Algo surpreendente no editor e roteirista Sergio Bonelli era
sua habilidade de não apenas tornar crível, como também desenvolver por mais de
uma edição, uma premissa no mínimo inusitada: um templo maia em plena selva
amazônica. É o que vemos na história publicada originalmente nos volumes 6 e 7
(da edição da editora Record).
Como de costume, a narrativa começa com um "ato
zero" que pouco tem a ver com a trama principal: o dono de um bar em
Manaus contratou uma cantora chamada Dana Winter, cuja beleza exótica prometia
lotar o local. Ao ir buscar a artista, Mister No descobre que Dana é, na
verdade, um cantor negro de visual andrógino.
![]() |
| Uma loira misteriosa coloca Mister No numa enrascada. |
A apresentação de Dana no bar acaba, inevitavelmente,
transformando-se em uma confusão generalizada, especialmente após a intervenção
de Jerry Drake (o Mister No). Já na mira da polícia por outras brigas
semelhantes, ele foge do local apenas para entrar em outro bar, onde uma
belíssima loira o beija, entrega-lhe uma bolsa e promete encontrá-lo em sua
casa mais tarde. No entanto, quem o visita de fato são capangas interessados no
conteúdo da bolsa, que lhe dão uma surra. Para completar o azar, o herói acaba preso.
A história principal ainda nem começou e o protagonista já
se envolveu em duas brigas e foi espancado. Não é por acaso que o personagem é
tão querido: ele foge completamente do estereótipo do herói invencível e
infalível.
![]() |
| Mister No apanha e ainda é preso. Um herói nada convencional. |
A trama engrena quando a mulher misteriosa se revela: ela é
assistente de um cientista que paga a fiança de Jerry e o contrata para uma
expedição em busca de uma cidade maia perdida. O grupo reunido por Mister No
inclui o cantor Dana, agora desempregado; o ex-soldado alemão Esse-Esse (seu
eterno parceiro); um guia indígena e um navegador especializado nos rios
locais.
![]() |
| O roteiro aproveita muito bem a ambientação para criar conflito. |
Esta saga é ilustrada por Roberto Diso, possivelmente o
melhor desenhista da série, mestre em retratar a fauna e a flora tropicais. O
traço de Diso reforça o roteiro de Bonelli, que utiliza as características da
Amazônia para criar conflitos genuínos — como a tapuia (vegetação aquática)
que, ao se aglutinar, paralisa o barco. Isso rende um dos momentos mais tensos,
quando Mister No, na tentativa de liberar a embarcação, é atacado por jacarés.
![]() |
| Roberto Diso era um especialista em desenhar animais tropiciais. |
Outra fonte de tensão são os povos indígenas, que atacam o
grupo em diversas ocasiões. Contudo, ao contrário do que se poderia esperar de
uma produção estrangeira sobre a região, Bonelli não os retrata como
naturalmente violentos, mas como pessoas reagindo a séculos de ataques e golpes
desferidos por brancos.
![]() |
| Apesar dos acertos, a edição tem erros, como as redes, muito diferentes das usadas na Amazônia. |
Embora o fato de o protagonista ser norte-americano possa
ser lido como um reflexo da "síndrome do salvador branco", o grupo
multiétnico — onde negros e indígenas têm papéis decisivos na resolução dos
conflitos — traz uma perspectiva mais equilibrada à obra. No final, a busca
pelo templo maia é uma aventura eletrizante, escrita por alguém que era,
genuinamente, apaixonado pela Amazônia.






Sem comentários:
Enviar um comentário