quarta-feira, setembro 09, 2026

Thor contra o Cobra e Mister Hyde


Com as histórias de Thor fazendo cada vez mais sucesso na revista Journey into Mystery, o roteirista Stan Lee e o desenhista Jack Kirby precisavam criar situações que sustentassem a narrativa mês a mês. Como nem sempre era possível conceber um vilão inédito, na edição nº 105 eles resolveram trazer uma novidade: dois antagonistas em vez de um.

Na trama, o Cobra, ao fugir de Thor, invade o apartamento de Calvin Zabo no exato momento em que este se transformava em Mister Hyde. Ali, aplicou-se a mesma regra dos heróis: toda vez que dois vilões se encontram, eles precisam brigar. No entanto, a certa altura, percebem que têm um inimigo comum e decidem unir forças.

Os vilões começam brigando, mas logo resolvem unir forças. 


Hyde possui um mecanismo que pretende ser a perdição do Deus do Trovão. Quando apontado para alguém, o aparelho projeta o passado do personagem como se fosse um filme em retrocesso, o que mergulha o leitor em suspense: seria esse o meio pelo qual os vilões descobririam a identidade secreta do herói? Stan Lee resolve esse impasse de maneira astuta: o dispositivo cessa a exibição das imagens no momento em que Thor entra no consultório do Dr. Don Blake, uma vez que, ali, ele assume outra identidade.

Os vilões invadem o consultório e exigem que o médico convoque o Deus do Trovão. Aqui, os autores utilizam um recurso pouco verossímil que repetiriam diversas vezes: Blake se transforma apenas quando os vilões não estão olhando. Nessa cena específica, há um fator que complica ainda mais a situação, já que a enfermeira Jane Foster está presente. Seria possível que todos, inclusive ela, estivessem olhando para outro lugar simultaneamente?

O aparelho reconstitui os últimos passos do herói. 


Contudo, Lee e Kirby não dão tempo para o leitor refletir sobre essas incongruências. Logo tem início o "porradal", que se estende até um pavilhão de máquinas. Na época, havia a premissa de que Don Blake não poderia ficar afastado de seu martelo por mais de um minuto, limitação muito bem explorada na história: os vilões utilizam um robô para afastar a arma do herói que, entretido com a luta, não consegue resgatá-la a tempo.

Surge então, mais uma vez, o recurso do “ninguém está vendo”: Thor entra no meio da multidão e reverte à forma humana sem ser notado. Posteriormente, ele volta a se transformar no Deus do Trovão, novamente sem testemunhas. Um oculista faria fortuna nessa cidade!

Thor se transforma quando ninguém está olhando. Mais de uma vez. 


Stan Lee ainda abusa dos diálogos explicativos. Em certo momento, uma das pessoas presas no galpão alerta: “Olhe! Mr. Hyde conseguiu ligar o pulverizador! Ele pode gerar ar pressurizado suficiente para demolir uma parede!”, ao que o vilão completa: “O propósito desta máquina é expelir tinta suficiente para cobrir o prédio inteiro! Mas, concentrando o jato de ar, ela se torna uma arma poderosa!”.

Apesar desses problemas, o ritmo é tão frenético e o uso do suspense tão eficiente que a leitura se torna inebriante. Um ponto a se destacar é que Stan Lee deve ter percebido que essa trama era grandiosa demais para uma única edição, estendendo-a por dois volumes. Ao quebrar a regra de que cada história deveria ser autocontida, ele abriu caminho para a criação dos grandes clássicos que definiriam o personagem futuramente.

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