terça-feira, maio 30, 2023
Zona do Crepúsculo, de Gian Danton, é destaque em jornal de Guarapuava
segunda-feira, maio 29, 2023
Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo
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| A barca da Medusa: obra inaugurou o romantismo na arte e apresenta o mesmo clima dramático do livro. |
Endomarketing
Demolidor – Profecia
O número 215 da revista Daredevil trouxe uma versão curiosa do homem sem medo.
A história inicia com um xamã em frente a uma fogueira, aparentemente invocando algo. Ele diz: “Estas são as palavras dos espíritos de nossos antepassados... dois homens destemidos virão... serão guerreiros e homens da lei! Cem invernos separarão a vinda de cada um deles... mas unidos, eles combaterão a injustiça e devolverão a terra a nosso povo!”.
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| A splash page inicial é uma obra-prima. |
Da fogueira, sai a imagem de dois heróis. Um deles é o demolidor, o outro é uma figura vestida com uma roupa que lembra o primeiro uniforme do herói, mas com pistolas e chapéu.
A história mostra o cowboy misterioso salvando um garoto indígena, que está sendo atacado por vários cowboys. O garoto explica que os malfeitores estavam atrás de um mapa, que indicava o local onde estaria guardado um documento no qual o presidente dos EUA transformava o local numa reserva indígena. Mas um inescrupuloso empresário quer as terras para si. Quando chegam na cidade, uma surpresa: o garoto é preso pelo xerife acusado de atirar no malfeitor. É nesse ponto que o herói sob a máscara aparece: trata-se do advogado Matt Hawk, que defende o garoto e prova que a versão do fazendeiro é falsa.
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| A coloração monocromática ajuda a distinguir o passado do presente. |
A história dá um salto e vemos Matta Murdock acordando, o que nos leva a crer que tudo que foi mostrado antes era um sonho.
Em seguida ele é contratado por um empresário que é nada menos que o descendente do vilão do sonho. Mas, ao invés de ajuda-lo, Matt Murdock e o Demolidor irão, na verdade, ajuda a provar que a terra pertence aos índios.
Escrita por Denny O´Neil e desenhada por David Mazzucchelli, a história, intitulada Profecia é uma tremenda sacada.
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| O Demolidor acorda. Teria sido tudo um sonho? |
Existiu realmente um herói da Marvel chamado Defensor Mascarado que, em sua identidade secreta era advogado e de fato se chamava Matt Hawk.
Criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1948, é muito provável que ele tenha servido de inspiração para a criação do Demolidor. Afinal até os nomes dos alter-egos eram parecidos (Matt Hawk e Matt Murdock). Além disso, o uniforme do herói do faroeste tinha a mesa cor do primeiro uniforme do demolidor: preto e amarelo (embora invertido – no Defensor mascarado o amarelo era um colete).
| O Demolidor e o Defensor: uniformes parecidos. |
O roteirista usa isso para criar uma teoria interessante: de que, de alguma forma os dois heróis, Defensor Mascarado e Demolidor, estavam interligados. Talvez um fosse a reencarnação do outro? Ambos são mitos que surgem a partir de algum tipo de inconsciente coletivo junguiano? Pena que isso não foi desenvolvido posteriormente.
Se o roteiro é interessante, o desenho é o que mais chama atenção. Mazzucchelli faz as sequências do passado com um traço repleto de retículas, em sequencias muitas vezes sem quadros, e coloração com tons de amarelo. O resultado é impressionante e diferencia completamente o passado do presente.
No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Capitão América 90.
Elis – a cinebiografia
Elis Regina foi uma das maiores, senão a maior cantora brasileira de todos os tempos. Não admira, portanto, que houvesse interesse fazer uma cinebiografia dela, numa era em que cinebiografias de músicos proliferam.
Quem aceitou o desafio foi o diretor Hugo Prata, que escalou
a atriz Andreia Horta para o papel principal, em filme lançado em 2016 e disponível
atualmente na Netflix.
A película segue uma linha cronológica, começando com a
chegada da cantora ao Rio de Janeiro, junto com o pai, onde tinha ido gravar
seu primeiro disco. Mas ela chega exatamente quando estava se concretizando o
golpe militar de 1964, o que faz com que o produtor desista de lançar qualquer
coisa naquele momento.
Antes de voltar para casa, Elis participa de um teste para
gravar músicas de uma peça estrelada pela musa da boça nova, Nara Leão, é
rejeitada (“não queremos cantoras de churrascaria”, diz um dos avaliadores). Depois
ela faz questão de ir num show da cantora, onde se espanta com o tom intimista e
pouco empolgante.
Esses dois momentos são de fundamental importância
narrativa. Eles demarcam a diferença de Elis com o que então era visto como música
brasileira e ajudam o expectador a entender porque ela foi tão revolucionária. Elis
cantava para fora, era toda expressiva, de corpo, de voz, cantava rindo,
fazendo caras e caretas. Como escreve um jornalista, citado no filme, ela surge
num momento em que as pessoas precisavam de expressar diante do tom de censura
que se instalaria nos anos seguintes. O
modo de cantar de Elis abre caminho para outras musas como Gal Costa e Rita Lee,
estabelecendo as bases do que viria a ser conhecido como MPB.
Nesse sentido, a
atuação de Andreia Horta contribuiu muito para que o filme demonstre a impressão
correta. Embora não consiga mimetizar a voz de Elis regina (quem conseguiria?),
ela imita perfeitamente as expressões, o jeito de andar, a alegria contagiante
no palco.
Nas cinebiografias, um item obrigatório é construir a
narrativa a partir de músicas do biografado e Hugo Prata faz isso com perfeição,
ajudado principalmente pelo vasto e diversificado repertório da cantora, cujas
interpretações vão do mais alegre ao mais depressivo.
Essa sincronia tem seu ápice num dos momentos mais
impactantes do filme: a relação de Elis com os militares. Em turnê pela Europa,
ela dissera, em entrevista coletiva, que o Brasil era governado por gorilas e
que pessoas eram torturadas e desapareciam. Quando volta ao Brasil, ela é
levada para um interrogatório, onde ameaçam tirar o filho dela. Depois passam a
segui-la a todos os lugares.
A única forma de se livrar da perseguição, segundo os próprios
militares, é cantar na Olimpíada do Exército,
um gesto de submissão aos militares, o que ela faz de forma altiva. Mas aí a
reação vem do extremo oposto: da esquerda. Henfil faz uma caricatura dela
saindo de um túmulo e cantando para Hitler. Jovens vaiam ela a ponto de não deixá-la
cantar, num espécie de cancelamento da era pré-internet. A música que ela canta
durante esse festival de vaias é o tango Cabaré, cuja letra diz: “De
tomara-que-caia surge a crooner do norte/Nem aplausos, nem vaias, um silêncio
de morte/ Ah, quem sabe de si nesses bares escuros/Quem sabe dos outros, das
grades, dos muros”. Unida à ótima interpretação da atriz, percebemos a música
como uma resposta de Elis às vaias.
Em tempo, anos depois Elis e Henfil se reconciliariam quando
ela grava a belíssima O bêbado e o equilibrista, que traz em sua letra o trecho
“Meu Brasil!/ Que sonha com a volta do irmão do Henfil/ Com tanta gente que
partiu/Num rabo de foguete”.
Monstro do Pântano – O Jardim das delícias terrenas
O número 53 da revista Swamp Thing represtou o auge da
guerra do Monstro do Pântano contra Gothan City. Nos números anteriores, Abbe
Cable havia sido presa, acusada de “crime contra a natureza” por ter um
relacionamento com o Monstro do Pântano. Ela fugira para Gothan e foi é lá que
o Monstro do Pântano a encontra, presa. Ao ver recusada sua exigência de que
soltem sua namorada, ele decide usar suas habilidades contra a cidade.
A maravilhosa capa de John totleben já antecipava muito que
viria no interior. Nela, um monstro do pântano gigante surge no meio da cidade
e suas mãos em forma de raízes aproximam-se para agarrar Batman, que se
equilibra sobre uma coluna.
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| Gothan é transformada num paraíso... ou num inferno? |
A história começa com uma matéria jornalística sobre o que
aconteceu com Gothan.
Uma rede vegetação impede que carros entrem ou saiam da
cidade. Com a cidade toda transformada em um jardim, a ordem social é alterada.
Alguns enveredam pelo crime, outros se entregam ao prazer idílico no meio da
enorme quantidade de frutas.
Muitas pessoas começam uma peregrinação na direção de gothan
em busca de respostas ou simplesmente fascinadas com a figura do Monstro do Pântano.
Entre elas um hippie que já havia aparecido numa história que mostrava os
poderes lisérgicos do tubérculo expelido pelo personagem. Também o rapaz da
história do cara de fuça, que abandonara a esposa quando descobrira que ela
passara a noite ao lado do mendigo radioativo.
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| Muitos comem os turbéculos e têm experiências alucinógenas. |
Claro que toda essa mudança não poderia ocorrer sem a
intervenção de Batman, o defensor de Gothan, numa das melhores sequências de
toda a série. Moore mexe completamente com todos os cânones da DC ao mostrar um
cavaleiro das trevas cujos recursos parecem brincadeira diante de um personagem
muito mais poderoso.
É Batman, aliás, que protagoniza um diálogo essencial ao
falar com o prefeito e aconselhar a libertar Abbe Cable.
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| O Monstro do Pântano se transforma em objeto de culto. |
“Você não entende”, diz o prefeito. “Aquela mulher teve um
relacionamento com uma criatura não-humana. Não podemos abrir exceções à lei”.
“Sem exceções, certo. Nesse caso, sugiro que vocês comecem a
prender todos os outros seres não humanos que possam estar mantendo relações
fora de suas espécies. Se querem levar isso até o fim, a condição de não-humano
não se limita à criatura do pântano. Vejamos... vcoê precisam prender o Gavião
negro, o Metamorfo... e a Estelar dos Titãs. A raça dela, creio, evoluiu dos
gatos. Sem mencionar o Caçador de Marte e o Capitão Átomo... além de,
obviamente, como se chama mesmo? Aquele que mora em Metrópolis”.
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| Batman conseguirá deter o Monstro do Pântano? |
A fala explicita a metáfora de Moore, que usou a história
para refletir sobre como a sociedade julga relações não convencionais.
Entretanto, os quadrinhos de super-heróis estão repletos de relações não
convencionais, a exemplo do alienígena super-homem que se relaciona com a
humana Lois Lane. E vale uma reflexão: como a pessoa que considera normal uma
relação entre um alienígena e uma humana pode julgar outros tipos de relações?
A história, que supostamente teria um final feliz, acaba com
um dos momentos mais dramáticos de toda a história do título.
Em tempo: o título da história, O jardim das delícias
terrenas, é uma referência a uma pintura de tríptico de Hieronymus Bosch, um tríplico
(uma imagem dividida em três), que apresenta em uma aba o céu no outro o
inferno e no meio uma cena simbolizando os prazeres da carne, com os
participantes desinibidos e sem culpa se entregando a atividades sexuais. As pessoas
representadas no meio do tríplico estão entre o paraíso e o inferno.
O título da história acrescenta uma camada a mais de
significado e permite diversas interpretações sobre a simbologia da roteiro
escrito por Alan Moore. Sua história seria uma celebração do prazer idílico ou
um alerta de como como esse prazer pode levar à perdição? Sem falar nas
interpretações relacionadas ao próprio personagem, mas estas é impossível
discutir sem dar um tremendo spoiller sobre o final da história.
domingo, maio 28, 2023
Fundo do baú - Daniel Boone
Daniel Boone foi um caçador norte-americano que explorou as florestas ocupadas por indígenas no século XVIII. Em 1964 o personagem se transformou em uma série de grande sucesso estrelada por Fess Parker e produzida pela 20th Century Fox Television.
O ator já tinha feito o papel de Davy Crockett, um dos pioneiros do início dos Estados Unidos, em um seriado da Disney. A ideia da Fox era usá-lo novamente para interpretar Crockett, mas, como a Disney se recusou a ceder os direitos, a solução foi procurar um personagem histórico semelhante.
Parker usou no novo papel o mesmo chapéu de pele de guaxinim que caracterizara seu personagem anterior.
A série se passava em um período pouco anterior à revolução americana e era ambientada em Boonesborough, uma vila de pioneiros liderados por Boone. O protagonista era casado com a bela Rebecca, interpretada por Patricia Blair e tinha dois filhos, com destaque para o garoto Israel, interpretado por Darby Hinton.
A abertura do seriado mostrava Boone atravessando um riacho, montando uma armadilha e jogando uma machadinha contra um tronco que se abria ao meio revelando o nome do personagem e da série. A machadinha seria a arma símbolo do personagem, o que parece estranho, já que ela é historicamente associada aos índios. A música folclórica exaltava o personagem como um ser lendário: “Daniel Boone era um homem/sim, um grande homem! Com o olho de águia/era tão alto como uma montanha/Daniel Boone era um homem/sim, um grande homem! Ele era corajoso, ele era destemido/ e tão forte quanto um poderoso carvalho!”.
Algo que me chamava atenção, além do caráter nostálgico do seriado (ressaltado pela trilha sonora) era a forma como os indígenas eram retratados. Numa época em que filmes e seriados mostravam índios como vilões desalmados que atacavam em bandos inocentes caravanas, Daniel Boone mostrava uma versão mais simpática dos mesmos. O protagonista tinha, inclusive um amigo índio, Mingo.
No episódio O império da Perda, por exemplo, um coronel do exército britânico sequestra toda a população de Boonesborough como forma de obrigar Boone a assinar uma escritura, passando para ele a posse das terras da região para ele. Ao mesmo tempo, faz um acordo com índios segundo o qual entregaria os colonos para estes, mas era uma armadilha: quando fossem pegar os prisioneiros, os indígenas seriam bombardeados com canhões. Boone consegue convencer os índios de estão caindo numa armadilha e o filho do chefe o ajuda a danificar os canhões. No final, colonos e índios fazem um acordo de paz. A mensagem subliminar aí é bem apropriada para uma série que se passava num período pouco anterior à independência norte-americana: o verdadeiro inimigo são os exércitos ingleses.
Daniel Boone teve seis temporadas, com 165 episódios.
Super powers 3 - Liga da Justiça
Experiências e livros
Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Da mesma forma, um homem se faz de experiências e livros. Não há formação intelectual que não passe pela leitura.
O mais remoto deles, parece-me, é pouco conhecido da geração atual. Mas fez as delícias de todos os jovens devoradores de livros da década de 80. Falo de Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na época na coleção Vaga-lume.
Esse foi o primeiro livro que li (não estou contando os pequenos livros infantis dos quais guardo poucas lembranças). Devia ter algo em torno de 10 anos. Pode parecer uma discrepância eu ler meu primeiro livro aos 10 anos, mas há de se considerar que eu cresci em uma família pobre, na qual livros eram um luxo supérfluo.
Só consegui convencer minha avó a me dar o dinheiro para esse livro porque ele ia ser utilizado na escola. Na época vivíamos na pequena cidade de Mococa, no interior de São Paulo.
Eu mesmo fui à livraria, no outro lado da cidade e comprei o livro. Antes que o dia terminasse eu já o tinha lido inteiro. No dia seguinte, dia de frio, coloquei uma cadeira no quintal e, enquanto tomava um sol, li pela segunda vez.
Uma semana depois a professora iniciou a leitura em sala de aula, mas o rapaz responsável por ler o primeiro capítulo não havia nem mesmo aberto o livro. “Alguém já leu o livro?”, perguntou a professora. Eu levantei a mão: “Já li cinco vezes, professora”. Li tantas vezes que decorei. Os colegas me desafiavam lendo um trecho e eu, invariavelmente, conseguia dizer a página na qual aquele trecho estava.
Aventuras de Xisto influenciou meu gosto pela história, especialmente pela história medieval. O clima sombrio e fantasioso também influenciou muito minha literatura. Minha novela O Anjo da Morte é uma espécie de Aventuras de Xisto para adultos. Gostaria de dar destaque também para as ilustrações do livro, de autoria de Mário Cafiero. Sempre imaginei ter uma história desenhada por ele.
Depois disso, eu não tinha mais como convencer minha avó a comprar outros livros e só fui voltar a ler uns quatro anos depois, quando descobri a biblioteca pública e os sebos. Foi época de conhecer Monteiro Lobato.
Não houve um livro específico que tenha me influenciado. Nessa época lia tudo que me chegava às mãos do autor paulista. Curiosamente, li primeiro sua literatura adulta, depois a infantil. Na literatura adulta, Urupês é sem dúvida a obra-prima. Lobato estava menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor. Lembro que a primeira vez que li me pareceu um livro de terror... Da literatura infantil, História do mundo para crianças é, certamente, a obra que li mais vezes. Lobato era uma dessas inteligências enciclopédicas, que escreviam sobre tudo e em tudo deixavam um gosto delicioso.
Mais ou menos por essa época, tinha um amigo que colecionava a revista Heróis da TV e descobri um sebo que as vendia por um preço irrisório. Eu comprava as revistas e as vendia pelo dobro do preço, e assim conseguia dinheiro para comprar minhas próprias revistas. Antes de vender as revistas, eu passava o final de semana lendo. Só muito tempo depois fui perceber o quanto essas leituras me influenciaram, especialmente as histórias do Mestre do Kung Fu, de Dough Moench (roteiro), Paul Gullacy e Mike Zeck (desenhos).
1984, de George Orwell, foi a leitura que mais influenciou o período da universidade. Quando já estava no final do livro, fui comprar adubo para minha avó (que adora plantas). Como o troco demorasse, encostei no balcão e comecei a ler. Só sai de lá depois de ter lido a última palavra, para espanto dos balconistas. 1984 é um livro que deixa uma marca em quem o lê. É impossível sair dele o mesmo.
Também da época da Faculdade, O Nome da Rosa, de Umberto Eco foi um livro que prendeu minha atenção. Às vezes desconfio que só gostei tanto dele porque a ambientação era quase a mesma de Aventuras de Xisto. Em todo caso, li-o três vezes. Na primeira, o que mais me chamou atenção foram os detalhes sobre a história da Idade Média. Na segunda, os aspectos relacionados às teorias da comunicação (especialmente semiótica e teoria da informação). Na terceira, eu já estava mais interessado em detectar as influencias de Jorge Luís Borges sobre a obra.
Chegamos em Borges. O que mais me marcou no autor argentino não foi um livro, mas um conto: "O Aleph". O texto parecia uma versão literária de meus estudos sobre teoria do caos. A partir daí comecei a devorar tudo que me caía as mãos sobre o autor portenho.
"O Aleph" me foi emprestado por um colega de redação na Folha de Londrina. Foi também ele quem me emprestou Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Eu já havia lido Farenheith 451, mas esse parecia uma versão menor de 1984, de Orwell. Crônicas Marcianas tinha vida própria e fez com que eu me interessasse pela literatura de ficção científica norte-americana.
De Bradbury para Isaac Asimov foi um passo. Além das histórias de robôs, sempre me fascinaram seus textos de divulgação científica. Asimov produziu um verdadeiro tijolo, Cronologia das descobertas cientificas, que foi meu livro de cabeceira durante o mestrado.
Uma história em quadrinhos que mudou a minha forma de ver o mundo foi Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Moore virou de cabeça para baixo os comics norte-americanos ao mostrar os super-heróis de uma perspectiva realista. Histórias de heróis cuja vestimenta é uma fantasia sexual se misturam com casos de personagens que deixaram escapar bandidos porque precisavam ir ao banheiro. Pode parecer humorístico, mas a perspectiva não era essa. Moore realizou uma obra profunda sobre a condição humana em meio ao caos. O subtexto baseado na teoria do caos e na geometria fractal passou despercebido pela maioria dos leitores e só se tornou corrente no Brasil após o meu trabalho de conclusão de curso de graduação.
Já que falamos em teoria do caos, Caos: a criação de uma nova ciência, de James Gleick, é outro livro que exerceu grande influência sobre mim ao me mostrar o poder desse novo paradigma para explicar fenômenos não deterministas. Fenômenos deterministas são aqueles que seguem um padrão fixo, como um relógio. Para a ciência clássica, todo o universo era determinista. A teoria do caos demonstrou que esse modelo do universo como um relógio não corresponde à realidade. A maioria dos fenômenos, por mais determinados que pareçam, podem mudar de comportamento de uma hora para outra em decorrência de pequenas alterações, chamadas de efeito borboleta.
A teoria do caos foi uma das bases da teoria de Edgar Morin. Esse autor francês produz tanto que é quase impossível destacar um livro mais importante. Ciência com consciência, Sete saberes necessários à educação do futuro e A Cabeça bem-feita são alguns dos mais famosos. Morin defende uma nova visão de mundo, diversa daquela inaugurada por René Descartes, segundo a qual, para conhecer algo, é necessário dividir esse algo em pequenas partes e estudá-las um a uma.
Para Morin, as partes não podem ser vistas senão em sua relação com o todo. A teoria do caos demonstrou que tudo está relacionado. Uma pequena borboleta batendo suas asas na China pode desencadear uma série de eventos que redundam em uma tempestade em Nova York.
Morin critica a fragmentação dos saberes e defende uma ciência que vê as coisas em suas relações com outras coisas. Pensando bem, isso tem tudo a ver com a filosofia oriental que aparecia nas páginas das histórias em quadrinhos do Mestre do Kung Fu. Talvez tudo esteja mesmo interligado.
A divulgação científica nos quadrinhos
Versailles – série histórica da Netflix
No século XVIII a França vivia uma grande transformação. O poder, que até então estivera nas mãos da nobreza feudal, começou a ser abocanhado pelo rei no processo que ficaria conhecido como absolutismo francês. O maior exemplo disso foi Luís XIV, o rei-sol, que dizia: “O estado sou eu”. E a maior representação desse poder foi o palácio de Versailles.
Versailles foi construída no antigo pavilhão de caça do pai de Luis XIV e tinha dois objetivos: um deles era sair de Paris, diminuindo as possibilidades de uma revolta por parte dos nobres feudais. O segundo objetivo era abrigar os nobres que se conformavam com a nova situação. Destituídos de seu poder e de suas terras, estes recebiam, em troca, um emprego na corte (podia ser abotoar o sapato do rei, por exemplo), onde viviam em meio ao luxo no maior e mais espetacular palácio da Europa.
A vida na corte era um eterno teatro cujo principal ator era o rei-sol. Nobres se acotovelavam para ver o rei acordar ou se recolher, como se vissem o espetáculo do nascer e do por-do-sol. Ou se amontoavam para vê-lo almoçar – os de mais prestígio eram chamados até mesmo para comer junto com o soberano. E Luis parecia ser também o centro sexual do palácio, com suas várias amantes e várias mulheres que pretendiam cair em sua graça.
Versailles era um local de festas eternas, mas também era um local de intrigas palacianas. Os nobres jamais se conformaram em perder o poder e houve vários complôs contra o rei.
A série Versalhes, lançada no Brasil pela Netflix, se propõe a abordar a construção do castelo, o luxo e as intrigas que envolviam a corte francesa. E não decepciona. O figuro é realmente esplêndido, assim como cenário. Há incongruências, claro. Em algumas cenas, o palácio, filmado atualmente, aparece inteiro, com partes que não existiam na época em que a história decorre. Mas elas passam facilmente despercebidas diante do bom roteiro, da direção inspirada e principalmente das grandes atuações – a começar pelo protagonista, George Blagden (de Vikings). A série tem duas temporadas na plataforma e já se fala em uma terceira.
Versalhes é perfeito para quem gosta de histórias de intrigas palacianas. É um Guerra dos Tronos sem dragões. E com um final realmente de tirar o fôlego.
sábado, maio 27, 2023
Farrapo humano, de Billy Wilder
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JANDIRA (categórica): Neste hotel não vejo, não escuto, não falo!
DIÁLOGOS

As histórias clássicas da Disney na versão terror
O artista sueco Daniel Björk fez uma série de imagens com cartazes clássicos da Disney transformando-os na versão terror. Confira o resultado.









































