Com as histórias de Thor fazendo cada vez mais sucesso na revista Journey into Mystery, o roteirista Stan Lee e o desenhista Jack Kirby precisavam criar situações que sustentassem a narrativa mês a mês. Como nem sempre era possível conceber um vilão inédito, na edição nº 105 eles resolveram trazer uma novidade: dois antagonistas em vez de um.
Na trama, o Cobra, ao fugir de Thor, invade o apartamento de Calvin Zabo no exato momento em que este se transformava em Mister Hyde. Ali, aplicou-se a mesma regra dos heróis: toda vez que dois vilões se encontram, eles precisam brigar. No entanto, a certa altura, percebem que têm um inimigo comum e decidem unir forças.
![]() |
| Os vilões começam brigando, mas logo resolvem unir forças. |
Hyde possui um mecanismo que pretende ser a perdição do Deus do Trovão. Quando apontado para alguém, o aparelho projeta o passado do personagem como se fosse um filme em retrocesso, o que mergulha o leitor em suspense: seria esse o meio pelo qual os vilões descobririam a identidade secreta do herói? Stan Lee resolve esse impasse de maneira astuta: o dispositivo cessa a exibição das imagens no momento em que Thor entra no consultório do Dr. Don Blake, uma vez que, ali, ele assume outra identidade.
Os vilões invadem o consultório e exigem que o médico convoque o Deus do Trovão. Aqui, os autores utilizam um recurso pouco verossímil que repetiriam diversas vezes: Blake se transforma apenas quando os vilões não estão olhando. Nessa cena específica, há um fator que complica ainda mais a situação, já que a enfermeira Jane Foster está presente. Seria possível que todos, inclusive ela, estivessem olhando para outro lugar simultaneamente?
![]() |
| O aparelho reconstitui os últimos passos do herói. |
Contudo, Lee e Kirby não dão tempo para o leitor refletir sobre essas incongruências. Logo tem início o "porradal", que se estende até um pavilhão de máquinas. Na época, havia a premissa de que Don Blake não poderia ficar afastado de seu martelo por mais de um minuto, limitação muito bem explorada na história: os vilões utilizam um robô para afastar a arma do herói que, entretido com a luta, não consegue resgatá-la a tempo.
Surge então, mais uma vez, o recurso do “ninguém está vendo”: Thor entra no meio da multidão e reverte à forma humana sem ser notado. Posteriormente, ele volta a se transformar no Deus do Trovão, novamente sem testemunhas. Um oculista faria fortuna nessa cidade!
![]() |
| Thor se transforma quando ninguém está olhando. Mais de uma vez. |
Stan Lee ainda abusa dos diálogos explicativos. Em certo momento, uma das pessoas presas no galpão alerta: “Olhe! Mr. Hyde conseguiu ligar o pulverizador! Ele pode gerar ar pressurizado suficiente para demolir uma parede!”, ao que o vilão completa: “O propósito desta máquina é expelir tinta suficiente para cobrir o prédio inteiro! Mas, concentrando o jato de ar, ela se torna uma arma poderosa!”.
Apesar desses problemas, o ritmo é tão frenético e o uso do suspense tão eficiente que a leitura se torna inebriante. Um ponto a se destacar é que Stan Lee deve ter percebido que essa trama era grandiosa demais para uma única edição, estendendo-a por dois volumes. Ao quebrar a regra de que cada história deveria ser autocontida, ele abriu caminho para a criação dos grandes clássicos que definiriam o personagem futuramente.




Sem comentários:
Enviar um comentário