sexta-feira, setembro 25, 2026

Mister No: O Templo dos Maias

 


Algo surpreendente no editor e roteirista Sergio Bonelli era sua habilidade de não apenas tornar crível, como também desenvolver por mais de uma edição, uma premissa no mínimo inusitada: um templo maia em plena selva amazônica. É o que vemos na história publicada originalmente nos volumes 6 e 7 (da edição da editora Record).

Como de costume, a narrativa começa com um "ato zero" que pouco tem a ver com a trama principal: o dono de um bar em Manaus contratou uma cantora chamada Dana Winter, cuja beleza exótica prometia lotar o local. Ao ir buscar a artista, Mister No descobre que Dana é, na verdade, um cantor negro de visual andrógino.

Uma loira misteriosa coloca Mister No numa enrascada.


A apresentação de Dana no bar acaba, inevitavelmente, transformando-se em uma confusão generalizada, especialmente após a intervenção de Jerry Drake (o Mister No). Já na mira da polícia por outras brigas semelhantes, ele foge do local apenas para entrar em outro bar, onde uma belíssima loira o beija, entrega-lhe uma bolsa e promete encontrá-lo em sua casa mais tarde. No entanto, quem o visita de fato são capangas interessados no conteúdo da bolsa, que lhe dão uma surra. Para completar o azar, o herói acaba preso.

A história principal ainda nem começou e o protagonista já se envolveu em duas brigas e foi espancado. Não é por acaso que o personagem é tão querido: ele foge completamente do estereótipo do herói invencível e infalível.

Mister No apanha e ainda é preso. Um herói nada convencional. 


A trama engrena quando a mulher misteriosa se revela: ela é assistente de um cientista que paga a fiança de Jerry e o contrata para uma expedição em busca de uma cidade maia perdida. O grupo reunido por Mister No inclui o cantor Dana, agora desempregado; o ex-soldado alemão Esse-Esse (seu eterno parceiro); um guia indígena e um navegador especializado nos rios locais.

O roteiro aproveita muito bem a ambientação para criar conflito. 


Esta saga é ilustrada por Roberto Diso, possivelmente o melhor desenhista da série, mestre em retratar a fauna e a flora tropicais. O traço de Diso reforça o roteiro de Bonelli, que utiliza as características da Amazônia para criar conflitos genuínos — como a tapuia (vegetação aquática) que, ao se aglutinar, paralisa o barco. Isso rende um dos momentos mais tensos, quando Mister No, na tentativa de liberar a embarcação, é atacado por jacarés.

Roberto Diso era um especialista em desenhar animais tropiciais. 


Outra fonte de tensão são os povos indígenas, que atacam o grupo em diversas ocasiões. Contudo, ao contrário do que se poderia esperar de uma produção estrangeira sobre a região, Bonelli não os retrata como naturalmente violentos, mas como pessoas reagindo a séculos de ataques e golpes desferidos por brancos.

Apesar dos acertos, a edição tem erros, como as redes, muito diferentes das usadas na Amazônia. 


Embora o fato de o protagonista ser norte-americano possa ser lido como um reflexo da "síndrome do salvador branco", o grupo multiétnico — onde negros e indígenas têm papéis decisivos na resolução dos conflitos — traz uma perspectiva mais equilibrada à obra. No final, a busca pelo templo maia é uma aventura eletrizante, escrita por alguém que era, genuinamente, apaixonado pela Amazônia.

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