domingo, janeiro 02, 2022

Tem gente que escreve gibis?

 


Quando eu morava em Belém, tinha uma banca perto de casa, na qual eu sempre comprava. Um dia cheguei lá e o senhor da banca me ofereceu uma revista. Eu não comprei. E ele:
"Mas você sempre compra esse gibi!".
"Sim, mas o autor que eu gostava não está mais escrevendo esse pergonagem."
Ele fez uma cara de espanto, como se estivesse ouvindo algo inacreditável:
"Como assim, tem gente que escreve gibis?"

Fundo do baú - Speed Racer

 

Speed Racer é um anime dos anos 60, criado por Tatsuo Yoshida sobre corridas de automóveis. Speed Racer (nome dado pela dublagem brasileira, o nome original é Go Mifune), um jovem e audaz piloto de corrida de dezoito anos, dirige o carro Mach 5 criado por seu pai (Pops) e vive diversas aventuras dentro e fora das pistas.
 Um produto típico dos anos 60, usa um topete de Elvis Presley e suas maiores aventuras lembram os filmes de 007.
O desenho é muito conhecido pela sua canção tema e pela ótima trilha sonora. Como seus mais célebres competidores, temos a "Equipe Acrobática" e o "Carro Mamute". As corridas eram em locais inusitados, como selvas, desertos e até dentro de um vulcão.
O Mach 5, carro de corrida de Speed, tinha um arsenal de equipamentos que ajudavam Speed a se safar das enrascadas em cada uma de suas aventuras. Um dos equipamentos permitia que o carro praticamente pulasse sobre os obstáculos. 

Teocracia em vertigem

 



Há algum tempo o canal Porta dos Fundos tem realizado especiais de natal cuja popularidade é toda calcada na polêmica. Esse processo culminou com o especial de 2019, o mais polêmico e o de maior sucesso. Ao mostrar Jesus como homossexual, o grupo despertou a fúria dos fanáticos religiosos (curiosamente o Jesus bêbado do especial de 2018 não causou tanta hojeriza). A situação tornou-se até mesmo caso de polícia – quando a produtora do grupo sofreu um atentado.

Assim, era de se esperar que o especial de 2020 fosse ainda mais polêmico.

Entretanto, o caminho escolhido pelo grupo foi exatamente o oposto: contar a histórial real de Jesus, com os principais fatos relatados na Bíblia.

O especial foi construído como um documentário, feito após a morte de Jesus, com depoimentos das pessoas envolvidas. Considerando-se que vivemos um momento de pandemia, foi uma escolha acertada: a maioria das cenas traz apenas um, no máximo dois atores.

E, na essência, o que esse mocumentário (documentário falso) mostra é o que está na Bíblia: Jesus foi preso, torturado e morto em uma trama envolvendo poderosos da época e e a religião oficial; o povo preferiu votar para soltar o criminoso Barrabás; Judas trai Jesus em troca de dinheiro etc.

O humor surge de situações específicas, como Jesus usando seus poderes quando jovem, em brincadeiras infantis ou o centurião argumentando que não houve violência policial. Uma das melhores cenas é a que envolve o que seria um programa policial da época, mostrando Jesus como bandido, que merecia morrer: “Você já viu gente de bem crucificado?”, pergunta o apresentador. Outra fonte de humor são as referências a fatos recentes, como as rachadinhas ou os guardiões do Crivella.

Então parecia que o Porta dos Fundos finalmente tinha acertado, com um especial em que o foco era o humor e não a polêmica... além da estrutura narrativa criativa e surpreendente. Mas, na sequencia final, a estrutura de documentário é jogada no lixo e substituída por um vídeo-clipe que simplesmente não se encaixa com o restante. Uma pena. 

Museu Monteiro Lobato

 

Tive a oportunidade de visitar o Museu Monteiro Lobato, no sítio do escritor, em Taubaté. É emocionante conhecer a casa em que Lobato escreveu alguns dos seus melhores textos, com destaque para o livro Urupês. Infelizmente há pouca informação sobre o escritor, faltam legendas, textos explicativos e principalmente material interativo e audio-visual (vídeos, áudios etc). Para alguém revolucionário como Lobato, o museu parece bastante conservador. Entretanto, vale a visita (se estiver com crianças, há apresentações teatrais nos finais de semana). Se passar por Taubaté, não deixe de conhecer o Museu, que fica praticamente no centro da cidade. Confira as fotos. 
Há várias estátuas dos personagens espalhadas pela área do Museu. 

A casa-sede da fazenda do Lobato, agora sede do Museu. 





Certidão de batismo e de óbito do escritor. 


Uma das poucas salas com cara de museu moderno, dedicada às pinturas do escritor. 

Algumas das edições mais antigas de livros de Lobato (tenho a maioria dessas edições)



A pedagogia humanista

 


“Não sabemos quanta capacidade de criação é morta nas salas de aula”
Alexander Neill

   
Em oposição à pedagogia tradicional, que tinha como valores a disciplina, a transmissão de conteúdos do professor para o aluno e a memorização, surgiram vários paradigmas educacionais propondo novos pontos de vista. Um deles foi a educação humanística, também chamada de não-diretiva, representada pelo escocês Alexander Neill e pelo norte-americano Carl Rogers.
            Nessa abordagem o aluno não é um simples depositário de conhecimentos e a função do professor não é apenas transmitir informações, mas principalmente criar condições para que os alunos aprendam.
            Para esse paradigma, o objetivo da educação é a realização plena do ser humano e o uso pleno de suas potencialidades e capacidades.
            O homem é visto como uma totalidade, um organismo em processo de integração, uma pessoa na qual os sentimentos e as experiências exerçam um papel muito importante, como fator de crescimento. Enquanto na educação tradicional, o professor deve se manter o mais distante possível do aluno, e não deve se envolver emocionalmente, na educação humanística só há aprendizado quando há envolvimento emocional.
            Essa postura não aceita qualquer projeto social que seja baseado no controle e na manipulação das pessoas, ainda que isso seja feito com a justificativa de “tornar as pessoas mais felizes”. Ao contrário, as pessoas devem ser acostumadas desde pequenas à autonomia e a assumirem a responsabilidade das suas decisões pessoais.
            Na escola de Summerhill, que Alexander Neil fundou e dirigiu durante anos na Inglaterra, todas as decisões importantes eram tomadas em assembléias aos sábados, em que participava toda a comunidade acadêmica, do diretor aos alunos mais jovens. Ali todos tinham direito a um voto. Eram nessas reuniões que se estabeleciam as regras da escola: quando e como ver televisão, a que horas ir deitar, quando acordar, qual a próxima peça de teatro a ensaiar, que comida a maioria prefere, o que fazer com a menina que gosta de quebrar janelas...
            Segundo Rogers, o indivíduo é capaz de dirigir-se a si mesmo, de encontrar na sua própria natureza o seu equilíbrio e os seus valores. A alienação do homem consiste em não ser fiel a si mesmo. Para esse autor, somente quando o homem sente-se incondicionalmente aceito, ele se atreve a aceitar-se como é e abrir-se para o processo de aprendizado.
            Um testemunho de um professor de Summerhill, publicado na revista Realidade (1968), dá o tom da relação dos professores com os alunos em uma escola em que não era obrigatório nem mesmo freqüentar as aulas: “Você não sabe o que é ter uma classe onde quem está lá porque quer, porque escolheu aprender... Como em Summerhill ninguém pergunta a ninguém se vai ou não para a escola, ficamos logo viciados em sinceridade. Preciso estudar para acompanhar a criançada. Quem resolve aprender, não só vai a todas as aulas, como não dá folga para a gente: quer saber cada vez mais”.
            Esse paradigma parte da crença rousseauriana na bondade original: “Crianças livres e felizes não têm probabilidade de ser cruéis. A crueldade, em muitas crianças, nasce da crueldade que adultos exercem sobre eles”, dizia Neill. Da mesma forma, as crianças têm uma curiosidade natural, uma vontade de aprender, que a escola deve estimular.
            Aos que acusavam seu método de criar deliquentes, Neill respondia que o que torna as pessoas neuróticas e delinqüentes são o moralismo e a repressão sexual. Para ele, a neurose é conseqüência da falta de amor e de aceitação. Para Neill, por exemplo, o interesse das crianças em assuntos escatológicos surge da própria repulsa com que os pais tratam esse assunto: “Lembro-me de uma menina de 11 anos. Seu único interesse na vida eram os banheiros, os buracos de fechadura. Substituí aulas de geografia por outras referentes ao seu assunto predileto, o que a fez muito feliz. Dez dias depois, quando quis continuar as lições especiais, ela protestou, entediada: Não quero mais ouvir falar nisso. Estou farta de falar nessas coisas”, conta Neil.
            É importante destacar a diferença que Neil faz entre liberdade é licenciosidade. Licenciosidade é fazer o que se quer. Liberdade é agir dentro de limites estabelecidos pela liberdade do outro. Um aluno de Summerhill podia fazer o que quiser, desde que não incomodasse os outros. Se isso acontecesse, o caso seria levado à assembléia.
Um equívoco comum é com relação à forma como esse paradigma via a figura do professor. Rogers preferia chamar os professores de facilitadores. Essa palavra foi se deformando com o tempo e hoje perdeu quase completamente seu significado original. Para muitos, o facilitador é alguém que transfere a responsabilidade de aprendizado para o aluno. Exemplos disso são os professores que no primeiro dia de aula dividem os assunto pelos diversos alunos e os mandam depois apresentar o resultado dessa pesquisa (que quase nunca é pesquisa, mas apenas repetição de idéias de um autor já demarcado, numa relação, no fundo, bastante autoritária). Muitas vezes os professores não fazem nem comentários aos trabalhos dos alunos.
O facilitador, para Rogers, é alguém que: tem confiança na relação pedagógica e cria um clima apropriado para a convivência; informa, apresenta aos alunos uma base para que eles possam avançar; aceita o grupo e cada um de seus membros (essa aceitação deve ser não só intelectual, mas também afetiva); alguém que se converte em um membro do grupo e participa ativamente do ato coletivo da aprendizagem; é congruente, isto é, consciente de suas próprias idéias e sentimentos.  
Ou seja, facilitador é alguém que cria condições para o aprendizado, incentivando os alunos a se aprofundarem nos assuntos de acordo com seus interesses. Por exemplo, após uma aula sobre a África, os alunos poderiam se aprofundar em temas como o tráfico de escravos, as religiões africanas, etc... e depois compartilharem suas descobertas com os colegas. É muito diferente de simplesmente deixar os alunos darem aulas no lugar do professor, como alguns têm entendido a proposta humanística.
Anos depois de serem expostas, as idéias humanísticas ainda nos fazem pensar. Especialmente porque boa parte de suas propostas foram deturpadas. A não-diretividade tem sido vista como um “deixai fazer, deixai passar” que não é encontrado na proposta original. Pensadores como Alexander Neill e Carl Rogers nos mostram que a educação deve ser centrada no aluno, mas que o professor deve providenciar-lhe uma base que lhe permita aprender. Além disso, eles nos ensinam a importância da afetividade no processo educacional. Os alunos só aprenderão se for estabelecido um clima de amizade, em que todos sejam aceitos com suas próprias características.

sábado, janeiro 01, 2022

Matintaperêra

 

Boneco de latex adquirido na feirinha da Praça da República, em Belém.

Matintaperêra

chegou na clareira

e logo silvou...

No fundo do quarto manduca

Torquato de medo gelou.

Matinta quer fumo

quer fumo migado, meloso,

melado que dê muito sumo,

Torquato não pita,

não masca nem cheira,

Matintaperêra vai tê-la bonita...

Matintaperêra de tardinha bem buscar

O tabaco que ontem à noite eu prometi:

Queira Deus ela não venha me agoirar...

Ah! Matinta Preta Velha,

Mãe Maluca,

Pé-de-pato,

Queira Deus ela não venha me agoirar...

Matintaperêra

chegou na clareira

e logo silvou...

No fundo do quarto manduca

Torquato de medo gelou.

Que noite infernal,

soaram gemidos, resmungos,

bulidos do gênio do mal

(Letra do maestro Waldemar Henrique)

Conan – O momento do grifo

Esse número marca também a primeira capa de autoria de Buscema no título. 


Se há uma dupla que definiu o gibi do Conan foi John Buscema e Ernie Chan.

A dupla estreou em Conan The barbarian 26, numa história chamada O momento do grifo.

Era a parte final da saga que começara do Cerco de Makalet.

A HQ começa com uma splash page mostrando o feiticeiro Karam-Akkad morto pela espada do cimério. Em seus momentos finais ele puxara a cortina que cobria seu espelho mágico e revelara a imagem de conan matando-o circundada por um leão, uma águia e uma serpente.

Ao publicar a história, a Abril juntou a splash page inicial com a sequência do número anterior. 


Já nessa primeira página percebemos o quanto a dupla arrasava. Buscema faz uma imagem de grande impacto, e Chan enche essa imagem de detalhes, como os vitrais, o tecido, as paredes. E, aliado a isso, uma percepção de Conan como um verdadeiro bárbaro. Embora o desenho de Barry Smith fosse extraordinário, sua concepção de Conan não trazia a crueza que o personagem pedia – e só foi alcançar com Buscema e Chan.

Uma das partes mais interessantes dessa história é a revelação a respeito de quem é o deus vivo, razão pela qual a guerra é travada e o destino irônico que o roteiro lhe reservou. Um final surpreendentemente crítico para um conflito que levou à morte de milhares de pessoas.

O final revelava uma forte crítica social. 


O célebre roteirista e editor Archie Goodwin, ao ler essa história, teria dito a Roy Thomas que a HQ “era um legítimo manifesto a respeito de como as guerras e religiões podem manipular a humanidade”.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 14.

Uma curiosidade: Buscema odiava a arte-final de Chan, mas não sabia que a orientação para detalhar mais os desenhos na arte-final vinha do editor-chefe Roy Thomas, como forma de agradar os leitores saudosistas do grande Barry Smith.

Mistério à americana

 



Uma das poucas áreas em que os norte-americanos se destacam, em termos literários, é nas histórias policiais. O gênero foi criado por Edgar Alan Poe em abril de 1841, com o conto Os Crimes da Rua Morgue. De lá para cá, quase todos os grandes escritores da terra de Tio Sam se dedicaram, em algum momento de suas carreiras, às histórias policiais, com destaque para Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Esses dois últimos chegaram a criar um subgênero, o noir, em que o detetive se envolve com as histórias, em oposição ao estilo inglês, em que o detetive resolve quase todo o caso de seu escritório, utilizando apenas o raciocínio lógico. Assim, a coletânea Mistério à Americana é um prato cheio para os fãs do gênero.
O livro é organizado e tem prefácio de Donald Westlake. Pouca gente o conhece no Brasil, e, no entanto, é um dos mais inventivos escritores que já tive o prazer de ler. Sua especialidade era produzir livros sob uma ótica inusitada. Em O Espião Pacifista ele mostrava um pacifista bicho-grilo envolvido em uma trama internacional de terrorismo e sendo obrigado a trabalhar para o FBI. Em A Vida Secreta de um Homem Sensual ele nos mostra um escritor de erotismo que é um frustrado sexual. Infelizmente, Westlake só organizou o volume, procurando histórias interessantes em antologias, revistas masculinas, como a Playboy, magazine especializados, como a Ellery Queen's Mystery Magazine (que foi editado aqui no Brasil com o nome de Mistéiro Magazine até a década de 70) e até revistas acadêmicas, como Oxford American.
O resultado une de escritores consagrados, como Jeffery Deaver (de O Colecionador de Ossos, que chegou a virar filme) a nomes totalmente desconhecidos.
Os que estão acostumados ao gênero policial mais convencional, no estilo Agatha Christie, vão se decepcionar. A grande maioria da história foge do padrão "Assassinato que deve ser solucionado por um detetive". Na verdade, em muitos casos, nem mesmo há um assassinato e, em outros, não há detetive. Em outras situações, o detetive só se depara com um assassinato quando está investigando um outro crime mais banal. É o que acontece, por exemplo, com "Milagres! Acontecem!", de Dough Allyn. A trama toda gira ao redor de um detetive tentando descobrir a filha desaparecida de uma cantora gospel.
Em "Motel 66"não há nem mesmo um detetive. A história tem como protagonista uma moça ingênua que passa sua lua de mel em um hotel de beira de estrada na famosa Route 66. Anos depois ela volta ao mesmo local e acaba descobrindo que sua estada ali pode estar relacionada a um crime. A história termina com a sugestão de outro crime, num clima que beira o cômico.
Em "Saltando com Jim", um detetive é contratado para proteger o marido de uma bela mulher, que parece estar envolvido com negócios escusos. Sua investigação o leva a descobrir que ele está relacionado com o comércio internacional de mulheres e que o piloto de um avião o está chantageando. Não, contar isso não estraga a história. "Saltando com Jim", assim como "Milagres! Acontecem!" são histórias noir, em que a solução do crime é menos importante que a investigação em si. Já se disse que o policial noir é o mais próximo que a literatura moderna chegou do teatro grego, em que os personagens parecem estar sendo guiados por um destino do qual não podem escapar. O detetive é apenas uma testemunha dessa derrocada.
Há uma história emblemática de Dashiell Hammett em que um detetive bate na porta de uma casa perguntando por um adolescente que fugiu de casa. Os bandidos, que estavam na casa, logo desconfiam e o prendem. Enquanto decidem o que fazer o detetive, eles discutem entre si e acabam se matando. No final descobrimos que o detetive estava mesmo procurando um garoto desaparecido e que sua presença na casa era puramente acidental. É esse tipo de ironia do destino que o leitor encontrará na maioria das histórias de Mistério à Americana.

A arte detalhista de Enrique Alcatena

 

Enrique Alcatena é um desenhista argentino que nasceu para desenhar fantasia. Seu traço detalhista é do tipo que foi feito para ser visto em preto e branco. Desenhou histórias de Conan para a Marvel Infelizmente pouco conhecido no Brasil - um dos poucos trabalhos dele publicados aqui foi uma história do homem-morcego - Batman Corsário, da linha Túnel do Tempo. 












O planeta dos macacos e os furos de roteiro

 

Na década de 1970 os filmes da série Planeta dos macacos faziam um sucesso tão grande que alguém teve a ideia de fazer uma animação com o tema. Lançado em 1975, era resultado de uma associação dos estúdios DePatie-Freleng Enterprises com a 20th Century Fox Television e teve 13 episódios. 
O desenho é uma verdadeira decepção, inclusive para aqueles que são fãs dos filmes. A animação é fraca, com muitas repetições de cena, embora isso necessariamente não seja um defeito grave. O desenho de Jornada nas Estrelas tem animação ruim, mas roteiro bom e o resultado final acaba sendo ótimo. Por outro lado, o filme Selvagem, da Disney, tem ótima animação, mas roteiro chato. Resultado: foi um fiasco de bilheteria.
O grande problema na animação dos macacos está no roteiro, com tantos furos que parece uma peneira.
Esse roteiro é tão ruim que estou tendo infarto! 

Senão vejamos. O DVD que tenho mostra a história aparentemente no segundo capítulo. A cronologia dos filmes é totalmente esquecida e é como se pela primeira vez uma nave fosse parar no planeta dos macacos. Um dos astronautas está sendo levado pelos gorilas, outro foi salvo por uma mulher selvagem. Uma vez na cidade, o astronauta foge. Todos, absolutamente todos os soldados macacos vão atrás dele, mas mesmo assim ele foge com facilidade impressionante e ainda encontra tempo para libertar todos os humanos presos pelos gorilas, pois encontra a prisão sem guarda. Aparentemente os macacos não aprenderam nada de segurança depois de tanto tempo...
Mas continuemos. Em uma seqüência posterior, os dois astronautas estão vistoriando uma região de montanhas quando vêm um grupo de militares simiescos se aproximando. A cena mostra o humano loiro encostado numa pedra, olhando displicentemente para a frente: “Parece que os macacos estão nos procurado”. E outro: “Se nos virem aqui, estamos ferrado!”. Qualquer um sairia correndo para se esconder, mas eles ficam lá parados, olhando o tempo. “É, parece que eles nos viram”. “Poxa vida, isso é horrível”, dizem eles, sem sair do lugar. 
Proatividade parece ser uma palavra desconhecida para esses dois homens. Fiquei imaginando a continuação do diálogo: “Eles estão a um quilômetro!” “Nossa, logo eles não vão nos alcançar se não corrermos”, “Agora eles já estão a cem metros!”, “Vamos fazer um lanche?”.
Vamos continuar procurando a lógica dessa história! 

Mas os nossos heróis são salvos por uma montanha que se eleva na frente deles, escondendo-os, um artifício que os bons roteiristas chamam de Deus ex machina. Essa expressão significa algo exterior à história, que surge para salvar a situação. É chamada assim porque os dramaturgos gregos ruins constumavam baixar um deus no final da peça para costurar as pontas soltas ou para explicar situações não muito lógicas. Um Deus ex machina é quando o roteirista arranja uma saída totalmente desconhecida do leitor para salvar os heróis ou para resolver uma situação. É erro gravíssimo.  
Depois dessa tremenda forçada de barra, os heróis ainda encontram uma porta secreta, por onde chegam ao mundo dos humanos subterrâneos. Nisso eles descobrem que estão na terra. O desenho foi feito no final da década de 1970, uma época em que todo mundo já sabia disso, mas mesmo assim o desenho faz um suspense desnecessário sobre isso.
Os expectadores nunca vão desconfiar que estamos na Terra. Vamos tomar um café? 

No mundo dos subterrâneos eles encontram a terceira astronauta e fogem com ela num carrinho que corre por um trilho. Os subterrâneos têm duas formas de defesa: uma são ilusões, outra são raios emitidos pelos olhos. Então eles primeiro fazem aparecer uma parede de mentira e os heróis acham que vão bater, mas passam direto por ela. Depois acham que vão cair num buraco, mas, mais uma vez descobrem que é uma ilusão. Então eles se deparam com uma parede de fogo. Qualquer pessoa que tivesse passado pelas experiências anteriores aprenderia o bastante para saber que a parede é também uma ilusão, mas os nossos astronautas são burros como uma porta e morrem de medo do fogo. Quando passam por ele e descobrem que estão vivos, comentam entre si: “Quem diria, é uma ilusão!”. Será que eles aceitam pessoa com QI 0,1 na NASA?
O teste de QI mostra que os astronautas da NASA são mais burros que nós! 

Enquanto isso, os subterrâneos atiram neles com seus raios... e não acertam nada, nem os trilhos, nem os humanos, nem o carrinho. São quase cinco minutos de tentativa e nada. Uma impossibilidade matemática! Isso nos faz pensar que os subterrâneos aprenderam a atirar com um cego paralítico e epiléptico. Não acertar em absolutamente nada durante cinco minutos de tiroteio é mais difícil que ganhar na loteria, mas eles conseguem e os astronautas saem de lá sem um único arranhão.
O pior de tudo é que o episódio foi escrito por dois roteiristas. Será que nenhum deles percebeu os buracos no roteiro?

Kung Fusão

 


O principal mérito de Kung Fusão, filme de 2005 de Steve Chow, é não se levar a sério.
O filme conta a história de dois trapaceiros que pretendem participar da gangue do machado e, sem querer, acabam provocando uma guerra entre essa gangue e um cortiço na periferia de Hong Kong comandado por uma senhoria que sempre anda de camisola com um inevitável cigarro apagado nós lábios. 
Mistura de filme de artes marciais com comédia, Kung Fusão reúne várias cenas que se tornaram memes. Numa delas o protagonista convida para lutar os moradores do cortiço, mas por via das dúvidas, escolhe os que parecem menores ou mais fracos, para logo descobrir que está redondamente enganado. 
Outra sequência antológica é quando ele e seu parceiro tentam matar a senhoria, conseguindo apenas se esfaquear sozinhos. 
O problema do filme é quando, ali pela metade da história, a trama esquece o humor e fica apenas na ação, tornando-se tedioso para quem não é fã de filmes de ação.