domingo, junho 29, 2025

X-men – A ação do tigre

 


A saga de Proteus foi o grande marco dos X-men. O tipo de história que mostrava que a série havia passado para um outro nível de amadurecimento, que, em muitos sentidos, quebrava com tudo que viera antes em termos de super-heróis. Um processo que alcançaria seu auge na saga da fênix, na qual a heroína Jean Grey se tornava uma vilã.

E, de todas as partes dessa saga, a mais desruptiva foi a última, publicada em The uncanny X-men 128.

A splash page de abertura já dava o tom totalmente inovador e criativo imposto pela dupla Chris Claremont – John Byrne. Em um impactante desenho de Byrne, Proteus e sua mão Moira aparecem em primeiro plano, enquanto a paisagem da cidade de Endiburgo aparece distorcida ao redor deles.

Desenho e texto em perfeita harmonia. 

O texto de Claremont era igualmente impressionante. Claremont traz o recurso da personificção, em que coisas ganham características humanas, para demonstrar a alteração da realidade provocada por Proteus: “Já ouviu uma cidade gritar? Não só as pessoas, mas a própria cidade... coisa animadas e inanimadas, vivas e não vivas, de baratas a paralelepípedos, do topo do arranha-céu mais alto ao fundo do subsolo mais baixo. Tudo se solta de uma só vez com um grande grito primordial de medo e agonia conforme o tecido da realidade coletiva se torce e se rasga, e finalmente se desfaz perante o poder irresistível de um mutante louco. Tal era Edimburgo, capital da Escócia, no dia em que em Proteus chegou à cidade”.

A ameaça representada pelo mutante enlouquecido parece grande demais até mesmo para os X-men, algo muito bem resumido na frase do Destrutor: “Quase de cara já perdemos dois X-men, Scotty, e Proteus parece forte como nunca”.

Proteus parece invencível. 

Nem mesmo a Fênix consegue detê-lo. Aliás, a sequência em que ela o ataca mostra o quanto Claremont sabia manejar o texto ao mesmo tempo que antecipava a saga da Fenix negra: “De novo e de novo, Fênix ataca com uma ferocidade que choca Moira. Seu poder é uma sinfonia dentro dela... uma canção de alegria que alimenta rápido demais em seu crescendo”.

No final, a única alternativa encontra é matar o vilão.

Os leitores atuais podem não ter ideia do que isso representava no início dos anos 80. Naquela época os super-heróis nunca matavam. Um ou outro vilão podia até morrer, mas vítima de seus próprios planos, mas um herói nunca matava, por mais periogoso que fosse o vilão.

Ao mostrar os X-men matando um personagem, a série deixou claro que iria superar todos os limites dos quadrinhos de super-heróis.

sábado, junho 28, 2025

Odisseia cósmica

 

 Todos que conhecem um pouco mais de quadrinhos sabem que Thanos é uma cópia de um vilão da DC, Darkside, criado por Jack Kirby quando este revolucionou a editora na década de 1970.

Em 1988, Jim Starlin, criador de Thanos e grande mestre das sagas cósmicas estava na DC Comics. Era a oportunidade de trabalhar com a versão original de seu vilão.
Starlin imaginou uma grande saga estelar em que alguns dos mais poderosos heróis da DC se unem a Darkside para enfrentar a ameaça absoluta da anti-vida.
Starlin fazendo uma grande saga cósmica com personagens da DC é um velho sonho dos leitores e não decepciona. Como nessa época ele já estava diminuindo sua atividade como desenhista, foi chamado um artista que na época era uma estrela em ascenção: Mike Mignola. A junção desses dois grandes astros nos deu um dos poucos crossoveres realmente divertidos dos quadrinhos de super-heróis.


Mignola sabe dar peso às imagens, usando e abusando dos contrastes, o que é particularmente eficaz nas cenas do universo da anti-vida. Ele nitidamente não conseguiria desenhar diversos heróis em um único quadro (o que é uma especialidade de George Perez), de modo que Starlin, de maneira inteligente, escolhe um pequeno time de personagens para combater os espectros da anti-vida que escaparam para nosso universo, indo cada um para um mundo com o objetivo de destruí-lo. Algumas escolhas fazem todo o sentido, como Super-homem, Lanterna Verde, Estelar e Orion. Outras parecem forçadas por decisões editoriais, como o Batman, que parece deslocado numa saga cósmica. Mas, como bom roteirista, Jim Starlin dá um jeito de fazer com que o personagem se torne relevante na HQ (ele havia feito a mesma coisa com o Homem-aranha na saga de Thanos).
Aliás, Starlin consegue equilibrar perfeitamente a trama, sem fazê-la pesar demais para personagens como o Super-homem. Todos os personagens têm um bom desenvolvimento – inclusive melhor do que normalmente se fazia com eles à época.
Essa história foi lançada na década de 1990 pela editora Abril e em 2015 foi relançada pela Panini em volume encadernado com capa metalizada.

Autismo

 



Eu nunca tinha pensado em mim como autista, até que meu neto começou a ter algumas crises inexplicáveis. Do nada, ele começava a fazer algo que parecia uma birra, mas não tinha uma razão de ser. Conversando com uma aluna que era voluntária em uma associação de autistas, ela comentou que ele poderia ser autista. Como resultado, comecei a ler e pesquisar sobre autismo – e quanto mais eu lia, mais eu via em mim características de autismo, aliás, muito mais do que no meu neto.

Algumas das minhas lembranças mais antigas já mostravam indícios de autismo.

Em uma delas, por exemplo, eu estou viajando com minha avó de trem e não consigo prestar atenção à paisagem porque estou muito incomodado com a roupa de frio. Eu tenho muita sensibilidade na pele, o tecido da roupa sempre me incomodou, mas quando a roupa é apertada é quase insuportável. Essa é a razão pela qual sempre usei roupas muito largas, o que inclusive gerou aquelas imagens engraçadas em que estou ao lado do Bené e pareço estar usando a camisa de uma pessoa duas vezes maior.

Também tenho muita sensibilidade a sons. Sons altos não são apenas irritantes. São insuportáveis. Dor de cabeça, irritação, dificuldade de pensar, tontura. Pessoas neurotípicas podem achar que é simplesmente uma frescura, mas para um autista estar em um local com som alto equivale a uma tortura, o que muitas vezes pode até gerar crises equivalentes à epilepsia.

Outra característica que já devia ter levantado um alerta, caso eu já conhecesse sobre autismo é o hiper-foco.  Eu sou do tipo que, quando começo a fazer algo, faço só aquilo. Eu ficava impressionado com a minha esposa, que era professora de Inglês e Filosofia e que conseguia preparar aulas das duas disciplinas na mesma manhã. Eu, quando começo a preparar aulas de uma disciplina, chego a passar uma semana ou até mesmo um mês e dificilmente consigo trocar para outra enquanto estou focado em uma.

(Trecho do livro A árvore das ideias. Para baixar, clique aqui)  


Buda ou Budai?

 

É comum que as pessoas tenham em suas casas uma estatueta de um monge gordo e sorridente. Essa imagem é normalmente associada a Buda histórico Sidarta Gautama, mas retrata Budai, um monge zen muito popular na China.

 Budai era uma figura excêntrica. Costumava percorrer as ruas das cidades chinesas com sua grande barriga exposta. Ao invés de pregar nos templos, como fazia a maior parte dos monges budistas, preferia ficar brincando com as crianças. Carregava um saco de pano nas costas e quando lhe perguntavam o que tinha lá dentro, respondia: “O mundo inteiro”. Aliás, seu nome advém disso, já que budai significa saco de pano. Muitas vezes ele levava no saco doces e brinquedos, que distribuía para as crianças.

 Era uma pessoa divertida, que constantemente estava rindo e fazendo anedotas, razão pela qual também é chamado de “o Buda que ri”. Ele considerava como sua missão espalhar a alegria e a felicidade por onde quer que fosse.

 Conta a lenda que até após a sua morte ele aprontou uma anedota. Ele pediu para ser cremado, um costume pouco comum entre monges, e esse pedido tinha um motivo: ele tinha escondido fogos de artifício na roupa. Assim, quando seu corpo pegou fogo, começou um verdadeiro espetáculo para os que estavam acompanhando o evento.

 Todas essas características fizeram com que ele se tornasse um verdadeiro personagem folclórico na China. Após sua morte ele passou a ser associado à felicidade e à properidade. É comum no Japão e na China as pessoas terem uma estatueta do Budai com moedas como forma de garantir felicidade e prosperidade.

 É possível que os ocidentais, ao verem essas estatuetas, tenham perguntado de quem se tratava e a aproximação fonética de Budai com Buda tenha criado a confusão entre o monge zen chinês e o fundador do budismo. Entretanto, além de nacionalidades diferentes (Sidarta Gautama Índia), mais de mil anos os separam.

João e Maria

 


Entrei. Um vento forte varria o chāo da estação, levantando pedaços de papel e folhas.  Uma senhora aflita lidava com três filhos, tentando direcioná-los à locomotiva. O maquinista já apitava, fazendo com que rasgos de fumaça se misturassem ao vento.

Desci. Corri até eles. Peguei um dos guris no colo e outro pela mão. As grandes rodas de ferro já se movimentavam quando entramos. Coloquei o rapazote no chāo e enxuguei o suor do rosto. O serviço de escritório havia me enferrujado até a medula. O corpo todo arfava ao menor exercício.

 - Brigado. – agradeceu a senhora, reunindo a ninhada ao seu redor.

- Não há de quê. - respondi, ofegante.

Seguimos em frente e talvez por coincidência, havia somente quatro lugares vagos. Sentamos Os cinco juntos, a senhora de frente para mim. Pude, então, observá-la Devia ter uns 25 anos, embora aparentasse mais. Varizes serpenteavam por toda sua perna. O vestido de chita, estampado de flores, a custo segurava os seios moles. Tinha mão grossas, de gente que lida com a terra. O rosto era marcado pela vida. Rugas precoces avolumavam-se sobre a pele queimada. O cabelo, descuidado, deslizava simplesmente em direção aos ombros. Os olhos, tinha-os tristes, cabisbaixos, injetados de sangue. Havia de ter sido bela um dia.

-Seu marido não vem? - perguntei eu, depois de algum tempo.

Ela abaixou o rosto. Passou algum tempo assim. Depois observou os meninos. Estavam todos vestidos iguais, com calças que deixavam entrever o joelho e camisas de algodão. Ela vistoriou o que estava no seu colo. Arrependi-me da pergunta e olhei pela janela, desconcertado.

- Não vem, não senhor. - exclamou ela, de repente

Olhei-a. Ela abaixou os olhos

- Esta esperando você? - arrisquei

- Não tá mais não. O pobre ficou lá na cidade.

Interessou-me. Fiz-lhe novas perguntas que ela respondia com monossílabos, até que desatou a chorar. Consolei-a. Segurei sua mão. Pedi que demonstrasse força diante dos filhos, ao que ela se recompôs. Encostou na cadeira enxugou as lágrimas e pôs-se a falar. Soluçava e às vezes até vinha-lhe à garganta novo ataque de choro, que ela segurava heroicamente.

Contou-me que havia casado nova, com um rapaz das redondezas, lavrador como ela. Naquela época ainda não existia o trem e até a  cidade eram léguas no lombo do cavalo, se o viajante fosse rico, ou a pé, se fosse pobre. Contou-me das andanças que precisou fazer no dia do casório. Falou do caminho estreito, sujo de esterco, que teimava em grudar na ponta do seu vestido branco. Narrou o episódio de uma cobra que aparecera no meio do mato e como seu futuro esposo a matou querendo impressioná-la

Casaram na cidade e voltaram à noite para a roça

No começo viveram com sua mãe, depois construíram uma choça de pau-a-pique. Teriam sido felizes, não fosse uma promessa que o marido lhe havia feito na lua de mel: ficaria rico! Havia de ver! Ficaria rico de comprar fazendas até onde a vista pudesse alcançar. Eles beberiam cafë em xicaras, como haviam visto na casa do coronel, e seus filhos estudariam na capital. Seriam doutores

- Vão sê dotô, Maria, de falar difícil de ninguém entender.

Tiveram um filho e depois outro e outro. Ele não se esquecia da promessa Haviam de ser ricos.

Foi quando surgiu o trem de ferro. Passava a umas tantas terras da choupana, mas João - esse era seu nome- ia todo dia religiosamente, ver o trem passar. Regalava-se. Batia palmas, ria, gritava para os passageiros. Seis olhos brilhavam

-É isso, mulher! O trem! É o jeito da gente ficar rico, não vê?

- Mas como, João

- Como? Como? Mas então, com aquela ferraiada toda.. é coisa de rico, coisa de rico, mulher! O homem que dirige aquele trem deve de ser rico até não mais podé contá..

- E comoé que voce vai ganhá dinheiro com isso, João?

- Mas como? Como?! Eu entro no trem e converso com o homem, sô. Proponho sociedade.. eu trabalho para ele e recebo uma parte das passage..

- Mas e se ele não aceitá?

- Sempre vale a viage, num vale?

-E como é que ocê vaì entrar no trem, homem de Deus?

- Ah, isso é cá comigo.

 João mudou. Não cuidava da roça. Deixava a vaca pastando ao léu, voltava tarde para casa... Ficava o tempo todo no morro, observando os trilhos, esperando a hora em que trem passava.

 Vieram avisá-la. Estava morto. No fim da tarde, quando o trem passava, João pulara sobre ele como se fosse um cavalo. Até conseguira se agarrar, mas desiquilibrara, perdera o pé... e caira. Seu corpo rolou pelo morro e a cabeça deslizou para debaixo do trem.

A mulher agora vinha do enterro. O padre insistira para que fossem depositar o corpo no cemitério da cidade. Algumas pessoas juntaram seus cobres, a fim de pagar-lhe a passagem, a ela, aos ortãos e ao marido morto.  

No enterro compareceram alguns gatos pingados, mais por curiosidade que por piedade. Os amigos estavam todos na roça.

Nisso o trem parou.

-Brigado, seu moço, brigado. - disse ela, pegando os filhos.

Desceram. Observei-os durante algum tempo, mas o trem pegou velocidade e eles desapareceram no meio do rastro de fumaça.

Jornada nas estrelas – O piscar de um olho

 


Enredos criativos foram a forma dos produtores de Jornada nas Estrelas contornarem a falta de recursos da terceira temporada. E entre os episódios que usavam essa estratégia, O piscar de um olho certamente merece destaque.

Na história, a Enterprise recebe uma mensagem de socorro de sobreviventes de um planeta, mas quando o grupo de descida chega ao local, não encontram ninguém. Enquanto investigam, um dos tripulantes simplesmente desaparece. De volta à nave, tudo parece fora de controle. Vários equipamentos começam a ter um funcionamento estranho e uma estrutura misteriosa aparece ligada ao sistema de suporte de vida. Paralelo a isso, Kirk ouve um misterioso zumbido, que parece associado a algum tipo de inseto.

Esse início cria o clima de sense of wonder e mistério característico de boas histórias de ficção científica. O que estaria provocando tudo isso?

A resposta era uma civilização cuja velocidade havia sido alterada, em algum tipo de aceleração. Assim, eles se tornavam invisíveis para os humanos comuns e suas vozes pareciam zumbidos. Durante o processo de aceleração, a espécie perdeu a capacidade de procriar e está perto da extinção. A estratégia é atrair naves alienígenas e sequestrar machos, acelerando-os também, para tentar a procriação.

Claro que Kirk acaba sendo escolhido e é acelerado para procriar com a rainha local.

Esse enredo engenhoso trazia um aspecto muito interessante: não havia necessidade de efeitos especiais. Tirando um cenário pintado, que representava o planeta, a ação toda ocorre dentro da Enterprise. O único efeito é a atuação dos atores. Por exemplo, quando Kirk é acelerado ele começa a ver seus companheiros se movimentando cada vez mais lentos até que eles parecessem totalmente inertes. Isso era feito exclusivamente com a atuação dos atores. Um truque sem dúvida esperto que traz um resultado realmente impressionante.

Aliás, é surpreendente como um roteiro tão obviamente erótico tenha passado pela censura.  

Em tempo: o design da roupa da rainha era um exemplo de como os figurinistas de Jorna muitas vezes conseguiam ótimos efeitos com muito pouco. Eles simplesmente misturaram vestido com biquíni e o resultado parece realmente uma roupa alienígena.

A arte expressiva de Jack Kirby

 

O rei dos quadrinhos, Jack Kirby, foi responsável pela criação ou co-criação de grande parte dos super-heróis mais populares do mundo. Na definição de Alan Moore, "Jack Kirby criava um mundo antes do café da manhã". Além de criador inigualável, ele era um grande desenhista, que revolucionou o design das páginas com diagramações grandiosas e dinâmicas. Abaixo coloco alguns de seus desenhos. Deliciem-se. 















Oxigênio - filme reflete tempos de pandemia

 


Uma mulher acorda dentro de uma câmara de criogenia sem saber quem é ou porque está ali dentro. Presa, com a reserva de oxigênio diminuindo a cada minuto ela precisa resgatar todas as lembranças do seu passado para tentar entender o que está acontecendo.

Essa é a premissa de Oxigênio, filme dirigido por Alexandre Aja com roteiro de Christie LeBlanc e protagonizado por Mélanie Laurent (Bastardos Inglórios).

Oxigênio é um filme instigante, que começa com uma premissa estranha e evolui para uma trama complexa. Então temos uma reviravolta. E, quando o expectador acha que já entendeu tudo está acontecendo, uma nova reviravolta, que muda tudo.

Há vários aspectos interessantes a serem destacados, que tornam esse filme especial. Um deles é o fato de praticamente toda a ação acontecer dentro de um ambiente fechado, com praticamente só uma atriz.

O enredo é uma solução criativa e perfeita para tempos de pandemia global, em que aglomerações podem ser extremamente perigosas. E a forma como o roteiro é desenvolvido, supreendentemente, consegue preencher todo o tempo do filme mantendo a atenção e o interesse do expectador. Sempre há algo acontecendo, algo a ser descoberto, algo a ser lembrado, numa infinita sucessão que dura todos os 101 minutos de filme.

Mas, por outro lado, Oxigênio também reflete uma época de pandemia ao evocar a sensação de claustrofobia e isolamento. E na história há também uma doença global que está provocando uma quantidade enorme de mortes. A agonia da protagonista com o oxigênio que acaba de certa forma é uma metáfora de uma época em que pessoas morrem sem conseguir respirar.

Talvez por isso (e pela perícia de seus realizadores e da atuação envolvente de Mélanie Laurent), Oxigênio se tornou um dos filmes mais assistidos da Netflix.

Homem-Aranha e Homem-Coisa

 



Embora tenha tido revista própria durante pouco tempo, o Homem-Coisa fez várias participações em aventuras de outros personagens da Marvel. Ele encontrou, por exemplo, o Homem-Aranha em Marvel Team-up 68 em uma aventura produzida pela dupla mais badalada dos quadrinhos da época: Chris Claremont (roteiro) e John Byrne (desenhos).

Na história, o personagem monstruoso foi aprisionado e colocado como atração em um zoológico – e o aracnídeo resolve ajudá-lo a voltar para o pântano.

O Homem-Coisa atacando o Aranha? Te enganei, leitor! 


A splash page, que abre a história é aquilo que hoje seria chamado de um “engana leitor”: o Homem-Coisa se jogando contra o Homem-Aranha, que recua, apavorado. Na verdade, ele estava apenas caindo contra o vidro da prisão, como descobrimos na página seguinte.

Claremont mimetiza os textos dos quadrinhos de terror da Marvel, o que mostra sua versatilidade: “Inícios: parece a calada da noite, um escuro irreal e estígio interrompido levemente apenas por faixas prateadas de luar que resvalam sobre antigos galhos retorcidos e cobertos de musgo que cobrem o pântano... e a criatura que espreita em seu interior”.

O Homem-Coisa renasce em contato com o pântano. 


O Aranha some com a gaiola de vidro e pega um avião para os pântanos da Flórida (não me pergunte, eu não sei quem são os personagens que lhe dão carona), mas o avião sofre um acidente e por pouco os humanos não morrem. A criatura do pântano, entretanto, fica renascida.

A trama só começa mesmo só quando os dois chegam num casebre e encontram um velho e uma garota amarrados. Na verdade, o velho é um mago de outra dimensão e a garota, Jennifer Kale, sua aprendiz. Quem os aprisionou é um vilão extradimensional chamado Desespero, capaz de fazer até mesmo o Homem-Coisa ter medo (e portanto queimar).

Desespero: pense num vilão fodão. 


Para um vilão tão poderoso, é estranha a forma como o herói o vence, usando, essencialmente a força. É também curioso perceber que a editora escolheu a Marvel Team-up, uma revista do Aranha, para terminar uma trama do monstro, o que mostra que  as coisas não andavam bem para a vida editorial do feioso. 

Os quadrinhos na sala de aula

 


No início dos anos 50, o pesquisador canadense Marshall McLuhan publicou um livro intitulado The mecanical bride (A noiva mecânica). O subtítulo dizia muito sobre o conteúdo: o folclore do homem industrial.

Para McLuhan, o mundo estava mudando e essa mudança era provocada pelos meios de comunicação de massa. A televisão, o rádio, o jornal e as revistas em quadrinhos estavam engendrando um novo homem, com um novo folclore. E a nova arte viria dessas novas mídias.
Não é necessária uma investigação muito demorada para perceber que quase tudo que é considerado hoje como arte de elite foi folclore popular na Idade Média. O teatro moderno surgiu dos autos medievais, a literatura surgiu dos romances de cavalaria, a valsa teve sua origem em danças populares, a poesia veio dos menestréis.

Little Nemo foi a primeira história em quadrinhos a figurar em um museu. 


A elite constantemente, se apropria da cultura da massa para criar sua própria cultura (assim como as camadas populares também utilizam remodelam a cultura de elite em formas populares, como aconteceu com a quadrilha junina).
Da mesma forma, a cultura de massa, que nasceu para consumo do populacho e crianças, hoje ganha status de arte. Exemplos disso são as histórias em quadrinhos que figuram em museus.
Mas o que nos interessa nesse artigo é outra conclusão que pode-se retirar do pensamento de McLuhan: se os meios de comunicação de massa estão produzindo um novo homem, é inútil tentar ensinar nossas crianças utilizando os recursos do passado. A escola que ainda utiliza os velhos métodos e velhos recursos educacionais constantemente provoca apenas o desinteresse dos alunos. Tudo muda, menos a escola.

Sócrates criticou a invenção da escrita. 


Fenômeno semelhante ocorreu na Grécia antiga. Até o surgimento da escrita os gregos, em especial os atenienses, eram obrigados a decorar os quilométricos versos da Ilíada e Odisséia. Com a invenção da escrita, os alunos se desinteressaram por decorar as obras de Homero e foram chamados de preguiçosos por causa disso (Sócrates foi um dos que criticou a invenção da escrita, argumentando que ela provocaria “preguiça mental” nos gregos).
Mas alguém poderia culpá-los por não querer decorar algo que já estava registrado nos livros, que poderiam ser consultados a qualquer momento?
É igualmente ineficiente querer que os alunos da atualidade utilizem apenas livros, quando eles anseiam por imagem e movimento.
Aí entram as HQs. Elas são o meio de comunicação de massa mais barato e prático de se introduzir nas escolas. Para produzir um gibi as crianças só precisam de papel e lápis (se a escola tiver uma máquina xerox, essa pode ser utilizada para reproduzir o material produzido). E a leitura dos gibis não desestimula o interesse pelos livros. Muito pelo contrário. Constantemente as HQs são uma ponte para a literatura. Ray Bradbury, um dos mais importantes escritores norte-americanos, costuma dizer que é filho de Flash Gordon. A lista dos que são fãs de quadrinhos inclui ainda: Umberto Eco, Jô Soares, Stephen King e Frederico Fellini.

sexta-feira, junho 27, 2025

Fundo do baú - Kolchak e os demônios da noite

 


kolchak e os demonios da noite revolucionou os seriados televisivos ao unir policial noir e terror.

A origem da série está no filme The Night Stalker (Conhecido no Brasil como Pânico e morte na cidade), de 1972. O filme era uma adaptação do roteirista Richard Matheson em cima do livro de Jeffrey Grant Rice. O livro e o filme mostravam o repórter Carl Kolchak perseguindo um serial killer que ao final se revelava um vampiro.  

O sucesso desse primeiro filme fez com que o personagem fosse resgatado em uma segunda produção, The Night Stalker  (A noite do estrangulador), de 1972. Como o roteiro era uma total criação de Richard Matheson, ele deu características muito próprias à história, que tornaram Kolchak famoso e levaram à criação da série.

O filme, repleto de humor ácido, narrações no estilo noir, acompanhava o repórter tentando desvendar o assassinato de mulheres em Seattle. Durante a pesquisa, ele descobre que assassinatos parecidos tinham acontecido em outros períodos da história da cidade, num intervalo de 21 anos entre cada sequência.

Boa parte do sucesso do filme, além do roteiro inteligente de Matheson, estava no carisma do protagonista, interpretado de forma magistral por Darren McGavin. Em eterna briga com seu editor, Kolchak usava sempre terno azul, sapato branco e chapéu, o que certamente era um anacronismo em plena década de 1970.

Em 1973 foi elaborado um novo roteiro, de autoria de William F. Nolan, que mostrava o repórter no Havaí, investigando um caso em que cidadãos locais eram substituídos por androides. Darren McGavin odiou o roteiro, brigou com o produtor Dan Curtis e se recusou a interpretar o personagem uma terceira vez. No final, acabou sendo convencido a voltar numa série na qual Kolchak investigava o mistério da semana. A série era ambientada em Chicago e se chamava Kolchak: The Night Stalker (no Brasil, Kolchak e os demônios da noite).

Infelizmente a audiência foi aquém do esperado. Além disso, um processo movido Jeffrey Grant Rice, autor do livro original, fez com que a série tivesse apenas uma temporada, com apenas 20 episódios.

Ainda assim, Kolchak foi com o tempo angariando uma legião de fãs. Entre eles estava Chris Carter, que anos depois faria enorme sucesso com uma série que também misturava policial noir com sobrenatural. O nome dessa série? Arquivo X.

Jornal da BD e os quadrinhos seriados

 

Jornal da BD foi uma publicação semanal portuguesa surgida em 1980 e publicada até 1987, perfazendo um impressionante total de 264 edições (com tiragem de 50 mil exemplares!). Em tempo: o nome se refere à forma como os quadrinhos são chamados em Portugal: Banda Desenhada, portanto, BD.
É uma publicação no estilo europeu, com várias séries publicadas em capítulos de seis ou sete páginas – na França e na Bélgica é comum depois de publicados os capítulos, unir tudo em um álbum. No caso do Jornal da BD, em alguns números eles apresentavam também uma história completa.
A relação de séries publicadas reúne o melhor do quadrinho franco-belga: Asterix, Blueberry, Valerian, Lucky Luke, Iznogoud (só para citar os mais conhecidos no Brasil).
Eu consegui comprar em um sebo de Curitiba um lote que vai do 17 ao 32 e é um dos itens mais queridos da minha coleção.
Curiosamente, as séries que eu mais gostava eram as menos conhecidas aqui: Cori, o grumete, de Bob de Moor, e O filho do Barba Ruiva, de Charlier (roteiro) e Hubinon (desenhos).
Cori, o Grumete se passa na época da expansão marítica dos países europeus e da guerra entre Inglaterra e Espanha (spoiller: embora tivesse a maior armada, a Espanha foi derrota, o que transformou a Inglaterra na maior pontência naval da época). Trabalhando em um barco holandês, Coris se vê envolvido nos principais acontecimentos do período, chegando a ser até mesmo espião da rainha da Inglaterra.
O filho do Barba Ruiva é uma série sobre piratas, tendo como protagonista o filho adotivo de um dos maiores corsários de todos os tempos.
Tanto uma série como outra são exemplos perfeitos do quadrinho franco-belga de aventura e o Jornal da BD permite entender como eles foram inicialmente concebidos. Cada página funciona como um pequeno capítulo que termina em uma situação de supense que só irá se resolver na página seguinte, que, por sua vez, trará, ao final, outro suspense. Isso que permitia o sucesso dessas publicações semanais: os leitores ficavam viciados na narrativa, curiosos para saber o que aconteceria a seguir e, assim, compravam toda semana.
Tanto Bob de Moor quanto Charlier sabiam fazer isso com maestria e, além disso, desenvolver perfeitamente os personagens, com protagonistas e secundários extremamente carismáticos. 
Veja abaixo algumas páginas. 

Essa é a primeira página da série O filho do Barba Ruiva. O protagonista em álbuns anteriores descobriu que é herdeiro de uma grande herança. Para isso ele vai, sem avisar, até a casa de seus parentes. A página ambienta o leitor na história e, ao mesmo tempo apresenta os personagens, com suas características principais: além do protagonista, seus dois escudeiros, o fiel Babá e o esperto Três pernas. O último quadro mostra um homem enforcado: mau sinal. Os donos do local são violentos e poderão não aceitar dividir a herança com Erico. O que acontecerá a seguir? Charlier é habilidoso: ao invés de dizer com o texto que os personagens estão em perigo, ele mostra isso, visualmente com a imagem do homem enforcado e, ao mesmo tempo, deixa o leitor em suspenso, curioso sobre o que acontecerá a seguir.
Na segunda página da história, os personagens são melhor desenvolvidos (percebemos, por exemplo, que Três Pernas é um estrategista). Ao final, mais uma situação de suspense. Muitos acreditam que suspense é colocar o personagem em perigo, o que não é verdade. Suspense significa deixar o leitor curioso para saber o que ocorrerá em seguida. Quando Eric se apresenta no castelo, um serviçal se desespera achando que viu um fantasma. Esse mistério deixa o leitor curioso para continuar lendo a história e entender o que realmente está acontecendo. Repare que a história é montada de tal forma que a situação de suspense fica para o último quadro. Se a história continua na mesma edição, basta virar a página. Se é o fim do capítulo, o leitor irá comprar na próxima semana para saber o que ocorrerá a seguir.
Essa é uma página do meio da história Os espiões da rainha, da série Cori, o grumete. O espião mirim foi descoberto pelo chefe de um bando de vagabundos e corre perigo. Quando o "general" vai bater no rapaz, surge uma voz misteriosa, ameaçando-o. Quem será o salvador do rapaz? Isso o leitor só descobrirá na próxima página (ou na próxima semana, se for final de capítulo).
Nesta página descobrimos que o salvador de Cori é Harm, um personagem que ele acreditava morto. Cori está a salvo. Mas o que acontecerá com Harm? Só na próxima página ou próxima semana!