sábado, agosto 01, 2026
A arte estrondosa de John Buscema
O reinado do Super-homem, de Jerry Siegel
Em 1933 o fanzine de ficção científica The advance guard of future civilization publicou um conto de Herbert Fine sobre um homem com poderes extraordinários. Teria passado despercebido se não fosse o embrião dos super-heróis e se o tal do Herbert Fine não fosse um pseudônimo de Jerry Siegel, criador do Super-homem.
Essa história chega finalmente ao Brasil em uma coleção para lá de interessante. Trata-se da Biblioteca de Livros impossíveis, capitaneada pelo escritor Rubens Angelo.
Todos os volumes contam com textos introdutórios e esse aqui explora a origem dos super-heróis e a importância desse conto para o gênero.
Quanto ao conto, apesar de toda a sua relevância histórica, é muito óbvio que se trata de um texto de alguém que ainda estava dando os primeiros passos na escrita.
Na história, um cientista procura uma cobaia na fila do pão (a história, aparentemente se passa durante a grande depressão norte-americana), até encontrar a pessoa ideal, um tal de Bill Dunn. Seu objetivo é fazer o mendigo ingerir uma substância produzida a partir de um meteoro (o que provavelmente é a origem da kriptonita). Essa substância havia provocado “uma estranha influência nos animais de laboratório aos quais era administrado”, diz o texto, sem especificar que influência era essa.
O cientista leva o mendigo para casa, manda o mordomo cuidar dele e lhe dá novas roupas (“Pela primeira vez em semanas seu rosto estava barbeado. Roupas limpas e impecavelmente passadas substituíram suas vestes desgastadas”).
A fórmula estava no café, mas após ingerir a refeição, Dunn fica desconfiado e foge da casa do cientista – é quando descobre que tem poderes. Não há nenhuma preparação nesse sentido. Ele descobre e com muita facilidade que é capaz de ler mentes, ver à distância (ele vê uma cena de combate em Marte) e ver o futuro, o que lhe permite ganhar dinheiro com apostas e bolsa de valores. Ele também é capaz de sugestionar pessoas, fazendo com que elas lhe dêem seu dinheiro.
A transformação moral do personagem é tão rápida quanto a descoberta dos poderes: de uma pessoa boa e preocupada em seguir a lei, ele logo se torna um tirano disposto a destruir o mundo.
O texto, como dito, é primário. Há metáforas que não funcionam, como “De repente, enquanto estava deitado no chão, um verdadeiro holocausto de confusão irrompeu em sua mente”. Além disso, há problemas de coerência interna. Dunn fugiu da casa do cientista barbeado e usando a roupa nova, mas Siegel esquece isso e, mais lá na frente, o descreve como um mendigo.
Vale mais como curiosidade e como registro do personagem que depois seria modificado e transformado em herói, tornando-se uma das figuras mais conhecidas do mundo, o Super-homem.
A coleção tem mais três livros (A Curiosa Experiência de Thomas Dunbar, de Gertrude M. Barrows; Eu, Robô, Eando Binder e A máquina pensante, de JJ Connington), todos inéditos ou pouco conhecidos no Brasil. Para adquiri-los, basta fazer um pix de três reais por exemplar para a chave PIX: rubensangelo@yahoo.com.br e enviar o comprovante para o Rubens Angelo: rubensgrafico@gmail.com.
Miracleman – Cenas de Natividade
Miracleman, de Alan Moore, foi revolucionário em muitos aspectos.
Mostrou uma visão realista dos super-heróis, introduziu a metalinguagem no
título (todas as histórias da fase clássica eram “sonhos induzidos” do
personagem) etc...) e foi também a primeira história em quadrinhos de
super-heróis a mostrar um parto. Não que crianças não nascessem nos quadrinhos
(vide o filho de Red e Sue, do Quarteto Fantástico), mas a história sempre
pulava para o momento em que a criança já tinha nascido. Moore mostra o
processo do parto nos mínimos detalhes no número 9 da revista.

As referências ao nascimento de Jesus são óbvias.
Nas histórias anteriores, a esposa de Miracleman tinha sido
sequestrada pelo vilão Gargunza, que pretendia passar sua consciência para o
bebê. A mulher, que havia sido sedada,
acorda tempos depois, quando Mike Moran conseguiu voltar a ser Miracleman e
provocou uma matança generalizada.
Quando ela vê seu esposo pela primeira vez, a imagem o
representa com uma aura de luz que forma uma cruz. A metáfora é óbvia. Mais do
que um super-herói, Miracleman é deus. A imagem, acrescida ao título (Cenas da
natividade) fazem um paralelo com o nascimento de Jesus. A mulher insiste que
não quer ter o filho ali e o herói a transporta em um caminhão para um local
deserto, como Jesus, que nasceu numa manjedoura.

Como José, Miracleman leva a esposa para o local do nascimento.
As imagens mostravam em detalhes o nascimento – o que na
época provocou um escândalo - enquanto o texto fazia um paralelo com o projeto
de Gargunza:
“A cabeça emerge do tamanho de um punho, meus olhos não
captam o fato: uma cabeça se projeta de dentro dela. Parece tão hedionda, bela,
absurda, surpreendente. Mas é claro, é claro. Isto. Esta perfeição é o que veio
de todo o caos e a loucura. Todas as mentiras que você teceu ao meu redor
resultaram nessa única verdade. Todos os pesadelos que você me forneceu foram
destilados... neste único sonho”.

Um parto nunca havia sido mostrado nos quadrinhos de super-heróis.
Essa história ficou inédita no Brasil durante anos. A
editora Tanos tinha publicado a história até o sequestro, sem mostrar a
conclusão. Na primeira vez que fui a São Paulo, ao visitar o estúdio de Franco
de Rosa, vi uma prova de gráfica da capa da edição que mostraria o nascimento,
com Miracleman segurando a filha no colo. Infelizmente os primeiros números
tinham vendido muito pouco e não foi possível publicar essa edição do
nascimento (essa era uma época em que Alan Moore dava prejuízo nas bancas). Apesar
de só ter visto a capa, aquela imagem me marcou. Passei anos imaginando como
seria o enredo. Precisei esperar 20 anos
para que a HQ fosse publicada pela Panini.
sexta-feira, julho 31, 2026
The Last Kingdon
Homem-aranha e Sonja: demônios do passado
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| ... e se transforma na guerreira. |
Lembranças da biblioteca
Na época em que eu fazia o ensino médio, um endereço certo, visitado todo dia depois das aulas, era a biblioteca do Centur, em Belém.
Eu lia uma barbaridade. Chegava a ler até mais de um livro por semana. Era meio que para tirar o atraso, pois até os 14 anos, quando descobri a biblioteca do Centur, eu só tinha lido Aventuras de Xisto (lido e relido mais de vinte vezes).
Eu ia direto à biblioteca circulante (que emprestava livros) e procurava algo interessante. Se não encontrava nada muito bom, levava um do Júlio Verne, que era diversão garantida.
Fiz amizade com as bibliotecárias e elas me indicavam livros. Uma delas me indicou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, um clássico da literatura regional nordestina. Mas o primeiro livro que li lá foi um volume de contos de H.G. Wells. A biblioteca tinha um mural em que ficavam as resenhas dos livros escritas pelos leitores. Incentivado pela bibliotecária, fiz uma resenha do livro de Wells (confesso que não lembro qual era o título). Com certeza foi minha primeira resenha. Chegou uma época em que todas as resenhas do mural eram de minha autoria. O curioso é que muitos anos depois, fui trabalhar no Centur e a bibliotecária que me dava dicas virou minha colega de trabalho...
Comecei a trabalhar no Centur quando eles resolveram montar a gibiteca. Antes disso, eu já freqüentava o local e ajudava as servidoras, inclusive dando dicas sobre como elas poderiam classificar as revistas em quadrinhos, que eram guardadas em caixas arquivo. Sugeri que elas fossem separadas por títulos ou por personagens. Aquelas que não tinham em quantidade suficiente para montar uma caixa, nós uníamos por gênero: humor, infantil, drama, terror, aventura, ficção-científica... antes de serem catalogcadas, as revistas ficavam todas guardadas em um armário de metal e para mim era mágico abrir aquelas portas e folhear as publicações. Era como nadar em um oceano de informação.
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| Nos dias de sábado eu podia ler clássicos, como o álbum de Flash Gordon da Ebal. |
No Centur ninguém gostava de trabalhar aos sábado. Eu gostava, pois era o dia que dava menos gente e era possível sentar para ler. Era o dia em que eu aproveitava para ler os clássicos, publicados em álbuns da Ebal ou na enorme revista GIBI. Impossível ler esse material grande e grandioso nos dias de corre-corre.
Foi nessa época em que li uma das melhores e mais desconhecidas HQs: Capitão César. O título original era Wash Tubs. O desenhista trabalhava muito bem com papel reticulado, criando efeitos fantásticos. E as histórias eram envolventes. Lembro de uma em que o Capitão César, em missão na Alemanha, acaba indo parar em um campo de concentração e escapa de lá. Propaganda norte-americana do tempo de guerra, evidentemente, mas quem liga? Como diria Spielberg, os nazistas são ótimos vilões porque não aparece ninguém com cara de pau para defende-los.
Fundo do baú - Spectreman
Spectreman foi, provavelmente, o primeiro herói ecológico.
A série surgiu em 1971 quando o presidente da produtora japonesa P Productions teve a ideia de fazer um seriado com macacos alienígenas para aproveitar o sucesso do filme O planeta dos macacos. O herói usava um uniforme vermelho com uma máscara na qual aparecia a parte de baixo do rosto e se chamava Elementman. A TV Fuji aceitou a proposta, mas exigiu algumas alterações. Assim, o nome do herói foi mudado para Spectreman, ele passou a usar um uniforme dourado e uma máscara que cobria todo o rosto.
Nessa nova versão, o herói, disfarçado entre os humanos como Kenji e viera para a Terra, a mando dos Dominantes, combater a poluição e a degradação do planeta. Já no primeiro episódio ele procura a Divisão de pesquisa e controle de poluição e avisa sobre um desastre ambiental que acontecerá na bahia de Tókio.
| A primeira versão do herói. A máscara fica estranha mesmo. |
Da água poluída surge um monstro que exala gás venenoso e esse é o primeiro adversário do herói.
O monstro foi criado a partir da poluição pelo doutor Góri, que pretende usar monstros gigantes para dominar a Terra. Ele e seu ajudante Karas são de um planeta de homens-macacos super-evoluídos que dominam alta tecnologia. Ao perceberem que Góri pretendia tomar o poder e transformar o local pacífico numa potência militar, ele é condenado à morte, mas foge com a ajuda de Karas. O irônico aí é que Karas, embora tenha vindo do mesmo planeta que Góri, não fala e age como um macaco humano. A dupla bizarra era uma das principais atrações do seriado com suas atuações exageradas.
| O gibi publicado pela Bloch e feito por uma equipe brasileira fez sucesso nas bancas. |
A P Productions era uma produtora pequena e o tempo de produção era curto, o que fazia com que os episódios fossem excessivamente toscos num gênero que era tosco por natureza. Os cenários eram mínimos e obviamente artificiais, os monstros mal-feitos e o herói quando voava era nitidamente um boneco pendurado numa corda. As explosões eram álcool queimando os raios eram feitos raspando diretamente no negativo do filme. A nave do Dr. Gori muitas vezes balançava enquanto voava. Mas a mistura de humor, ação e preocupação ecológica agradou e o seriado se tornou popular no Japão. No total foram produzidos 63 episódios.
No Brasil, o seriado chegou em 1981, na Band, mas só chamou atenção mesmo quando começou a ser exibido pelo SBT em 1986 no programa do Bozo. Tornou-se uma febre entre a criançada. Fez tanto sucesso que chegou a ter uma revista em quadrinhos pirata, produzida e publicada pela editora Bloch. Nessa versão o uniforme do herói foi modificado, de dourado para azul em consonância com a mania da editora de cores berrantes. Os roteiros eram de Carlos Araújo e os desenhos do estúdio de Eduardo Vetillo. A revista durou 30 números.
Tom Strong e o planeta do perigo
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| ... para salvá-la, Tom e o genro vão para a Terra Obscura, mas o local está arrasado por uma pandemia. |
Perry Rhodan: A Sexta Época
Os Senhores de Andrômeda foi o primeiro ciclo da série Perry Rhodan a durar 100 números. No entanto, talvez para não romper totalmente com a estrutura anterior, K.H. Scheer, o coordenador da série, escreveu o número 250 como se fosse um novo ciclo, resumindo os fatos anteriores, estabelecendo uma nova ambientação e definindo uma nova era — daí o nome A Sexta Época.
Em termos de novidades, Scheer apresenta a nova frota
terrana, destacando as naves mosquito e o supercouraçado, cuja
escala monumental faz com que as maiores naves anteriores pareçam anãs. Scheer
demonstra um verdadeiro fetiche por descrições técnicas e de engenharia
espacial, dedicando dezenas de páginas a trechos detalhados como estes:
"As cinquenta corvetas, com seus campos defensivos hiperenergéticos, as máquinas propulsoras compactas e o canhão conversor pesado, tinham um poder de combate por unidade que muitos povos astronautas não conseguiam alcançar com frotas inteiras."
Ou ainda:
"O poder de combate dos mosquitos já era conhecido. Quinhentas unidades pequenas desse tipo eram capazes, em virtude de seus campos hiperenergéticos e dos canhões conversores, de transformar grandes frotas de guerra em nuvens de gases incandescentes. Nem mesmo os supercouraçados da classe Império seriam capazes de resistir ao ataque concentrado de quarenta mosquitos."
Curiosamente, embora seja obsessivo nas especificações
técnicas, o autor na maioria das vezes omite detalhes visuais básicos: não
sabemos, por exemplo, qual é o formato exato dos mosquitos ou das corvetas
nesta descrição inicial.
Embora essa introdução técnica seja bem escrita, ela se
estende por mais da metade do volume. A ação propriamente dita só ganha fôlego
quando a nave Crest III encontra uma estrutura metálica colossal, do
tamanho de um pequeno planeta, aparentemente abandonada no vácuo.
O leitor que persiste até este ponto é recompensado com uma
trama repleta de Sense of Wonder
quando a estrutura se revela um estaleiro espacial automatizado,
especializado em consertar naves avariadas. Para conquistar clientes, os robôs
realizam um verdadeiro "show" de vendas:
"Ei, amigos, sejam bem-vindos ao KA-Barato!" — diz um dos robôs. — "Estão interessados num conserto? Pode ser feito. Será barato, amigos, barato mesmo. O estaleiro KA-Barato não quer apenas ser barato, ele não apenas afirma isso — ele realmente trabalha barato. E bem. Ouçam, amigos!"
É um início empolgante para uma nova fase, algo que Scheer,
como mestre da Space Opera militarista, sabia conduzir com maestria.
quinta-feira, julho 30, 2026
Primavera para Hitler
Primavera para Hitler é um filme de 1968, de Mel Brooks com Gene Wilder e Zero Mostel nos papeis principais.
Na trama um produtor de musicais (Zero Mostel) está decadente e é obrigado a namorar velhas endinheiradas para conseguir dinheiro, mas descobre, através de um contador (Gene Wilder) que um fracasso pode ser mais lucrativo que um sucesso. A receita é simples: basta arrecadar patrocínio muito a mais do que necessário para a produção. Se a peça for um fracasso total, apresentando-se um único dia, nenhum dos investidores irá procurar receber seu dinheiro de volta.
Para conseguir seu intento, a dupla procura a pior peça já escrita e encontram "Primavera para Hitler", escrita por um lunático nazista. Para dirigir o espetáculo escolhem o pior diretor da cidade: um cara afetado com mania de grandiosidade. Para o papel de Hitler, escolhem um rapaz que fora ao teatro por engano e só quer cantar rock. O produtor chega a subornar um crítico musical sabendo que isso o fará detonar o musical. Mas tudo dá errado quando a peça, inexplicavelmente, se torna um sucesso.
Na época o filme chegou a ser proibido na Alemanha, embora seu diretor fosse judeu.
Primavera para Hitler é comédia inteligente e politicamente incorreta. Destaque para a cena das moças semi-nuas cantando que Hitler está destruindo a Polônia ou a das moças vestidas como soldados nazistas dançando uma coreografia baseada no passo de ganso. Ou a secretária belíssima, mas que não fala em inglês e entende que trabalhar é dançar rock. Ou a do autor da peça tentando convencer a plateia de que não escreveu uma comédia (e todos acham que isso faz parte da piada). Enfim, Primavera para Hitller mostra bem porque Mel Brooks é considerado o homem que revolucionou o cinema de humor.
Esse filme, aliás, só seria possível nos revolucionários anos 1960. Hoje em dia Mel Brooks seria considerado persona non grata em Israel.
Roteiro de quadrinhos: objetos
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| A estatueta de um falcão é o que move a trama na história O falcão maltez. |
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| A caveira de crital é um exemplo de Mcguffin |
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| Os suspensórios representam a ética jornalística em A motanha dos sete abutres |































