segunda-feira, agosto 31, 2026
Narcos, terceira temporada
A série, no entanto, conseguiu desenvolver a trama e os personagens de maneira competente. E introduziu um novo personagem: Jorge Salcedo (Matias Varela). Chefe da segurança do Cartel de Cali, ele vive a dubiedade de não se considerar alguém mal e jamais ter matado alguém, mas trabalhar para um cartel de drogas. As melhores cenas de toda a temporada sem dúvida são com esse personagem.
Embora a direção seja segura, o roteiro (de Chris Brancato, criador da ´serie) foi fundamental para que esta temporada desse certo. Trabalhando o tempo todo com narrativas paralelas, a trama deixa o expectador sempre no fio da navalha, em especial nos capítulos finais.
Narcos é uma das melhores séries da atualidade e mostra a que nível chegou a influência do tráfico de drogas: até mesmo governos que dizem combater as drogas, na verdade estão ligados a ele. Em países da América Latina, senadores, ministros e até presidentes parecem comer nas mãos dos carteis de drogas.
Arkanus: a revista da dupla Gian-Bené
Warlock – O início da saga
Warlock era um daqueles muitos personagens da Marvel que
haviam surgido na fase de Jack Kirby e Stan Lee, mas que ninguém sabia direito
como aproveitar.
O personagem apareceu pela primeira vez em Fantastic Four
nº 66-67. Era um homem perfeito, gestado dentro de um casulo para dominar o
mundo em nome de seus criadores. Ao perceber as intenções deles, o
"Ele", como era chamado na época, revolta-se, destrói o laboratório e
mata os cientistas.
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| Um alienígena conversa com o leitor e explica os fatos anteriores. |
Roy Thomas considerou a ideia boa demais para ser
desperdiçada e criou uma série própria para o herói. Nela, o personagem, agora
batizado de Adam Warlock, tem seu casulo encontrado pelo Alto Evolucionário e
recebe uma joia que lhe permite lutar contra o Homem-Fera, impedindo que o
vilão transforme a Contra-Terra (um planeta criado pelo próprio Evolucionário)
em um local dominado pelo ódio, ganância e preconceito.
Essa versão, mesmo contando com os roteiros de Roy Thomas e
os desenhos de Gil Kane, não empolgou o público, e a revista durou poucos
números. Foi então que Jim Starlin foi convidado a assumir a série,
transformando-a em uma saga cósmica em seu melhor estilo.
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| Nessa série, Starlin está no seu auge no desenho e roteiro. |
Starlin inicia sua fase na edição Strange Tales nº
178, resumindo toda a trajetória anterior por meio de um alienígena cínico que
narra os fatos: “Oi, crianças. Parece que alguns de vocês não sabem quem é Adam
Warlock. Que vergonha! Bom, o titio Stan pediu para atualizá-los”. Há,
inclusive, referências metalinguísticas, como quando o narrador comenta que
dispõe de apenas quatro páginas para esse resumo.
Terminada a introdução, começa a história com o melhor de
Starlin, mesclando filosofia, psicologia e ação em meio a uma trama estelar.
Uma mulher busca a ajuda do herói, mas três caçadores a perseguem e a executam.
Os perseguidores apresentam-se como inquisidores da Igreja da Verdade
Universal. O teor da trama explica por que Starlin costumava entregar os
originais em cima da hora: sua nova série era uma contundente crítica ao
fanatismo religioso e um alerta sobre seus perigos.
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| A série é uma óbvia crítica às religiões. |
O próprio Magus, o deus da referida religião, revela-se para
Warlock e identifica-se: ele é ninguém menos que uma versão futura do próprio
herói, dotado de um poder inimaginável. O que teria levado Warlock a se
transformar nesse tirano espacial? E como impedir que isso aconteça?
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| Profundidade psicológica: o vilão é o próprio herói. |
Ao colocar o antagonista como uma variante do próprio
protagonista, Jim Starlin reflete verdades espirituais tradicionais, relatadas
do Bhagavad Gita ao Tao Te King, nas quais o verdadeiro conflito
é interno. Jim Starlin, o mais proeminente representante da geração hippie
da Marvel dos anos 1970, atinge seu auge criativo nesta série.
domingo, agosto 30, 2026
Dart Vader foi inspirado nos nazistas?
Guerras Secretas – Prisioneiros de guerra
O segundo número de Guerras Secretas já começava com um ataque dos vilões aos heróis. O roteirista Jim Shooter nitidamente queria colocar o máximo de ação em cada número.
Enquanto isso, Doutor Destino, em uma trama paralela, reprogramava Ultron, que no número anterior tinha tentando matar todos os vilões e tinha sido colocado fora de ação por Galactus. A partir desse número, Ultron se transformará em uma espécie de guarda-costas do vilão.
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| Os vilões estão ganhando a batalha... |
Embora estivesse muito preocupado em mostrar ação, Shooter não parecia muito preocupado em deixar essa ação clara. Do nada os heróis vencem e fazem vários vilões de prisioneiros – e nem sequer sabemos ao certo quem são esses vilões.
Ao mesmo tempo, Magneto invade o QG dos heróis e os vilões entram em conflito entre si.
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| ... e de repente perdem. |
Era tanta porrada ao mesmo tempo que ficava difícil até acompanhar o que estava acontecendo. Assim, a trama, simplória, tornava-se complicada.
Stranger Things – terceira temporada
A memória vegetal
Casal serial killer
Certa vez fui vítima de um psicopata. Felizmente não era um psicopata assassino, mas esse fato me levou a pesquisar sobre o assunto colecionando livros, matérias de jornais, tudo que pudesse coletar sobre o assunto.
Capitão América – A força do Sumô
Nas primeiras histórias solo do Capitão América na Era Marvel, era comum que o herói enfrentasse comunistas. Isso não durou muito, provavelmente porque Stan Lee percebeu que ter dois personagens enfrentando comunistas na mesma edição (o Homem de Ferro também era publicado em Tales of Suspense) não era uma boa ideia, e o sentinela da liberdade passou a trocar sopapos novamente com os nazistas.
Um dos comunistas que o personagem enfrentou nessa fase inicial é um general vietnamita chamado Sumô, numa história publicada em Tales of suspense 61.
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| Não havia muita preocupação em pesquisar o uniforme dos vietcongs. |
No melhor estilo Jack Kirby, a história começa com o herói numa grandiosa splash page desviando as balas com seu escudo enquanto soldados vietnamitas com cara de vilões atiram ou preparam granadas. “Suspendam fogo... não vêem que estou desarmado?”, grita o herói.
Esse começo, além da forma estereotipada com que os vietnamitas são mostrados, também demonstra que não havia muita preocupação com pesquisa. Os uniformes dos soldados parecem uma mistura do uniforme russo com o japonês e estão muito longe das roupas que os vietcongs usavam de fato.
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| "Tenho o dobro do seu tamanho e o triplo do seu peso!" |
O Capitão foi lá resgatar um piloto cujo irmão o salvou durante a II Guerra.
Depois de enfrentar três soldados fortudos como “teste” (incrível como todo mundo resolvia testar o Capitão só para levar uma surra), ele finalmente é recebido pelo general e o homem é um monstro enorme (“Tenho o dobro do seu tamanho e o triplo do seu peso! Para mim, você nada mais é que uma pulga”, afirma o general).
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| Com menos de meia página para terminar a história, Stan Lee resolveu fazer piada. |
Como Kirby exagerou nas cenas de ação, sobrou apenas meia página para mostrar a resolução da história e Lee resolveu aproveitar esse problema para fazer uma piada usando a elipse. “Capitão, o jato particular do general está logo à frente, vigiado por outro lutador de sumô bem treinado. Acha que passamos por ele?”. “Acho que sim”, responde o herói, num quadro que mostra o soldado caído e o jato indo embora.
Apesar dessas boas sacadas, a história vale mesmo pela ação desenfreada de Kirby.
Fundo do baú - Shazan, Xerife e cia
Os personagens Shazan e Xerife surgiram em 1972 na novela Meu primeiro amor, de Walter Negrão. Interpretados por Paulo José e Flávio Migliaccio, os dois mecânicos atrapalhados fizeram tanto sucesso que ganharam uma série própria exibida nas tardes pela rede Globo.
A trama era psicodélica: os dois personagens percorriam o país numa camicicleta (uma mistura de carro com bicicleta) sempre se metendo em confusões. Uma curiosidade é que a tal camicicleta era, na verdade, um Ford antigo modificado e acrescido de vários adereços.
Os dois buscavam uma tal de peça mágica que lhes permitiria construir uma bicicleta voadora, numa clara alusão a “coisas que faziam voar”. A ideia por trás de toda a psicodelia era o anseio pela liberdade, o que fez com que a série se tornasse extremamente popular entre os jovens da geração hippie.
A série era exibida originalmente às quintas-feiras, às 21 horas, mas pouco tempo depois migrou para o horário das 18 horas, sendo exibida de segunda a sexta.
Uma curiosidade que o nome Shazam era uma alusão ao personagem de quadrinhos que usava a palavra para se transformar. Apesar de já naquela época o herói ser propriedade da DC Comics, a Rede Globo não teve nenhum problema de direitos autorais. Imaginem hoje em dia a Globo usando o nome de um personagem da DC ou da Marvel... no dia seguinte os advogados bateriam na porta da emissora.
A série Shazam, Xerife e cia foi exibida de 1972 a 1974, num total de 66 episódios.
A prisão dos homens que nunca existiram
O universo Intempol nasceu em 1998, no conto Eu matei Paolo Rossi, de Octavio Aragão, publicado na antologia Outras copas, outros mundos. Nesse texto surgiu o conceito de Intempol, uma polícia do tempo. Octavio foi expandindo esse conceito ao longo dos anos, criando um verdadeiro multiverso multimídia, que inclui desde a literatura até os quadrinhos (quem sabe, no futuro, expansão também para o audiovisual).
Uma
das atrações desse multiverso é a série de antologias em quadrinhos Intempol,
com um time selecionado de artistas. Eu tive a honra de ser convidado para
colaborar com o volume 3 dessa série. Para escrever, recebi uma
"bíblia" contendo todas as informações sobre esse universo complexo e
fascinante. Resolvi criar uma história focada no prisioneiro de uma cadeia
temporal — um homem que foi preso por um crime que ainda não cometeu. Achei o
conceito interessante especialmente pela possibilidade de explorar paradoxos
temporais.
O álbum pode ser adquirido na Amazon.
sábado, agosto 29, 2026
Justiceiro vs Wolverine
No final da década de 1980, Justiceiro e Wolverine eram os personagens mais populares da Marvel.
Por que, então, não juntá-los numa mesma aventura?
Foi a ideia que a equipe responsável pela revista do Justiceiro, Carl Potts (roteiro) e Jim Lee (desenhos) teve.
A história foi publicada em The Punisher War Journal 6 e 7 e mostra tanto o Justiceiro quanto o carcaju atrás de uma quadrilha que caça animais em extinção. Claro que, como é regra nos quadrinhos Marvel, uma confusão faz com que os dois entrem em rota de confronto, um achando que o outro faz parte da quadrilha.
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| Os heróis entram em rota de colisão. |
Carl Potts era um bom roteirista, infelizmente pouco valorizado, e desenvolve bem a história, embora o Justiceiro pareça estranho na ambientação de selva. Talvez uma ligação com a experiência dele na guerra tornasse a trama mais orgânica para o personagem.
Já Wolverine sempre foi mostrado na selva, em sintonia com animais, de modo que sua presença na história parece óbvia.
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| Jim Lee faz um bom uso de retículas. |
Algo a se notar é que Jim Lee nessa época não tinha os exageros que caracterizariam sua fase Image e aqui usa o desenho a serviço da história. E usa bem. Destaque para as cenas de luta entre os dois anti-heróis e para a sequência em que o Justiceiro cai na água, com o uso inteligente da retícula.
No Brasil essa história foi publicada em Grandes Heróis Marvel 26.
A divulgação científica nos quadrinhos
Thor – Contos de Asgard
Recordações do futuro
Ray Bradbury era um excelente contista. Provavelmente porque livros de contos vendem menos que romances, ao reunir essas histórias em livros, ele dava um jeito de costurar as histórias, de modo que em conjunto elas parecessem uma só história dividida em partes.
Em nenhum livro esses estratégia foi tão bem sucedida quanto em o Homem ilustrado, publicado na década de 70 como Recordações do futuro (no Brasil o livro também ganhou o título de Uma sombra passou por aqui).
Bradbury imagina um homem cujo corpo é todo tatuado. à noite, as imagens se mexem e cada ilustração conta uma história. Mas há um espaço especial nas costas, em que a pessoa que está observando os contos poderá ver a sua própria história... E a forma como irá morrer.
Essa introdução não só é genial, como acaba sendo, surpreendentemente, a melhor parte do livro, graças à prosa poética de Bradbury: "Ali sentado, notei que ele era uma confusão de foguetes, fontes, pessoas, com detalhes e cores tão vívidas, que eu podia escutar as vozes, indistintas e abafadas, murmurando entre as multidões que lhe habitavam o corpo"
As imagens são descritas como se El Greco tivesse pintado miniaturas, com suas imagens detalhadas, cores sulfurosa e anatomia alongada.
Os contos seguem a mesma linha de prosa poética e descrições que provocam ricas mensagens mentais.
Em “Caleidoscópio” um foguete explode e seus tripulantes ficam a deriva no vácuo. Poderia ser apenas uma ótima história de suspense ambientada no espaço, mas Bradbury vai mais além, transformando a história num poética investigação psicológica. Esse contexto é exemplificado no tripulante que invejava o outro por sua abordagem a respeito da vida: “Eu não tive nada disso. Quando eu vivia, eu o invejava. Quando eu tinha outro dia à minha frente, eu o invejava, suas mulheres e seus prazeres”.
Em “O outro pé”, o autor usa a ficção científica para refletir, de forma poética e alegórica sobre uma das maiores chagas da América: o racismo. Na história, os negros foram enviados para Marte, onde construíram uma civilização. Depois de muitos anos, uma nave de homens brancos se aproxima e muitos querem se vingar pelos anos de linchamentos e segregação. Mas o que sai da nave surpreende a todos. O conto traz uma pérola do estilo Bradbury: "Caiu o silêncio dos silêncios. Um silêncio que se podia agarrar com a mão, um silêncio que descia sobre a multidão como a pressão de uma tempestade distante".
“O foguetista’ é o conto que melhor expressa a característica de Bradbury de prosa saudosista e intimista. Na história, um garoto vive uma eterna tensão a respeito do pai, que pilota um foguete e, a cada viagem, pode não voltar para casa.
O filho e a mãe antecipam o final trágico e tentam aproveitar ao máximo o tempo com o ente querido enquanto o pai tenta resistir a tentação de voltar ao espaço, uma situação exemplificada no trecho: "Lembro me de meu pai naquela tarde, cavando sem cessar no jardim, como um animal em busca de alguma coisa...". A narrativa por si só já valeria a leitura, mas o autor ainda introduz um final surpresa.
Bradbury discute até mesmo teologia, nos tocantes “O homem” e “Os balões ígneos”. O primeiro trata de um comandante que procura um ser iluminado, mas sempre chega a um planeta depois que ele já partiu. Em “Os balões ígneos”, padres vão a Marte livrar os marcianos do pecado. Mas o que encontram lá é surpreendente e os muda para sempre.
“Os expatriados’ é uma homenagem de Bradbury aos autores que fizeram parte de sua formação: Poe, Dickens, Shakespeare, bran Stocker, Lovecraft... Na história, os livros desses autores foram proibidos na Terra e os autores se refugiaram em Marte. Mas a medida em que o último livro de um autor é queimado, ele desaparece. Um tema recorrente que seria retomado com mais profundidade em Fahrenheit 451
Num livro de contos geniais, que revolucionaram o gênero, é difícil escolher o melhor, mas certamente “A raposa e a floresta” entraria em qualquer lista.
Na história, corre o ano de 2155 e a realidade é uma distopia militarista em guerra eterna. Quando uma empresa resolve ofertar viagens ao passado como forma de entretenimento, um casal de cientistas resolve aproveitar a oportunidade para escapar. Mas eles sabem que serão perseguidos e, se pegos, tortura e morte é tudo que terão. A história se passa na década de 30, no México, e é uma trama de suspense: eles conseguirão despistar seus perseguidores? É surpreendente que Hollywood não tenha aproveitado essa premissa. Poderia dar um ótimo filme.
Outro conto impressionante é “O visitante”. Uma doença incurável chamada ferrugem sangrenta surge e todos que são acometidos por ela são enviados para Marte, como as antigas colônias de leprosos e ficam lá até morrer. Tudo muda quando surge um doente com uma capacidade incrível: criar imagens mentais tão realistas que os doentes conseguem se reimaginar na Terra. Mas essa paraíso se torna um inferno quando os doentes começam a disputar o visitante. O conto ganha muito com a capacidade de Bradbury de criar imagens mentais com seu texto poético: ”Nova York levantou se em torno deles, das pedras, das cavernas, do céu. O sol brilhou nas altas torres. O trem elevado passou como um trovão; rebocadores apitaram no porto. A mulher verde fitou a baía, com uma tocha nas mãos".
São contos e mais contos tão preciosos como pérolas no mar até o seu final curto, mas surpreendente.
































