segunda-feira, julho 03, 2023

Registro histórico

 

Na foto, tirada provavelmente no ano de 1996, Álvaro de Moya ministrando palestra na Gibiteca de Curitiba. Na primeira fila eu, Antonio Eder, Luciano Lagares e José Aguiar (co-criadores do Gralha e da graphic Manticore). Moya foi um dos mais importantes pesquisadores de quadrinhos do Brasil. Seu livro Shazan! é até hoje uma das principais obras sobre o assunto já publicadas no Brasil. Foi nesse dia que eu comprei meu exemplar autografado.

Quarteto Fantástico contra o Milagroso

 


No começo, o Quarteto Fantástico não tinha uniformes e o Tocha Humana era desenhado como o da era de ouro, com labaredas no meio do corpo. A forma defitiva do grupo, com os uniformes e o Tocha sendo desenhado como se seu corpo fosse feito de brasas rodeadas de chamas, só vai surgir no número 3 da revista, quando o grupo enfrenta o mágico Milagroso.

Esse número, aliás, também se destaca pela primeira aparição do Fantasticarro, que já surge na capa, numa daquelas imagens impressionantes que só Jack Kirby conseguia fazer. Dentro, descobrimos inclusive que o fantasticarro pode ser dividido em quatro partes, permitindo que o grupo possa se separar.

O Milagroso parece mais forte que o Coisa. 


Nessa história, o quarteto enfrenta um mágico chamado Milagroso, que, ao ver o grupo na plateia, os desafia: “Aí está o Quarteto Fantástico! Supostamente eles são o grupo mais poderoso e sensacional da história, mas eu digo... bah! Comparado ao meu poder, eles não são nada!”.
Para provar isso, ele desafia o coisa a quebrar uma tora de madeira. O coisa consegue, depois de vários socos, mas o Milagroso consegue usando só o mindinho.

“É muito bom para nós e para o mundo que o milagroso não seja um criminoso! Porque se fosse... ele seria o único adversário que jamais conseguiríamos derrotar!”, vaticina o Senhor Fantástico.

A primeira aparição do Fantasticarro. 

Ocorre que o Milagroso é sim um criminoso e para isso ele faz com que um boneco gigante de um alienígena (que era usado no anúncio de um filme) aterrorize a cidade enquanto ele rouba um tanque nuclear.

Para uma ameaça tão grande, Milagroso acaba sendo um vilão pífio, como descobrimos no final (no qual ele se revela quase um plágio de Mandrake). Aliás, boa parte do poder de Milagroso não faz sentido. Como ele consegue, por exemplo, hipnotizar as pessoas para acharem que o boneco do monstro saiu do lugar e o boneco ser destruído pelo Tocha no local em que as pessoas achavam que o boneco estava?

Todo mundo gostou dos uniformes, menos o Coisa. 


Mas a história, apesar do vilão pouco interessante, se destaca pelas inovações narrativas e temáticas. Para começar, é um grupo que literalmente briga o tempo todo. À certa altura, o Coisa diz que quer voltar à forma humana para que Sue olhe para ele da mesma forma que olha para Reed Richards. “Minha irmã? Não se engane, coisa. Ela não se apaixonaria por ti, nem que você fosse a cara do Rock Hudson”, o que gera uma briga efetiva, com o Coisa destruindo uma parede e o Tocha se incendiando e saindo de casa.

O interessante aí é que apesar de brigarem o tempo todos, eles são unidos, como uma família.

Essa característica, somada ao fato de que as histórias, na grande maioria, uniam super-heróis e ficção científica, explica porque o gibi do Quarteto foi durante muitos anos a vaca leiteira da Marvel – aquela publicação que vendia tanto que sustentava a editora. O Quarteto só começaria a perder o posto com o Homem-Aranha da fase John Romita.  

domingo, julho 02, 2023

Chove chuva, chove sem parar

 


Revendo as matérias que escrevi para a Folha de Londrina, encontro essa cujo título brinca com uma famosa música. O caderno era de verão, mas a previsão era de chuva durante a semana toda. Imagine a situação de que tinha ido para a praia. O editor me pediu para fazer uma matéria com sugestões do que fazer durante esse período. Detalhe: todas as indicações tinham alguma relação com a chuva.

Fundo do baú - Speed Racer

 

Speed Racer é um anime dos anos 60, criado por Tatsuo Yoshida sobre corridas de automóveis. Speed Racer (nome dado pela dublagem brasileira, o nome original é Go Mifune), um jovem e audaz piloto de corrida de dezoito anos, dirige o carro Mach 5 criado por seu pai (Pops) e vive diversas aventuras dentro e fora das pistas.
 Um produto típico dos anos 60, usa um topete de Elvis Presley e suas maiores aventuras lembram os filmes de 007.
O desenho é muito conhecido pela sua canção tema e pela ótima trilha sonora. Como seus mais célebres competidores, temos a "Equipe Acrobática" e o "Carro Mamute". As corridas eram em locais inusitados, como selvas, desertos e até dentro de um vulcão.
O Mach 5, carro de corrida de Speed, tinha um arsenal de equipamentos que ajudavam Speed a se safar das enrascadas em cada uma de suas aventuras. Um dos equipamentos permitia que o carro praticamente pulasse sobre os obstáculos. 

Monstro do Pântano: pontas soltas

 


Antes de reformular o personagem Monstro do Pântano, na história Lição de Anatomia, Alan Moore escreveu uma história do personagem pouco conhecida, publicada em Swamp Thing 20. Intitulada “Pontas soltas”, o objetivo era exatamente esse: fechar as pontas soltas deixadas pelo roteirista anterior, Martin Pasko, preparando terreno para a reformulação do personagem.
Pontas soltas é injustamente pulada nas antologias do personagem. É Alan Moore na sua melhor forma. E os desenhos de Dan Day não deixam nada a desejar aos outros artistas que trabalharam com o personagem na fase mais famosa, como Stephen Bissette. Sob a orientação de Moore, Day cria diversas páginas espelhadas e a página de abertura, com uma moldura no formato de colunas que desmoronam é espetacular.
Uma das páginas espelhadas da história.

A história se passa logo depois do confronto do Monstro com Arcane, cuja nave cai, provocando sua morte. A corporação Sunderland aproveita a oportunidade para tentar matar o monstro e seus amigos. Como sabemos, o personagem é aparentemente morto, para renascer como elemental na história lição de anatomia.
Talvez o maior impacto dessa história seja sobre Lizabeth Tremayne e seu namorado, Dennis Barclay. Ela uma jornalista renomada, ele um veterano do Vietnã. À certa altura ela solta a frase “Tudo que temos em comum é o horror em nossas vidas”, o que fará com que Dennis a envolva numa teia de falsas conspirações como forma de manter seu amor através do medo. Essa relação abusiva seria abordada em Swamp Thing 54, 34 números depois desse gancho ter sido lançado, o que mostra a habilidade de Moore para pensar a trama a longo prazo.

Receita de pé de moleque

 


Ingredientes
Modo de preparo 

  1. Colocar na panela o amendoim, o açúcar e a margarina.
  2. Levar ao fogo, mexendo sempre.
  3. Quando começar a formar uma calda, coloque o leite condensado.
  4. Mexa bem, até soltar do fundo da panela, como brigadeiro.
  5. Coloque no tabuleiro untado com margarina.
  6. Deixe esfriar e corte em pedaços.

I-ching

 


            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.

            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.

O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.

            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.

            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos.

            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.

            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.

            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios àquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

O abismo, de Charles Dickens e Wilkie Collins

 


Charles Dickens é autor da mais famosa história de natal de todos os tempos. É também um dos inventores do romance social, com Oliver Twist. Mas o que poucos sabem é que ele foi um dos precursores do gênero policial, uma faceta dele que pode ser vista em O abismo, escrito em parceria com Wilkie Collins.
A história inicia no Hospício dos enjeitados. Era nesse local que as mães solteiras entregavam deixavam seus filhos para serem adotados. Na sociedade vitoriana, ter um filho fora do casamento era uma vergonha tão grande que era providenciada maneira para que as mães pudessem deixar seus filhos sem serem reconhecidos: era a roda, que permitia fazer isso sem que fossem vistas. Isso também era feito para que as mães não pudessem reclamar suas crianças. Uma vez colocadas na roda, a separação deveria ser para sempre.
Mas uma das mães está arrependida, e a grande custo, descobre o nome que deram ao seu bebê: Walter Wilding. Anos mais tarde, subornando uma funcionária da casa, consegue descobrir quem, entre as várias crianças, é Walter Wilding e o adota.
A trama começa com essa criança na casa dos 25 anos, sócia de uma empresa de comércio internacional. A mulher que ele acredita ser sua mãe acabou de morrer. É quando ele descobre que não é quem pensava ser: o verdadeiro Walter Wilding foi adotado que ele chegasse no hospício e resolveram usar o mesmo nome em outra criança.
Isso provoca uma reviravolta na história, que levará a uma trama de crimes e amor. Impossível contar mais do que isso sem dar spoiller dessa intrigante trama policial.
Dickens tinha como uma das suas características mais patentes as coinscidências que provocavam reviravoltas no final e O abismo usa esse recurso talvez de maneira exagerada. Mas, como em outros livros de Dickens, a prosa é tão boa e tão envolvente que esse problema de verossimilhança acaba sendo esquecido pelo leitor.
O livro foi lançado no Brasil em uma belíssima edição da Nova Fronteira, em capa dura. É o tipo de edição que dá gosto de ler.  

Psicopatas: uma mente peversa

 

Psicopatas são pessoas acima de qualquer suspeita.
 Você provavelmente não sabe, mas conhece pelo menos um psicopata. Especialistas acreditam que até 3% da população pode ser composta de pessoas com esse tipo de transtorno de personalidade. Isso significa que a cada trinta pessoas, uma é psicopata. E, o mais importante: é aquele que você menos desconfia.
            A maioria das pessoas quando pensa num psicopata, pensa num louco assassino, de cabelos despenteados e cara de mau. Alguém de quem você certamente fugiria se encontrasse numa rua deserta à noite. As ilustrações de Jack, o estripador, refletem essa idéia. Ele geralmente é mostrado com os olhos esbugalhados, a boca distoricida, uma faca na mão e outra contraída em esgar de raiva e ódio. Na verdade, no caso de Jack e da grande maioria dos psicopatas, essa imagem é a mais distante possível da realidade. As prostitutas que foram vítimas de Jack sabiam dos outros assassinatos e não deixariam se aproximar qualquer pessoa suspeita. Além disso, a situação em que ocorreu os crimes demonstra que as vítimas confiavam no assassino. Uma delas até comeu uvas oferecidas por ele.
            Quando a canadense Leslie Mahaffy chegou em casa depois de uma festa e descobriu que os pais tinham deixado a porta fechada, achou que estava com sorte ao encontrar um rapaz de boa aparência e educado, que se ofereceu para ajudá-la. Ela foi com ele até sua casa, onde acabou trancafiada e serviu de escrava sexual durante duas semanas antes de ser morta, esquartejada e colocada em blocos que concretos que seriam jogados em um lago. 
            A literatura criminal mostra que psicopatas são pessoas simpáticas, acima de qualquer suspeita, pois sabem que se revelarem sua verdadeira face, serão presos imediatamente. Assim, adotam uma máscara social. 
            A grande maioria dos psicopatas nunca vai matar, mas viverá de enganar e destruir a vida de outras pessoas. "Eles andam pela sociedade como predadores sociais, rachando famílias, se aproveitando de pessoas vulneráveis e deixando carteiras vazias por onde passam", diz o psicólogo canadense Robert Hare, uma das maiores autoridades mundiais no assunto.
            Hare começou a se interessar pelo tema quando, recém-formado, arranjou um emprego no presídio de Vancouver. Sua função era atender presos com problemas psicológicos e montar perfis psicológicos para pedidos de condicional. Lá ele conheceu um preso chamado Ray. Era simpático, contava histórias envolventes e tinha um sorriso e que fazia qualquer um confiar nele. E o psicólogo confiou. Certo de que o preso estava dedicado a ter uma vida correta, ele o ajudou a passar para serviços melhores dentro da prisão, como a cozinha. Os dois ficaram amigos, até que Hare descobriu que Ray usava a cozinha para produzir bebidas alcoólicas e vender aos colegas. Os funcionários do presídio alertaram o psicólogo para o fato de que ele não foi o único a cair no golpe. Pouco tempo depois, o psicólogo viu a verdadeira face do psicopata: o gente boa Ray sabotou os freios de seu carro, o que quase provocou sua morte.
            A maioria dos criminosos demonstra uma preocupação responsável por seus amigos e parentes. Os psicopatas não se importam com ninguém e não criam laços afetivos.
Para saber mais sobre o assunto, clique aqui

Conan em Nova York

 


 


A edição 43 da revista Heróis da TV troux como principal atração uma história de Conan publicada na revista What if (aqui traduzida como O que aconteceria se...) em 1979. Na história, Conan surge na Nova York da década de 1970 em pleno apagão. O desenho de John Buscema como arte final de Ernie Chan dispensa apresentações. O visual rico da história enche os olhos do leitor desde a capa. O desafio ficou mesmo por conta do roteirista Roy Thomas: como trazer o cimério para nossos dias e manter a verossimilhança da história? Afinal, Conan é um personagem de fantasia capa e espada. Como adequar isso a um ambiente urbano contemporâneo. Thomas resolve isso através de um truque esperto: Conan veio para nosso tempo através de magia.
Conan vai para o futuro e se apaixona por uma taxista. 


A HQ é tão repleta de ação que o leitor facilmente esquece a descrença e embarca na história, apesar de algumas incoerências (Conan se apaixona por uma taxista e parece cavaleiro demais - em determinado o texto diz que ele está esganando um homem com a mão direita, quando o desenho o mostra fazendo isso com a mão esquerda, que havia levado um tiro).
No final, é, acima de tudo uma história divertida. Destaque para o humor de Roy Thomas, que brinca o tempo todo com o fato de que os personagens não falam a mesma língua, o que provoca diversos equívocos. 

sábado, julho 01, 2023

Quando a Marvel era a casa das Ideias

 

Revistas como a do Doutor Estranho refletiam a criatividade da Marvel na década de 70. 


Quando Alan Moore, Steve Bissett e John Totleben assumiram o Monstro do Pântano, muitos se surpreenderam com a diagramação inovadora. Mas a diagramação psicodélica não era novidade: o Doutor Estranho de Englehart e Frank Brunner já tinha essa característica.
A Marvel na década de 1970 era pura inovação.
Alguns fatores contribuíram para tornar isso possível.
Um deles foi o fato da Marvel não ser uma grande empresa, como a DC, mas que ter uma grande produção de revistas. Então eles precisavam urgente de profissionais e não podiam pagar tanto quanto a DC. Compensavam com liberdade criativa.
Por outro lado, a maioria dos roteiristas eram também editores, de forma que tinham controle do processo criativo, uma tradição que começara com Stan Lee e se tornara norma com Roy Thomas.
Por último, o lema de Stan Lee que foi regra até a entrada de Jim Shoter como editor-chefe da Marvel no final década de 1970: "se uma revista está vendendo bem, não interfira".
Todos esses fatores juntos faziam com que Marvel fosse o local ideal para quem queria inovar. E a lista dos que que aproveitaram isso é enorme: Steve Englehart, Frank Brunner no Doutor Estranho, Jim Starlin na saga de Thanos, Bill Mantlo no Hulk e Micronautas, Steve Gerber em Howard, o pato, Don McGregor no Pantera Negra...
Na década de 1980 a DC se tornou mais inovadora. Monstro do Pântano é um exemplo disso. 

Na década de 1980 essa situação muda completamente: a Marvel se torna uma grande empresa, a primeira em vendas, os roteiristas deixam de ser editores e o editor-chefe se pedia modificações nas revistas, mesmo que ela estivessem vendendo bem (há uma caso famoso de uma capa de quadrinhos que Shoter mandou redesenhar três vezes porque não gostou do tênis que um personagem usava).
O ápice desse processo foi a série Guerras Secretas. Tudo ali foi decidido pelo departamento de marketing, inclusive o nome da série (uma pesquisa mostrou que essas eram as palavras que mais chamavam a atenção dos meninos). A partir daí passou a ser o departamento de marketing - e não os criadores - que decidiam os rumos das histórias. 
Resultado: foi exatamente nessa época em que a DC se tornou mais criativa que a Marvel. Foi exatamente nessa época que Alan Moore Steve Bissett e John Totleben fizeram o Monstro do Pântano para a DC.

A arte inquietante de Edgar Franco

 

Edgar Franco é um renomado artista-pesquisador brasileiro. É um dos nomes mais destacados da linha poético-filosófica, estilo de quadrinhos que ele batizou em um de seus muitos artigos acadêmicos. Vê-lo desenhar é sempre um deleite: as formas vão surgindo de linhas aparentemente sem relação, dando vazão a imagens oníricas, lisérgicas, de ficção científica, pós-humanas. É um artista de quadrinhos em busca constante de inovações, que se interessa tanto pelo processo quanto pelo resultado final.









Roteiro de quadrinhos: Texto de ambientação

 

Texto de ambientação na graphic Manticore


                Uma técnica interessante é o texto de ambientação. O objetivo é ambientar o leitor no clima da história, criando um efeito parecido com o da trilha sonora nos filmes. É uma utilização do texto aparentemente exclusiva dos quadrinhos. O cinema dificilmente usa o texto em off e a literatura, como não dispõem dos desenhos para contar a história, fica presa à função narrativa.
 Vamos encontrar um exemplo desse tipo de texto no álbum Os Companheiros do Crepúsculo, de Bourgeon:
Esta durou, diz-se, cem anos... Nada a distinguiu verdadeiramente daquelas que a perceberam, nem das que lhe seguiram... como o raio e a peste, a guerra abate-se sobre os campos quando menos se espera. De preferência quando os celeiros estão cheios e as jovens são belas...
            Como se vê, aqui temos um texto sem teor narrativo. Observe-se a linguagem empolada e literária, que distingue a legenda de Bourgeon. O objetivo do autor era adequar seu texto à narrativa historica (a HQ se passa na Idade Média Européia).

Black Mirror – quinta temporada

 


Black Mirror é uma série curiosa. Gostar ou não gostar está diretamente relacionado ao que reverbera em cada expectador. O que é genial para uns, é decadência para outros. Episódios de outras temporadas que foram apontados como prova da decadência da série, hoje são apontados por muitos como pontos altos. Talvez o fato de falar de um fenômeno que está à nossa volta torne uma análise mais fria impossível – daí as críticas apaixonadas.
Nesta temporada temos apenas três episódios, todos escritos pelo criador da série, Charlie Brooker. Em pelo menos dois o tema principal é o mundo de simulacro hiper-real em que vivemos. Abaixo as análises episódio por episódio.

“Striking Vipers” mostra dois amigos unidos pelo vídeo-game. O episódio foi gravado em São Paulo, mas uma Sampa de FC no qual o protagonista faz um churrasco em seu aniversário com hamburgeres e salshicas e em determinado momento atende o celular em pleno viaduto de santa Ifigênia. Essa incoerência parece refletir, sem querer, o cerne de alguns dos melhores episódios de BK: o mundo irreal que nos chega através da mídia, mas que parece tão fascinante e interessante. Ou seja: black mirror acaba sendo aquilo que ela mesma denuncia. O roteiro mostra os protagonistas apaixonados por personagens de vídeo-game – quem joga diz que já viu algo assim. O final poderia ter sido mais interessante, mas a discussão levantada é realmente válida: quando o simulacro se torna tão importante que é capaz de provocar sentimentos de amor e paixão que o mundo real não consegue.

“Smithereens” mostra um homem que sequestra um funcionário da mais famosa rede social do mundo e exige falar com o dono. É um bom triller, muito bem construído, com atuações realmente de destaque, que seguram a atenção do expectador mesmo ocorrendo dentro de um carro e essencialmente com duas pessoas. Mas fica a impressão de: “afinal, por que ele está realmente fazendo isso?” - algo confirmado no momento em que o sequestrador diz, ao dono da rede social, que pouco importa como ele vai usar isso.

“Rachel, Jack e Ashley Too” é o mais interessante e mais controverso. Pode ir do pior episódio da temporada ao melhor, dependendo de como se encara. Na história, a identidade de uma cantora pop é transferida para uma boneca – com um bloqueador que deixa que ela diga apenas frases motivacionais. O episódio alterna entre narrativas paralelas: de um lado a garota que comprou a boneca, do outro a cantora pop, interpretada por Miley-Cyrus. A discussão é muito interessante: num mundo de simulacro até que ponto os ídolos são pessoas reais ou produtos fabricados pela mídia? E o que sobra da pessoa real por trás desse produto? Mas, como o episódio é protagonizado por Miley-Cyrus, ela mesma uma cantora pop (que provavelmente Charlie Brooker tentou agradar)  a crítica não vai muito longe e o roteiro passa a ter um tom de “vamos salvar o dia” e  acaba tendo um final otimista que destoa do tom distópico do restante da série. É possível que, retiradas essas limitações, com a abordagem, por exemplo, do drama de uma pessoa real aprisionada em uma boneca, fosse um dos melhores episódios de todas as temporadas. Aliás, bastava uma cena a mais para resignificar aquele final, deixando-o realmente com a cara de Black Mirror.  

Capitão América contra o Touro

 


As revistas da Marvel tinham tanta ação desenfreada que faziam parecer que as revistas da DC Comics aconteciam em câmera lenta. Mas havia um personagem na Marvel cujas histórias eram explosões de ação a ponto de parecer que as outras revistas da editora é que aconteciam em câmera lenta.

Estamos falando do Capitão América de Jack Kirby e Stan Lee.

O personagem, que havia ressurgido nas histórias dos Vingadores, teve sua primeira história solo em Tales of Suspense 59, de novembro de 1964.

"Por que não telefonaram?" 


A revista já começa com uma splash page impressionante, com o sentinela da liberdade atravessando uma janela enquanto pedaços de vidro voam para todos os lados.

Corta para a mansão dos vingadores onde o Capitão América ficou responsável pelo plantão da noite. Ele recebe uma xícara de café de jarvis e senta para ver um álbum de fotos.

Enquanto isso, em outro lugar, um mafioso planeja um assalto à mansão dos vingadores. Parece uma ideia louca invadir exatamente a sede de um grupo super-poderoso, mas ele tem um plano.

Estão atirando com um maçarico? Que ótima oportunidade! 


Segundo o Touro (esse é o nome do mafioso), toda corrente tem um elo fraco e o elo fraco dos Vingadores é exatamente o Capitão América, o herói menos poderoso do grupo.

O grupo então sequestra Jarvis e pergunta quem está de plantão naquela noite. “Não é segredo! O Capitão América está de plantão esta noite! Não era mais fácil ter telefonado?”.

A sequência provavelmente é consequência do método Marvel. Kirby deve ter colocado os criminosos sequestrando o mordomo e Stan Lee aproveitou para fazer uma piada em cima da situação sem sentido.

Kirby caprichava nas poses acrobáticas. 


A partir daí a história é pura ação. Os mafiosos invadem a mansão dos Vingadores, com Touro vestindo uma armadura que lembra a do Homem de Ferro. Kirby era um especialista em transformar os quadros em uma imagem que parecia tridimensional e colocar o herói em situações acrobáticas estranhas, mas de grande impacto. E as situações beiram o absurdo. À certa altura eles conseguem amarrar o herói, se aproveitando do fato dele ter levado um tiro de raspão. Mas ele consegue usar o salto das botas para cortar as cordas que prendem suas mãos e quando um dos vilões atira nele com um maçarico, ele aproveita isso para soltar as pernas. “Chefia! É encrenca! Ele soltou as pernas!”, grita um dos bandidos.

Ali era uma junção perfeita dos desenhos de Kirby com os diálogos de Stan Lee em um personagem pra lá de carismático.

Hulk: no coração do átomo



Em 1970 o escritor de ficção científica Harlan Ellison (responsável por um dos melhores, senão o melhor episódio da fase clássica de Jornada nas estrelas) escreveu uma história em prosa do Hulk no qual o Golias Esmeralda era encolhido e vivia aventuras em um mundo microscópico em que todos os habitantes eram verdes como ele.

Roy Thomas percebeu que havia ali uma boa trama e a adaptou para a revista em quadrinhos do personagem. O desenho ficou por conta de Herb Trimpe e de Sam Grainger. Se Thomas soubesse a importância dessa história para a cronologia do golias esmeralda, talvez tivesse escolhido uma equipe de maior vulto.

Jarella surgiu no número 140 da revista do Hulk... 


Foi nessa história, com o título imenso de “A fera que gritou amor no coração do átomo” que apareceu uma das personagens mais carismáticas da série, a rainha Jarella, grande amor de Hulk. A reação foi tão boa que o mundo de Jarella reapareceu diversas vezes na revista do Hulk, com as equipes mais diversas.

Mas foi a entrada do desenhista Sal Buscema no título e, posteriormente, do roteirista Bill Mantlo, que o personagem ganhou o tratamento que merecia – e a saga de Jarella foi devidamente explorada.

... e logo se tornou o amor da vida do golias esmeralda. 


Jarella mostrou que a revista do Hulk poderia mostrar amor e, ao mesmo tempo drama. A paixão infantil do personagem logo se torna tragédia e a obsessão do monstro por salvar sua amada nos dá alguns dos melhores momentos do personagem – e a forma como a dupla fecha a trama, unindo drama e lirismo está certamente entre os grandes momentos da Marvel da era de bronze.

Essas histórias foram reunidas na graphic salvat No coração do átomo, certamente um dos melhores da série de clássicos da coleção de Graphic Novels da Marvel.