente de seu tempo.
Corrida Maluca aproveita diretamente esses personagens. O Grande Leslie transformou-se em Peter Pefeito. O Professor Fate tornou-se o Dick Vigarista. O fiel escudeiro do professor Fate, Max Meen, deu origem ao cachorro Muttley, um cachorro louco por medalhas.
Já Maggie DuBois deu origem à mais carismática personagem da animação, Penélope Charmosa.
A trama de Corrida Maluca trata de várias corridas com os carros mais bizarros possíveis (incluindo um carro de pedra, pilotado por homens da caverna, um carro mal-assombrado e um carro pilotado por simpáticos gangesteres).
Em todas as competições, Dick Vigarista parece mais interessado em criar armadilhas para os outros competidores (que sempre dão errado) do que de fato ganhar a corrida. De fato, na maioria dos episódios ele está liderando por uma grande vantagem quando para no meio do caminho para montar uma das suas muitas armadilhas. Invariavelmente isso fazia com que ele terminasse em último lugar.
O sucesso da série fez com que o estúdio criasse duas outras animações derivadas, Os apuros de Penélope, focado na Penélope Charmosa e Dick Vigarista e Muttley. O primeiro mostrava Penélope como herdeira de uma grande fortuna sendo perseguida pelo vilão Tião Gavião e contando com o apoio da Quadrilha da Morte para protegê-la. O segundo mostrava Dick Vigarista perseguindo o pombo-correio Doodle, que levava mensagens para os aliados durante a I Guerra Mundial.
Cobra Kai
Era uma quebra com com o que se via até então. O protagonista era um perdedor. A violência era vista como algo negativo e era mostrada a filosofia por trás das artes marciais.
Mais de 30 anos depois, os personagens e atores originais voltam em uma nova história, o seriado Cobra Kai, da Netflix. E, surpreendentemente, o seriado acrescenta camadas a mais na mitologia, mostrando principalmente que nem tudo é preto e branco, bom e mau (o que, aliás, reflete a filosofia taoista).
Na história, o valentão Johnny Lawrence virou um fracassado bêbado, que não consegue parar no emprego e vive de empréstimos de seu padastro. Já Daniel Larusso tornou-se um rico revendedor de carros. Curiosamente, aqui será Lawrence que exercerá o papel de mestre (que no filme original era a função do senhor Miyagi) ao ensinar karatê para um rapaz que é vítima de bullying. A experiência faz com que ele retome o Cobra Kai, a academia dos valentões dos filmes.
Nessa linha de explorar as complexidades dos personagens, ocorre uma curiosa inversão: em alguns momentos, Lawrence parece um herói, enquanto Larusso age como vilão. No fundo, entratanto, os dois são bem-intencionados e pretendem usar o karatê para ajudar seus alunos, cada um a seu modo. Há um episódio em que cada um deles, Lawrence e Larusso estão ensinando seus pupilos, e os métodos são completamente diferentes, mas ambos conseguem os resultados desejados.
É interessante também ver a versão de Johnny sobre os fatos que são mostrados em Karatê Kid. Na sua visão, Daniel era o vilão.
Tudo isso entremeado com flash backs dos filmes da década de 80 entremeados com temas atuais, como o ciberbuyilling e um elenco que convence.
O rei de porcelana
O rei de porcelana, série coreana dirigida por Song Hyun-wook,
parte de uma situação real: antigamente, em países como Coréia e Japão, o
nascimento de gêmeos era visto como mau agouro. Se fosse na nobreza então, a
situação era ainda pior.
A história começa com o nascimento do filho do príncipe
herdeiro. Quando se descobre que se trata de uma casal de gêmeos, o desespero
toma conta de todos. Quem aceitaria ser governado por um homem que dividiu o útero
com uma mulher? Assim, o rei decide por matar a menina e esconder a história,
matando todos os criados que de alguma forma participaram do parto.
Mas a princesa não quer ver sua filha morrer e convence o médico
real a usar acumputura para simular a morte da menina, que depois é levada para
local desconhecido.
Anos depois, essa menina reaparece no palácio, como uma dama
de companhia e o príncipe, percebendo a semelhança entre ambos, começa a trocar
de lugar com ela. Numa dessas trocas, ele acaba sendo morto e quem assume seu
lugar é a irmã gêmea. A situação, entretanto, é extremamente perigosa: se um
dia descobrirem a troca, todos os envolvidos podem ser mortos.
Esse mote cria a espinha dorsal de uma trama viciante, que
envolve romance (a princesa, disfarçada de príncipe, apaixona-se por seu preceptor),
aventura, suspense, humor e cenas de ação.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante desse dorama
(ou, o que seria mais apropriado dizer, k-drama): é uma história de amor
misturada com tramas palacianas.
A direção traz algo inusitado para os ocidentais: o uso das mãos
como elemento dramático. Em diversas cenas são usados planos detalhes das mãos
dos personagens para demonstrar seu estado de espírito (raiva, paixão, medo) ou
suas intenções.
Também vale destacar a boa escolha do elenco. Park Eun-bin,
que faz o papel principal é extremamente expressiva. Embora visualmente não
seja nada parecida com um homem, consegue entregar uma atuação muito diferente
de quando não está como mulher. O astro K-pop Rowoon, que faz seu par romântico
destaca-se por trazer alívio cômico para diversas cenas.
O rei de porcelana irá agradar diversos públicos e não só
quem se interessa por histórias românticas, mas um aviso: cada capítulo tem
aproximadamente uma hora e são vinte capítulos. Ou seja, é necessário um grande comprometimento de tempo
para assistir.
O Guerreiro, de Mike Grell
Na década de 1960, Conan se transformou numa febre. A adaptação da Marvel da obra de Robert E. Howard não só vendia muito, como gerou outras séries igualmente populares, como Sonja e Kull.
Enquanto isso, a DC comia poeira. A única série da distinta concorrente no estilo espada e magia que chegou a fazer sucesso foi o personagem Guerreiro (Warlord), de Mike Grell, publicado pela primeira vez em 1976.
A primeira história mostrava um aviador norte-americano, Travis Morgan, que, ao sobrevoar o polo norte e de repente se vê numa terra totalmente ensolarada e desconhecida, Skartaris.
Já na sua chegada ele se depara com uma mulher sendo atacada por um dinossauro que será seu interesse romântico durante toda a saga. Já nessa primeira história eles conhecem Deimos, o mago da cidade de Thera que com o tempo se tornará um dos grandes vilões da série. Aparentemente essa terra, na qual o sol jamais se punha, se encontrava no centro oco da terra e era aquecido por uma bola de gases (posteriormente o autor decidiu que o personagem tinha, na verdade, ido para outra dimensão).
Com esse enredo, Grell fazia uma bela salada: misturava espada e magia com ficção científica, teorias da conspiração e... dinossauros! Por incrível que pareça, essa mistureba funcionou, fazendo com que o título chegasse a ser o mais vendido da DC por um período e sendo publicado por mais de uma década, perfazendo 133 edições, fora seis edições anuais.
Grell tinha o péssimo defeito de abusar do deus ex machina nas primeiras edições. Quando o personagem estava para ser morto, aparecia algo que o salvava, mas com o tempo isso foi reduzido. Além disso, Grell manejava bem a narrativa gráfica e foi melhorando cada vez mais seu desenho, tornando as histórias do personagem visualmente empolgantes. As páginas duplas da série, com uma imagem de ação espetacular, se tornaram célebres e destacavam a revista de outras publicações.
No Brasil, O Guerreiro foi publicado pela editora Ebal em revista própria e pela editora Abril na Heróis em Ação e depois na Superamigos.
Homem-aranha – a saga original do clone
Características da informação
A informação tem como característica a possibilidade de ser transportada, armazenada e traduzida.
































