quinta-feira, outubro 08, 2026

Os quadrinhos de guerra

 


Na década de 1950 os super-heróis, que sempre foram as estrelas dos gibis, entraram em crise. Os editores começaram a procurar outros gêneros, que pudessem chamar a atenção da garotada. A E.C. acertou a mão com o terror, mas seu sucesso teve um fim com a perseguição dos conservadores norte-americanos. Outras editoras tentaram o gênero romântico, com algum sucesso.

      Uma das iniciativas mais interessantes foram os quadrinhos de guerra, um gênero muito bem explorado pela DC Comics na revista Our Army at War. Foi nessa revista que surgiu o Sargento Rock, o mais famoso herói de guerra dos quadrinhos. O personagem foi criado por Robert Kaningher, um veterano escritor e editor de gibis. Ele é tido com um dos mais prolíferos autores do gênero, tendo publicado e escrito histórias da Mulher-maravilha, Canário Negro, Besouro Azul e Capitão Marvel, mas ficou conhecido mesmo por seus heróis de guerra.
      Kaningher criou o sargento baseando-se no lutador Rocky marciano, um grande ídolo do boxe norte-americano. Rocky jamais perdeu uma luta e sua grande arma era a obstinação. A primeira história do sargento Rock mostra justamente ele como lutador, numa narrativa paralela à sua atuação na guerra. Por pior que estejam as coisas, por maior que seja a dor ou a adversidade, ele sempre está de pé, dizendo seu bordão: ¨Vamos, lute!¨.
      Para ilustrar essa pequena HQ, que se tornou antológica, Kaningher chamou Joe Kubert, um jovem desenhista, mas que já se tornara um referencial de qualidade no meio. Ele havia criado, por exemplo, os quadrinhos 3-D, que precisavam ser lidos com óculos especiais e foram uma grande febre na década de 1950, rendendo dinheiro o suficiente para que ele comprasse sua casa. Kubert tinha um traço elegante e inovador para a época. Sua arte-final suja casou perfeitamente com o personagem durão.
      A primeira história do personagem, intitulada apenas como Rock, foi publicada na revista G.I. Combate 68.
      Mas a estréia oficial se deu com a história A Rocha da Companhia Moleza (The Rock of Easy Co.), publicada na revista Our Army at War 81, de abril de 1959. Por alguma razão, Kurbert não assumiu o desenho, que acabou sendo feito por Ross Andru e Mike Esposito. Nessa história o sargento ganhou um batalhão, a companhia moleza, composta de vários personagens carismáticos.
      A partir daí o personagem virou a grande atração da revista, ao ponto do gibi mudar de nome para Sargento Rock, na década de 1970.
      A revista foi publicada por 11 anos, sendo descontinuada apenas em 1988. Mas, mesmo assim, o sargento e sua companhia continuaram fazendo aparições especiais em aventuras de outros personagens.
      Outra grande criação da dupla Kaningher-Kubert foi Ás Inimigo. Criado na década de 1970, o personagem era um aviador alemão da I Guerra mundial, um homem que tinha como único amigo um lobo da floresta.
      Os roteiros de Kaningher descreviam em detalhes as batalhas aéreas, as táticas dos pilotos e as regras que regiam o comportamento dos mesmos. Kubert não ficou atrás e pesquisou pesado para caracterizar o personagem: ¨Como sempre fazia, fui a bibliotecas e livrarias atrás delas. Procurei saber o máximo sobre batalhas aéreas da 1ª. Guerra Mundial. Eu queria que os leitores aceitassem o Ás Inimigo como algo realmente crível, assim como eu havia aceitado a premissa da história. Então estudei os interiores dos aviões, seus detalhes e sua construção. Onde a madeira era usada? Qual era a aparência do esqueleto do avião? Descobrir as respostas para essas perguntas ajudou-me a compreender melhor qual a sensação de voar naquelas máquinas antiquadas¨.
      O resultado disso é que, embora Kubert tenha feito vários personagens de sucesso, o Sargento Rock e o Ás Inimigo são sempre os mais lembrados pelos leitores.

O rei do povo

 


Um filme indiano surpreendente por seu tema, o fanatismo religioso e por sua mensagem feminista, é O rei do povo, dirigido por Sidharth Malhotra

Na história, um jornalista luta contra um líder religioso que usa sua condição para praticar abusos contra mulheres.

A trama inicia com uma celebração religiosa repleta de danças, músicas e um pó colorido que os fieis jogam uns nos outros. Durante a festa, o líder da seita, que todos acreditam ser uma reencarnação do deus Krishna, escolhe justamente a noiva do protagonista para o “serviço divino”. Ao procurá-la no palácio e informar que se trata do noivo da escolhida, ele é autorizado a assistir ao “serviço divino” junto com outros homens que pagaram para tanto. É quando ele descobre que o tal serviço é na verdade manter relações sexuais com o líder religioso.

Toda a situação gera um conflito que leva a noiva ao suicídio e dá ao jornalista uma missão: desmascarar o suposto deus. Ele descobre além dos abusos abortos forçados e até assassinato.

Claro que alguém assim não permitiria que seus crimes fossem denunciados e faz tudo que pode, desde confiscar os jornais a fechar os templos (os fieis não podiam se alimentar antes das orações matinais, o que, teoricamente, forçaria todos a um jejum forçado) e, finalmente, uma ação judicial.

Um filme desses é surpreendente pelo fato da Índia ser um país extremamente religioso e pelo fato dessa seita existir até hoje. Aliás, o diretor foi muito cuidadoso, chegando a incluir um aviso no final, indicando que a seita não era responsável pelas ações de seu líder.

Como filme, O rei do povo é uma boa obra, que prende o leitor. Nem mesmo a mania bollywoodiana de colocar musicais em tudo atrapalha. Há, por exemplo, um musical na qual a noiva tenta convencer as outras garotas a não se entregarem para o serviço divino.

Vale destacar a atuação de Jaideep Ahlawat como o líder religioso. Sua atuação contida e meticulosa encaixa muito bem em um personagem que se acha um deus acima dos mortais. Ele consegue parecer perigoso mesmo sem modificar o tom suave de sua voz e fisionomia.

O rei do povo está disponível na Netflix.

quarta-feira, outubro 07, 2026

As tentações de Santo Antão

 



Hieronymus Bosch é um dos artistas mais misteriosos e controversos de todos os tempos. Sabe-se muito pouco a respeito de sua vida. Sua obra, rica de interpretações, tem gerado os mais diversos debates.

Nascido provavelmente em 1450 nos Países Baixos, suas pinturas são carregadas de religiosidade e têm o objetivo de alertar as pessoas sobre os perigos do pecado.

A especialidade do artista era os tríptico, imagens dividas em três, com um centro e duas asas, que poderiam ser fechadas, e na tampa apresenta outra imagem.

Eu tive a oportunidade única de ver uma das obras do mestre no Museu de Arte de São Paulo – MASP. A pintura era um retábulo, um estudo para a parte central do tríplico As tentações de Santo Antão.

Santo Antão foi um homem santo que doou tudo que tinha para os pobres e foi para o deserto meditar. Lá foi tentado de todas as formas pelo demônio, tendo resistido bravamente, o que o transfomou em símbolo da resistência ao pecado e à vida mundana.

O retábulo impressiona pelos detalhes, fazendo com que passemos longo tempo visuando e tentando entender as imagens. Há um barco no formato de peixe, seres estranhos num objeto voador indistinguível, uma mulher grávida de uma cabeça, tudo isso em meio a uma paisagem que parece estar pegando fogo... a imaginação de Bosh para o bizarro e para o estranho não parecia ter limites. Não por acaso, surrealistas o consideravam um precursor.

O Museu do Louvre

 


O Louvre é o mais famoso museu da frança e provavelmente do mundo. Mas se for visitá-lo, uma dica: compre ingresso antecipado e vá cedo.
O Museu abre 9 horas da manhã. Esteja lá na frente, com seu ingresso e se prepare para sair tarde. É muita coisa para ver em um dia.
Assim que os portões abrem é uma correria para chegar até a Monalisa. Há um cordão de isolamento de quase dois metros em volta do quadro e uma verdadeira multidão em volta.
Mas o Louvre vai muito além da Monalisa. Há obras-primas de todas as fases da história da arte (aconselho a dar uma lida em algum livro básico sobre o assunto antes de visitar o Museu).

Destaque para os enormes quadros de Delacroix, o pintor mais famoso da França e o homem que definiu o romantismo na arte.
Há também uma variedade imensa de estátuas romanas, egípcias, etruscas e gregas, além de estátuas francesas, da época do absolutismo.
Destaque também para o luxo dos aposentos de Napoleão III, que usou o Louvre como Palácio.
Do lado de fora há a famosa pirâmide, e, ao lado da pirâmide, quase esquecida, uma estátua de Luís XIV montado num cavalo realizado pelo arquiteto italiano Gian Lorenzo Bernini. Como se tratava do rei sol, a estátua foi pensada de modo que fica sempre na direção do astro – em algumas horas do dia o sol fica exatamente atrás da cabeça do rei.
Como vai passar o dia inteiro no Museu, uma boa dica é comer um lanche em um dos cafés nas laterais do palácio.

Estátua equestre de Luís XIV realizada por Bernini. 

A vênus de Milo é um exemplo da beleza grega






A coleção de altos relevos da Idade Média é impressionante
Uma multidão se forma ao redor da Monalisa 
Há muitas esculturas gregas e egípcias. 

Jon Sable – freelance

 

 

Em 1983, a editora First entrou com tudo no mercado dos comics convidando artistas já consagrados para produzirem séries inéditas e autorais. O resultado foram trabalhos revolucionários, como American Flagg, mas também HQs que era essencialmente boas histórias bem contadas. Nessa última categoria se enquadra Jon Sable, de Mike Grell.

Sable é um mercenário urbano que combate criminosos e terroristas e, nas horas vagas, escreve histórias infantis no estilo senhor dos anéis através de seu alter-ego BB Flemm. É o tipo de personagem com o qual Grell se sente à vontade, vide sua ótima fase no Arqueiro Verde: muita ação misturada com toques de espionagem.

A sequencial inicial, com o personagem sendo atacado por três homens em uma espetacular página dupla dá o tom da história. No final, descobrimos que os três homens trabalham para o presidente Ronald Reagan, que teme um atentando na abertura da reunião das Nações Unidas e quer contratar os serviços de Sable. É de se perguntar porque simplesmente não contratá-lo ao invés de colocar três capangas para trocar socos com ele, mas esse é um quadrinho de ação, e o autor aproveita cada oportunidade de mostrar uma peleja.

As histórias começavam com uma página dupla. 



E, claro, o terrorista é alguém do passado de Sable, o que costura o roteiro, deixando-o redondido.

Grell gostou tanto da série que abandonou todos os outros compromissos para se concentrar apenas nesse gibi.

Sable fez sucesso e foi publicado até o número 56. No Brasil saíram apenas quatro exemplares, pela Cedibra.

Jornada nas estrelas – O Dia da paz

 



Embora teoricamente a Enterprise tenha uma hierarquia militar, Jornada nas Estrelas é um seriado eminemente pacifista. Nenhum episódio deixou isso tão claro quanto O dia da paz, da terceira temporada.

Escrito por Jerome Bixby, o episódio mostra a Enterprise atendendo a um pedido de socorro de uma colônia terrestre. Mas quando chega lá, não há sequer vestígio da colônia. Nesse entremeio, uma nave klingon chega ao local também atendendo a um pedido de socorro e é destruída. Apenas o capitão e alguns homens sobrevivem e passam a culpar os humanos pelo ataque.

Levados para a nave, como prisioneiros, os klingons conseguem escapar quando os feisers da tripulação humana é transformada em espadas. A partir desse ponto instala-se uma guerra nas dependências da nave.

Por trás disso está um alienígena que se alimenta de situações de ódio e violência.

Para evitar que a nave seja destruída, Kirk precisa convencer o comandante klingon, Kang, de que as hostilidades devem cessar.

O episódio é repleto de fala emblemáticas de Kirk, entre elas: “Para o resto de nossas vidas, mil existências, numa luta sem sentido, enquanto um alienígena tem total controle sobre nós. O bom e velho jogo de guerra, peão contra peão, enquanto em algum lugar, uma coisa fica observando, rindo e começa tudo outra vez”. A fala, critica a guerra ao mostrar que os que que lutam são fantoches enquanto que os que lucram com a guerra se divertem e não correm nenhum risco.

O dia da paz faz o que Jornada faz de melhor: transformar um mote de ficção científica numa metáfora de nosso mundo.  

Jack Kirby e as relações de trabalho

 


Enquanto a Marvel ganhava fortunas com seu trabalho, Jack Kirby recebia apenas por página produzida, sem direito a férias, 13o ou descanso semanal remunerado. Não recebia nem os originais de volta. Quando saiu da Marvel, não recebeu nenhuma indenização, saiu com uma mão na frente outra atrás. 

Essa é a relação de trabalho tão elogiada pelos bolsonaristas e é exatamente esse sistema que Flávio Bolsonaro quer implantar no Brasil. 

Fica a pergunta: isso é bom para quem?

Sobre a escrita, de Stephen King

 


Stephen King é um dos escritores mais famosos de nossa época. É também um dos mais prolíferos. Ele escreve tão rápido, de maneira tão aparentemente espontânea, que parece ao leitor que não há nenhuma técnica envolvida, o que é totalmente falso, como mostra o livro Sobre a escrita, lançado no Brasil pela editora Suma.
A obra é uma mistura de biografia com manual. A parte biográfica tem como objetivo mostrar ao leitor os vários fatos que levaram King a se tornar um escritor de terror e moldaram seu estilo, desde os filmes que ele assistia na adolescência até o editor de um jornal de esportes no qual King trabalhou quando adolescente e que lhe ensinou muito sobre a escrita apenas corrigindo sua primeira matéria: “Acho que ele pensou que eu estivesse aterrorizado. Pelo contrário, eu estava tendo uma revelação. Por que, perguntei a mim mesmo, os professores de inglês não faziam o mesmo?”.
A biografia inclui também as primeiras tentativas de produzir textos literários, que inevitavelmente lhe rendiam problemas na escola. Em uma dessas empreitadas ele fez uma adaptação literária da filme Mansão do terror (que tinha roteiro de Richard Matheson e era dirigido por Roger Corman). King fez algumas cópias e levou para a escola. Até a hora do intervalo ele vendeu três dúzias de cópias. Resultado: acabou sendo chamado à diretoria. A diretora o obrigou a devolver o dinheiro de todos e lhe perguntou se ele queria desperdiçar seu talento escrevendo “aquele tipo de lixo”.
Ele continou escrevendo “lixo” e mandando para revistas, mas o que ganhava, mesmo incluindo os salário de professor apenas deixava ele e a família um pouco acima da linha da pobreza. Mas quem o salvou de fato foi a esposa, Tabitha. Ela tirou do lixo o primeiro esboço de Carrie, a estranha, e o estimulou a continuar escrevendo. O livro foi aceito por uma editora grande e havia a perspectiva de ser comprado para edições de bolso. King e a esposa sonhavam que a editora de livros de bolso pagasse 60 mil dólares pelos direitos, o que lhes daria 30 mil, o equivalente ao que King ganharia em quatro anos como professor. No final, os direitos foram adquiridos por 400 mil dólares. Era como se tivessem acabado de ganhar na loteria.
Fazendo um pequeno adendo, o livro é também uma declaração de amor de King à esposa. Quando relata a situação em que foi atropelado ele conta que a sua maior preocupação foi pedir aos enfermeiros que dissessem à sua esposa o quanto ele a amava, caso morresse.
O livro também conta o problema de King com drogas e o medo de se livrar do vício e não conseguir continuar a escrever.
Mas a parte mais interessante para quem comprou o livro pensando em aprender a escrever é aquele que dá nome ao livro. Embora nem sempre se concorde com King, é interessante perceber as de ferramentas que ele utiliza em suas histórias.
A primeira dica de King é aquela que deveria constar em letreiros grandes acima da mesa de qualquer que queira ser escritor: a única maneira de aprender a escrever bem é ler e escrever muito. King inclusive conta sobre pessoas que lhe dizem que gostariam ser escritoras, mas argumentam que não têm tempo para ler. A mesma coisa vale para quem diz que não tem tempo para escrever. King escreveu seus dois primeiros romances, Carrie e A hora do vampiro, nos poucos intervalos do trabalho, na lavanderia do trailer onde morava, usando uma máquina Olivetti portátil e equilibrando uma mesa infantil nas pernas.
Sobre o gênero que a pessoa irá escolher, King tem um conselho simples: escreva o que gosta de ler. ele, por exemplo, adorava os quadrinhos da EC Comics, e, por consequência, se tornou um autor de terror.
Na parte mais técnica, o livro divide a arte de escrever em três partes: a narração, a descrição e os diálogos. Curiosamente ele não fala da narrativa ou de trama em seu livro porque acredita as histórias se escrevem sozinhas. Ele começa com um “E se” e escreve a partir daí. Então: “E se vampiros invadissem uma pequena cidade da Nova Inglaterra? (A hora do vampiro) E se mãe e filho ficassem encurralados por um cachorro raivoso em um carro pifado? (Cujo)”.
Embora nem sempre os conselhos de King seja aplicáveis a todo mundo (comigo, por exemplo, não funciona começar a escrever sem ter o plot todo estruturado), Sobre a escrita é um livro que vale a pena ler. Não só pelas dicas, mas também pelas ótimas histórias contadas por um mestre da narrativa.

A arte cativante de Ramona Fradon

 


 

Ramona Fradon é uma quadrinhista norte-americana nascida em 1926. Ela começou a trabalhar profissionalmente no início da década de 1950, mas seu primeiro trabalho de destaque foi a reformulação do Aquaman no final da década. Outro trabalho importante foi Metamorfo, criado em parceria com o roteirrista Bob Haney. Já na década de 1970 ela se destacou desenhando Plastic Man. Outro trabalho no qual seu traço se encaixou perfeitamente foi em Super Friends, baseado no desenho animado da Hanna Barbera. O traço de Ramona é limpo e expressivo, características que influenciaram diversos outros artistas, entre eles o brasileiro Watson Portela, que se diz fã incondicional de Ramona. 











Mister No: Jogo Sujo


Embora a qualidade das histórias e o profundo respeito pela Amazônia fossem a tônica geral de Mister No, a série continha alguns volumes tão problemáticos que poderiam facilmente ser eliminados da cronologia sem prejuízo algum. Um exemplo claro disso é Jogo Sujo, publicado originalmente no volume #16.

A narrativa até começa de maneira divertida, embora esse início apele para um tema já exaustivamente abordado em outras edições. Um casal de turistas americanos, levado por Mister No para o interior da floresta, vangloria-se de ter abatido uma anta. Quando pedem que o guia pose ao lado deles para uma fotografia com o troféu, o herói recusa categoricamente: “Não aprecio fotografias em geral, em especial aquelas que imortalizam momentos que eu preferiria esquecer... como o extermínio de animais que não estão incomodando ninguém”.

A história começa com Mister No brigando com turistas. 


O comentário gera uma briga que, como de praxe, termina com o protagonista na cadeia. Quem o liberta é um indivíduo interessado em contratar seus serviços de piloto — uma situação repetida tantas vezes na longevidade da série que beira o humor involuntário (ou, talvez, deliberado por parte do roteirista).

É a partir deste ponto que os problemas estruturais começam.

Biopiratatira? Fazemos sim! 


O novo cliente de Mister No afirma ter chegado à Amazônia para realizar sondagens para uma companhia mineradora norte-americana — uma fala que reflete séculos de exploração predatória da região, mas que é retratada na HQ de forma assustadoramente natural.

“Tive a oportunidade de notar que, na zona onde efetuava as pesquisas, nascia espontaneamente uma erva desconhecida que possuía a propriedade de curar certas doenças de pele”, prossegue o homem.

A maconha provocando alucinações. É maconha ou LSD? 


A função de Mister No seria transportar, em seu icônico avião Piper, a erva misteriosa até a cidade de Curralinho, no Pará, de onde o carregamento seguiria de navio para os Estados Unidos. E qual a razão de tanto segredo? O medo do empresário de que o governo brasileiro, ao suspeitar que possui tal riqueza em suas florestas, resolvesse ele mesmo nacionalizar e exportar o produto.

Em suma: Mister No é contratado para praticar biopirataria explícita e aceita a missão com a maior naturalidade, como se não houvesse nada de antiético, lesivo ou criminoso no ato.

Mister No, que até então era mostrado como um herói humano e falível... 


O herói só resolve voltar-se contra seu empregador quando descobre que a tal "erva milagrosa" é, na verdade, maconha. Diante dessa revelação, movido por uma súbita moralidade contra o narcotráfico, ele decide enfrentar toda a rede de criminosos e consegue, sozinho, desbaratar o esquema.

Além do erro crasso de naturalizar a biopirataria de recursos da Amazônia como algo aceitável, a história rompe violentamente com o tom realista estabelecido na série até então. O roteiro transforma o protagonista até então anti-herói e falível, em uma espécie de Rambo invencível, capaz de resolver conflitos geopolíticos e militares por conta própria. É a síndrome do "salvador branco" em sua essência mais pura.

... vira uma espécie de Rambo, que resolve tudo sozinho. 


É difícil compreender como Sergio Bonelli, que vinha produzindo narrativas tão inteligentes e pouco convencionais, tenha se rendido a um modelo de herói tão colonialista e datado. Jogo Sujo é, definitivamente, uma história para ler e esquecer que existe.

terça-feira, outubro 06, 2026

Juba & Lula – Operação Super-homem

 

Na década de 1980  o seriado Armação Ilimitada se tornou o grande azarão da TV. A ideia tinha sido de dois atores surfistas, Kadu Moliterno e André De Biase ao qual se juntou Andréa Beltrão. Os roteiros eram non-sense e a direção de Guell Arraes garantia uma boa dose de metalinguagem e humor.

Essa mistureba fez tanto sucesso que levou a editora Nova Fronteira a lançar uma versão em quadrinhos dos personagens Juba e Lula. Para desenhar escolheram o argentino Héctor Gomes Alísio e para o roteiro o  desconhecido Régis Rocha Moreira.

O roteirista exagerava nos textos, fazendo com que o desenho ficasse apertado entre os balões. 

A história Operação Super-homem mostra a dupla lutando contra um nazista que pretende criar um super-homem. E qual seria o objetivo de um nazista ao criar uma pessoa extremamente forte? Montar um exército e reviver o III Reich? Não, transformar o soro numa droga e vender nas ruas. Era para ser non-sense, mas é simplesmente algo que não faz sentido, assim como quase tudo nessa história.

Logo no início, os protagonistas estão chegando na praia quando quase batem em um carro que está saindo do estacionamento. Algo relacionado à trama? Não. Apenas uma desculpa para eles conhecerem duas garotas... que aparecem apenas em um quadrinho! A situação, que parece ser apenas uma piada solta, sequer é desenvolvida. Aliás, por esse único quadro fica evidente que Héctor é um excelente desenhista de mulheres. Mas o roteirista simplesmente não aproveita isso: 90% das cenas tem apenas homens.

A história cria toda uma situação para uma paquera que só dura um quadro. 

Junte a isso piadas que não funcionam, diálogos expositivos (os famosos bifes) enormes e um final abrupto, que parece indicar que o roteirista só pensou no final da história na última página.

Ao final das contas, Jula e Lula Operação super-homem acaba sendo uma curiosidade quadrinistica dos anos 1980, que vale apenas pelo desenho.

Capitão Marvel – Metamorfose

 


O número 29  do título do Capitão Marvel representou uma virada de página na vida do personagem e no Brasil provocou furor ao seu publicada na revista Heróis da TV 11, da editora Abril, em 1980.

Jim Starlin, o responsável por essa revolução, já vinha trabalhando com o personagem antes, mas essa foi sua primeira oportunidade de cuidar de tudo, desenhos e roteiro - e fez bonito, a começar pela página inicial, com o personagem em primeiro plano, olhando assustado para uma figura monstruosa e disforme que ocupa todo o fundo.

A página de abertura é memorável. 


“Nós esperamos muitos anos por este encontro, Mar-vel. Oito bilhões de anos para ser exato!”, diz a figura monstruosa. “É verdadeiramente uma longa espera por aquilo para o qual fomos criados... a missão de nossa vida... destruir Capitão Marvel, o guerreiro!”.

Esse início por si só já garante todo o interesse do leitor, fisgado pela informação de que o personagem será destruído (mais à frente descobrimos que a frase não pode ser levada ao pé da letra).

Starlin conta a origem de Titã. 


O título, colocado na lateral, é outra grande sacada. Começando com uma fonte certinha, de formas retas, a cada letra ele vai se transformando em algo mais irregular, em perfeita sintonia com a palavra metamorfose.

O ser chamado Eon conta uma história de milênios, com o guerreiro deus urano sendo destronado por Chronos, a formação do planeta Titã e o surgimento de Mentor, Eros e Thanos. Starlin faz aqui o que faz melhor: contar grandes sagas cósmicas em um texto que resume séculos ou milênios de acontecimentos.

A história ecoa um profundo discurso pacifista. 


A sequência toda mistura odisséia cósmica, psicodelismo e pacifismo: “O homem tem muitos motivos para a batalha, mas é possível acreditar verdadeiramente que qualquer causa valha todo o sangue que a guerra derrama?”, diz o texto.

Era Starlin, um legítimo representante da geração hippie, colocando suas ideias e conceitos num quadrinho de super-heróis!!!

O Capitão Marvel adquire a consciência cósmica.


No final, descobrimos que a destruição do guerreiro capitão Marvel prometida pela figura monstruosa era na verdade uma promessa de mudança. O herói “morre” e renasce, abrindo caminho para a abordagem revolucionária de Starlin no título.

Histórias como essas só seriam possíveis naqueles improváveis anos 1970.