Há algum tempo, fizemos uma viagem de navio que durou 24 horas. Ao nosso lado, uma mãe segurava o celular para que a filha assistisse a vídeos curtos e aleatórios por horas intermináveis. Quando a bateria finalmente acabou, a bebê foi tomada por um acesso incontrolável de choro. Em outra ocasião, num restaurante a quilo, uma mãe deixou o filho — de cerca de 6 anos — na mesa, hipnotizado por esses mesmos vídeos (o garoto já havia entrado no recinto com os olhos fixos na tela). Quando ela precisou do aparelho para pagar a conta, o menino começou a gritar e a bater na mesa.
Está sendo criada uma geração de crianças viciada em vídeos curtos, que se tornará incapaz de assistir a qualquer conteúdo com mais de 30 segundos ou de ler um texto com mais de duas linhas.
Um pequeno reflexo desse fenômeno já pode ser visto nos cinemas. Fomos assistir a Coiote vs. ACME e uma mulher à minha esquerda passou a exibição inteira mexendo no celular. Mudei de poltrona e o grupo de adolescentes à direita mantinha o mesmo comportamento. Quando minha esposa reclamou, uma jovem soltou uma desculpa que resume bem essa mentalidade: “Nós não reclamamos quando vocês riem do filme”. Na cabeça dela, rir de uma comédia no cinema é algo absurdo. Essa é a síntese desta nova geração. E a tendência é piorar — e muito — nos próximos anos.
Em tempo: o filme é ótimo. Assistam. Mas desliguem o celular.

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