quinta-feira, março 30, 2023

Jornada nas estrelas – Missão de misericórdia

 



A mitologia de Jornada nas Estrelas foi sendo elaborada aos poucos, conforme os episódios isolados iam sendo escritos e produzidos. Mesmo assim, é de uma riqueza única. Exemplo disso é o episódio Missão de Misericórdia, da primeira temporada da série clássica.
Esse episódio introduz os principais inimigos da federação, o império Klingon. Uma guerra entre ambos parece iminente e um planeta ocupado por fazendeiros, Orgânia, torna-se essencial nessa guerra graças à sua localização estratégica. A Enterprise é enviada para o local para tentar convencer os líderes do planeta a se aliarem à Federação. Enquanto Kirk tenta convencer os habitantes locais de como será útil essa aliança (e como seria terrível ficar sob jugo de uma ditadura militar klingon), uma frota Klingon se aproxima e a Entreprise é obrigada a se evadir, deixando Kirk e Spock no planeta.
A história é interessante por contrastar a Federação e seus métodos democráticos e os Klingons e sua sociedade militar (e, nesse sentido, é bem óbvia a crítica do roteirista Gene L. Com). Mas nem tudo é preto e branco: afinal, a federação quer o planeta exatamente para ganhar a guerra.
A dinâmica entre os dois comandantes, Kor (interpretado por John Colicos) de um lado e Kirk do outro é um dos pontos altos do episódio (Aliás, temos a impressão de que sempre ótimos atores eram escalados para vilões de Jornada). Kor é mostrado com alguém tão capaz e inteligente quanto Kirk, embora seus métodos sejam muito diferentes.
Vale destacar também a inteligência do roteiro, que dribla a falta de recursos com criatividade. À certa altura, por exemplo, Kor resolve fuzilar 200 organianos, uma cena que, se filmada, seria proibitiva. O roteiro resolve isso apenas com o anúncio de que essas pessoas foram mortas.
O final é outro grande momento desse episódio memorável, no qual fica claro, que, embora a Entreprise tenha uma estrutura militar, Jornadas é definitivamente um seriado pacifista.

quarta-feira, março 29, 2023

Perry Rhodan – Chave Secreta X

 

Chave Secreta X, número 23 da coleção Perry Rhodan é o primeiro escrito por W.W. Shols e uma grata surpresa.

 A história é uma continuação do livro anterior, A fuga de Thora, na qual a arcônida foge para Vênus tentando contatar o império, mas sua nave é derrubada pela base por não ter a senha de acesso. O mesmo acontece com Rhodan, que vai em seu encalço. Pior: a base acionou a Chave Secreta X, o mecanismo que isola o planeta, o que impede que Reginald Bell vá em socorro do amigo.

 Esse número específico é focado nos muitos perigos de Vênus e na forma como Rhodan e seus amigos tentam permanecer vivos e chegar à base, onde poderão desativar a Chave Secreta X. Mas os russos aprisionaram thora e pretendem usá-la para fazer o mesmo.

 Ao contrário de outros livros sobre o planeta, como Ameaça a Vênus, aqui sentimos que Rhodan corre um risco real. Shols usa sua narrativa para convencer o leitor de que o chefe da terceira potência está em vias de perder tudo que conquistou e até mesmo a vida.

 Mais do que isso, o escritor consegue revigorar a descrição da flora e da fauna do planeta, detalhando melhor algo que havia sido só sugerido por outros autores ou criando novos elementos. Os vermes monstruosos, que já haviam sido mencionados em outras edições, ganham mais detalhes, como o cheiro pestilento que exalam.

  

A capa original alemã. 


 Suas descrições são vivas e detalhadas, como se vê no caso dos lagartos das árvores: “Pelo que se dizia, seu aspecto era semelhante ao de um jacaré. Dali provinha o nome, tirado da biologia terrestres. Porém um exame mais detido logo revelava as diferenças. A cauda preênsil tinha cerca de quatro vezes o comprimento do resto do corpo. Desempenhava uma função tão imporante como o rabo dos macacos. O lagarto propriamente dito tinha o corpo curto e coberto de pelos como um castor. Vivia principalmente nas árvores. Até chegava a construir ninhos”.

 Ou o vampiro-carata, um animal que se fazia passar por planta: “O vampiro-carata costuma permanecer imóvel por dias, camuflando-se sob a forma de uma árvore. Esse disfarce constitui sua proteção mais segura contra os inimigos naturais. Mas quando é atacado reage com uma rapidez surpreendente. Suas folhas, que lembram as palmeiras da carata, natural da América do Sul, estão semeadas no lado inferior com milhares de glândulas venenosas. E o animal sabe agarrar sua vítima”.

 Uma mistura de aventura, sequências eletrizantes e boas descrições fazem desse um dos volumes obrigatórios do primeiro clico de perry rhodan.

A balada de Buster Scruggs

 


Os irmãos Coen são, nitidamente, fãs do faroeste. Não por acaso já fizeram a refilmagem de um clássico, Bravura indômita e vários de seus outros filmes têm características de faroeste, como o premiado Onde os fracos não têm vez.

Em A balada de Buster Scruggs, de 2018, os dois fazem ao mesmo tempo uma homenagem ao gênero e uma versão muito própria, com as característica da dupla.

O filme é narrado a partir de um livro com ilustrações, o que lhe dá um ar nostálgico.

São seis histórias sem nenhuma relação entre elas a não ser o fato de se passarem no velho oeste e de terem a morte como tema.

A primeira história – e também a melhor – é a que dá título à película. Buster Scruggs é uma carismática caricatura do cawboy clássico, vestido de branco, sempre com um sorriso no rosto e implacável quando atira. A sequência inicial o mostra sobre um cavalo num deserto, tocando violão e cantando. Quando chega em uma birosca no fim do mundo, descobre que o local só atende foras da lei. Parece que o almofadinha será liquidado, mas sua habilidade com o revólver é tão espantosa que provoca humor. Aliás, toda a sequência é repleta de humor ácido.

Buster Scruggs é um personagem tão interessante que se o expectador acha uma pena que ele tenha sido aproveitado apenas em uma história curta.

A sequência seguinte mostra um ladrão de bancos condenado à forca. Ele acaba se livrando da morte por um ladrão de gado apenas para ser condenado à forca. É a famosa cena, transformada em meme, do bandido sendo enforcado e perguntando ao outro, que chora, se é a primeira vez. Além do humor, o episódio se destaca por um bom uso do suspense.  

A sequência seguinte, Meal Ticket, é sobre um empresário que tem como principal atração um homem sem pernas ou braços, que recita poesias e discursos. É uma das sequências mais intimistas e tocantes. Detalhe: o personagem sem braços e pernas não diz uma única palavra fora das apresentações.

All Gold Canyo é outra sequência intimista, sobre um garimpeiro solitário que descobre ouro, mas pode perder tudo.

The Gal Who Got Rattled se destaca pelo final irônico. A trama gira em torno de colonos que atravessam o país na direção do oeste e mais especificamente uma moça que perde o irmão e começa a se enamorar pelo guia.

Finalmente, The Mortal Remains é um episódio sem trama, que parece ter sido introduzido apenas para desenvolver o tema da morte, comum a todas as histórias. Nele, cinco pessoas estão viajando numa carruagem e entabulam uma conversa sobre a natureza do ser humano. A conclusão: as pessoas se dividem entre vivas e mortas, o que parece refletir o contexto do filme.

Making of do Astronauta

 

Há algum tempo o amigo JJ Marreiro me mandou algumas imagens para que usasse em uma postagem sobre os bastidores da criação de nossa história do Astronauta para o álbum MSP+50. Na correria da Bienal, acabei não fazendo o post, mas corrijo esse lapso agora.
Ao começarmos a discutir nossa história, concluimos que o ideal seria algo que remetesse aos clássicos da FC, tanto nos quadrinhos quanto na literatura pop, quanto nos seriados. Assim, nosso Astronauta deveria ser uma mistura de Perry  Rhodan, Jornada nas Estrelas e Flash Gordon. Abaixo, alguns dos estudos do JJ para o visual da hístória:



O JJ começou pelas armas. Embora o visual estivesse legal, eu pedi que ele não usasse uma arma, pois ela não se encaixaria no personagem criado pelo Maurício.
O visual da nave passou por várias versões, mas acabou sendo definido como uma homenagem às naves da série alemã Perry Rhodan, do qual sou fã.

Foram feitas três versões do roteiro (chamadas de tratamento). Numa das primeiras versões, o herói chegava a um planeta que mostrava uma versão alienígena dos principais personagens da Turma da Mônica. As tiras abaixo são dessa primeira versão.

X-men contra o Arcade

 


Desde que John Byrne entrou no título dos X-men este foi aos poucos galgando espaço e ganhando fãs. O desenho limpo e altamente expressivo casava perfeitamente com o texto de Chris Claremont. O que Byrne trazia de ação, Claremont trazia de aprofundamento dos personagens.

Mas o ponto de virada do título, o ponto que a partir do qual ele se tornou o mais badalado e revolucionário do mercado de quadrinhos americanos foi The Uncanny X-men 123. Nesse número (e no seguinte), os mutantes enfrentam Arcade, um vilão criado pela dupla Byrne e Claremont em uma aventura do Homem-aranha e do capitão Bretanha.

O vilão cria um parque de diversões mortal.


A própria ideia do vilão é totalmente inovadora: um playboy que mata seu pai para conseguir a herança e monta um pinball gigante com o objetivo de assassinar heróis. É uma estrutura que permite histórias repletas de ação desenfreada e perigos variados.

Mas o roteiro acrescenta mais um elemento a essa fórmula: Colossus passa por uma lavagem cerebral, é convencido de que sua adesão aos X-men foi uma traição à Rússia e se transforma no Proletário, um herói soviético, cujo objetivo é matar os mutantes.

Claremont aproveita algo que já estava elaborando muito antes: o fato de que Piotr Rasputin nem sempre se sentia um integrante dos x-men e tinha sérias dúvidas sobre sua participação na equipe. Isso cria um dilema único, uma vez que os outros integrantes da equipe não querem matar o colega – mas podem ser mortos por ele.

O resultado é uma aventura totalmente empolgante, em que as possibilidades do Mundo do crime, o parque de diversões mortal criado por Arcade, são muito melhor exploradas do que na aventura do Homem-aranha.

A Abril tirou todas as referências ao comunismo do uniforme do Colossus para evitar problemas com a censura.


Aliás, a Abril deu sorte: a RGE só tinha publicado os X-men até a aventura anterior, uma HQ morna. Quando começou a publicar os X-men em Superaventuras Marvel 14, a editora da árvore pegou os mutantes em seu melhor momento. Uma curiosidade é que a Abril mudou o nome Proletário para Gigante do Norte e tirou todas as referências ao comunismo no uniforme do personagem provavelmente porque ainda vivíamos a ditadura militar - as mudanças provavelmente foram efetuadas para evitar problemas com a censura. 

Em tempo: a capa do número 123 ficou a cargo de Terry Austin, que embora fosse um ótimo arte-finalista, não era um grande capista. No número 124 o desenho da capa voltou a ficar a cargo de Dave Cockrum, que conseguiu dar toda a dramaticidade que a cena exigia.

Superaventuras Marvel

 


Superaventuras Marvel foi antológica, uma revista mix de super-herois como jamais existiu ou existirá no Brasil. Vale lembrar que a revista foi criada quando a editora Abril conseguiu os direitos sobre todos os personagens Marvel – até então os principais personagens da editora, como Hulk e Homem-Aranha, estavam com a RGE.

De repente a redação Abril se viu com uma quantidade impressionante de material de muita qualidade. 

E foi na SAM (como a revista era carinhosamente chamada) que eles colocaram tudo isso.

Tinha Pantera Negra na até então sua melhor fase (com roteiros Don McGregor e desenhos de Billy Graham) , tinha o Dr. Estranho na melhor fase (com roteiros de Steve Englehart e desenhos de Frank Brunner), Kull, Conan, Sonja... a seleção era impressionante!

Até hoje eu pego as primeiras revistas e fico impressionado: não tinha nada sequer razoável ali, era tudo muito bom.

E a SAM publicou simplesmente as duas melhores séries Marvel dos anos 1980: o Demolidor, de Frank Miller e os X-men de Chris Claremont e John Byrne.

Hoje nenhum leitor conseguiria imaginar o impacto que essas séries tiveram e como foram revolucionárias. As mortes de Elektra e da Fênix foram verdadeiros fenômenos, todo mundo que conhecia estava falando sobre isso.

Pra se ter uma ideia, a ansiedade era tão grande que a gente sabia o dia que a revista chegava às bancas e naquele dia íamos perguntar para o jornaleiro se já tinha chegado – e haja reclamação se não chegava. O fato de ser formatinho também ajudava muito na popularidade. Lembro de muitas vezes voltar a pé para casa e usava o dinheiro da passagem para compra a SAM.

terça-feira, março 28, 2023

MAD especial quadrinhos

 


De todas as revistas que eu perdi numa das muitas mudanças, a que eu mais me arrependo foi um número especial da MAD dedicado aos quadrinhos da editora Record.

Lembro que ia viajar de ônibus e antes passei na banca do Zé, no São Brás (atualmente o último sebo de rua de Belém) e comprei essa edição. Enquanto esperava para embarcar, lia e gargalhava a ponto de chamar a atenção dos outros passageiros.

Recentemente consegui uma versão em scan dessa revista e me surpreendi em perceber o quanto esse material até hoje parece muito bom.

A reunião de talentos era realmente incrível: Wallace Wood, Don Martin, Sérgio Aragonés... só para citar os mais famosos.

Entre as que eu mais lembrava estava a versão do Superman de Wood, traduzido como Superomi. A história era simplesmente repleta de piadas de fundo, como cartazes pregados nas paredes com mensagens do tipo: “Proibido pregar cartazes”. 



Wood parecia disposto a colocar o máximo de anedotas no menor espaço possível. Fico imaginando o quanto esse tipo de humor influenciou filmes como Apertem os cintos o piloto sumiu. E, olhando em retrospecto, teve influência sobre todos os roteiros de humor que já fiz.  



Outra história desenhada por Wood que me arrancou gargalhadas era uma em que se imaginava o que aconteceria com os personagens de quadrinhos se eles tivesse envelhecido ao invés de se manterem com a mesma idade. Entre as várias sequências, um Super-homem que não tem mais peito ou dentes – e portanto não tem como segurar as balas.



Hoje pode não ser tão conhecido, mas Dom Martin era uma verdeira sensação nas décadas de 70 e 80, a ponto da Mad lançar livros apenas com trabalhos dele. Nessa edição, um trecho de uma história sobre Zorro é digna de nota. Zorro deixa Tonto cuidando dos cavalos e quando volta pergunta se passou muito tempo fora, ao que Tonto responde batendo os pés no chão, como faria um... cavalo! Um humor totalmente visual que só seria possível nos quadrinhos. 



Algo que não lembrava era a quantidade de histórias envolvendo os peanuts. Ao que parece, o sucesso da tira (provavelmente alavancada pelo desenho animado) era estrondoso na época, a ponto de se tornar o personagem mais popular do período. Uma das histórias brinca exatamente com isso, imaginando se o sucesso teria mexido com a cabeça dos personagens.

A mad poderia ser muito boa para falar de política, filmes, seriados, mas era simplesmente insuperável quando falava de quadrinhos.  

Groo, o errante

 


Groo é uma sátira dos quadrinhos de espada em magia (a exemplo de Conan), criado por Sérgio Aragonés, famoso por seu trabalho na revista MAD.
Aragonés elaborou seu personagem na década de 1970, mas na época a política de direitos autorais das editoras americanas não era favorável aos criadores e o cartunista guardou a ideia na gaveta.
Quando a Marvel criou a linha Epic, em que os direitos ficavam com os criadores, Aragonés resolveu publicar uma história de seu personagem.
Para isso ele convidou o amigo e Mark Evanier, que ficou responsável pelos textos e diálogos.
O personagem foi publicado pela primeira vez na revista Destroyer Duck #1, em 1981 e logo alcançou grande sucesso. Afinal, não só era sátira de um dos personagens mais populares da Marvel, como também era uma das melhores revistas de humor já lançadas.
Logo o personagem ganhou título próprio pela Pacif Comics. O título depois passou pela Epic, Image e atualmente Dark Horse.
No Brasil o personagem apareceu pela primeira vez na coleção Graphic Novel, número 14, em uma história que mostrava a “morte” do personagem.
Um  dos atrativos de Groo é toda a caracterização bolada por seus criadores. Apaixonado por queijo derretido, Groo é burro como uma porta, um desastre ambulante e um guerreiro invencível. E afunda todos os barcos nos quais entra. Quando ele entra em uma cidade, os moradores sabem que estão perdidos, por melhores que sejam suas intenções (em uma sequência, um homem pergunta a outro: “Este é Groo?”, ao que o outro responde: “Não pode ser, nós ainda estamos vivos”).
A série tem também uma rica galeria de personagens secundários. Entre eles o Sábio, que tem sempre um provérbio pronto para qualquer situação e sempre tenta impedir que Groo se torne um desastre; o Menestrel, que narra as histórias, sempre em rima; Rufferto, cão fiel companheiro de Groo, tão fascinado por seu dono que acha até mesmo que ele é inteligente; Taranto, um saqueador que sempre tenta se aproveitar da ingenuidade de Groo. Além da enorme quantidade de reis que veem seus reinos destruídos pela simples presença de Groo.
Uma curiosidade é que Groo se encontrou já com Conan em uma história publicada pela Dark Horse.

O zen e o epicurismo

 


O budismo e o epicurismo surgiram em períodos relativamente próximos e há tempos tenho observado muitos pontos de contato entre essas duas filosofias, o que pode significar que em algum momento houve alguma troca cultural (Epicuro teria entrado em contato com o budismo? Posteriormente o budismo teria assimilado algo do epicurismo?). Apresento aqui alguns pontos que considero semelhantes entre eles, mas lembrando que não sou exatamente um especialista no budismo (de modo que amigos que saibam mais sobre o assunto podem complementar).
Uma das bases do epicurismo é a ideia de moderação. Devemos ser moderados em tudo que fazemos, exercitando um auto-controle como forma de conseguir a felicidade. Mesmo algo que dá prazer, como comer, deixa de ser prazeroso se a pessoa se empanturra e passa mal (e, lembrando que, para Epicuro, prazer era o oposto de dor, se algo traz sofrimento não é prazer verdadeiro). Comer o suficiente, sorvendo os alimentos, é muito mais sábio que comer como um doido, mal sentindo o gosto do alimento. O mesmo vale para todas as outras instâncias da vida. Para Epicuro devemos ser moderados em tudo que fazemos. Lembra muito o caminho do meio da filosofia budista. Antes de se tornar Buda, Sidarta viveu primeiro uma vida de luxo e abundância, como príncipe. Depois tornou-se um asceta (e dizem que nessa fase ele comia um grão de arroz por dia). Quando se iluminou, percebeu que esses dois extremos eram negativos. O certo é não comer até se empanturrar e nem passar fome. Lembra as ideias de Epicuro, não?
Epicuro dizia que boa parte da nossa infelicidade é provocada pelo medo da morte. As pessoas deixam de viver o momento por medo do que acontecerá no futuro. E é um medo sem razão: se existir vida após a morte, ainda estaremos vivos, então não há porque temer a morte. Se não existir vida após a morte, então não estaremos lá para lamentar isso e, portanto, não fará diferença. Lembra muito a ideia zen-budista de foco no presente. A ideia é que não devemos nos preocupar com o que acontecerá no futuro, mas vivermos o momento presente da melhor forma. O meditação zazen, inclusive, ajuda nisso: em manter o foco no agora.
Epicuro dizia que tudo é formado de átomos, partículas elementares das quais tudo é feito e que as diferentes formas são apenas diferentes organizações desses átomos. Um cachorro é feito da mesma substância primordial de uma pedra. A ciência moderna resumiu esse pensamento no princípio de que somos feitos de poeira das estrelas. Lembra muito a ideia budista de vazio, em que as coisas são na verdade feitas de outras coisas, não tendo uma substância, uma essência. A essência de todas as coisas é a mudança. Assim, uma mesa não é uma mesa, ela está mesa (mas antes foi uma árvore, se foi feita de madeira).  
Epicuro era um crítico das filosofias deterministas (como o estoicismo) e acreditava que não existe destino, ou seja, o ser humano é dono de seu próprio destino, sendo o único responsável por suas decisões. Lembra muito as palavra do monge Genshô: “Se houvesse destino nossas decisões estariam prejudicadas pois o que quer que fizéssemos o destino decidiria por nós, um absurdo lógico, se assim fosse nenhum criminoso seria responsável e sim o destino, nenhum ato bom teria mérito também”.

Terra do meio - um paraíso amazônico nas proximidades de Belém

 


Uma boa dica para quem está visitando Belém é conhecer a Terra do Meio. Trata-se de um balneário-restaurante na cidade de Marituba. Nas redes sociais deles, eles se descrevem como "um restaurante com igarapé. Não há música alta e não há cervejão e festa do litrão". Ou seja, é um local para ficar em paz, curtindo a natureza e delicíosa comida do local (a caldeirada de peixe deles é famosa). 

Terra do Meio: coisas boas acontecem com pessoas boas. 


O resturante rural foi idealizado por André da Costa Nunes, que nasceu nesse local rodeado de cachoeiras e floresta. Quando voltou para o local no final dos 60, perseguido pela ditadura, a Terra do Meio já não era mais a mesma. A floresta estava devastada e o rio estava quase sumindo. O velho André reflorestou o local e o rio reviveu. Nos anos 70 abriu um restaurante, que até hoje é um dos melhores pontos turísticos do estado do Pará. 



O local conta com um pequeno museu com móveis e louça de época e caricaturas do Velho André. 

Chegar ao local é fácil: Quem vai no sentido Belém-Marituba, passando 1.600m da Polícia Rodoviária Federal de Ananindeua, você vai ver um posto de gasolina da Petrobras, logo em seguida duas lojas de implementos agrícolas, a COMAFE e a Sitiio's Ltda. A Rua Uriboca Velha fica entre essas duas lojas. Depois de entrar nessa rua, ande 3.000m e você chegará ao Restaurante Rural Terra do Meio.






Sete cores da Amazônia

 


A região norte tem uma rica mitologia, geralmente desconhecida pela maior parte da população. Essa mitologia é o assunto principal de Sete cores da Amazônia, um livro infantil na forma de quadrinhos com roteiro e cores de Ademar Vieira e desenhos de Tieê Santos.
O livro conta a história de Sarah, uma menina da periferia de Manaus que vai visitar a avó doente no interior. O primeiro ato é uma boa caracterização da periferia da capital do Amazonas, com suas casas de palafita sobre a água e o cotidiano de seus moradores. Destaque para a cena em que a menina brinca com um amigo percorrendo o lago repleto de lixo dentro da carcaça de uma geladeira.
Mas a história se torna realmente interessante quando a menina e sua mãe viajam para o interior. A peregrinação das duas, de barco, ônibus, carona em um caminhão em uma estrada repleta de lama, tudo é mostrado em detalhes de quem conhece a região e sabe retratá-la. No interior, a menina descobre um outro mundo, muito além deste, povoado por cobras grandes, curupiras e mapinguaris.
O livro segue em aventuras com tom poético até o final surpresa, mas absolutamente coerente.
Há de se destacar a arte e as cores em aquarela, que representam bem o olhar infantil da história. Outro aspecto que merece destaque é a fonte criada pelos autores para ser usado na capa do livro, que remete às pinturas indígenas.
O problema fica por capa, que enrola com o tempo. Uma gramatura maior tornaria o papel mais firme e evitaria esse problema.

Mosaico de Ravena - O Amor, O Cego e O Espelho

 


O início dos anos 1990 foram
dourados para o rock paraense. Nessa época surgiram várias ótimas bandas nos
mais variados estilos e Belém chegou a ter um festival que apresentava 24 horas
de rock só com bandas locais. Entre todas as bandas, Mosaico de Ravena sempre
se destacava por fazer um som inovador, que não conhecia limites. E eles eram
muito bons de shows. Lembro de um desses que começava com um casal dançando
tango e a banda aparecia atrás deles, o vocalista saindo de um caixão. A galera
ia ao delírio. A música abaixo é do primeiro e, acho, único álbum. É
interessante por discutir como o amor foi transformado em mercadoria numa
sociedade consumista.

O amor, o cego e o espelho

Os leões de chácara encheram o amor
de porrada e jogaram na calçada
ensangüentada calçada
A televisão mostrou o amor num
lindo comercial de bronzeador
A polícia meteu o amor nas grades
por suspeita de vadiagem
Os políticos meteram amor num livro
e o povo linchou o amor
E o amor brotou no meio do asfalto
e a escondido se multiplicou
Mateus foi na butique quando quis
amar e saiu de lá com um lindo amor de seda javanesa
Mariana comprou um carro por amor e
mostrou pras amigas seu amor azul-metálito
Márcia falou de amor com o filho e
de como o amor poderia dar status
Mário andava sempre com muito amor
na carteira
E Mônica se apaixonou pelo rádio
gravador
E o amor brotou no meio do asfalto
e a escondido se multiplicou

Não seja professor

 

Não seja professor. Esse é o conselho que 60% dos atuais professores dão às gerações atuais.
Isso reflete diretamente a falta de valorização da categoria. Professores enfrentam turmas lotadas, baixos salários, nenhuma valorização profissional, levam muito trabalho para casa (planos de aula, correção de provas, preenchimento de diários), mas, segundo o atual Ministro da Educação, trabalham pouco (o Ministro quer turmas com média de 60 alunos).
As escolas estão igualmente sucateadas. Na maioria faltam itens básicos, como água no banheiro, sabão ou papel higiênico. Em muitos locais os professores precisam comprar do próprio bolso até mesmo giz. Aliás, é raro o professor que nunca tirou do próprio bolso para comprar material usado em sala de aula.
Uma pesquisa recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aliás, mostrou que os professores brasileiros têm um dos menores salários do mundo. Um professor brasileiro ganha algo em torno de 10 mil dólares por ano. A média dos outros paíse é 25 mil dólares. Em Luxemburgo esse valor salta para 66 mil dólares.
Os salários no Brasil são tão baixos que muitos estão tendo que fazer bicos. Vários professores, por exemplo, estão se tornando motoristas de aplicativos. Mesmo a atividade sendo exercida nas horas vagas, gera mais dinheiro que a docência.  
Unido a isso há uma total falta de reconhecimento. Já uma pesquisa da Varkey Foundation mostrou que, de 35 nações avaliadas, o Brasil é o país que menos valoriza os professores.
Recentemente uma deputada foi eleita em Santa Catarina com um discurso totalmente anti-professores. Explica-se: ela era aluna de mestrado e sua dissertação foi reprovada pela banca. Vejam a inversão de valores: para ela, a culpa não foi dela, mas da professora (a culpa pela reprovação nunca é do aluno). E esse discurso convenceu milhões de pessoas, a ponto dela ter sido uma das deputadas mais votadas daquele estado. Seu primeiro ato como deputada eleita foi abrir um canal de denúncias contra professores. A quantidade de pessoas que votou nela espelha a realidade de anos em anos de intensa propaganda segundo a qual os professores são os maiores responsáveis por todos os problemas do Brasil. 
Alie-se a isso à violência. O recente massacre em Suzano mostrou que as escolas são alvos preferenciais dos assassinos seriais (depois do massacre, a polícia já descobriu diversos outros planos para ataques em escolas – reflexo direto de anos de campanha contra os docentes).
Não é à toa que a profissão de professor é que a mais apresenta problemas mentais, em especial stress.
Se a situação já não fosse precária o suficiente, agora temos a reforma da previdência, que vai aumentar em média mais de 10 anos a idade mínima para que os professores se aposentem. Isso para quem começou muito cedo, com 20 anos, por exemplo, ou menos. Para a maioria, será praticamente impossível aposentar antes dos 65 anos. Com uma rotina massacrante de sala de aula, que professor conseguirá continuar trabalhando até essa idade? A aposentadoria diferenciada era uma dos poucos aspectos positivos da docência. Agora até esse será tirado.
Então, fica o conselho: se você pensa em ser professor, esqueça. Não seja professor. Procure profissões mais valorizadas.  

segunda-feira, março 27, 2023

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis.