sexta-feira, setembro 04, 2026

Planeta 51: ficção científica como metáfora política

 

Planeta 51  é um filme de animação espanhol-inglês dirigido por Jorge Blanco, escrito por Joe Stillman. A história se passa em um planeta extraterrestre semelhante à Terra dos anos 1950. O protagonista é Lem, um garoto de 16 anos que sonha um dia dirigir o planetário da cidade. Sua vida é mudada quando ele descobre, escondido no planetário, um astronauta terrestre se escondendo das autoridades. 
O filme é uma espécie de ET ao contrário, com um humano em um planeta alienígena tentando voltar para a nave e tendo de fugir da perseguição oficial. 
Os fãs de ficção científica mais atentos vão se deliciar com as centenas de referências a outros filmes. Um cachorrinho, por exemplo, tem a cara do Alien e urina ácido. Outro grande referencial é Vampiros de almas, de Don Siegel, 1956, filme em que extraterrestres tomam o lugar de humanos em uma pequena cidadade do interior dos EUA.  Vampiros de almas foi escrito como uma crítica à paranóia anti-comunista que dominou a América nos anos 1950, em que se imaginava que qualquer um podia ter se tornado um comunista. Planeta 51 retoma essa premissa na cena em que o general acusa um hippie de ter sido transformado em zumbi pelo terrano apenas porque ele usa cabelo comprido. 
Planeta 51 tem, portanto, uma mensagem política. É sobre o medo do novo e sobre o conservadores versus inovações sociais. A cena em que os soldados avançam sobre os hippies com cacetetes é, nesse sentido, emblemática.  

CPF cancelado

 


Fundo do baú - O bem-amado

 


Nenhuma série  de televisão conseguiu sintetizar tão bem a política brasileira quanto O bem-amado, de Dias Gomes. Exibida de 1980 a 1984, era baseada numa novela do próprio Dias, de 1973 e, por sua vez, era baseada numa peça de teatro da década de 60. Dias Gomes usava o humor para criticar, de maneira genial, a ditadura militar e a classe política brasileira.

Na história, Odorico Paraguaçu (interpretado por Paulo Gracindo) era um típico coronel do interior da Bahia que domina completamente a política da região.  Sua obsessão é inaugurar o novo cemitério da cidade, mas há um problema: ninguém morre em Sucupira. Na história original, Odorico é morto pelo seu jagunço Zeca Diabo (Lima Duarte), sendo, ironicamente, o cadáver que inaugura o cemitério.

Na década de 80, Dias Gomes ressuscitou a história, mudando o contexto e ampliando muito a trama (os personagens chegam a viajar para Nova York) e usando o pano de fundo para criticar tudo que ocorria na política nacional.

Odorico era famoso pelas frases de efeito e pelos neologismos, como “Vamos botar de lado os entretantos e partir logo pros finalmentes”, “Pra cada problemática tem uma solucionática”, “mormente”, “apenasmente” e “bastantemente”.

Além de Odorico e Zeca Diabo, o seriado contava com outros personagens marcantes, como as irmãs Cajazeiras, que idolatravam Odorico e o defendiam mesmo quando fazia as piores barbaridades, e o tímido e gago secretário Dirceu Borboleta, seu puxa-saco oficial.

X-men contra a Irmandade de Mutantes

 

A Feiticeira Escarlate aparece de verde na capa. 


A Irmandande de Mutantes, um grupo liderado por Magneto que tem como objetivo conquistar a humanidade, surgiu no número quatro da revista X-men.

Hoje em dia essa edição parece muito curiosa, a começar pela capa, na qual a Feiticeira Escarlate aparece de... verde! Sim, o colorista errou a cor do uniforme da moça e ninguém na redação percebeu. E estamos falando de uma personagem cuja cor é tão importante que aparece até no nome. Outro aspecto curioso é o fato de tanto a Feiticeira quanto Mercúrio aparecerem como vilões nessa história, eles que depois se tornariam heróis e fariam parte dos Vingadores.

O Homem de Gelo parecia um boneco de neve. 


A história começa com os X-men treinando na Sala do Perigo. Mais uma curiosidade: O Homem de Gelo parece ter o corpo formado por neve, e não gelo, e usa botas! O resultado é ridículo como se fosse um boneco de neve feito por uma criança. Essa sequência termina com um bolo, que a Garota Marvel tira da caixa com seus dons telecinéticos e Cíclope corta com os raios saídos de seus olhos.

Se o clima entre os X-men é de confraternização, na Irmandade de Mutantes é de conflito aberto. Mercúrio reclama que Groxo se comporta na mesa como um porco e o Mestre Mental assedia a Feiticeira.

Os X-men confraternizam. A Irmandade dos Mutantes briga. 


Mas, apesar das brigas, o grupo tem um plano: conquistar a pequena república de Santo Marco. Para isso eles usam um navio roubado por Magneto e as ilusões do Mestre Mental, que faz aparecer diante dos assustados nativos um exército com milhares de homens. Há aqui, um outro aspecto que hoje parece extremamente incoerente: o exército invasor usa uniformes parecidos com os de nazistas, com a suástica substituída por um M de Magneto. Se lembrarmos que Chris Claremont iria estabelecer Magneto como um judeu, vítima de nazistas na II Guerra, essa sequência é muito estranha.

Os soldados de Magneto usavam uniforme nazista. 


Claro que os X-men aparecem para acabar com a festa e aqui temos mais um problema. À certa altura o Fera coloca fora de combate dois soldados de Magneto, mas é derrubado por Groxo, ficando pendurado nas paredes so castelo. Para tentar se livrar do atacante, o Fera joga pedras nele, mas Stan Lee parece não ter entendido a imagem, em especial as linhas cinéticas, e escreve os diálogos como se o oposto estivesse acontecendo: “Ele é muito forte! Vou jogar essas pedras para evitar que ele suba até o topo!”.

Groxo está desviando das pedras, mas o texto dá a entender que ele está jogando as pedras no Fera.


Parece que naqueles primeiros números dos mutantes ninguém parecia saber exatamente o que estava fazendo.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Abapuru e Monteiro Lobato

 

Ano passado um dos assuntos foi o quadro Abapuru. Alguém sugeriu que o quadro "Batalha do Avaí", de Pedro Américo (1843-1905), "deveria representar a arte brasileira no mundo" e chamava o quadro de Tarsila de merda. Os fãs de Tarsila correram para defendê-la com razão.
O problema é que um desinformado resolveu colocar Monteiro Lobato na história. Segundo ele, o internauta que chamara Abapuru de "merda" estava apenas refletindo a opinião já exposta anteriormente por Monteiro Lobato.
Foi o suficiente para a tag Monteiro Lobato chegar aos TTs e para mostrar como a esquerda pode ter tão analfabeta quanto a direita.
A tag teve de tudo, de gente dizendo que o Abapuru foi pintado por Anita Malfatti a gente dizendo que Lobato era inimigo do casal Oswald-Tarsila e até acusações de pedofilia.
Lobato era amigo íntimo de Oswald de Andrade e de sua esposa. Lobato era editor de Oswald e de vários outros modernistas. Lobato nunca criticou o Abapuru. Seu único texto sobre a semana de arte moderna, foi elogiando a semana e elogiando o gênio de Oswald (o que provocou ciúmes no Mário de Andrade). Aliás, Oswald queria que Lobato fosse o patrono da semana - acabou perdendo para Mário, que preferia Osvaldo Aranho.
Aliás, Abapuru foi pintado depois que Tarsila fez uma visita às cidades históricas de Minas Gerais e, encantada com o que viu, deixou de imitar a arte européia e passou a buscar uma arte tendo como referência a cultura nacional... que era exatamente a proposta de Monteiro Lobato para arte brasileira.

Perry Rhodan – Levtan, o traidor

 

O volume 34 da série Perry Rhodan mostra os terranos em pleno conflito contra os saltadores, os mercadores galácticos que não admitem concorrência.

Nesse número específico, um saltador que havia sido expulso de sua comunidade pela conduta fraudulenta procura Rhodan com o objetivo de vender um segredo: os saltadores estão estão fazendo uma reunião de chefes de clãs na qual irão decidir o destino da Terra.

O chefe da terceira potência resolve aproveitar a situação. Assim, reforma a nave de Levtan e usa seus mutantes para convencê-lo a ir para o plano onde está acontecendo a conferência.

O interessante do volume é imaginar qual o plano de Rhodan. “O que ele pretende com isso?” é uma pergunta que o leitor se faz o tempo todo nessa trama que ali pelo final se torna uma grande narrativa de suspense.

A capa original alemã. 


O escritor do volume, Kurt Brand tem a mania de produzir frases e até parágrafos sem muito sentido, ou com metáforas estranhas, que dificultam a compreensão do que está sendo narrado, como em: “A coronha de sua arma não pertencia ao nada: era a mais dura realidade”.

Ainda assim, a trama é bem elaborada e prende o leitor.

O que talvez incomode um leitor moderno é a forma como são mostradas explosões atômicas. À certa altura, por exemplo, uma bomba explode dentro de um prédio e algumas pessoas sobrevivem – algo que se sabe hoje, é impossível.

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso ou morto. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

Ela vai ter um bebê

 


Existem alguns filmes que peguei pela metade na TV e, mesmo sem saber o título, diretor, nada, foi uma paixão imediata. Um exemplo disso foi Ela vai ter um bebê, película de 1988 escrita e dirigida por John Hughes.

O filme conta a história de Kristy  (Elizabeth McGovern) e Jake Briggs (Kevin Bacon), um jovem casal convivendo com a vida de recém-casados. A gravidez, que dá título à obra, só aparece no meio do filme para a frente. Toda a parte inicial é focada nos problemas dos recém-casados, como a relação com os sogros, as cobranças por filho, a dificuldade em montar a casa e até mesmo situações em que os dois são tentados a trair.

O aspecto que torna esse filme interessante – e que me fisgou enquanto zapeava pelo controle remoto – é o fato do filme mostrar o ponto de vista de Jake e sua imaginação e a respeito dos acontecimentos. Isso gera cenas totalmente simbólicas, que flertam com o surreal, como a da dança dos cortadores de grama ou aquela em que Jake anda pela agência tentando encontrar a mãe de um bebê e não consegue.

Hughes constrói um filme no qual realidade e ficção se misturam continuamente, de modo que muitas vezes não sabemos se o que aconteceu foi realidade ou imaginação. À certa altura, por exemplo, Kristy está no banheiro, decidindo se toma ou não o anticoncepcional enquanto, no quarto, Jake se prepara para uma noite de sexo, o que inclui uma série de exercícios com alteres. É quase impossível distinguir, nessa cena, o que é real e o que é imaginação do personagem.

Essa mistura de real e ficcional é, inclusive, a principal fonte de humor do filme, e a razão pela qual uma história banal sobre um casal se torna interessante.

Ela vai ter um bebê, no entanto, tem um ritmo lento, com cenas que muitas vezes são arrastadas, o que pode ter contribuído para que se o filme se tornasse um fracasso de bilheteria (custou 20 milhões de dólares e arrecadou apenas 16 milhões). Uma pena que esses aspecto tenha afastado os expectadores. Se tivessem dado uma chance, teriam descoberto uma obra cinematográfica deliciosa.

Os quadrinhos Bonelli

 

Apesar da forte concorrência dos quadrinhos americanos e dos mangás, os quadrinhos italianos ainda sobrevivem e fazem sucesso em vários países principalmente na forma de gibis grossos, com histórias em preto e branco, muitas vezes tratando do velho oeste americano. São os fumetti, cujo melhor exemplo é Tex.
Após a II Guerra Mundial, a Itália parecia buscar uma identididade cultural e ela, em muitos sentidos, foi conseguida através do fumettis. O primeiro personagem a fazer sucesso no pós-guerrra foi L´Asso di Piche, com roteiro de Alberto Ongaro e desenhos de Mario Faustinelli e Hugo Pratt. O personagem era uma mistura de Fantasma, Batman e Spirit e fez pouco sucesso de público, mas garantiu contratos para que seus autores fossem atuar na Argentina.
Na década de 1950 os editores italianos viram as vendas dos comics americanos decaírem e resolveram investir em produtos nacionais.


Tex Willer, surgido em 1948 foi o personagem que fez mais sucesso. Ele é um ranger, casado com a filha de um chefe índio, com quem tem um filho, Kit. Até então, a maioria dos faroestes mostravam os índios apenas como selvagens a serem mortos. Tex revolucionou ao mostrá-los com simpatia. Mas, segundo a História de Los Comics, a razão do sucesso estava principalmente no desenho realista e ágil de aurélio Galleppini e nos roteiros de Gian Luigi Bonelli, sempre muito exatos nas informações históricas e geográficas. ¨Sempre tenho tentado recriar a verdadeira atmosfera do velho oeste, em que homens justos se viam obrigados a usar a lei do colt para reprimir os abusos e violências de homens sem escrúpulos. Por isso, tenho usado uma linguagem forte e roteiros violentos¨, declarou Bonelli.
A editora Bonelli praticamente padronizou os quadrinhos populares italinos, publicando gibis auto-contidos, com histórias longas em preto e branco.


Depois de Tex, outro grande sucesso foi Zagor, criado por Guido Nolitta (pseudônimo de Sergio Bonelli, filho do criador de Tex) e idealizado graficamente por Gallieno Ferri , uma mistura de faroeste com fantasia. Também Akin, uma espécie de Tarzan que fala com os animais e Diabolik fizeram grande sucesso. Diabolik, criado pelas irmãs Ângela e Luciana Giussani, causou grande polêmica por ter como protagonista um vilão, que constantemente derrota a polícia.


A editora criada por Bonelli torna-se a casa dos principais criadores italianos. Seu filho Sérgio iria substitui-lo não só na administração, mas também nos roteiros e acabaria se revelando um ótimo redator.
Aos poucos, a editora diversifica sua linha de gibis, com personagens como Mister No (um aventureiro), Nick Raider (um policial em Nova York), e terror (com Dylan Dog).



Mas a maior obra-prima publicada pela editora foi sem dúvida Ken Parker, o mais humano dos cowboys, criação de Ivo Milazzo (desenhos) e Berardi (roteiros).
Um diferencial dos fumetti é o fato de que, ao contrário do que aconteceu nos EUA, o desenho não se sobrepôs ao roteiro. O objetivo de qualquer revista publicada pela Bonelli ou por suas concorrentes mais diretas, é contar uma boa história, e um bom desenho é colocado sempre a serviço da história, e não o contrário.
Uma curiosidade: Tex foi, durante muitos anos, a revista predileta dos vigias noturnos.

Doutor Estranho e Doutor Destino: Triúnfo e tormento

 


Um dos diferenciais que fizeram o sucesso da Marvel era a forma tridimensional como os personagens eram apresentados. E não só os heróis, mas também os vilões. Estes não eram maus por serem maus, mas sempre tinham uma boa motivação por trás de seus atos. E, entre todos os vilões, um dos mais complexos era o Dr. Destino.
Poucas obras exploraram tão bem essa complexidade quanto a graphic novel Triunfo e Tormento, escrita por Roger Stern com desenhos de Mike Mignola.
Na história um eremita chamado Gengis convoca todos os principais magos do mundo para um desafio. Quem vencer, será reconhecido como mago supremo.
Curiosamente, o Doutor Destino é chamado. Embora seja mais reconhecido por suas conquistas tecnológicas, descobrimos que ele é um mago de relativo poder e muita astúcia, tanto que acaba ficando em segundo lugar na disputa.
Os principais magos do mundo são chamados para uma disputa. 


Terminado o torneio, o vencedor deve conceder uma dádiva ao segundo lugar. E o que o vilão pede ao herói? Para salvar a mãe, presa no inferno por Mefisto.
Descobrimos então que a mãe do vilão fez um pacto com o demônio para libertar seu povo, os ciganos, da terrível perseguição de um barão. Mas não se pode confiar num demônio. Tudo acaba dando errado e a alma da mulher é aprisionada no inferno.
Os dois vão ao inferno resgatar a mãe de Destino. 


Cabe agora aos dois doutores descer às profundezas infernais e resgatar a mãe de Victor Von Doom.
Mignola é um dos desenhistas mais queridos de sua geração, e não sem razão. Seu traço expressivo, com forte constraste de luz e sombra é perfeito para essa história de magia e inferno.
O desenho de Mignola é perfeito para a história. 

Mas o roteiro é realmente a grande atração. Roger Stern faz uma história repleta de ação, mas principalmente com ótimo aprofundamento dos personagens, em especial do Dr. Destino. Conhecemos sua história e nos surpreendemos ao perceber que sua maior motivação é salvar a mãe. Por outro lado, durante uma alucinação, o doutor estranho se vê como um médico arrogante e interesseiro. Aí temos a grande inversão que faz essa história ser genial: o herói à certa altura é mostrado como alguém que só pensava em dinheiro e o vilão como alguém cujo maior sonho é salvar a mãe. No final, bem amarrado, ambos têm um tipo de rendenção.
São histórias como essa que faziam com que a Marvel fosse uma editora tão especial.
Essa história foi lançada no número 5 da coleção Graphic Marvel, da Abril, e, mais recentemente, pela Panini.

Mestre do Kung Fu – Conexão Cristal

 

A capa é muito inferior ao miolo. 

Se existe uma história que representa o ponto de virada na série Mestres do Kung Fu (Master of Kung Fu), essa é a trilogia que se inicia no número 29 do título. Esta HQ não apenas marcou a maturidade artística do roteirista Doug Moench e do desenhista Paul Gulacy, mas também elevou a série a uma grandiosidade cinematográfica.

Na trama, Shang-Chi e o grupo de espiões chefiados por Sir Denis são enviados a uma ilha para impedir que o vilão Carlton Velcro inunde a Europa e os EUA com drogas. No decorrer da missão, eles descobrem o verdadeiro e ambicioso objetivo de Velcro: dominar o mundo, para o qual ele se armou com um arsenal atômico.

O desenho de Gulacy oscilava entre o fotográfico e o lisérgico. 


A fortaleza do vilão é um labirinto de perigos. Entre eles, destacam-se um fosso repleto de panteras famintas e o assassino chamado Punhos de Lâmina, cuja característica é ter lâminas afiadas no lugar dos braços. (Apesar do visual interessante, a observação sobre como Punhos de Lâmina usaria o banheiro sempre gera curiosidade!).

Paul Gulacy assumiu tanto o lápis quanto a arte-final, o que resultou em uma arte mais refinada. Seu estilo se destacou pelo uso de sombras chapadas, retículas e imagens que, apesar de "fotográficas" — Gulacy notavelmente fazia esboços assistindo a filmes de Bruce Lee —, dialogam com o lisérgico.

Como o Punho de Lâmina fazia no banheiro? 


Doug Moench, que nos primeiros números parecia ter dificuldade com o uso do texto-legenda, aqui o desenvolve como reflexões internas do personagem que se encaixam perfeitamente nas sequências desenhadas por Gulacy.

O texto de Moench melhorou muito, adaptando-se ao desenho de Gulacy. 


Um exemplo notável ocorre quando o protagonista enfrenta Punhos de Lâmina ao lado de uma estátua. O texto diz:

“Penso na estátua… que nada sente… ao me observar… na força fria do seu silêncio. Minha única defesa… a estátua não profere comentários. Palavras durante a batalha são como veneno em um copo de água. Como a estátua, permaneço em silêncio… enquanto o braço do meu oponente avança em minha direção”.

O vilão falava de forma diferenciada. 


Moench também aprimora os diálogos, diferenciando a voz de cada personagem. O vilão, Velcro, por exemplo, fala de maneira rebuscada:

“Jamais grito enquanto estou concentrado, senhor Reston… e a chegada de seu compatriota, Black Jack Tarr, creio que seja seu nome… um nome curioso, no máximo… certamente inspira uma contemplação interna”.

A vilã Pavane usava um chicote. 


Moench e Gulacy estruturam a narrativa como um grande filme de espionagem, em que cada capítulo funciona como um ato. O terceiro ato, publicado no número 31 da revista, inicia em uma splash page construída como um cartaz de cinema, destacando Shang-Chi, Reston e Black Jack, com uma cena de batalha abaixo e a vilã Pavane, com sua roupa sensual e chicote, no canto superior esquerdo.

A história, repleta de ação e unindo artes marciais e espionagem, demonstrava potencial para ser facilmente transformada em um filme de sucesso.

Splash page imita o estilo dos cartazes de filmes. 


Depois dessa trilogia, seria difícil para o Mestre do Kung Fu voltar aos tempos em que as histórias se limitavam a Shang-Chi sendo atacado por garçons em restaurantes.

Uma curiosidade é que a evolução do traço de Gulacy gerou uma contradição:  o miolo das revistas era sempre muito melhor que as capas, feitas por outros artistas.

Ponte de Alexandre, em Paris

 


A ponte de Alexandre ponte liga o Bairro dos inválidos aos Champs-Élysées. O nome é uma homenagem ao czar Alexandre III, com o qual a França acabara de assinar uma aliança. É provavelmente a mais bonita ponte de Paris, totalmente ornamentada com belíssimas estátuas e ornamentos. Em cada lado da ponte há um conjunto de estátuas, as famas: Na margem direita estão a "Fama das Ciências" e a "Fama das Artes". Na margem esquerda a "Fama do Comércio", de Pierre Granet e a "Fama da Indústria. A ponte é tão bonita que foi cenário para diversos filmes, entre eles Meia-Noite em Paris. Nas proximidades da ponte deo Alexandre há dois Museus, o grande palácio e o pequeno palácio. Este último é gratuito.

Castração química e estupradores

 


Um assunto que tem entrado na pauta do dia é castração química. Muitos defendem o procedimento como forma de “tratar” estupradores e impedir que eles cometam novos crimes.
Mas será que esse procedimento realmente funcionaria?
Um exemplo que pode nos dar um indicativo nesse sentido é o do russo Andrei Chikatilo. Chickatilo sofria de disfunção erétil. Ou seja, ele era incapaz de ter uma ereção. E era também estuprador.
Em 1978 ele sequestrou uma menina de 8 anos e tentou estuprá-la. Incapaz de conseguir uma ereção, ele, em um momento de fúria, esfaqueou a menina. Foi quando percebeu que podia conseguir prazer sexual de uma maneira muito mais satisfatória: matando. Gostou tanto do prazer que sentiu ao matar a vítima que se tornou um dos maiores assassinos em série de todos os tempos, com mais de 50 assassinatos.
A falta de ereção não impediu que ele cometesse os crimes, só direcionou para uma outra forma de satisfação sexual: o assassinato.
A maioria das pessoas parte do princípio de que o estuprador estupra para satisfazer o desejo sexual (ou ao menos no sentido mais convencional de satisfação sexual). Se essa fosse a questão, ele procuraria uma prostituta. O estuprador estupra porque o que mais o excita é a humilhação e sofrimento da vítima. A penetração é apenas um meio para isso, mas nem de longe o mais importante. Se não for capaz de ter uma ereção, o psicopata irá redirecionar isso para que realmente é a fonte de seu prazer: a humilhação, sofrimento e morte da vítima.
Para estupradores só existe uma solução: manter preso. 

quarta-feira, setembro 02, 2026

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. 
A dissertação pode ser lida online no blog ou baixada em PDF no Repositório da Unifap

Blade Runner 2049: um filme perturbador

 

(contém spoiler - leia por sua conta e risco)

Blade Runner foi um clássico absoluto da década de 1980. Um fracasso comercial que se tornou um dos filmes mais cultuados de todos os tempos. Uma continuação parecia uma heresia para um filme cujo charme estava justamente no final em aberto (em especial na versão do diretor). Além disso, o trailer dava a entender que se tratava de um filme de ação bem no estilo dos filmes atuais. Ou seja: parecia uma heresia dupla.
No entanto, Blade Runner 2049 consegue ser fiel ao espírito do filme original e acrescentar algo à história sem desmanchar a mítica.
Na história, um caçador de androides, K (ou Joe) também ele um replicante, descobre que existe uma criança nascida de um ser artificial, A trana gira em torno da investigação a respeito dessa criança.
O roteiro aprofunda o dia-a-dia do protagonista, algo que era um ponto forte do livro de Philip K. Dick, mas ficou esquecido no filme da década de 1980.
K sofre com preconceito, é apaixonado por um programa de computador e em determinado momento começa a achar que ele é a criança especial nascida de uma androide. Como no primeiro filme, o replicante se revela mais humano que os humanos.
Colabora com isso a direção, que remete diretamente ao filme original e a trilha sonora inspirada e apreensiva (de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch), que ajuda a nos manter no estado de incômodo que o filme se propõe.
Blade Runner 2049 é um filme perturbador, profundo, que discute questões da humanidade à nossa noção de realidade e nossas lembranças.
Entretanto, não existe uma única razão para que o filme seja em 3D. Nitidamente, nenhuma cena foi feita para aproveitar as possibilidades do recurso e colocaram em 3D apenas por razões comerciais.