sábado, março 29, 2025
O enigma de Andrômeda
A região é isolada e os sobreviventes e o satélite são enviados para um centro de pesquisas onde cientistas lutam contra o tempo para isolar o vírus extraterrestre e encontrar uma cura antes que a doença se espalhe.
Trata-se de um ótimo filme de ficção científica hard, em que os heróis são cientistas e a solução do problema depende mais da inteligência do que dos músculos.
Chricton é um cara antenado com as descobertas científicas mais recentes (em Parque dos Dinossauros ele não só explica muito bem as descobertas sobre os dinos, como ainda dá uma aula sobre teoria do caos) e coloca isso no filme. Até mesmo o processo de esterilização acaba se tornando interessante para quem gosta de ciência (Frase predileta: "O corpo humano é uma das coisas mais sujas do universo").
Joyland, de Stephen King
Homem-Aranha - A loucura de Mysterio
Na história o vilão foge da prisão disposto a se vingar do herói. Para isso, ele efetua um assalto bem no meio da cidade, mas Parker nem lhe dá bola. Ele está ocupado com seus próprios problemas, incluindo a relação estremecida com Gwen Stacy graças a um engano (ela acha que ele tentou matar seu pai) e o pai de Osborn, que pode recuperar a memória e voltar a se tornar o Duende Verde (o vilão sabe a identidade secreta do herói).
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| Mysterio reduz o herói a 14 cm... |
Resta ao vilão apelar: fazer uma transmissão pela TV ameaçando destruir Nova York se o aracnídeo não o procurar no local do primeiro confronto entre os dois. Essa transmissão provoca uma crise de nervos na tia May, o que faz Parker finalmente tomar a iniciativa.
O que se segue é uma história eletrizante, em que perigos se seguem a novos perigos, que se seguem a novos perigos e assim adiante. Para começo de conversa, Mysterio aparentemente reduz o tamanho do Aranha, fazendo com que ele fique com aproximadamente 15 centímetros e tenha que fugir para não ser esmagado. “Lá está ele! Parece um gigante! É como se isso fosse um formigueiro... e eu, uma aranha capturada!”, exclama o herói, enquanto uma versão titância do vilão se aproxima para destruí-lo.
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| ... e submete o herói a uma verdadeira maratona de perigos. |
Essa ideia de um herói passando por diversas armadilhas seria depois reaproveitada em histórias célebres dos X-men e do Demolidor, mas Stan Lee e John Romita parecem ter sido os que inauguraram a ideia.
Demolidor – História de criança
O Justiceiro tornou-se, no final da década de
1980, um dos personagens mais populares da Marvel. Mas, embora tenha surgido no
início da década de 1970 nas histórias do Aranha, as características do
personagem só se delinearam de fato a partir da sua aparição na revista do
Demolidor de Frank Miller.
A primeira vez que os dois personagens se
encontraram foi em Daredevil 183, de junho de 1982. A capa já deixa claro que
essa era uma versão mais hard do personagem com o Justiceiro atirando à queima
roupa no herói cego.

Miller une com perfeição texto e imagem.
A trama gira em torno de uma nova droga, o pó
dos anjos, que estava sendo usada principalmente para viciar crianças. A
história começa com uma menina tendo um flashback do efeito e se jogando da
janela.
Miller usa o texto para descrever o estado
mental da menina enquanto o desenho a mostra em desespero (uma fumaça branca
saindo de sua boca representando visualmente o efeito da droga). O texto diz:
“As cobras caíram sobre seu cabelo e agora rodopiam por suas pernas e abrem
caminho por sua garganta”. A confusão mental da menina é representada por frases
que muitas vezes ficam incompletas ou parecem fragmentos de um trecho maior.
Essa sequência é uma demonstração de como Miller sabia jogar magistralmente com
os dois elementos dos quadrinhos, a instância textual e a visual.

O encontro do Justiceiro com o Demolidor gerou cenas memoráveis de ação.
O responsável por ter viciado a menina é um
tal de Porcão, o chefe do tráfico na região, e o irmão da menina resolve vingá-la.
Mas o Demolidor e Justiceiro também estão atrás do Porcão.
O Justiceiro é descrito por Bem Urich como um
assassino: “É bom de luta corpo a corpo. Matou doze homens durante o tumulto na
prisão. E você quer enfrentar esse cara?”.

O Justiceiro de Miller era capaz de espancar um viciado apenas para conseguir uma informação.
O Justiceiro de Miller é capaz de torturar
até a morte um viciado para conseguir uma informação. É também um personagem de
ação, que usa tanto as mãos quanto armas para conseguir o que quer – o que
permite a Miller algumas ótimas sequências de luta.
O trabalho de Miller com o Justiceiro foi tão
marcante que a partir daí ele se tornou um personagem recorrente da série do
homem sem medo, da mesma forma que o Rei, que também havia surgido nas páginas
do Homem-aranha.
sexta-feira, março 28, 2025
Curupira
Nunca acreditei em elementais. Só mudei de opinião quando visitei uma cidade da ilha de Marajó chamada Muaná.
Fui com a minha namorada na época e atual esposa. Talvez caiba aqui uma palavrinha sobre o modo de vida na ilha de Marajó. O que mais salta aos olhos é a importância do rio. Para as pessoas que moram no interior, o rio é tudo: de fonte de alimentos a rua. Sim, rua! Para se ir à casa do vizinho, não se vai por terra, mas pela água. Hoje todos têm voadeira ou rabeta. Mas na época que se passa a história, todos usavam uma canoazinha inconstante, que alguns chamam montaria ou cascinho.
Todos fazem suas casas na beira da água. Minha esposa me contou que certa vez sua mãe brigou com uma vizinha que morava do outro lado do rio. As duas postaram-se na ponta do trapiche e ficaram lá, gritando impropérios uma para a outra. Para nós, seria como ter uma discussão com um vizinho que mora a duas ruas de distância sem sair de casa.
Usando um casquinho, no qual eu quase nunca conseguia me equilibrar, visitamos vários locais e conhecemos a região próxima ao rio. Mas tinha ganas mesmo era de andar no meio da floresta. Afinal, eu já estava mais do que acostumado a fazê-lo na mata do Utinga, em Belém. Assim, munido de um facão, entrei na floresta.
Meu objetivo era encontrar um pé de fruta (não me lembro realmente qual) que havíamos avistado à beira de uma baixinha. Baixinha é como os caboclos chamam os pequenos riachos criados pela cheia do rio. Verdadeiras veias que serpenteiam toda a mata, transformando-se em valas de lodo quando a maré está baixa.
Não houve qualquer problema na ida, embora eu fosse obrigado a atravessar uma parte bem densa da floresta e não tivesse comigo uma bússula. Cheguei exatamente onde queria, o que não surpreende, pois eu estava acostumado a andar na mata e sempre o fiz usando apenas o sol, a beira do rio e as trilhas existentes para me orientar.
Infelizmente, o cacho estava vazio. Algum animal se antecipara a mim na colheita das frutinhas. Era retornar.
Quando voltava, comecei a ouvir passos atrás de mim. Quem quer que fosse, andava quando eu andava e parava quando eu parava. Intrigado, dei o grito característico que os caboclos usam para se cumprimentarem. Uma mistura de O com U muito agudo e forte. Pode parecer pouco elegante, mas no meio da mata é a melhor maneira de se ter certeza de que o outro ouvirá. Mas naquela ocasião, meus cumprimentos não foram respondidos.
Tentei novamente, ainda mais forte. Nada.
Continuei andando, e os passos atrás de mim. Era bem audíveis. Não se tratava, por exemplo, de uma ilusão auditiva provocada pelo vento nas folhas ou pelos galhos caídos. Não mesmo. Podia ouvir perfeitamente os passos atrás de mim: poc poc poc... de vez em quando, podia perceber uma madeira estalando, sinal claro de que alguém a pisara.
Parei novamente... e repeti o cumprimento. Nenhuma resposta. Comecei a pensar, então, que poderia ser um porco. Os marajoaras têm o costume de criar seus porcos soltos pela floresta. Todo dia, no final da tarde, os suínos se reúnem para receber comida de seu dono, mas passam a maior parte do dia na floresta, devorando coquinhos. De vez em quando um deles se torna selvagem, dando ensejo para uma caçada com espingardas pica-pau.
Certo de que era um porco, pus-me a chamá-lo. Coisa curiosa são as formas que o pessoal do interior usa para chamar porcos. Cada região tem uma. Na ilha de Marajó, chama-se assim: cheine, cheine, cheine... pode parecer nome de cowboy, mas funciona. Comigo, no entanto, não deu certo. Não era um porco.
Enquanto chamava o porco, parei numa clareira com uma mangueira muito grande. Continuei andando. Pelos meus cálculos, já devia estar perto da casa e logo acabaria me livrando do meu perseguidor. Para minha surpresa, não só não encontrei a casa, como voltei para o mesmo ponto: a clareira com a mangueira! Fiquei apavorado. Eu nunca havia andado em círculos em todos os anos de experiência na floresta! Além disso, para fazê-lo, eu precisaria estar caminhando há horas. Eu havia voltado para o mesmo ponto em poucos minutos! Para quem achava que estava indo em linha reta, era uma constatação assustadora.
Lembrei imediatamente da lenda do curupira. Para os que não a conhecem, o curupira é um menino de cabelos de fogo e pés voltados para trás. Trata-se de um elemental da floresta, que faz com que se percam caçadores e pessoas mal-intencionadas (na verdade, eu descobri depois que qualquer um que entra na mata sem pedir permissão é considerado mal-intencionado). O curupira tem também o poder de ilusão. Há uma história sobre um caçador que sempre matava mais animais do que precisava, desrepeitando a natureza. Para castigá-lo, o curupira fez com que ele, vendo sua mulher, pensasse que se tratava de um bicho. Resultado: o caçador fez fogo e acabou matando a própria esposa...
Todas essas histórias me vieram à mente naquele momento. Então fiz a única coisa que não poderia ter feito: saí correndo pela mata. Quando dei por mim, estava completamente perdido. Os passos já não me seguiam mais.
A mata da região tinha uma característica que dificultava em muito as coisas para mim. O chão era, na maior parte, elameado. Nada de terra firme, na qual acabam se formando trilhas nos locais por onde as pessoas passam com mais freqüência. Em certo ponto, precisei atravessar uma baixinha que estava aparentemente seca. Quando dei o primeiro passo, afundei até quase a cintura. A lama era tão espessa que agarrava meu tênis, tirando-o do pé. Isso me atrasava, pois eu tinha de voltar para pegá-lo. Andar sem tênis, nem pensar.
Já em terra firme, pensei em seguir uma baixinha, mas eu sempre as encontrava pelo meio e, como ainda não começara a cheia, não sabia para que lado ficava o rio. Outro problema é que, em certas regiões mais estreitas da ilha, as baixinhas poderiam até varar de um lado a outro.
O jeito era gritar e andar. Fiz isso até que ficasse rouco e meus pés já não me agüentassem em pé. O pior de tudo é que o dia já ia terminando. A perspectiva de passar a noite na floresta sozinho, enlameado, sem fogo, e apenas com um facão era assustadora demais para ser sequer cogitada. Eu não iria querer isso nem para o meu pior inimigo. A floresta de dia é uma espécie de paraíso silvestre, um local onde reencontramos nossa essência, um local em que entramos em contato com a natureza no seu estado mais puro... mas a floresta de noite é um inferno capaz de fazer Rousseau mudar de idéia e ansiar desesperadamente para o conforto de uma casa com todas as comodidades modernas. Há os insetos. Todos eles saem de noite para se alimentar do primeiro bobalhão com a pele descoberta que puderem encontrar. E existem insetos que nem merece esse nome, pois são enormes, verdadeiros monstros. Além deles, todos os animais carnívoros saem de noite para caçar. E havia também aquilo que não podia ser nomeado, as criaturas da noite, que não existem para a nossa realidade cartesiana, mas são perigosamente reais quando o manto negro cai sobre as árvores. E, quando se está na floresta, a noite cai de repente, sem qualquer aviso. Num momento é dia e no outro é a mais negra noite.
Estava já quase desistindo e me conformando com minha má sorte quando ouvi vozes. Vozes humanas. Comecei a gritar para chamar a atenção de quem quer que fosse, enquanto me aproximava da origem do som. Então percebi que as pessoas estavam do outro lado de uma baixinha. Uma, aliás, que nem merecia esse nome: era enorme.
Impossível de atravessar como eu fizera com a outra. Comecei a percorrer a beira até encontrar uma árvore caída que servia de ponte. Quase caí, mas cheguei do outro lado. Depois de muita procura, encontrei um casal de caboclos com filhinha. Contei para eles minha história.
- Nós estamos indo catar açaí. – informou o homem. Espere aqui, que depois a gente te leva pra casa.
Sentei numa árvore caída e esperei. Esperei. Esperei e esperei. O tempo passou e nada deles aparecerem. Uma idéia idiota, aterrorizante, passou por minha mente: e se não existissem nem o homem, nem a mulher, nem a criança? E se fosse tudo uma ilusão provocada pelo curupira?
O tempo passava e eu me sentia cada vez mais angustiado. O pensamento terrível aparecia de tempos em tempos, mas eu o afastava, como quem espanta um mosquito.
Finalmente, ouvi barulho de vozes. Os três apareceram, trazendo cachos de açaí. Enquanto me levavam para sua casa, eles me informaram que eu havia atravessado de um lado a outro da ilha. Também disseram que, pelo caminho que ia, acabaria chegando no mangue e, provavelmente, seria obrigado a passar a noite lá.
- O mangue é um lugar terrível para se andar. – comentou o homem.
Realmente, além do solo enlameado, essa região tem uma vegetação característica, composta de capim navalha (que corta a pele ao menor contato) e plantas espinhosas.
No final, voltamos para a casa do meu sogro da maneira mais rápida: de canoa. A maré estava cheia, o que nos permitiu atravessar por uma baixinha que ia de um lado a outro da ilha. Caso contrário, teríamos que contornar a ilha, o que levaria horas.
Quando contei o que me acontecera, meu sogro não só não duvidou de minha palavra, como ainda aconselhou:
- Não se entra na mata sem pedir permissão.
(Ilustração do amigo Romahs)
Cidade invisível
A primeira coisa que chama atenção em Cidade Invisível, série da Netflix criada por Carlos Saldanha (de A era do gelo), é a nítida semelhança com trabalhos de Neil Gaiman, como Sandman e Deuses Americanos, em que seres mitológicos e deuses vivem misturados com os humanos, como se fossem pessoas normais. Certamente não é uma coincidência, uma vez que a fonte é uma trama criada por Rafael Draccon, que certamente conhece o trabalho de Gaiman.
O que a série traz de inovador é explorar a mitologia brasileira, com sacis, curupira, iara, cuca e misturar isso com uma trama policial – em que alguém parece estar matando entidades.
O título cidade invisível tem dupla interpretação. Por um lado, remete aos seres míticos, invisíveis à maioria das pessoas. Mas por outro, remete à invisibilidade social. Todas as entidades são pessoas excluídas da sociedade, mendigos, moradores de favelas e cortiços.
Nesse sentido, um dos maiores méritos da série é a caracterização visual dos personagens. A Iara, por exemplo, tem um belo cabelo trançado que emula a cauda de uma sereia.
Outro grande mérito é provar que a mitologia nacional pode ser mostrada de maneira não-infantilizada em uma trama que flerta com o terror. Essa abordagem, aliás, parece ter funcionado, já que a série está entre as mais assistidas da Netflix.
Como aspecto negativo, o excesso de bifes, diálogos que parecem a maior parte do tempo não ter outra função que não seja explicar aspectos da trama ou do próprio universo da série para o expectador. Aliás, essa necessidade de explicar tudo é, certamente o maior defeito da série. Até mesmo a origem de seres como a Iara, a Cuca, o saci e o curupira e até do vilão e do protagonista são explicados, muitas vezes de maneira forçada para encaixar tudo numa trama coesa.
Você sabe a diferença entre ficção e fraude?
A história perdida do Puritano
A segunda história da dupla provavelmente foi uma HQ perdida chamada Puritano.
Fundo do baú - Shazan, Xerife e cia
Os personagens Shazan e Xerife surgiram em 1972 na novela Meu primeiro amor, de Walter Negrão. Interpretados por Paulo José e Flávio Migliaccio, os dois mecânicos atrapalhados fizeram tanto sucesso que ganharam uma série própria exibida nas tardes pela rede Globo.
A trama era psicodélica: os dois personagens percorriam o país numa camicicleta (uma mistura de carro com bicicleta) sempre se metendo em confusões. Uma curiosidade é que a tal camicicleta era, na verdade, um Ford antigo modificado e acrescido de vários adereços.
Os dois buscavam uma tal de peça mágica que lhes permitiria construir uma bicicleta voadora, numa clara alusão a “coisas que faziam voar”. A ideia por trás de toda a psicodelia era o anseio pela liberdade, o que fez com que a série se tornasse extremamente popular entre os jovens da geração hippie.
A série era exibida originalmente às quintas-feiras, às 21 horas, mas pouco tempo depois migrou para o horário das 18 horas, sendo exibida de segunda a sexta.
Uma curiosidade que o nome Shazam era uma alusão ao personagem de quadrinhos que usava a palavra para se transformar. Apesar de já naquela época o herói ser propriedade da DC Comics, a Rede Globo não teve nenhum problema de direitos autorais. Imaginem hoje em dia a Globo usando o nome de um personagem da DC ou da Marvel... no dia seguinte os advogados bateriam na porta da emissora.
A série Shazam, Xerife e cia foi exibida de 1972 a 1974, num total de 66 episódios.
Monstro do Pântano – O fim
Sempre que leio a edição 50 de Swamp Thing, eu me lembro da música Trem das Sete, de Raul seixas (“Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais”). A razão é que Rauzito, da mesma forma que Alan Moore, usou a arte como metáfora para discussões transcendentais e filosóficas. E, de certa forma, ambos contam a mesma história. Assim, começo a resenha por essa dica de trilha sonora para a história que talvez represente o ponto alto de toda a série do Monstro do Pântano.
Na edições anteriores, a sociedade secreta Brujeria forjara uma pérola de medos e a enviara no bico de um corvo. O objetivo é acordar uma antiga entidade capaz de destruir o paraíso. O que emergira do oceano primordial era alto tão imenso que parecia uma enorme montanha. Como resultado, dois exécitos se posicionam: de um lado os que defendem a criatura, do outro, os que a combatem, incluindo demônios, como Etrigan (“Frente ao que se aproxima, eles têm tanto a perder quanto nós. Mesmo o inferno tem uma situação estabelecida”, explica o Monstro do Pântano).
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| A ameaça que se aproxima é incomensurável grande. |
Na terra, magos reunidos por John Constantine tentam canalizar suas energias para os combatentes, tendo Mento como guia (“Será que vocês não entendem? Não podemos enfrentar aquilo! É maior do que conseguimos imaginar, nos deixa insignificantes!”, descreve ele).
A criatura percebe que está sendo vigiada e reage. Um a um, os magos reunidos por John Constantine começam a morrer queimados, mas eles continuam agindo (o encanto exige que não se quebre a corrente, de modo que os que estão do lado dos que morreram precisam continuar segurando sua mão).
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| Os magos são mortos um a um. Quem será o próximo? |
Desse modo, Moore une duas tramas paralelas: os exércitos na periferia do inferno e os magos, cada um com seu nível de suspense e drama, de modo que é quase impossível parar de ler... até porque a ameaça literalmente cresce a cada minuto. Os magos só conseguem ter uma visão melhor da criatura quando Espectro cresce a um tamanho inimaginável e consegue agarrá-la. “Agora ele enxerga a criatura inteira. É como uma... uma lesma em carapaça de besouro. Um capuz de osso, do tamanho de um continente, protege a cabeça preta e cega”, descreve Mento.
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| Espectro é o único que consegue ter noção do tamanho da criatura. |
Um a um os heróis são absorvidos pela criatura: Etrigan, Espectro, Senhor Destino... a cada um ela faz uma pergunta, e todos eles são simplesmente cuspidos para fora. O único que entra espontaneamente é o Monstro do Pântano, e para sua surpresa, o conselho do Parlamento das Árvores, que ele até então achara inútil, é o que resolve tudo.
Não vou dar spoilers, mas posso dar uma dica sobre o final: ouça a música de Raul Seixas.
Baudolino e a obra aberta de Umberto Eco
Em Baudolino, Umberto Eco faz o que sempre fez melhor: contar histórias ambientadas na Idade Média. Seu outro grande sucesso, O Nome da Rosa, também acontece na chamada Idade das Trevas e talvez venha daí seu sucesso.
Eco tem outros textos, mais acadêmicos, em que compara a Idade Média com nossa época e diz que as semelhanças são maiores que as diferenças.
De fato, é grande a semelhança do período em que se passa Baudolino (1152 –1204) e os dias atuais.
Na época reinava na Europa o Imperador Frederico, que gastava mais tempo administrando os conflitos entre as cidades italianas do que com qualquer outra coisa. Da mesma forma, os pequenos países do Oriente Médio têm dado grande dor de cabeça para o todo-poderoso de nossa época, o presidente norte-americano George W. Bush.
E, se os italianos tinham o ouro de seu tempo (as especiarias), os mulçulmanos têm o ouro atual (o petróleo).
“Vale a pena viver nessas terras, onde todos parecem ter feito voto de suicídio, e onde uns ajudam os outros a se matarem?”, diz Baudolino, à certa altura do livro. Parece estar falando dos países do Oriente Médio, mas está se referindo à Itália.
Coincidências à parte, o livro vale pela inventividade. A história é contada a partir do relato de Baudolino, um mentiroso por natureza, que acabou sendo adotado pelo imperador Frederico após fazer uma previsão absolutamente falsa: “Quando se diz uma coisa que se imagina, e os outros dizem que é exatamente assim, acaba-se por acreditar nela, afinal. Assim, eu vagava pela Frascheta e via santos e unicórnios na floresta, e quando encontrei o imperador, sem saber quem fosse, falei em sua língua, e disse-lhe que São Baudolino me dissera que ele conquistaria Terdona. Disse-lhe isso para contentá-lo, mas para ele era conveniente que eu o dissesse a todos, e de modo especial aos mensageiros de Terdona, para que eles se convencessem de que também os santos estavam contra eles, eis a razão pela qual me comprou de meu pai”.
O livro começa com Baudolino salvando Nicetas, um sábio da corte de Constantinopla à época em que ela foi invadida pelas tropas européias. Nicetas faz um favor a seu salvador: ouve e escreve seu relato, na tentativa de contar a história de uma época.
Mas a empreitada é difícil. Baudolino é tão mentiroso que o sábio não consegue distinguir, entre o que ele fala o que é real e o que é falso. Muitas vezes o que parece real é falso e o que é falso parece real.
Baudolino é uma espécie de Forrest Gump da Idade Média. Com uma diferença: enquanto Forrest era um tolo, Baudolino é um espertalhão mentiroso.
A graça do livro está justamente aí: em ouvir uma história sem estar certo da idoneidade de quem a conta. De todos os fatos narrados, muitos são mentira e muitos são verdade, mas é impossível separa o joio do trigo.
Baudolino dá a impressão de ter sido escrito para provar uma das teses mais importantes de Eco: a obra aberta.
Na década de 60, quando o mundo das artes era sacudido por uma vanguarda pós-moderna, Eco escreveu um livro definindo o que ele chamou de Obra Aberta em oposição ao que ele chamou de discurso persuasivo, ou fechado.
O discurso persuasivo traz a mensagem pronta para o receptor. O leitor de um livro tem apenas o trabalho de descobrir o que o escritor pretendia com seu livro. Uma única leitura era a permitida.
A obra aberta revolucionava o sentido da arte forçando o receptor a ter participação ativa no processo de fruição. Assim, cada pessoa que lesse um livro ou ouvisse uma música deveria ter um entendimento próprio sobre seu significado. Já não havia mais certezas a serem desveladas. O próprio conceito de realidade é colocado em questão. Pela teoria da relatividade, cada observador teria sua própria interpretação de realidade, dependendo do ponto em que estivesse observando determinado fenômeno.
Da mesma forma, em Baudolino, realidade é o que o protagonista conta, mas ele pode estar mentindo e, assim, a realidade é relativizada. O leitor não deve confiar nem mesmo no narrador.
Mas não é necessário conhecer o conceito de obra aberta para gostar de Baudolino. Eco, como sempre, consegue transformar temas complicados (como a política medieval) em uma leitura deliciosa que envolve uma história policial, lendas medievais, uma expedição em busca do Santo Graal e até uma referência à Alexandria, cidade natal do escritor.
Outro destaque é a capa, belíssima, com impressão em prata.
Um livro para ler e reler e encontrar novos significados a cada nova leitura.
quinta-feira, março 27, 2025
O Cavaleiro da Lua
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| O personagem surgiu como vilão da revista do Lobisomen. |
De todos os super-heróis da Marvel nenhum tem uma origem tão inusitada quanto o Cavaleiro da Lua.
O personagem surgiu em 1975, como vilão na revista do... Lobisomem! Na história ele é um mercenário contratado por um misterioso grupo chamado Comitê para capturar o licantropo. Por isso sua roupa e todos os seus equipamentos são de prata, afinal, a prata é o metal o ponto franco dos lobisomens. No final da história em duas partes o personagem descobre que o Comitê quer usar a fera para cometer assassinatos e se redime, ajudando a libertar o protagonista. Para o roteirista Dough Moench e para o desenhista Don Perlin deveria ser apenas mais uma história do gibi. Mas o personagem chamou atenção e começaram a chegar cartas de leitores pedindo um título solo do Cavaleiro da Lua.
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| Na segunda versão do personagem ele ganhava força extra ao ser mordido por um lobisomem. |
A Marvel resolveu fazer um teste no título Marvel Spotlight 28 e 29. A equipe era a mesma da revista do Lobisomem: Moench e Perlin.
Essa nova abordagem aproveitava muito do que já tinha sido visto anteriormente, mas acrescentava outros: o personagem era um mercenário veterano de várias guerras na África, chamava-se Mark Spector (na primeira aparição era Spektor), e ganhara força sobrehumana ao ser mordido pelo lobisomem. Além disso, à essa altura, já tinha se tornado rico e usava três identidades: Steve Grant, um milionário, Mark Spector, o mercenário e Jacke Lockley, uma identidade usada para conseguir informações. Além, claro, do próprio Cavaleiro da Lua.
Quem conta isso tudo é Fuinha, o assistente de um mafioso chamado O conquistador, que se revela o vilão dessa primeira história solo do herói. Apesar do desenho de Perlin não ser grande coisa e do roteiro ter algo de infantil (o herói ganha poderes ao ser mordido por um lobisomem! Sério? Quem pensou nisso?), o título vendeu bem o bastante para a Marvel arriscar um título solo.
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| Na versão definitiva do herói, a capa sempre formava uma lua. |
Em 1980 estreou o gibi do Cavaleiro da Lua, mas agora com um acréscimo valioso: o desenhista de nome impronunciável Bill Sienkiewicz. Altamente influenciado por Neal Adams, mas já revelando um estilo próprio que faria dele uma sensação anos depois, Sienkiewicz era a alma do título. Algo que havia sido apenas sugerido por Perlin torna-se um padrão: a capa do personagem sempre aparecia no formato de Lua. Outra inovação foi não mostar o rosto, mas apenas as sombras sob o capuz e os olhos vermelhos, o que dava um ar de mistério ao herói. Além disso, o desenho era extremamente dinâmico, constantemente usando e abusando do escorço, com uma parte dos personagems em primeiro plano.
O roteiro de Moench acompanhou a evolução da arte tanto em termos de qualidade quanto de conceito. Na nova versão, Mark Spector é um mercenário que vê seu colega Bushman matar um velho arqueólogo e troca de lado, ajudando a salvar sua filha. Ele aparentemente morre depois de ir parar na tumba de rei egípcio, onde acaba renascendo graças à intervenção do deus da Lua. Ou seja: nada de lobisomens! Anos depois ele vai para os EUA, torna-se um milionário e usa as várias identidades para combater o crime com a ajuda da namorada e do amigo francês, que pilota um helicóptero que agora tinha o formato de uma lua.
De repente, o personagem secundário e meio ridículo tinha se tornado o dono de um dos títulos mais quentes do mercado de super-heróis.
A ilha do tesouro
The Batman, de Matt Reeves
Antes de ler, um aviso: esta resenha contém spoiller.
Matta Reeves tinha uma tarefa ingrata: fazer MAIS um filme do Batman. Pior: como aparentemente a ideia da Warner era não repetir vilões, o que sobrou é um dos vilões mais ridículos do cavaleiro das trevas: O Charada.
Matt acerta no tom, ao fazer um Batman que é muito mais um detetive do que um herói de ação. A película também tem o ar sombrio que se espera de uma história do homem-morcego.
O charada foi transformado do brincalhão que avisava o Batman antes de cada crime apenas para ser pego em um assassino serial que faz um jogo de gato e rato com o herói. Suas pistas fazem parte de um plano maior cujo objetivo é desmascarar uma rede de corrupção em Gothan que envolve de mafiosos ao prefeito. Em muitos sentidos, o filme lembra Seven, provovalmente um dos melhores filmes sobre assassinos seriais de todos os tempos.
Ou seja: é um filme que acerta no tom e que transforma um vilão caricato num perigo real.
Mas aí começam os problemas.
Embora o expectador acompanhe toda a investigação de Batman e todos os passos que o levam a descobrir a verdade, o mesmo não ocorre com o Charada. Ele descobre sozinho o maior segredo de Gothan e ninguém sabe como ele conseguiu isso. Pior: ele aparentemente sabe sabe até mesmo que Batman é Bruce Wayne (há várias pistas nesse sentido), algo que nem mesmo o comissário Gordon desconfia. Em nenhum momento é explicado como ele conseguiu decifrar esses dois segredos.
É o que chamamos de roteirismo: para a história funcionar, o vilão precisava conhecer a identidade secreta de Batman e precisava ter desvendado o esquema de corrupção da cidade. Então simplesmente o colocaram sabendo dessas informações, sem se preocupar com qualquer explicação a respeito.
Há um outro problema: na tentativa de imitar Seven, o filme tem um quarto ato, que ocorre após a prisão do vilão. Mas em Seven esse quarto ato era rápido e a prisão do vilão era fundamental para que o quarto ato fosse desencadeado. Aqui o quarto ato é muito longo e a prisão do vilão não interfere em nada. O quarto ato, inclusive, torna o filme ainda mais longo – no total são 3 horas de película.
Enfim, Batman de Matt Reeves era um filme que tinha tudo para se tornar um clássico. Mas peca pelo excesso pelos problemas de roteiro.
Em tempo: Zoë Kravitz está perfeita no papel de Mulher Gato. Impressionante imaginar que ela foi rejeitada para esse mesmo papel na trilogia do Christopher Nolan.





















