terça-feira, outubro 27, 2026

Mestre do Kung Fu contra Mordillo

 

Uma série longeva como Mestre do Kung Fu não poderia se ancorar indefinidamente apenas nos embates contra Fu Manchu — as primeiras histórias da revista demonstraram o quanto essa dinâmica poderia se tornar tediosa. Desse modo, era imperativo criar adversários que estivessem à altura do herói. Um dos mais emblemáticos foi Mordillo, antagonista que surgiu na edição #33, em uma saga que se estendeu até o número #35 da publicação norte-americana.

Essa saga marca a introdução de Leiko Wu, que viria a se tornar uma personagem fundamental e o grande interesse romântico na mitologia da série. Na trama, ela é hipnotizada para memorizar o segredo de uma arma letal, um dispositivo capaz de abrir fendas na camada de ozônio e canalizar raios ultravioletas para destruir localizaciones geográficas específicas. Contudo, essa mesma programação mental fez com que ela esquecesse os dados estratégicos, e a única pessoa que detinha a chave psicológica para resgatar tal lembrança acabou sendo morta.

Em sua primeira aparição, Leiko é sequestrada pelo vilão Mordillo. 


Leiko é então sequestrada por um agente infiltrado, Simon Bretnor, que havia se aproximado dela fingindo ser seu namorado. Bretnor, na verdade, é ninguém menos que o próprio Mordillo, um vilão especializado em robótica que construiu uma base em uma ilha isolada nos moldes de um parque temático maluco. O cenário surrealista inclui um domo geodésico, um castelo medieval, uma pirâmide e até um sapato gigante, sendo inteiramente povoado por autômatos que imitam atrações de parque de diversões, como um trenzinho dotado de um rosto humano estilizado e sorridente.

A história tinha tanto texto que não parecia sobrar espaço para o dessenho. 


A ilha de Mordillo, palco onde se desenrola a narrativa, constitui um dos pontos altos de criatividade do roteirista Doug Moench, com especial destaque para o robô Brynocki, cujas feições caricatas lembram um boneco de desenho animado clássico e que profere tiradas bizarras como:

“Sabe o que é, chefia? Eu estava andando pela praia quando te vi entranhado com a mocinha aqui e achei melhor laçar a bezerra e te dar uma mão”.

O desenho de Gulacy parece vazio em alguns quadros. 


Apesar da excelente premissa conceitual e de algumas sequências de ação empolgantes, o resultado final do arco fica um pouco aquém do esperado. O desenhista Paul Gulacy ainda estava em fase de testes com o seu traço e sofria visivelmente para compor imagens de escala grandiosa — como na primeira aparição da ilha, cujos cenários pareciam excessivamente vazios e planos.

Brynocki chama atenção desde sua primeira aparição. 


Por outro lado, o roteiro mostrava-se um tanto capenga, exibindo furos consideráveis de desenvolvimento. A revelação da traição de Simon Bretnor/Mordillo simplesmente não impacta o leitor, pois o personagem já é apresentado desde o primeiro instante sob uma aura suspeita e vilanesca. Um Moench mais maduro saberia introduzir o coadjuvante gradualmente, preparando o público com ganchos sutis antes da grande revelação de que se tratava de um espião inimigo. O mesmo problema de construção afeta Leiko Wu, que carecia de um background mais elaborado para que seu envolvimento emocional com Bretnor fizesse real sentido narrativo.

A vilã Pavane reaparece, mas não faz quase nada. 


Além disso, Moench parecia acreditar que o melhor texto é o texto excessivo. Em algumas sequências, o diálogo é tão carregado que os personagens parecem se espremer no canto dos quadros.

As motivações do vilão também revelam-se consideravelmente fracas. Mordillo ambiciona apenas obter a quantia de um milhão de dólares e, no processo de chantagem global, decide de forma inconsequente destruir até mesmo a sua amada ilha repleta de autômatos.

Brynocki protagoniza a cena mais tocante da história. 


O ponto alto e verdadeiramente memorável da história, no fundo, reside na figura trágica e cômica do robô Brynocki. A cena final, que mostra a criatura abraçada ao esqueleto inerte do vilão prometendo nunca abandoná-lo, consegue ser genuinamente tocante. Brynocki demonstrou tanto carisma que, futuramente, viria a ser resgatado e reaproveitado por Doug Moench em outra trama memorável.

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