sábado, setembro 05, 2026

A arte vintage de Steve Rude

 


Steve Rude é um dos mais apreciados desenhistas dos quadrinhos norte-americanos. Seu traço anatômico, remetendo ao um estilo vintage criou uma geração de fãs. Seu trabalho mais conhecido é Nexus, em parceria com o roteirista Mike Baron, mas ele também diversos trabalhos para a Marvel e para a DC, sempre emprestando um charme clássico aos personagens. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é a minissérie Melhores do mundo, com roteiro de Dave Gibbons.





Ken Parker: Homens, Feras e Heróis

 


Entre as várias inovações da série Ken Parker, destaca-se a introdução da metalinguagem nos quadrinhos Bonelli, como ocorreu no número 15 da coleção.

Na história, a garota Pat O'Shane comprou uma partida de gado e precisa levá-la para sua fazenda. Para isso, ela e Ken precisam contratar cowboys. Ao entrar em um saloon, Parker encontra um dandy que se identifica como escritor de histórias de faroeste. Trata-se de ninguém menos que o próprio roteirista, Giancarlo Berardi.

Berardi apresenta vários personagens do faroeste como Kit Carson, Cisco Kid e Pancho. 


O roteirista começa a apresentar os presentes no local, dando início a um desfile de personagens clássicos do gênero: Cisco Kid, Pecos Bill, Sargento Kirk, Zagor e Tex.

Há, inclusive, uma briga entre Tex e o dono do saloon após este se recusar a servir bife para o grupo — uma confusão sem sentido que termina com o proprietário apertando a mão do ranger e prometendo a refeição.

Tex protagoniza uma briga sem sentido, numa crítica sutil do roteirista ao estilo da editora. 


"Viu que coisa? E não pense que é gente apenas de ação. Agora são capazes de sentarem-se ali e falarem por trinta e seis horas!", comenta o autor, ao que Ken Parker retruca: "Provavelmente, no lugar deles, eu teria pulado essa refeição". É uma crítica velada de Berardi ao estilo verborrágico e invencível das séries tradicionais da casa.

A sequência termina com a aparição do desenhista Ivo Milazzo, que anuncia a chegada de um cowboy que é a cara do editor Sergio Bonelli. Berardi "se faz de louco", numa divertida referência ao fato de esperar uma bronca por ter brincado com tantos personagens e com o próprio estilo da editora.

Luke Luke também aparece. 


Pouco depois, Ken e Pat encontram um cowboy solitário indo para o cemitério e comentam que ele parece visivelmente triste — um curioso contraste, já que o personagem é uma versão realista de Lucky Luke, das tiras humorísticas de Morris e Goscinny.

No final, quem consegue os trabalhadores é Pat, ao seguir um velho bêbado. O grupo formado é heterogêneo e disfuncional: inclui, além do próprio velho, um homem negro (que Pat, inicialmente, rejeita por preconceito, num traço de realismo da época), um rapaz obrigado a se integrar devido a uma dívida de jogo e um senhor de meia-idade misterioso.

O desenhista e o editor também aparecem na HQ. 


Assim que a jornada começa, o tom de humor dá lugar ao aspecto humano. O roteiro foca nas características e traumas de cada integrante da trupe. Ao enfrentarem dificuldades como a poeira, ataques indígenas e ladrões de gado, o leitor passa a simpatizar com aquele grupo que, no fim das contas, acaba se tornando uma família.

O grupo de cowboys é disfuncional, mas carismático. 


O desfecho traz um momento de profunda emoção: com a missão cumprida, Ken Parker vai embora. É provável que a despedida tenha sido um drama também para os autores, pois Pat O'Shane era uma personagem carismática que conquistara o público. Contudo, manter Ken fixo na fazenda reduziria as possibilidades narrativas de um personagem que nasceu para ser um andarilho. A separação era a única solução para que Ken Parker continuasse a ser quem era.

A noite dos palhaços mudos

 


Na segunda metade da década de 1980 as bancas brasileiras foram inundadas por uma série de revistas em quadrinhos revolucionárias. Entre as mais revolucionárias estava a Circo, editada por Toninho Lima e Luíz Gê.

O número 4 dessa revista, publicado em 1987, apresentou a história A noite dos palhaços mudos, de Laerte.

Essa HQ explodiu a cabeça de muitos leitores na época e por muitos motivos.

Para começar, era uma história praticamente sem textos ou diálogos. Um ou outro diálogo aqui e ali, mas os protagonistas, como dizia o título, eram mudos, se expressando principalmente graças à linguagem corporal. E o roteiro era incrível, provando que um bom roteiro não precisa de uma imensidade de texto (incrível como, quando critico o roteiro de alguma HQ, sempre aparece alguém perguntando se eu queria mais texto).

Segundo, era uma metáfora muito efetiva e poderosa. O Brasil tinha acabado de sair de uma ditadura militar em que artistas principalmente haviam sido duramente perseguidos. A situação se reflete na HQ na figura do palhaço que será executado por homens engravatados.



Terceiro, Laerte brincava com as sequências, usando desde sequências muito detalhadas até grandes elipses (ou seja, sabia exatamente o que precisva ser mostrado e o que podia ficar por conta da imaginação do leitor), revelando um domínio realmente impressionante da linguagem quadrinística.

Este ano a editora Conrad resolveu lançar essa história num álbum fino, dentro do projeto HQ para todos, com quadrinhos a R$ 9,90. Além da história original, o volume conta com outras HQs curtas feitas por Laerte para outras publicações, inclusive fanzines.

É uma chance de novas gerações terem contato com essa obra seminal do quadrinho nacional.

E não poderia ser lançada em momento mais oportuno.

sexta-feira, setembro 04, 2026

X-men - Dias de um futuro esquecido

 

A capa do número 141 se tornou uma das imagens mais famosas e imitadas dos comics.

Depois da saga da Fênix, parecia que os X-men nunca mais alcançariam o mesmo nível de qualidade ou apresentariam uma saga tão importante quanto. Veio uma história chamada Elegia, que era apenas um resumo de toda a saga dos mutantes e uma saga em duas partes com Wendigo. Nada muito empolgante.

Então John Byrne e Chris Claremont nos trouxeram Dias de um futuro esquecido. Publicada em apenas dois números (The Uncanny X-men 141 e 142), essa história era tão revolucionária do ponto de vista de concepção e se tornou imediatamente um clássico.

Na trama, a morte de um senador cria um imenso sentimento anti-mutantes que leva um candidato radical a conquistar a presidência dos EUA. Para implementar sua plataforma segregacionista e dar uma solução final ao problema mutante, ele reaviva os sentinelas, que, na ânsia de eliminar a ameaça mutante, mata a maior parte dos super-heróis e vilões. Os poucos que sobrevivem são confinados em campos de concentração e obrigados a usarem colares que inibem seus poderes. E agora os sentinelas querem continuar seu plano de eliminação indo para outros países, o que pode provocar uma guerra atômica que irá acabar com a humanidade. É uma visão extramemente sombria do futuro.

A história mostra um futuro distópico. 


A história inicia no ano de 2013, com Kate Pride se encontrando com Wolverine (que faz parte da resistência canadense) e recebendo dele um equipamento que irá desativar os colares. O plano é usar uma telepata para fazer a consciência de Kate voltar para o início dos anos 80 e salvar o senador, evitando que esse futuro distópico se realize.

A trama segue em paralelo: de um lado Kate Pride tentando convencer os X-men a ajudá-la a salvar o senador de um ataque da Irmandade mutante (e depois a batalha que se segue) e os mutantes do futuro tentando um plano B para acabar com os sentinelas e no processo sendo mortos um a um.

O mais assustador é que, embora os x-men consigam impedir a morte do senador, a história não mostra o futuro, deixando em aberto se ele foi mesmo alterado ou não.

Uma curiosidade é que o filme O Exterminador do futuro, que tem premissa muito parecida, é de 1984, três anos depois – o que levou muitos leitores a se perguntarem se os quadrinhos não teriam influenciado o filme.

A página da discórdia. 


Em tempo: essa história foi a pá de cal na relação entre John Byrne e Chris Claremont, que já apresentavam discordâncias criativas há muito tempo. Em determinado trecho do futuro, Wolverine abria a porta do edifício Baxter e entrava. Para dar destaque à personagem Ororo, de quem gostava mais, Claremont mandou Terry Austin redesenhar o quadro – que ficou no mínimo estranho, pois o Wolverine aparece pegando na maçaneta da porta anteriormente e depois aparece na frente dos outros.


 Para se vingar, Byrne fez uma capa em que Wolverine aparece em primeiro plano, sendo morto por um sentinela com uma rajada, num desenho extremamente detalhado. E, na mesma imagem, aparece a Tempestade morta na mão do robô. Mas enquanto o carcaju mereceu todo o capricho do mestre, a heroína parece um boneco.  

Deus salve o trouxa, de Donald Westlake

 


Pouco conhecido no Brasil, Donald E. Westlake é um dos mais importantes escritores policiais de todos os tempos. Seu grande diferencial era a capacidade de introduzir humor nas histórias, algo que pode ser perfeitamente observado no livro Deus salve o trouxa, publicado pela Artenova em 1972.

O protagonista e narrador da história é Fred Fritch, o maior trouxa que jamais existiu. A grande habilidade de Fred é cair em qualquer lorota que lhe contem. “Creio que tudo começou cerca de vinte e cinco anos atrás, quando voltei para casa sem calças no meu primeiro dia no jardim de infância”, conta o personagem “Daquele dia em diante minha vida tem sido uma série interminável de descobertas tardias. Os trapaceiros botam o olho em mim, esfregam as mãos e logo saem alegres a jantar um belo bife, enquanto o pobre Fred Fitch fica sentado em casa e mais uma vez a jantar as unhas”.

O livro inicia, aliás, com as narrativas dos vários golpes da qual ele é vítima. É o inquilino falso do vizinho que quer dinheiro para pagar o frete de uma encomenda que não existe, é a compra de um pule falsificado. Quando o protagonista compra um jornal, um policial o segue alegando que ele passou uma nota falsa. Vistoriando sua carteira, descobre mais várias notas falsas e as confisca para análise. Claro que é apenas um golpe.

Entretanto a vida desse herói azarado e crédulo vira de cabeça para baixo quando ele recebe uma herança de um tio desconhecido. A partir daí ele passa a ser alvo dos mais diversos trapaceiros. Destaque para o vizinho tentando convencê-lo a investir em um livro sobre aviões na época de Júlio César. “Eles usam metralhadoras?, pergunta fred. “Claro que não. A pólvora só foi inventada muito tempo depois. Faço questão de manter a fidelidade histórica!, responde o vizinho.

Mas não são só trapaceiros: alguém está querendo assassiná-lo.

O resultado dessa premissa inusitada é um livro divertido, repleto de ação e com uma surpreendente reviravolta final, no melhor estilo das melhores histórias policiais. Um final, aliás, que já está antecipado nas primeiras páginas.

Eu comprei esse livro em 1996, mas só recentemente peguei para lê-lo. Foi quando descobri que as páginas pulavam da 96 para a 129. Analisando a lombada, percebi que não houve qualquer alteração na encadernação. O livro tinha saído daquele jeito da gráfica e a editora, ao invés de descartar, resolveu colocá-lo à venda.  Pelo jeito, o trouxa não é apenas o protagonista, mas também quem comprou essa edição amputada. Poucas vezes um título fez tanto sentido.  Em tempo: a leitura estava tão divertida que eu continuei mesmo assim até o final.

A era de ouro da DC

 

Em 2010 a DC Comics completou 75 anos. Para comemorar, a Panini lançou no Brasil uma coleção em quatro volumes, cada um reunindo histórias de um período: Era de Ouro, Era de Prata, Era de Bronze, Era Moderna.

O volume Era de Ouro reunia as primeiras histórias de alguns dos personagens mais populares da editora, a começar, claro, pelo Super-homem, o personagem que não só criou a DC como fundou todo um novo gênero nos quadrinhos.
A história que abre o volume é a primeira do Homem de aço, cuja capa se tornou célebre com o herói batendo um carro contra uma pedra enquanto malfeitores fogem apavorados. Essa história havia sido recusada por vários editores – e dá para perceber facilmente as razões. A trama é mal-engendrada, com pulos narrativos estranhos.
Depois de uma pequena introdução, na qual Jerry Siegel, o roteirista, estabelece a verossimilhança da história comparando o personagem às formigas que carregam várias vezes seu peso ou o gafanhoto capaz de dar saltos enormes, a história começa no meio. O Super-homem salta no ar com uma moça nos braços. Ela é a verdadeira culpada de um crime e o herói precisa convencer o governador a perdoar uma moça que será executada em seu lugar. Depois a história pula para outra trama e para outra, sem muita conexão.
A sequência do carro, apesar de famosa, é bizarra. Bandidos sequestram Lois Lane. O Super-homem pega o carro em que estão e o sacode, fazendo os bandidos caírem – o problema é que pela lógica, também a jornalista cairia do carro. Siegel, um garoto na época, estava nos seus primeiros passos como roteiristas e o que acaba se destacando é a arte de Joe Shuster. Seu desenho elegante certamente foi fundamental para o sucesso do personagem.
Flash ganha poderes após fumar no laboratório de química. 


O volume traz também a origem do Flash, escrita por Gardner Fox e desenhada por Harry Lampert. Fox também escreve a história da Sociedade da Justiça. Seu texto estava muito longe do que viria a ser na era de prata, quando ele ajudaria a revolucionar os heróis DC. O roteirista parecia estar convencido de que escrevia exclusivamente para crianças – o que fica óbvio na história da Sociedade da Justiça, mas também pode ser percebida na origem do Flash.
Lendo essas histórias há coisas que parecem estranhas. Flash, por exemplo, se transforma no herói graças a um acidente provocado pelo fato dele estar fumando no laboratório de química! O interesse romântico do personagem, Joan, parece uma patricinha convencida, que se interessa pelo herói apenas quando ele usa suas habilidades recém-adquiridas para ganhar o campeonato de futebol americano. Além disso, o uniforme do Flash surge do nada, no meio da HQ.
As duas melhores HQs do volume são as dedicadas ao Capitão Marvel e à Mulher Maravilha.
O desenho de CC Beck chamava atenção pela elegância. 


O desenho de CC Beck no Capitão Marvel é simplesmente lindo. Com poucos traços, mas eficiente e com sequências que remetem diretamente à art decó, como no quadro em que aparece o metrô. O uniforme do personagem é igualmente bonito. Além disso, o roteiro de Bill Parker já nos apresenta um personagem acabado, e não em construção. Sua origem é bem estabelecida, assim como o clima das histórias, voltado para a magia – em oposição ao Super-homem, que era calcado na pseudo-ciência.
As histórias da Mulher Maravilha tinham uma qualidade muito acima do restante.


A melhor história do volume é a origem da Mulher Maravilha, escrita por Charles Moulton com desenhos de H. G. Peter.
Peter já era um desenhista de experiência quando embarcou no mundo dos quadrinhos e isso é facilmente perceptível pela forma competente como ele cria visualmente a Ilha Paraíso. Seu desenho tem um apelo vintage que o faz interessante até os dias atuais.
Mas o destaque vai mesmo para o texto de Moulton (pseudônimo do psicólogo William Marston). Marston tem pleno domínio da narrativa e cria sua própria versão da mitologia grega, atualizando-a e adequando à personagem.  Até mesmo quando os quadrinhos são substituídos por texto corrido acompanhado de ilustrações, a história não perde o encanto, tal a qualidade do texto.

Planeta 51: ficção científica como metáfora política

 

Planeta 51  é um filme de animação espanhol-inglês dirigido por Jorge Blanco, escrito por Joe Stillman. A história se passa em um planeta extraterrestre semelhante à Terra dos anos 1950. O protagonista é Lem, um garoto de 16 anos que sonha um dia dirigir o planetário da cidade. Sua vida é mudada quando ele descobre, escondido no planetário, um astronauta terrestre se escondendo das autoridades. 
O filme é uma espécie de ET ao contrário, com um humano em um planeta alienígena tentando voltar para a nave e tendo de fugir da perseguição oficial. 
Os fãs de ficção científica mais atentos vão se deliciar com as centenas de referências a outros filmes. Um cachorrinho, por exemplo, tem a cara do Alien e urina ácido. Outro grande referencial é Vampiros de almas, de Don Siegel, 1956, filme em que extraterrestres tomam o lugar de humanos em uma pequena cidadade do interior dos EUA.  Vampiros de almas foi escrito como uma crítica à paranóia anti-comunista que dominou a América nos anos 1950, em que se imaginava que qualquer um podia ter se tornado um comunista. Planeta 51 retoma essa premissa na cena em que o general acusa um hippie de ter sido transformado em zumbi pelo terrano apenas porque ele usa cabelo comprido. 
Planeta 51 tem, portanto, uma mensagem política. É sobre o medo do novo e sobre o conservadores versus inovações sociais. A cena em que os soldados avançam sobre os hippies com cacetetes é, nesse sentido, emblemática.  

CPF cancelado

 


Fundo do baú - O bem-amado

 


Nenhuma série  de televisão conseguiu sintetizar tão bem a política brasileira quanto O bem-amado, de Dias Gomes. Exibida de 1980 a 1984, era baseada numa novela do próprio Dias, de 1973 e, por sua vez, era baseada numa peça de teatro da década de 60. Dias Gomes usava o humor para criticar, de maneira genial, a ditadura militar e a classe política brasileira.

Na história, Odorico Paraguaçu (interpretado por Paulo Gracindo) era um típico coronel do interior da Bahia que domina completamente a política da região.  Sua obsessão é inaugurar o novo cemitério da cidade, mas há um problema: ninguém morre em Sucupira. Na história original, Odorico é morto pelo seu jagunço Zeca Diabo (Lima Duarte), sendo, ironicamente, o cadáver que inaugura o cemitério.

Na década de 80, Dias Gomes ressuscitou a história, mudando o contexto e ampliando muito a trama (os personagens chegam a viajar para Nova York) e usando o pano de fundo para criticar tudo que ocorria na política nacional.

Odorico era famoso pelas frases de efeito e pelos neologismos, como “Vamos botar de lado os entretantos e partir logo pros finalmentes”, “Pra cada problemática tem uma solucionática”, “mormente”, “apenasmente” e “bastantemente”.

Além de Odorico e Zeca Diabo, o seriado contava com outros personagens marcantes, como as irmãs Cajazeiras, que idolatravam Odorico e o defendiam mesmo quando fazia as piores barbaridades, e o tímido e gago secretário Dirceu Borboleta, seu puxa-saco oficial.

X-men contra a Irmandade de Mutantes

 

A Feiticeira Escarlate aparece de verde na capa. 


A Irmandande de Mutantes, um grupo liderado por Magneto que tem como objetivo conquistar a humanidade, surgiu no número quatro da revista X-men.

Hoje em dia essa edição parece muito curiosa, a começar pela capa, na qual a Feiticeira Escarlate aparece de... verde! Sim, o colorista errou a cor do uniforme da moça e ninguém na redação percebeu. E estamos falando de uma personagem cuja cor é tão importante que aparece até no nome. Outro aspecto curioso é o fato de tanto a Feiticeira quanto Mercúrio aparecerem como vilões nessa história, eles que depois se tornariam heróis e fariam parte dos Vingadores.

O Homem de Gelo parecia um boneco de neve. 


A história começa com os X-men treinando na Sala do Perigo. Mais uma curiosidade: O Homem de Gelo parece ter o corpo formado por neve, e não gelo, e usa botas! O resultado é ridículo como se fosse um boneco de neve feito por uma criança. Essa sequência termina com um bolo, que a Garota Marvel tira da caixa com seus dons telecinéticos e Cíclope corta com os raios saídos de seus olhos.

Se o clima entre os X-men é de confraternização, na Irmandade de Mutantes é de conflito aberto. Mercúrio reclama que Groxo se comporta na mesa como um porco e o Mestre Mental assedia a Feiticeira.

Os X-men confraternizam. A Irmandade dos Mutantes briga. 


Mas, apesar das brigas, o grupo tem um plano: conquistar a pequena república de Santo Marco. Para isso eles usam um navio roubado por Magneto e as ilusões do Mestre Mental, que faz aparecer diante dos assustados nativos um exército com milhares de homens. Há aqui, um outro aspecto que hoje parece extremamente incoerente: o exército invasor usa uniformes parecidos com os de nazistas, com a suástica substituída por um M de Magneto. Se lembrarmos que Chris Claremont iria estabelecer Magneto como um judeu, vítima de nazistas na II Guerra, essa sequência é muito estranha.

Os soldados de Magneto usavam uniforme nazista. 


Claro que os X-men aparecem para acabar com a festa e aqui temos mais um problema. À certa altura o Fera coloca fora de combate dois soldados de Magneto, mas é derrubado por Groxo, ficando pendurado nas paredes so castelo. Para tentar se livrar do atacante, o Fera joga pedras nele, mas Stan Lee parece não ter entendido a imagem, em especial as linhas cinéticas, e escreve os diálogos como se o oposto estivesse acontecendo: “Ele é muito forte! Vou jogar essas pedras para evitar que ele suba até o topo!”.

Groxo está desviando das pedras, mas o texto dá a entender que ele está jogando as pedras no Fera.


Parece que naqueles primeiros números dos mutantes ninguém parecia saber exatamente o que estava fazendo.

quinta-feira, setembro 03, 2026

Abapuru e Monteiro Lobato

 

Ano passado um dos assuntos foi o quadro Abapuru. Alguém sugeriu que o quadro "Batalha do Avaí", de Pedro Américo (1843-1905), "deveria representar a arte brasileira no mundo" e chamava o quadro de Tarsila de merda. Os fãs de Tarsila correram para defendê-la com razão.
O problema é que um desinformado resolveu colocar Monteiro Lobato na história. Segundo ele, o internauta que chamara Abapuru de "merda" estava apenas refletindo a opinião já exposta anteriormente por Monteiro Lobato.
Foi o suficiente para a tag Monteiro Lobato chegar aos TTs e para mostrar como a esquerda pode ter tão analfabeta quanto a direita.
A tag teve de tudo, de gente dizendo que o Abapuru foi pintado por Anita Malfatti a gente dizendo que Lobato era inimigo do casal Oswald-Tarsila e até acusações de pedofilia.
Lobato era amigo íntimo de Oswald de Andrade e de sua esposa. Lobato era editor de Oswald e de vários outros modernistas. Lobato nunca criticou o Abapuru. Seu único texto sobre a semana de arte moderna, foi elogiando a semana e elogiando o gênio de Oswald (o que provocou ciúmes no Mário de Andrade). Aliás, Oswald queria que Lobato fosse o patrono da semana - acabou perdendo para Mário, que preferia Osvaldo Aranho.
Aliás, Abapuru foi pintado depois que Tarsila fez uma visita às cidades históricas de Minas Gerais e, encantada com o que viu, deixou de imitar a arte européia e passou a buscar uma arte tendo como referência a cultura nacional... que era exatamente a proposta de Monteiro Lobato para arte brasileira.

Perry Rhodan – Levtan, o traidor

 

O volume 34 da série Perry Rhodan mostra os terranos em pleno conflito contra os saltadores, os mercadores galácticos que não admitem concorrência.

Nesse número específico, um saltador que havia sido expulso de sua comunidade pela conduta fraudulenta procura Rhodan com o objetivo de vender um segredo: os saltadores estão estão fazendo uma reunião de chefes de clãs na qual irão decidir o destino da Terra.

O chefe da terceira potência resolve aproveitar a situação. Assim, reforma a nave de Levtan e usa seus mutantes para convencê-lo a ir para o plano onde está acontecendo a conferência.

O interessante do volume é imaginar qual o plano de Rhodan. “O que ele pretende com isso?” é uma pergunta que o leitor se faz o tempo todo nessa trama que ali pelo final se torna uma grande narrativa de suspense.

A capa original alemã. 


O escritor do volume, Kurt Brand tem a mania de produzir frases e até parágrafos sem muito sentido, ou com metáforas estranhas, que dificultam a compreensão do que está sendo narrado, como em: “A coronha de sua arma não pertencia ao nada: era a mais dura realidade”.

Ainda assim, a trama é bem elaborada e prende o leitor.

O que talvez incomode um leitor moderno é a forma como são mostradas explosões atômicas. À certa altura, por exemplo, uma bomba explode dentro de um prédio e algumas pessoas sobrevivem – algo que se sabe hoje, é impossível.

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso ou morto. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

Ela vai ter um bebê

 


Existem alguns filmes que peguei pela metade na TV e, mesmo sem saber o título, diretor, nada, foi uma paixão imediata. Um exemplo disso foi Ela vai ter um bebê, película de 1988 escrita e dirigida por John Hughes.

O filme conta a história de Kristy  (Elizabeth McGovern) e Jake Briggs (Kevin Bacon), um jovem casal convivendo com a vida de recém-casados. A gravidez, que dá título à obra, só aparece no meio do filme para a frente. Toda a parte inicial é focada nos problemas dos recém-casados, como a relação com os sogros, as cobranças por filho, a dificuldade em montar a casa e até mesmo situações em que os dois são tentados a trair.

O aspecto que torna esse filme interessante – e que me fisgou enquanto zapeava pelo controle remoto – é o fato do filme mostrar o ponto de vista de Jake e sua imaginação e a respeito dos acontecimentos. Isso gera cenas totalmente simbólicas, que flertam com o surreal, como a da dança dos cortadores de grama ou aquela em que Jake anda pela agência tentando encontrar a mãe de um bebê e não consegue.

Hughes constrói um filme no qual realidade e ficção se misturam continuamente, de modo que muitas vezes não sabemos se o que aconteceu foi realidade ou imaginação. À certa altura, por exemplo, Kristy está no banheiro, decidindo se toma ou não o anticoncepcional enquanto, no quarto, Jake se prepara para uma noite de sexo, o que inclui uma série de exercícios com alteres. É quase impossível distinguir, nessa cena, o que é real e o que é imaginação do personagem.

Essa mistura de real e ficcional é, inclusive, a principal fonte de humor do filme, e a razão pela qual uma história banal sobre um casal se torna interessante.

Ela vai ter um bebê, no entanto, tem um ritmo lento, com cenas que muitas vezes são arrastadas, o que pode ter contribuído para que se o filme se tornasse um fracasso de bilheteria (custou 20 milhões de dólares e arrecadou apenas 16 milhões). Uma pena que esses aspecto tenha afastado os expectadores. Se tivessem dado uma chance, teriam descoberto uma obra cinematográfica deliciosa.