quarta-feira, junho 28, 2023

A arte espetacular de Dave Hoover

 


Dave Hoover foi um ilustrador, animador e quadrinista norte-americano. Ele é mais conhecido nos quadrinhos por seu trabalho nas séries Wanderes (DC) e Capitão América (Marvel). Também desenhou histórias do personagem Tarzan. Uma de suas características mais fortes é a sua haibilidade para desenhar mulheres. 











Lobato contra modernistas na revista Discutindo Literatura

 

 Discutindo Literatura era uma revista da editora Escala volta para professores de Português. Eu colaborei com o número 20 com um artigo sobre um assunto polêmico: a relação entre Monteiro Lobato e os modernistas. A maioria das pessoas acredita que Lobato foi contra o modernismo (há quem acredite até que ele chegou a vaiar e jogar ovos contra os modernista). Mas na verdade, a relação entre ambos era mais que amigável: afinal, Lobato era o editor de alguns dos principais escritores modernistas. 

terça-feira, junho 27, 2023

Tico-tico, a primeira revista de quadrinhos do Brasil

 

O Tico-tico foi a primeira revista em quadrinhos do Brasil. Conta a lenda, impressa na capa do primeiro número, que um grupo de pirralhos foi até a revista O Malho exigir que fosse criada uma publicação específica para eles.

Na verdade, o dono de O Malho, estava de olho nesse novo e crescente mercado representado pelas crianças. Um mercado, aliás, que durante anos não teria qualquer concorrência.

O primeiro número saiu em 11 de outubro de 1905 e seguia o modelo da revista francesa La Semaine de Suzette. Tinha quatro páginas coloridas. As outras usavam uma combinação de branco com vermelho, verde ou azul.
Custava 200 reis, preço que manteve até 1920.

Embora a inspiração fosse francesa, o personagem principal, Chiquinho, era um decalque de Buster Brown, do norte-americano Richard Outcault, publicado no jornal The New York Herald. O personagem era um garoto travesso que fazia as maiores traquinagens e acabava muitas vezes apanhando. Seu inseparável companheiro era o cão Tige. No Brasil, o desenhista Luís Gomes Loureiro adaptou o personagem, renomeando-o de Chiquinho. O cão virou Jagunço, e logo a série ganhou um coadjuvante, o negrinho Benjamin, retratado com a visão que se tinha do negro na época: descalço, lábios grossos, roupas simples e subserviente. Embora fosse um decalque, a adaptação ficou tão boa que durante muito tempo acreditou-se que Chiquinho era um típico personagem brasileiro.

A descoberta da origem do personagem se deu na década de 1950, quando um grupo de desenhistas novatos comparou Chiquinho com Buster Brown. Entretanto, Chiquinho tem sido reabilitado por ter conseguido se adaptar à realidade brasileira. Além disso, os decalques pareciam ser moda na época. Na Holanda, o garoto virou Sjors, do clube dos rebeldes, uma série reverenciada até hoje e de grande influência nos quadrinhos locais.

Alguns dos mais importantes artistas gráficos do Brasil colaboraram com O Tico-Tico. Entre eles, J. Carlos, um cartunista que conseguiu criar um traço único, tão diferente e simples que seus trabalhos constam no Museu das Caricaturas, na Basiléia. Segundo estudiosos, um desenho seu de um papagaio serviu de inspiração para que Walt Disney criasse o Zé Carioca. Na revista O Tico-tico ele ficou famoso pela personagem Lamparina, uma negrinha do morro que vivia pregando peças nos adultos.

Outro que se destacou foi Luiz Sá. Com seus personagens redondos, ele foi o pioneiro da arte da animação no Brasil, tendo feito um desenho em sequência com mais de cem metros, que nunca foi exibido por falta de patrocínio.  Para a publicação, ele criou Reco-reco, Bolão e Azeitona, um trio de garotos que apareceram de 1931 até o fechamento da revista na década de 1960.   

Finalmente, Max Yanton foi outra estrela da revista. Ele era especializado em tipos pitorescos, vagabundos e sem família. Sua criação mais famosa foi Kaximbown, de 1908, um aventureiro que nunca pagou seu empregado Pipoca e vivia se dando mal a cada episódio. O personagem ficou tão famoso que Rui Barbosa só chamava o desenhista de Kaxibown. 

Aconchego da floresta - um local paradisíaco nas proximidades de Macapá

 


Aconchego da floreta é uma dica certa para quem quer um local bonito, com ótimo banho, ambiente familiar, sem música alta, e ótima comida, mas não quer gastar muito com gasolina. O balneário-restaurante fica entre Macapá e Santana, pouco depois do Parque da Expofeira.

O local é banhado pelo Igarapé da Fortaleza e apresenta uma água limpa, sem correnteza. Também tem um bar molhado, no qual é possível beber e comer com os pés na água.  

O melhor de tudo: o local não tem som alto. Apenas som ambiente. É o local ideal para quem quer comer tranquilamento e relaxar sem toda a muvuca de sons de aparelhagem, comuns em alguns restaurantes e balneários amapaenses. 

Localizado a apenas 20 minutos do centro de Macapá, local se tornou inclusive point de ciclistas.

O ambiente é muito agradável. 

Dá para tomar um bom banho na água do igarapé. 
A belíssima paisagem é uma das atrações do local. 

O bar molhado é uma ótima dica para quem quer fugir do calor. 

A comida é deliciosa e bem servida. 

O Aconchego fica logo depois da Expofeira, antes da rotatória da Fazendinha. 

Capitão América – Homem sem pátria

 


Quando assumiu o título sentinela da liberdade, o escritor Mark Waid parecia disposto a levar o personagem aos seus limites. Na primeira saga, o roteirista colocou o herói à beira da morte, sendo salvo pelo seu pior inimigo, o Caveira Vermelha. Na segunda saga, Homem sem pátria, o personagem cai em desgraça quando o segredo militar de um canhão, que só ele conhecia, vaza.

Na verdade, era o vilão Mecanus, que rastreara seu cérebro em busca de segredos quando este estava à beira da morte. Mas a situação é usada para dar a entender que o capitão vendeu segredos militares para inimigos.

O Capitão é proibido de usar seu uniforme e extraditado para a Inglaterra. 


O governo americano retira do herói seu uniforme e o extradita para a Inglaterra. Com a ajuda de Sharon Carter, ele deverá ir até a Moldávia e provar que foi vítima de uma armação.

Claro que toda essa trama é motivo para cenas de ação impressionantes, a começar pela sequência inicial, quando agentes do governo invadem o apartamento de Steve Rogers e encontram lá Sharon Carter.

A sequência inicial é eletrizante. 


É também uma ótima trama de suspense e espionagem no melhor estilo 007, com perigos que se sucedem, de um aeroporta-aviões da Shield que pode ser destruído a uma tentativa de assassinar o presidente dos EUA. 

Para isso, o desenho de Ron Gardner, repleto de movimento, ajuda muito.

A saga faz uma bela homenagem a alguns das fases mais importantes do personagem. 


Há uma sequência muito boa na qual mark waid faz uma homenagem a algumas fases célebres do personagem. São mostrados desenhos de Jack Kirby, Jim Steranko, John Byrne e Mike Zeck. O texto diz: “Era uma vez um ser humano que foi o símbolo de uma nação. Um homem que jamais se rendeu. Um homem com a glória estampada em seu sorriso. Um homem que amava seu país acima de tudo e de todos. Era uma vez...”

De negativo, apenas o comportamente muitas vezes forçado de Sharon Carter, que parece ter sido pensado apenas para providenciar cenas de ação. À certa altura, por exemplo, ela beija o capitão américa e depois o soca porque “Não sentiu nenhuma fagulha”. Outro problema diz respeito às distâncias. Em outro trecho o Capitão faz em minutos uma viagem da Moldávia aos EUA. 

Essa saga se estendeu dos números 450 a 453 da revista Capitain América. 

Toy Story 4

 


Depois do excelente Toy Story 3, era um risco enorme lançar um quarto filme da franquia. Afinal, os filmes anteriores haviam revolucionado a animação não só na técnica 3D, mas principalmente nos roteiros bem elaborados, com personagens carismáticos, que levavam pais e filhos para o cinema. A trilogia anterior tinha estabelecido um nível de qualidade, que foi num crescendo até o terceiro. O terceiro parecia um fechamento perfeito, com expectadores saindo chorando do cinema.
Então, assim como eu, muitos devem ter se perguntando se um quarto filme seria necessário e se conseguiria manter o nível de qualidade dos outros. As primeiras imagens, com um novo personagem, um garfinho de plástico tosco, também não ajudavam.
O resultado, no entanto, foi uma incrível surpresa. Toy story 4 mantém o mesmo nível dos filmes anteriores. Os novos personagens são muito bem desenvolvidos, cada um com sua personalidade, características, todos tridimensionais. Até o garfinho acaba se revelando um ótmo alívio cômico do filme: como foi feito de reaproveitamento de material, ele se considera lixo e não se aceita como brinquedo, o que leva a situações que arrancam gargalhadas da plateia. E sua importância para a menina Boonie é muito bem fundamentada.
Mais uma vez, um brinquedo perdido é o conflito que gera a trama: Woody deve resgatar o garfinho e levar para a menina, mas no meio do resgate encontra uma personagem do primeiro filme: a pastora Bo Pepp, agora totalmente repaginada e independente. Mas enconta também uma boneca marcada por um defeito de fabricação, que faz as vezes de vilão: sua caixa sonora está com problemas e ela considera que por isso não é adotada, o que faz dela um brinquedo amargo. Mais um ponto de inteligência da produção: a vilã não é realmente má. Sua motivação se adapta bem a um filme infantil e é, ao mesmo tempo, complexa.
Acrescente a isso muita ação, uma dinâmica entre Woody e Bo Pepp realmente inspirada.

Lugar Nenhum, de Neil Gaiman

 

Na segunda metade da década de 1980, os comics americanos foram sacudidos por uma geração de quadrinistas britânicos. Vários artistas, entre desenhistas e roteiristas, invadiram a DC Comics e, embora trabalhassem com personagens menores, fizeram com que eles vendessem tão bem quanto as maiores estrelas da casa, como Batman e Superman. Entre esses artistas, dois se destacaram: Alan Moore e Neil Gaiman.
Alan Moore pegou o título do Monstro do Pântano em vias de ser cancelado e o transformou numa revista respeitada, ganhadora dos mais diversos prêmios. Depois escreveu Watchmen, uma das mais revolucionárias histórias de super-heróis de todos os tempos. O sucesso de seu trabalho fez com que ele retomasse a série V de Vingança, publicando-a pela DC Comics.
Neil Gaiman passou de fã a companheiro de Alan Moore. Inicialmente um jornalista especializado em quadrinhos, ele aproveitou a visita dos editores da DC à Inglaterra para mostrar seu trabalho em conjunto com o amigo Dave Mckean. Para isso, ele escolheu uma personagem obscura da década de 1970, que não interessava a nenhum artista famoso na época: a Orquídea Negra. A minissérie de luxo Orquídea Negra se tornaria um sucesso e revolucionaria o mercado com sua arte fotográfica e texto poético; mas, antes que fosse publicada, os editores sugeriram que Gaiman escrevesse um título mensal. Gaiman começou então sua carreira em Sandman, sendo Dave Mckean responsável pelas memoráveis capas. A primeira seqüência delas mostrava uma prateleira de madeira na qual o artista juntava cacarecos, desenhos e colagens. Ninguém nunca tinha visto aquilo numa história em quadrinhos e muitos certamente compraram Sandman pela primeira vez por causa das capas. Mas o que fez com que eles continuassem a comprar foi o texto excelente de Gaiman.
Em Orquídea Negra e Sandman, Neil Gaiman elevou os quadrinhos a um nível literário poucas vezes alcançado. Qualquer um que botasse os olhos naqueles gibis sabia que estava diante de um grande escritor. O autor trazia conceitos, técnicas e abordagem da literatura, fazendo com que intelectuais se tornassem fãs de Sandman. Até mesmo as mulheres, que normalmente são avessas aos comics americanos, acabaram se rendendo a Sandman. Nas filas de autógrafos, especialmente no Brasil, havia geralmente mais mulheres que homens.
Uma pergunta que todos faziam na época: como se sairiam esses artistas em um trabalho realmente literário? Alan Moore respondeu a essa questão com o romance A voz do fogo, um trabalho denso, pesado, até de difícil leitura, uma daquelas obras que permite várias e várias interpretações.
A resposta de Neil Gaiman foi Lugar Nenhum (Conrad, 2007, 336 págs.), romance escrito em 1996 e lançado recentemente pela editora Conrad.
Lugar Nenhum é adaptação de uma série de TV escrita por Gaiman para o canal britânico BBC. O personagem principal é Richard Mayhew, um jovem escocês que leva uma vida normal em Londres. Tem um bom emprego, mas meio chato, e namora uma garota ideal, embora meio chata.
Mas um dia ele encontra uma garota ferida na rua e, após socorrê-la, sua vida muda completamente. Seus colegas e até sua namorada o ignoram, como se ele não existisse, seu apartamento é alugado para estranhos. Ele não consegue nem mesmo pegar um táxi. É que ele passou a fazer parte da Londres de Baixo, onde vivem os tipos mais excêntricos: assassinos letrados, monges negros, nobres decandentes, falantes de ratês e muitos outros. Agora, para recuperar sua vida de volta, Richard precisa ajudar Door, a garota esfaqueada, a descobrir quem matou sua família.
Como se vê, Gaiman preferiu, em seu primeiro romance, seguir a mesma linha fantástica que o caracterizou em Sandman. Ele decidiu pisar em terreno conhecido e que domina como ninguém. Vale lembrar que muitos afirmam que Harry Potter é uma cópia de Os livros da magia, obra em quadrinhos escrita por Neil Gaiman.
Se em Sandman e Orquídea Negra, Gaiman trouxe para os quadrinhos técnicas e temas literários, em Lugar Nenhum ele faz o caminho inverso. Trouxe para a literatura os avanços alcançados por ele nos quadrinhos. As semelhanças narrativas são óbvias. Quando a namorada dá o fora em Richard, ele vai para casa e o texto narra: "ele tomou um demorado e quente banho de banheira, comeu alguns sanduíches e bebeu várias xícaras de chá. Viu um pouco de TV, à tarde, e ensaiou conversas com Jéssica em sua cabeça. Ao término de cada diálogo imaginário, eles se abraçavam e faziam sexo de um jeito selvagem, apaixonado, furioso, cheio de lágrimas, e tudo ficava bem". Em Sandman 17, na história "Calliope", Gaiman escreveu: "E Madoc levou Calliope para sua casa, e trancou-a no quarto mais alto, que havia preparado para ela. Seu primeiro ato foi violentá-la, na velha e mofada cama de armar. Ela nem mesmo é humana, ele disse a si mesmo. Ela tem milhares de anos de idade. Mas sua carne era quente, e seu hálito doce, e ela segurava as lágrimas como uma criança enquanto ele a feria".
Está ali, também, em Lugar Nenhum, os pequenos contos em meio às histórias maiores, que caracterizavam o roteiros de Gaiman. Em Lugar Nenhum acompanhamos, por exemplo, a história de Anaesthesia, uma garota que acompanha Richard pelo perigoso caminho até o Mercado Flutuante, onde ele deverá se encontrar com Door. A mãe de Anaesthesia ficou louca e ela foi mandada para morar com uma tia, que morava com um homem: "Ele me machucava. Fazia outras coisas também. No fim, eu contei pra minha tia e ela começou a me bater. Disse que eu estava mentindo. Disse que ia me entregar para a polícia. Mas eu não estava mentindo. Então eu fugi. Era meu aniversário". Com o tempo a menina foi se tornando invisível às pessoas, e um dia, quando acordou, fazia parte da Londres de Baixo.
A história da menina mostra a preocupação de Gaiman de construir um perfil até mesmo para os personagens menores. Cada um tem sua história de vida, sua personalidade e até seus cacoetes. As descrições detalhadas fazem com que, com o tempo, o leitor comece a ver essa outra Londres como um mundo ainda mais real do que aquele em que vivemos. São poucos os escritores que conseguem nos mergulhar assim em um mundo construído por eles.
Os que não iniciados no mundo das resenhas talvez não saibam, mas a maioria dos resenhistas lêem os livros com olhares críticos, analisando estilos, tramas e tudo o mais com um lupa racional. Confesso que houve um determinado ponto em Lugar Nenhum que foi impossível continuar fazendo isso, de tal forma a história era envolvente. O mesmo deve acontecer com um leitor comum desde os primeiros capítulos.
Se não bastassem os méritos literários, a Conrad (que publica os encadernados de Sandman) fez um ótimo trabalho editorial, ressaltado pela ótima capa de Dave Mckean (que os editores tiveram o bom-senso de preservar).

Jonah Hex – A trapaça

 


Além dos desenhos impressionantes do filipino Tony DeZuñiga, a série Jonha Hex se destacava pelos roteiros bem elaborados e cheios de reviravoltas de John Albano.

A trapaça, publicado em Weird Western 18 exemplifica muito bem isso. A história começa com dois malandros perseguindo e matando um homem. A razão: eles pretendiam roubar o registro de uma mina. Mas só depois do assassinato eles percebem que tiveram uma testemunha, que deve ser eliminada. “Num gostamo de deixaá testemunhas por aí, vivos”, diz um deles.

Dois bandidos matam um homem no deserto e resolvem eliminar também a testemunha... 


Só que para azar dos dois, a testemunha é ninguém menos que Jonah Hex.

O homem que estava sendo perseguido, antes de morrer, pede para Hex levar a escritura da mina para sua filha cega, e o pistoleiro aceita, mediante um pagamento de 100 dólares, o que ele faz (posteriormente irá se descobrir que a escritura é falsa e a culpa recairá sobre Hex).

... mas para azar deles a testemunha é Jonah Hex. 


Na cidade ele conhece um homem que lhe propõe uma sociedade: ajudar a exibir, um rapaz que foi criado pelos lobos e adiquiriu os hábitos desses animais.

Numa das exibições, um rico fazendeiro vê o rapaz e reconhece nele uma marca de nascença de seu filho, que julgava perdido depois de um ataque de índios. Para recuperá-lo, o homem está disposto a pagar uma alta soma.

Hex recebe a proposta de ajudar na exibição de um garoto-lobo. 


Até aqui parece que a história é composta de elementos soltos, que não se relacionam, mas conforme a trama se desenvolve descobrimos que tudo se relaciona: do registro falso da mina ao homem-lobo, passando pela tentativa de incriminar Jonah Hex.

Albano tinha esse dom de costurar os elementos mais díspares da trama.

segunda-feira, junho 26, 2023

O experimento de Milgran

 

Filho de imigrantes que haviam saído da Europa fugindo da perseguição aos judeus, Stanley Milgran se perguntava como havia sido possível o holocausto. Como milhares de pessoas normais, pais de família, pessoas do bem, haviam se tornado carrascos nazistas nos campos de concentração, matado e torturado pessoas que mal conheciam. Um fato ainda mais perturbador: nos julgamentos que se seguiram, muitos desses criminosos de guerra alegaram que estavam apenas cumprido ordens superiores.
Para verificar como a obediência à autoridade poderia levar pessoas normais a atos extremos, Milgran bolou uma experiência. Um voluntário era levado a acreditar que estava participando de um experimento a respeito da influência da punição na aprendizagem. A cada resposta errada, o professor deveria acionar uma chave que aplicava um choque em um “aluno”, em outra sala. Os choque aumentavam gradativamente de potência. Na outra sala havia na verdade um ator, que gritava, alegava que tinha problemas cardíacos e pedia para parar o experimento. 65% das pessoas foram até o choque mais potente, que poderia até matar o “aluno”. Isso porque uma autoridade, o pesquisador lhe dizia que deveria continuar apicando choque.
A experiência abalou a psicologia social – até então a maioria dos psicólogos acreditava que pouquíssimas pessoas iriam até o final.
A vida de Milgran é mostrada no filme O experimento de Milgran, de Michael Almereyda, lançado pela Netflix, com Peter Sarsgaard e Winona Ryder no elenco.
Não é um filme convencional, que permita uma fácil identificação com o protagonista, em especial graças à quebra da quarta parede – em diversos momentos Milgran se vira para a câmera e conversa com o telespectador. Isso pode provocar alguma rejeição de receptores mais acostumados a filmes convencionais, mas certamente serve aos propósitos do filme. O objetivo aqui parece ser não mergulhar o expectador numa história, mas principalmente força-lo a refletir sobre determinadas situações. Nesse sentido, é quase uma experiência social, fato reforçado por algumas situações estranhas, como um elefante que anda atrás de Milgran em determinados momentos ou o filho do psicólogo, que sempre aparece pintado de verde.
Embora sua experiência com autoridade o tenha tornado famoso, Milgran é também autor da teoria dos seis laços, segundo a qual há no máximo seis graus de separação entre qualquer pessoa do mundo. Ou seja: eu conheço alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece aquela pessoa. É a base filosófica das redes sociais, como o Facebook.
Milgran também criou experiências que se tornaram famosas como pegadinhas, como a da pessoa que no meio da rua começa a olhar para cima até que várias outras pessoas também começam a olhar para cima até que uma multidão se junta para ver nada... numa perfeita demonstração da chamada conformidade social.
O filme passeia por essas experiências e pela vida de Milgran focando inclusive na versão televisiva de sua experiência, o filme The Tenth Level, de1975, estrelado por William Shatner (sim, o mesmo ator que ficou famoso no papelo do Capitão Kirk!!!).
Em tempos em que pessoas acreditam cegamente em boatos anônimos em redes sociais e parecem cada vez mais inclinadas a seguirem líderes autoritários, é um filme necessário, que nos alerta sobre o lado terrível da natureza humana.

Hulk – Ele voltou!

 


Um dos aspectos mais interessantes da fase de Peter David no golias esmeralda é a noção de que o Hulk é uma das facetas da personalidade de Bruce Banner, que, graças a traumas de infância desenvolveu múltipla personalidade. A capa de The incredible Hulk 372 exemplifica bem isso, ao mostrar o Hulk verde irrompendo uma imagem composta por Banner de um lado e pelo Hulk cinza do outro.

Na história, Bruce Banner está à procura de Betty Ross, que se recolheu a um convento ao ser informada que seu amado aparentemente morreu.

O Hulk verde aparecendo pela prmeira vez no traço de Dale Keown.


O roteirista Peter David manipula bem todos os elementos do roteiro e cria uma “comédia de erros” que serve aqui ao drama. Banner entra no convento e faz-se passar por um padre num confessionário para ouvir a confissão de Betty. A confissão é interrompida pela descoberta de que o padre verdadeiro sofreu um acidente e a confissão fica pela metade, fazendo o herói acreditar que sua amada está feliz no convento e não quer mais a vida ao lado de um monstro. Na verdade, o que ela iria dizer é que, embora estivesse feliz no convento, seu lugar não era ali.

Enquanto isso, o carro extremamente tecnológico caça Bruce Banner, o que torna tudo ainda mais eletrizante.

Um dos aspectos destaque dessa história é que nela Dale Keown desenha o Hulk verde pela primeira vez. O personagem aparece em toda a sua ferocidade numa belíssima e impressionante splash page.

No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em O incrível Hulk 130.

Taoismo: a filosofia da eterna transformação

 


            O taoísmo é baseado num pequeno livro de 81 versos chamado Tao Te King. Conta-se que o autor seria um velho chamado Lao Tsé.  Lao Tse viveu a primeira metade de sua vida, em torno do século 6 a.C. na corte imperial chinesa trabalhando como historiador e bibliotecário. Um dia, ele abandonou a corte e retirou-se para floresta, onde passou a viver como eremita, estudando e meditando. Depois de algum tempo, resolveu cruzar a fronteira da China. O soldado que guardava a fronteira, imaginando que as autoridades não iriam gostar se ele deixasse ir embora um homem tão sábio, impôs uma condição para que o velho atravessasse a fronteira: antes disso, ele deveria escrever um livro que reunisse toda a sua filosofia. Lao Tse sentou-se, escreveu rapidamente o pequeno livro, entregou ao soldado e foi embora para nunca mais ser visto.
            Essa é apenas um das versões para o surgimento do Tao Te King. Hoje não se tem certeza nem mesmo de que Lao Tse tenha existido e muitos pesquisadores prefere creditar o livro à tradição oral.
            O livro surge em um período conturbado da história chinesa. Por volta do ano 1000 a 700 a.C., a China foi unificada sob o domínio da Dinastia Zhou. No século 7 a.C. o império Zhou entrou em decadência. As famílias aristocráticas que governavam os estados começaram a brigar pelo poder, absorvendo os estados menores. Essa época conturbada foi chamada de “período dos reinos combatentes”.
            Nessa época surgiu uma nova classe de homens, os shi, formada por camponeses ambiciosos e membros falidos da aristocracia. Eles ocupavam o cargo de administradores e conselheiros dos estados.
            Embora a maioria dos shi se ocupasse apenas de questões práticas, outros eram idealistas e pretendiam reformular a vida política chinesa com ideais morais e espirituais. Esses homens normalmente se reuniam em torno de um mestre, como Confúcio, e tentavam convencer os governantes locais a seguirem suas políticas. Outros se afastavam do mundo para viver uma vida feliz e simples em bosques, onde apenas pescavam e meditavam.
            O Tao Te King é uma mistura das visões desses grupos e de outros. Pode ser lido como um manual para governantes ou como um livro puramente espiritual e contemplativo. Política, religião e filosofia se misturam em uma obra que, ao mesmo tempo é simples e complexa, permitindo várias interpretações.
            Na dinastia Han (151-41 a.C.) o Tao Te King foi adotado como um dos principais manuais da corte. Surgiu também a versão de que ele teria sido escrito por um rei, o Huang Di (Imperador Amarelo). No final desse período, o taoismo já era uma religião, com o Tao sendo considerado seu livro sagrado. A lenda de que Lao Tse teria deixado a China chegou mesmo a ser ampliada do modo que ele teria ido para a Índia, trocado de nome para Gautama e fundado o budismo. Aliás, ao entrar na China, o Budismo foi influenciado pelo taoísmo, dando origem ao Zen Budismo.

Tao - indo além da dualidade

            O principal conceito do taoísmo é de Tao. Lao Tse diz que era impossível descrever o Tao de maneira racional: “O caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito. O nome que pode ser dito não é o Nome eterno. No principio está o que não tem nome”. Assim, o Tao deve ser conhecido de maneira direta e intuitivamente. Para isso é necessário manter a mente tranqüila e esquecer os pensamentos a respeito das coisas eternas.
            Para conseguir compreender o Tao também é necessário ir além da dualidade. Nós achamos alguém belo e, por conseguinte, achamos outras pessoas feias. Ao concebermos o bem, criamos o mal. O Tao pretende ir além da ilusão da dualidade, vendo além dos pares opostos.

Eterna mudança
            Para os taoistas, a realidade é vista como um fluxo contínuo de mudanças. A essência de todas as coisas é justamente o fato de que elas estão em constante transformação.
            Os taoistas acreditavam que não só a mudança era parte essencial da vida, como era possível entender como ela acontecia harmonizando-se com a natureza e seu fluxo.
            Assim, o Tao é caracterizado como uma mudança cíclica. Dessa forma, afastar-se significa retornar. Se alguém andar ininterruptamente para oeste, acabará chegando a leste. Quando uma situação atinge seu ponto extremo, é compelida a voltar e se tornar seu oposto. Essa crença dá aos taoistas coragem e perseverança nos períodos de dificuldade cautela nos períodos de sucesso. Eles seguem uma doutrina de meio-termo evitando o excesso e o exagero, pois sabem que uma atitude extrema gera seu oposto.

Simplicidade
            Lao Tsé achava que o modo correto de viver era através da simplicidade e da sintonia com o Tao. Adaptação e humildade são virtudes vista como essenciais para os líderes, pois aquele que se intromete com violência no curso natural das coisas prejudica a si mesmo, a sociedade e causa o caos. O bom governo é aquele que menos se intromete na sociedade, deixando que ela cumpra seu curso natural: “Quanto mais leis e mandamentos existirem, mais bandidos e ladrões haverá”.
            As pessoas em posição de comando tendem a se achar melhor do que outras. Contrariando isso, o Tao Te King diz que o homem sábio não tenta se mostrar acima das outras pessoas. Constantemente, pessoas que falam demais são as menos sábias. Muitas pessoas ricas parecem não ter nada. Já por outro lado, pessoas enfeitadas de jóias e com roupas de marca muitas vezes moram em uma casa na favela.
            Da mesma forma, muitos acreditam que pessoas em alta posição devem estar em constante atividade, o que as deixa estressadas e impossibilita ver os fatos com ponderação. Como resposta, o taoísmo aconselha exercícios meditativos que conservam a energia e produzem um estado de quietude e equilíbrio.

I-ching
            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.
            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.
O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.
            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.
            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos. 
            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.
            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.
            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios aquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

Rituais
            No taoísmo religioso, um dos principais rituais é o de iniciação. Ele é usado para introduzir aqueles que estão interessados em tomar o taoísmo como seu caminho espiritual. A cerimônia pode ser bem simples ou mais elaborada, mas tanto em um caso como outro, são estabelecidos compromissos entre mestre e discípulo. Os iniciantes passam a receber proteção dos mestres taoístas. Os iniciados também podem participar, de modo que são renovadas as bênçãos dos mestres.
            No ritual de purificação são feitos pedidos de desenvolvimento espiritual. No ritual de oferenda são realizadas oferendas de frutas, flores, incenso, velas e alimentos para as divindades como forma de agradecimento e devoção. As oferendas representam desprendimento das coisas materiais e dedicação ao caminho de transformação espiritual. Através delas, Yin e Yang são fundidos, criando um estado de unidade no praticante.
            Cada oferenda tem um significado. O incenso simboliza a transcendência e dissolução do ego, correspondendo ao conceito de Wu Wei (ação não-intencional). As flores simbolizam a vida e correspondem ao conceito de Dzé Zan (natureza e naturalidade). As frutas simbolizam o desapego e desprendimento em relação aos valores materiais. A água e o chá representam a purificação e a remoção dos apegos, correspondendo ao conceito Chin Jin (Transparência e Pureza). Finalmente, as velas simbolizam o encontro de nossa Consciência com a Consciência Sagrada, correspondendo ao conceito Suen Hua (Transformação Natural).
            Nos templos taoístas também são feitos rituais de casamento, benção de crianças e ritos fúnebres.

O TEI-GI
            O  Tei-Gi, também conhecido como Yin Yang, é um famoso ícone popular. Mas poucos sabem o que significa. Seu desenho, na verdade, é uma interpretação icônica dos princípios do taoísmo. A figura é formada por duas partes, uma preta e outra branca. São os pares opostos, o Yin e o Yang: o masculino e feminino, o feio e o belo, o bom e o mal.
            As figuras formam uma espécie de onda, como se fosse a água se movimentando. Isso simboliza a eterna mudança, base de toda a criação. Então, os pares opostos não estão estaques, mas em movimento. Uma mulher que hoje é bela amanhã pode se tornar feia. O que hoje é bem, pode ser o mal. Assim, no auge da parte branca, temos um pequeno círculo preto, demonstrando que o auge de um estágio é o começo do estágio seguinte. O auge do sucesso marca o início da decadência, etc.
            Dessa forma, os pares opostos não são absolutos: o belo traz em si também o feio. O feio traz em si o belo. A imagem permite ver os pares opostos em uma perspectiva global e é o que faz o taoísta, indo além deles. Assim, para o taoísta, vitória e derrota são apenas dois lados da mesma moeda e não se deve apegar a nenhum deles, pois seria estar parado em um mundo de eterno movimento.