quarta-feira, outubro 26, 2016

O fake e a arte

"A arte é uma mentira que revela a verdade" (Picasso)

Vivemos em um mundo de simulacros hiper-reais em que se torna cada vez mais difícil distinguir o que é real e o que não é. Pessoas compartilham notícias falsas sem verificar a veracidade de modo que o falso muitas vezes se sobrepõe ao real. 
Num mundo assim, em que muitas vezes boatos são tido como mais reais do que a realidade, em que pessoas podem ser linchadas e mortas por causa de um boato, a arte tem papel fundamental de nos fazer refletir sobre a realidade. O tema é tão relevante que na Alemanha existe até mesmo um Museu de arte fake. 
Farei aqui uma pequena lista de obras que trataram do tema (vale ressaltar que uso o termo arte aqui no seu sentido mais amplo, incluindo quadrinhos, literatura etc). 
Todos esses trabalhos são exemplos de ficção hiper-real (aqui definida como uma ficção tão verossímil que é tida como real). 



A balela do balão
O mais antigo caso de fake na arte. Edgar Allan Poe foi inovador em tudo, inclusive nisso.  Em 13 de abril de 1844, Poe publicou no jornal New York Sun uma matéria fake sobre um aventureiro que estaria cruzando o Atlântico em um balão. O texto era uma ficção, mas provocou alvorço, tanto que os jornais se esgotaram e houve uma corrida à sede do jornal por parte da população, louca por novidades a respeito do assunto. 




Guerra dos mundos

Em 30 de outubro de 1938, Orson Welles realizou uma adaptação radiofônica do romance A Guerra dos Mundos, de HG Wells. Como forma de verossimilhança, Welles organizou o roteiro na forma de noticiário jornalístico. Ocorre que, embora o programa fosse um teatro radiofônico, muitas pessoas acreditaram que a notícia fosse real, o que provocou pânico generalizado. O episódio foi fundamental para levantar o debate sobre a influência dos nascentes meios de comunicação de massa. Detalhe: tanto Welles quanto H.G. Wells foram processado e ambos foram absolvidos. 




Necronomicon 
No início do século XX, Lovecraft criou uma ficção tão real (ou hiper-real) que muitos passaram a acreditar que ele na verdade estava falando sobre fatos reais. O livro fake Necronomicon foi tido como real e surgiram até mesmo seitas de magia baseadas no mesmo. 



F for fake 
Já na década de 1970, Welles dirigiu um filme sobre um falsificador de arte, que conseguia imitar tão bem o estilo de artistas como Picasso que alguns de seus quadros falsos constavam em museus. O filme discute a questão da realidade-ficção na arte e levanta uma questão: se os quadros do falsificador eram tão bons, por que não eram arte? O que legitima a arte? A assinatura de um grande pintor? O filme traz um bônus: usando de maneira genial a edição, Welles cria uma ficção hiper-real segundo a qual a esposa do diretor teria inspirado os quadros mais famosos de Picasso. 




O nome da Rosa 
Quando lançou seu famoso romance, Umberto Eco acrescentou um prefácio no qual dizia que o livro havia sido escrito por um monge franciscano e apenas traduzido por ele. Posteriormente Eco escreveu um livro sobre O nome da rosa, no qual revelou a verdade, mas o prefácio continua no livro até hoje. 




Operação cavalo de tróia 
JJ Benitez, ao publicar o primeiro livro de sua série de FC sobre a vida de Jesus, incluiu um prefácio no qual afirma que o livro na verdade eram os diários de um major que teria participado de um projeto ultra-secreto de viagem no tempo. Esse texto é tão verossimilhante que muitos acreditaram ser real. 




O artista inventado 
Em agosto de 2005, o artista cearence Yuri Firmeza foi convidado a participar do projeto “Artista Invasor” no Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar. Ao ser informado de que a imprensa de Fortaleza dificilmente dava destaque para obras de brasileiros, ele elaborou uma obra que discute o papel legitimador da imprensa no mercado de arte. Para isso ele criou um artista fake, Souzousareta Geijutsuka, que seria um dos maiores nomes da arte tecnologia no Japão. A imprensa cearense deu grande visibilidade para a exposição do artista japonês. Depois, descoberta a verdade, passaram a criticar Firmeza. Quando grandes jornais do sudeste, Como o Estadão, deram destaque para o caso, destacando a originalidade e impacto do trabalho, a imprensa cearense mudou o discurso: de repente Firmeza não era mais um moleque, era um gênio da arte. Ou seja: os fatos confirmaram aquilo que o artista discutia em sua obra: a legitimação da arte a partir da imprensa. 



Delegado Tobias 
Em 2015,  do escritor Ricardo Lísias publicou o ebook Delegado Tobias,. No livro, em que o personagem título investiga a morte de Ricardo Lísias (o próprio autor do e-book) e a narrativa usa nomes de pessoas reais, recortes de jornais e documentos jurídicos fictícios. Alguém, ou ingênuo, ou mal-intencionado, denunciou-o à justiça por falsificação de documentos jurídicos e instalou-se um processo para investigar o caso. Justiça federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal foram mobilizados para investigar o caso, com enorme gasto de dinheiro público. Quando ficou claro do que se tratava, cada órgão jogou a culpa no outro e todos declararam que não investigavam ficção. A própria justiça teve que declarar oficialmente aquilo que todo mundo deveria saber: falsificação é falsificação e ficção é ficção (por mais verossimilhante que seja). Ou seja: se o autor do livro tivesse entrado num fórum e modificado um documento jurídico, ele estaria produzindo uma falsificação. Mas criar um documento jurídico ficcional e colocá-lo numa obra de ficção, é apenas... ficção. Diga-se de passagem, a pessoa que fez a denúncia provavelmente está respondendo por falsa comunicação de crime.O caso levou o escritor a publicar outro livro, descrevendo o caso kafkiano e discutindo a questão da realidade-ficção. 



A pet humana 
Em 2014, eu e o artista goiano José Loures criamos a obra A pet humana para discutir a transmissão e compartilhamento de notícias falsas na internet. Criamos o caso de uma garota de Santa Catarina que seria a primeira paciente de uma clínica chinesa especializada em transformar seres humanos em pets-humanas. A notícia chegou a ser divulgada em um grande canal e muitas pessoas compartilharam sem se preocupar em verificar a veracidade da história, inclusive alguns amigos, que ficaram chocados quando revelamos que a história era falsa. No caso, o boato não prejudicou ninguém, mas muitos boatos que são compartilhados aos montes na internet podem provocar grandes prejuízos, inclusive mortes de pessoas. Nossa intenção era justamente questionar as pessoas a respeito disso. 


Alan Moore é o artista que mais tem utilizado esse recurso de misturar realidade e ficção. No prefácio de Promethea ele diz que a personagem não é original, mas uma releitura de uma personagem mais antiga, que surgira em um poema do século 18 e chegara a protagonizar até mesmo um pulp na década de 1930. 


Na minissérie 1963, Alan Moore simulou perfeitamente uma revista publicada na década de 1960, inclusive a sessão de cartas. A ideia era criar uma sensação de hiper-realidade, de que o leitor estava de fato lendo um quadrinho da época. 


A estratégia de verossimilhança usada por Alan Moore mistura realidade e ficção. Cada quadrinho apresenta um anexo, como fac-símiles de páginas de um livro, matérias de jornais e até o prontuário médico do personagem Rorschach. Nunca é demais explicar: não se trata de uma fraude. Esses anexos, por mais verossimilhantes que sejam, são apenas ficção. Seria uma fraude se Alan Moore tivesse, por exemplo, ido em uma clínica médica e modificado o prontuário de um paciente real. Mas criar o prontuário médico de um personagem fictício é apenas... ficção. 




Capitão Gralha 
Em 1997 os criadores do personagem O Gralha (entre eles eu) criaram uma estratégia de verosimilhança para o herói. Em um texto de abertura dizia-se que ele era uma releitura do Capitão Gralha, pioneiro herói curitibano da década de 1940, criado por Francisco Iwerten depois de uma viagem aos EUA e visita ao estúdio de Bob kane, criador do Batman. Mas, para surpresa dos criadores, a ficção foi tida como real. Com o surgimento da internet a história se espalhou como boato. O que era uma simples visita ao estúdio de Bob Kane logo virou um estágio, o que era um estágio, virou emprego, e logo Iwerten virou o criador do Batman. Embora os criadores dissessem que a história era uma ficção, a ampliação do boato e o fato de que uma escola de samba pretendia homenagear Iwerten fez com que os criadores resolvessem fazer um anúncio oficial, em 2014, na Gibicon. Ainda assim, há quem continue acreditando na ficção. Existe até um blog que afirma que Iwerten realmente existiu que os criadores estão mentindo. 




  

Por que processar alguém?


Há alguns anos processei um rapaz. Muitos saíram dizendo que eu o havia processado por criticar um trabalho meu. Bobagem. A crítica que ele havia feito era de que a minha série de FC Os Exploradores do Desconhecido era ruim por que os astronautas não usavam toquinha. Sim, toquinha. Não adiantou muito explicar que os quadrinhos devem ser verossimilhantes e não real. Ele era burro e não conseguia entender a diferença entre realidade e ficção, entre real e verossimilhante. Para ele, se os astronautas da Nasa usam toquinha, todos os astronautas da ficção devem usar toquinha.
Eu achei engraçado e passei inclusive a usar esse exemplo em minhas palestras sobre roteiro para explicar a diferença entre real e verossimilhante.
Em nenhum momento pensei em processar - na verdade, ele merecia era um agradecimento por me dar um ótimo exemplo.
Ocorre que chegou num ponto em que ele se tornou inconveniente (como publicar dezenas de mensagens diariamente com o mesmo conteúdo nas minhas redes sociais) e fui obrigado a bloqueá-lo. Mas ainda assim nem pensava em processá-lo. Ele só era um burro insistente e burrice é risível, só isso.
Mas, dois anos depois de bloqueado, a coisa evoluiu para a ameaça e calúnia. Chegou a postar mensagens no meu blog dizendo que ia tentar descobrir onde eu trabalhava e faria tudo para eu ser demitido (tudo por causa de uma toquinha!) e começou a fazer diversas postagens nos mais variados lugares dizendo que eu havia usado de fraude para passar em concurso público. A gota d´água foi quando uma pessoa me enviou um print de uma conversa dele com outra pessoa em que combinavam tentar descobrir onde minha filha estudava.
Aí eu processei. Discordar de mim é uma coisa. Me ameaçar, ameaçar meus filhos e divulgar que cometi um crime é algo completamente diferente.
Da mesma forma, se alguém discorda de mim politicamente, acho engraçado.
Se a pessoa acredita que todas as pessoas devem concordar com um projeto de lei que ela concorda, isso só revela a incapacidade dela de entender a democracia, em alguns concordam, outros discordam e a lei acaba sendo resultado de um consenso. O único lugar do mundo em que uma lei tem 100% de apoio é a Coréia do Norte. Mas autoritários são burros, não entendem como funciona a democracia e a burrice é só risível.
Se a pessoa acha que os deputados devem receber todos os tipos de mordomias e altíssimos salários só por que aprovaram uma lei que eles acharam interessante, isso só revela o desconhecimento deles sobre outros países. Na Suécia, deputados dividem apartamento, dormem em sofás-camas, não têm direitos a empregados e são provavelmente os melhores deputados do mundo, já que a Suécia tem se destacado pela ótima qualidade de vida. Mas se o autoritário acha que os deputados brasileiros merecem todas essas mordomias, paciência.
Nada disso é motivo para processo.
Mas quando a pessoa começa a me ameaçar, a deixar comentários dizendo que vai me fazer perder o emprego e até a titulação acadêmica, aí é crime. Ameaça é crime. Quando a pessoa começa a espalhar que estou usando de fraude em minha pesquisa de doutorado, aí é calúnia e calúnia merece processo. Há mais de cinco anos eu tinha bloqueado esse indivíduo exatamente por sua inconveniência. Hoje, ao desbloqueá-lo, descubro que ele vinha espalhando a calúnia por diversos grupos no Facebook (já fiz print de tudo). Aliás, ainda acrescenta um segundo crime: segundo ela, o fato de eu usar pseudônimo é crime (parece que até hoje as pessoas não entenderam a diferença entre falsidade ideológica e pseudônimo).

Em tempo: discordar de mim não faz da pessoa burra. Tenho amigos tanto de esquerda quanto de direita que vivem discordando de mim e isso é muito rico. Burrice é ser autoritário.

terça-feira, outubro 25, 2016

Mentira de artista e o fake na arte

Mentira de artista, de Fabio Fon é um livro fundamental para quem quiser entender a arte contemporânea. 
Fábio se debruça sobre casos em que a arte utilizou o fake como elemento criador - estratégia antecipada na frase de Picasso, segundo o qual a arte é uma mentira que revela a verdade. 
A estratégia não é nova. Edgar Allan Poe, inovador como sempre, a usou no episódio conhecido como A balela do balão, em que criou uma viagem imaginária da França aos EUA a bordo de um balão e provocou furor entre os leitores do jornal The Sun.
Mas Fábio se concentra na arte contemporânea, e não por acaso.
Num mundo de simulacros, em que é cada vez mais difícil separar realidade de ficção, a arte se torna essencial para refletirmos sobre esses processos.
Os capítulos vão desde artistas fakes a robôs que se fazem passar por artistas, passando pelo ótimo filme F for Fake, de Orson Welles, o mesmo que protagonizou o episódio Guerra dos Mundos, em a dramatização do clássico livro de H.G. Wells foi tida como verdade e provocou alvoroço nos EUA (tanto Welles quanto Wells foram processados e ambos absolvidos).
A arte que lida com o fake é algo tão novo e perturbador que mesmo entre os estudiosos da arte, muitos não consideram arte, até porque muitas dessas obras contestam até mesmo as noções atuais do que é arte ou do que legitima uma obra como artística.
Mas arte é exatamente isso. A arte verdadeira não conforma, não nos acomoda em nossas noções cristalizadas, mas nos faz pensar, refletir e colocarmos em cheque nossas convicções. E o livro Mentira de artista apresenta vários casos em que a arte fez exatamente isso.

Escola sem partido: já começaram as ameaças


Um defensor do escola sem partido deixou aqui no blog mais de 20 comentários com ameaças dos mais variados tipos. Segundo ele, meus dias de isentão estão acabados e logo serei exonerado e perderei meu título de doutor.
Achei curioso o uso do termo "isentão". Ser isento parece ser algo negativo para os defensores do Escola sem partido. Pior: o motivo da denúncia estaria não pelo que falo nas salas de aula, mas por minhas opiniões no meu blog e nos meus perfis nas redes sociais.
A pessoa em questão faz diversas ameaças inclusive ao meu orientador e diz que tem provas de uma suposta fraude em minha pesquisa de doutorado. Ou seja: além de ameaças, calúnia.
Não coloquei a postagem inteira para poupar meu orientador, que aparentemente está sendo ameaçado apenas por ser meu orientador, mas estou tirando print de tudo. Inclusive em outros locais em que a pessoa tem me caluniado.

As mordomias dos deputados e a PEC 241

No Brasil inteiro existe um movimento para diminuir os salários e privilégios de políticos. Aí os deputados respondem aprovando a PEC 241, que mantém seus privilégios intocados por 20 anos. E corrigidos pela inflação. 
Durante 20 anos o Congresso continuará gastando 23 milhões de reais por dia sem qualquer possibilidade de que esse valor seja contestado. 
E agora, um dos defensores dos privilégios dos deputados tem entrado aqui no blog e me ameaçado depois que escrevi um texto criticando essa situação (de uma PEC que mantém intocáveis todos os privilégios dos privilegiados por 20 anos enquanto o orçamento para a população só irá diminuir a cada criança que nasce).


sexta-feira, outubro 21, 2016

A nova definição de petralha

Existe uma narrativa construída pela mídia sobre o momento atual, uma narrativa que foi "comprada" como verdade universal por muitas pessoas. E qualquer um que discorde dessa narrativa é invariavelmente chamado de petista (uma vez que essa narrativa não se sustenta pelos fatos ou pela racionalidade).
Assim:
Se você diz que PT e PMDB governaram juntos o Brasil por 14 anos, você é petista.
Se você diz que Temer foi vice de Dilma por duas vezes, você é petista.
Se você diz que Temer e o PMDB estão tão envolvidos nos escândalos de corrupção quanto o PT, você é petista.
Se você diz que temos o congresso mais corrupto e mais caro do mundo, você é petista.
Se você diz que o congresso atual tem mordomias que poderiam ser retiradas para ampliar os investimentos em educação, saúde e previdência, você é petista.
Se você diz que a política do BNDES (ampliada pelo PT) de emprestar milhões para milionários a juros abaixo da inflação foi um dos principais fatores para nos colocar na crise atual, você é petista.
Se você diz que essa mesma política econômica que nos colocou aqui não só vai continuar como vai ser ampliada, já que o BNDES não vai ser afetada pela PEC 241, você é petista.

sexta-feira, outubro 14, 2016

Os fanáticos do Escola sem partido


Dia desses fiz um teste. Vi essa página em um livro de história da minha filha e resolvi mandar como comentário para a página Escola sem partido.
Mandei essa imagem e enviei para eles, como prova de doutrinação ideológica marxista nos livros escolares.
A página mostra Lula e Dilma, mas fala dos escândalos de corrupção e fala, que, apesar das falcatruas do PT, Dilma conseguiu se eleger e reeleger. O texto, na verdade, é extremamente crítico ao PT, como podem ver.

Pois o Escola sem partido não só considerou que era de fato um exemplo de doutrinação ideológica nas escolas, como ainda me escreveram, pedindo uma imagem de melhor qualidade para colocar no site deles.
Ou seja: a simples presença de uma foto de Lula e Dilma foi considerada por eles como demonstração da doutrinação ideológica marxista nas escolas.
Esse é o nível das pessoas que estão por trás desse projeto.

quinta-feira, outubro 13, 2016

Uma história imaginária

Imaginem um país imaginário. Nesse país imaginário o imperador inventou que uma boa forma de estimular o desenvolvimento do país era emprestando dinheiro para os empresários. E criou um banco para fazer isso.
E o banco emprestava muito. 270 quaquilhões de pessetas. Mas em troca pedia juros tão baixos, tão baixos que não dava para cobrir nem a inflação do período e isso criava um enorme rombo no orçamento.
Para cobrir esse rombo, o imperador foi pedir dinheiro emprestado para aqueles mesmos empresários.
Mas os empresários não tinha entendido muito bem como era a brincadeira e cobravam juros altíssimos.
Então, a dívida que já estava grande ficava maior e maior e maior e maior.
A ideia do imperador não dava certo porque as empresas abriam, mas não havia ninguém para consumir seus produtos - e muitas empresas eram criadas só para que os empresários pudessem pegar dinheiro com governo e investir, alguns até emprestando dinheiro para o próprio governo - porque afinal era muito divertido pegar dinheiro com o governo e depois emprestar para o governo e todos riam muito. O imperador fazia banquetes para seus conselheiros e empresários e todo mundo dizia que o banco era um sucesso e todos se divertiam muito com essa brincadeira.
E a dívida ia aumentando, aumentando, aumentando. Um dia ficou impossível continuar e o imperador disse:
- Olha, todo mundo vai ter que apertar os cintos. Exceto o banco, que o banco é um sucesso.
E comemoraram com um banquete.
Essa é uma história ficcional. Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.

quarta-feira, outubro 12, 2016

PEC 241

Ontem escrevi um texto sobre a PEC 241. Meu texto repercutiu de tal forma que ultrapassou os limites da minha TL tendo sido compartilhado por várias páginas e perfis (não há como rastrear, mas acredito que já sejam mais de 50 mil compartilhamentos).
Fico feliz em saber que mais gente compartilha comigo a revolta de ver, por exemplo, que os gastos absurdos do Congresso ficam preservados, que o BNDES e sua bolsa-empresário nem sequer será afetado pelo teto, enquanto a verba para educação, saúde etc diminui a cada criança que nasce. 
Por outro lado me preocupa. Da última vez que virei meme (em um texto sobre o impacto da publicidade infantil nos quadrinhos que foi compartilhado por milhares de pessoas), muitos não entenderam o que escrevi ou distorceram. 
Então, bom deixar bem claro: não sou ligado a nenhum partido político, seja de esquerda ou direita. 
E como ideologia, sigo a máxima de Lobato: "Isto acima de tudo - seja fiel a ti mesmo".


Os defensores da PEC 241 dizem que não vai haver cortes nas saúde e educação. De fato não vai. Congela e continua como está por 20 anos. Ocorre que a população aumenta, ao contrário do Congresso, por exemplo. 
Pelo PEC tudo continua como está, sem nenhum aumento. Para o Congresso está ótimo. Vão passar os próximos 20 anos gastando 23 milhões de reais, corrigida a inflação. 
Mas para o povo, cada nova criança que nasce, pior fica a situação.
Imagine uma família com um pai alcóolatra, que gasta quase todo o dinheiro com bebida. E uma mãe que gasta comprando todo tipo de futilidades. Assim, a família mal tem dinheiro para a comida das crianças, saúde, educação das mesmas (e nasce uma criança por ano).
Aí chega um consultor e diz que tem uma fórmula mágica para resolver a situação. Basta que cada um continue gastando como gasta, sem aumentar. O pai vai continuar bebendo, a mãe vai continuar comprando vestidos caríssimos. Perfeito. Ocorre que a cada criança que nasce nessa família, pior fica a situação. O dinheiro que era pouco para duas crianças, fica menor ainda para cinco e ainda menor para sete crianças.
E enquanto isso, pai e mão continuam gastando normal, dentro do teto estabelecido pelo consultor.

terça-feira, outubro 11, 2016

Onde precisamos cortar gastos?


BioCyberDrama Saga: HQ Brasileira de Ficção Científica Pós-humana


A primeira edição do álbum "BioCyberDrama Saga" foi lançada em agosto de 2013 pela Editora UFG, por tratar-se de uma obra densa com quadrinhos autorais, foi surpreendente o fato de em menos de dois anos ela esgotar-se.  A obra, uma edição luxuosa, com mais de 250 páginas, formato próximo do A4 e sobrecapa especial, foi uma iniciativa inédita de uma editora acadêmica brasileira que a publicou como parte de uma coleção de livros de arte, chamada "Artexpressão", reconhecendo no âmbito da universidade os quadrinhos autorais como legítima expressão artística.

O álbum teve uma recepção excepcional por parte da imprensa especializada em quadrinhos no país, recebendo resenhas positivas em dezenas de veículos impressos e online que destacaram a singularidade de seu roteiro inspirado em perspectivas pós-humanas e também a arte surpreendente de Mozart Couto, dentre esses veículos destacamos as revistas de circulação nacional "Mundo dos Super-heróis # 52", "Mundo Nerd #2", passando por jornais como Correio Popular (GO), Jornal Opção (GO), Diário de Petrópolis (RJ), Jornal do Pontal (MG), Portal Pipoca e Nanquim, Blog Reverso, Podcast Cidade HQ, Blog Consciências e Sociedades, fanzine Quadritos (RS), Blog Contos do Absurdo; Blog Quadriculado, periódico acadêmico Imaginário (Editora Marca de Fantasia/UFPB), Revista Impacto Pontal (MG), Revista Somnium (SP), resenha em vídeo no Podcast Publigibi, Site Digestivo Cultural , entre muitos outros. Nesse tempo fui convidado a conceder entrevistas a vários veículos da imprensa para falar do álbum e de seus desdobramentos, como Rádio CBN Goiânia, Jornal Opção, Jornal Correio Popular, Revista Gatos & Alfaces e TV Metrópole.

O interesse pela publicação permitiu a organização de lançamentos concorridos, um deles organizado pela Editora UFG no Centro Cultural UFG, em Goiânia, que incluiu uma apresentação especial do Posthuman Tantra, banda performática que eu coordeno.  Na cidade de São Paulo o lançamento aconteceu na seminal loja especializada em quadrinhos Gibiteria e incluiu um debate inicial tratando dos detalhes do processo criativo do álbum, com mediação dos premiados quadrinhistas Laudo Ferreira e Gazy Andraus. Já na cidade de Anápolis aconteceu um lançamento organizado pela UEG – Anápolis, com a coordenação dos professores Ademir Luiz da Silva e Ligia Carvalho, esse lançamento também contou com a performance do Posthuman Tantra e teve excelente recepção do público presente formado por alunos da Universidade Estadual de Goiás.
BioCyberDrama Saga foi selecionado pela curadoria do 8 FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, para a programação oficial de lançamentos. O Festival, o mais importante do gênero na América Latina, aconteceu de 13 a 17 de novembro de 2013 em Belo Horizonte. Outro fato marcante foi a indicação do álbum a uma das categorias mais importantes do "Troféu HQMIX" 2014, considerado o "Oscar" dos quadrinhos brasileiros. BioCyberDrama Saga foi a única obra do estado de Goiás indicada ao troféu em 2014 e concorreu na categoria "Edição Especial Nacional". Sua indicação, comemorada por veículos da imprensa goiana, foi uma prova da qualidade ímpar da obra, já que o ano de 2013 foi um dos anos mais prolíficos da história dos quadrinhos autorais brasileiros com mais de 600 lançamentos na área. Além da mídia impressa, aconteceram apresentações de artigos sobre a obra em eventos acadêmicos e de quadrinhos, BioCyberDrama Saga foi divulgado também em telejornais e na web amplamente, a ponto da obra despertar até o interesse do pesquisador prof. Dr. Ed King, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, um estudioso da ficção científica no contexto da América Latina, com livros publicados sobre o tema. King está estudando a obra como um dos objetos de análise para um de seus próximos livros que trata de obras de ficção científica com o tema do pós-humano criadas na América Latina, e inclusive realizou  entrevista comigo enfocando meus processos criativos.

A Nova Edição do Álbum

Após a primeira edição de BioCyberDrama Saga esgotar-se recebemos, com muito entusiasmo, o convite da Editora UFG para o lançamento de uma segunda edição. Não podíamos perder a oportunidade de criar algo especial para novos leitores e também para aqueles que gostaram da primeira edição, afinal foi uma alegria grande sabermos que nossa obra mereceria uma nova edição. Assim sugeri a Mozart Couto a criação de um epílogo de dez páginas narrando poeticamente um fato importante de nossa saga, pois após várias releituras do volume eu imaginei essa sequência como um fechamento ainda mais significativo. Com a proposta de termos uma edição em capa dura nos entusiasmamos também para a criação de uma arte exclusiva para a capa dessa edição. Mozart surpreendeu-me mais uma vez com a beleza de seus desenhos no epílogo e na nova capa, realizando tudo por sua paixão pelos quadrinhos e por esse álbum em especial. A nova obra inclui também um longo texto de apresentação da segunda edição escrito por mim e no qual inclui citações de 15 resenhas feitas pela imprensa especializada sobre o álbum.
Para a criação de BioCyberDrama Saga, eu (Ciberpajé Edgar Franco, artista transmídia, quadrinhista e pós-doutor em artes), realizei parceria com ao lendário e premiado quadrinhista Mozart Couto para o desenvolvimento dessa saga de ficção científica em quadrinhos. A segunda edição, apresentada na forma de um álbum em formato A4, com 280 páginas e capa dura, inclui a saga completa em quadrinhos, além de uma descrição detalhada do universo ficcional da “Aurora Pós-humana”, criado por Edgar Franco e ainda um making of do trabalho nos anexos, com artes do processo criativo da obra.


Imagine um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e cotidiano, quando milhares de pessoas abandonaram seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Imagine também que neste futuro hipotético a bioengenharia tenha avançado tanto que permita a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Nesse contexto ficcional as duas "espécies pós-humanas” tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo, enquanto uma pequena parcela da população - uma casta oprimida e em vias de extinção -, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças.
A HQ presente no álbum é dividida em III partes. A primeira delas, foi publicada em álbum pela editora paulistana Opera Graphica, com ótima recepção do público e crítica especializada. Tendo sido indicada aos prêmios HQMIX de melhor roteirista (Edgar Franco) e melhor edição especial nacional de 2003. A obra recebeu o prêmio Ângelo Agostini de melhor desenhista de 2003, concedido a Mozart Couto. Em 2013 a Editora UFG publicou a edição completa da obra com as 3 partes da saga, e agora, nessa segunda edição de 2016, além da obra completa foi incluído o epílogo inédito.

O Lançamento:

O lançamento oficial em Goiânia da nova edição de BioCyberDrama Saga acontecerá durante o III FNPAS – Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte sequencial, no dia 22 de outubro de 2016, na FAV – Faculdade de Artes Visuais da UFG – Universidade Federal de Goiás, Campus Samambaia. A sessão de lançamento começará às 18:00 e incluirá performance da banda Posthuman Tantra às 20:00, logo depois o Ciberpajé autografará e realizará desenhos originais exclusivos nos exemplares dos interessados. Excepcionalmente durante o lançamento, o álbum que custa R$60,00 (sessenta reais), será vendido com o incrível preço promocional de R$30,00 (trinta reais).

Serviço:
BioCyberDrama Saga (Segunda Edição)
Álbum em quadrinhos de Edgar Franco (roteiro) & Mozart Couto (desenhos).
Editora UFG – 2016,
280 páginas, formato A4, capa dura.
R$ 60,00 (excepcionalmente será vendido a R$ 30,00 durante o lançamento em Goiânia)

domingo, outubro 09, 2016

Deixar o texto dormir

A pior estratégia para revisar um texto e fazê-lo logo depois de escrevê-lo. Seu cérebro ainda está com o conteúdo na cabeça e tende a completar o texto, muitas vezes até mesmo corrigindo erros ortográficos. Além disso, é difícil ser crítico a respeito de seu próprio trabalho quando se acabou de escrever. 

Existe uma técnica chamada "deixar o texto dormir". Ou seja: escrever e retornar ao texto apenas no dia seguinte. Se não há urgência, podemos dar um tem
po ainda maior, até mesmo meses.
 
Essa distância faz com que o cérebro de certa forma se esqueça do que foi escrito.

Assim, lemos o texto como se fosse escrito por outra pessoa. Já me aconteceu, por exemplo, de roteiros que eu achava ótimos enquanto estava escrevendo me parecerem horríveis e cheios de falhas com o distanciamento do tempo. Por outro lado, roteiros que eu já desistira, por considerar que não eram bons (ou não conseguia bons finais), acabaram sendo aproveitados depois de ter deixado o texto dormir.

Um exemplo disso foi a história em quadrinhos Turma da Tribo. Eu sempre quis fazer algo no estilo Asterix, história em quadrinhos da qual sempre fui fã. E escrevi algumas páginas, de apresentação dos personagens, e abandonei. Não parecia ter futuro e, apesar de ter os personagens e um foco narrativo, não tinha trama. Anos depois, quando conheci Ricardo manhaes, que tinha um estilo totalmente franco-belga, fui reler aquelas primeiras páginas. A história, que no primeiro momento, parecia difícil de ser escrita, depois de alguns meses praticamente se escreveu sozinha.

sexta-feira, outubro 07, 2016

O petróleo e o nacionalismo


Na primeira metade do século XX, Monteiro Lobato sonhou transformar o Brasil em uma potência econômica. 
Ao visitar os EUA, ele percebeu que o petróleo era a chave do desenvolvimento e, ao voltar ao Brasil, criou uma empresa para explorar o outro negro no nosso país. 
Foi aí que descobriu que a Shell estava comprando terras petrolíferas no Brasil como uma reserva própria de petróleo. 
E a Shell não queria concorrência: funcionários públicos e políticos recebiam para boicotar a empresa de Lobato.
Chegaram ao cúmulo de concretar um poço que estava vazando petróleo. Lobato chegou a ser preso por sua luta pelo petróleo.
Agora, quase 100 anos depois, a Shell finalmente conseguiu seu objetivo e, claro, graças aos políticos, inclusive os que se dizem nacionalistas. Para algumas pessoas, ser nacionalista é apenas posar para foto ao lado da bandeira. 

segunda-feira, outubro 03, 2016

Conflito de gerações


Observe os animais. Todos fazem a mesma coisa que todos os outros de sua espécie fizeram. Gatos caçam ratos da mesma maneira que seus pais e avós. Castores constroem represas da mesma maneira que seus ancestrais. Por mais elaborada que seja a realização animal, ela será sempre igual às das gerações anteriores.

Existe um único animal que inova e faz coisas diferentes a cada geração: o ser humano. Nós vivemos em um mundo muito diferente de nossos pais e nossos filhos viverão em um mundo muito diferente do nosso. Tudo muda: os meios de transporte, os meios de comunicação, a forma de produzir alimento, os comportamentos, tudo.

E qual a chave dessa característica? O que faz com que sejamos uma espécie tão inovadora? A resposta está na infância estendida, ou, como chamamos, adolescência.

O filósofo Thomas Kuhn identificou que quase todas as grandes revoluções científicas foram feitas por jovens cientistas, pessoas que ainda não estavam comprometidas com o paradigma vigente.
Essa inovação vem no bojo de inovações culturais e sociais e, claro, gera um conflito com a geração anterior.

Isso é muito bem exemplificado na história da literatura brasileira: românticos surgiram do conflito com os arcadistas. Realistas surgiram do conflito com os românticos e assim por diante.

Um exemplo mais recente: o movimento da contracultura das décadas de 1960 e 1970 trouxe um sério conflito com as gerações anteriores, com inovações de comportamento, mas também inovações tecnológicas – não há como dissociar uma coisa da outra. A Aple, por exemplo, surgiu dentro do espírito da contracultura, e tinha sua filosofia marcadamente influenciada pela contracultura.

Se não fosse esse conflito de gerações, o fato de cada nova geração inovar a forma como as coisas são feitas, ainda viveríamos nas cavernas, usando pedras como instrumento de caça e desconhecendo o fogo.


Curiosamente, o conflito de gerações, algo que sempre existiu na espécie humana e que na verdade, é o motor da evolução humana, é visto como algo negativo pelos adeptos do escola sem partido. Para eles, filhos devem ser uma cópia xerox de seus pais, seguindo exatamente os mesmos princípios morais, modo de vida etc. Pior: para eles, se existe conflito de gerações, a culpa é da escola e dos professores (de certa forma é: é exatamente esse período a mais de aprendizado que nos permite inovar com relação à geração anterior). Mas o que seria da espécie humana sem isso? Sem as inovações trazidas pela juventude talvez não tivéssemos ainda nem mesmo a roda. 

sábado, outubro 01, 2016

O uivo da górgona


Um som se espalha pela cidade (ou pelo estado, ou pelo país, ou pelo mundo?). Um som que ouvido transforma as pessoas em seres irracionais cujo único o objetivo são os instintos básicos de violência e fome. É o uivo da Górgona.
Acompanhe a história dos sobreviventes neste livro de terror, uma história de zumbis diferente, em que qualquer um pode se transformar, bastando para isso ouvir o terrível uivo da górgona.
Escrito em capítulos curtos, o livro transforma o suspense em elemento de fantasia, prendendo o leitor da primeira à última página. 
Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

Livro Grafipar: promoção relâmpago

PROMOÇÃO RELÂMPAGO: O livro Grafipar, a editora que saiu do eixo por apenas 22 reais (frete incluso). São apenas 6 exemplares. Interessados mandem e-mail para profivancarlo@gmail.com.

quarta-feira, setembro 21, 2016

O homem que inventou o natal




Até o início do século XIX o natal era uma data pouco comemorada e muitas vezes proibida por ser considerada não-cristã. Tudo mudou em 1843, quando Charles Dickens escreveu seu pequeno conto de natal sobre um homem rico e avaro que é visitado por fantasmas.
É sobre esse livro que se debruça Les Standiford no volume O homem que inventou o Natal.
O autor entremeia a biografia do autor (da infância miserável ao sucesso, passando pela decadência nas vendas, da qual seria salvo exatamente pelo Conto de Natal) ao processo de criação da história, passando pela ideologia de Dickens, segundo o qual a ignorância e a miséria eram males a serem combatidos (e seu conto seria uma arma importante nessa guerra).
Algo a se destacar é que o pequeno livro de Dickens (que dificilmente daria mais de 100 páginas) gerou uma obra de quase 200 páginas, o que mostra o quanto era rico o texto original.
Standiford faz um bom histórico do natal antes de Dickens e uma boa análise de como o conto influenciou a visão que hoje temos dessa data, com quase todos os elementos presentes na obra do autor inglês (exceto a troca de presentes, aspecto comercial que não se encaixava na proposta de Dickens).
A prosa é fluída mesmo quando o autor se dedica a analisar literariamente o texto de Dickens.
Talvez o aspecto mais fraco seja a parte referente às adaptações. São referenciadas apenas as adaptações diretas e o autor simplesmente ignora duas adaptações de grande sucesso. A primeira, delas, o Tio Patinhas (cujo nome original, Uncle Scrooge, é uma referência direta ao protagonista do conto de natal). A segunda, o filme Do mundo nada se leva, de Frank Kapra, talvez o mais famoso filme de natal de todos os tempos, diretamente retirado do livro seguinte de Dickens sobre o tema, Os Carrilhões.

sábado, setembro 17, 2016

Decorar é aprender?

Uma cena que tem sido usada como exemplo tanto pelos adeptos das escolas militarizadas quanto do escola sem partido (ao que me parece, são o mesmo grupo) é de um militar tomando a tabuada de crianças numa escola. A cena é aplaudida como exemplo do sucesso desse modelo ao mostrar crianças sabendo a tabuada de cor. 
Mas a pergunta essencial aí é: isso é aprender? 
A verdade é que decorar a tabuada não é relevante. O que é realmente relevante é o que se faz com a tabuada. Uma pessoa pode saber a tabuada de cor e salteado e ser incapaz de passar um troco. 
Por outro lado, Benoit Mandelbrot não aprendeu a tabuada (de família judia ele passou a infância fugindo dos nazistas e não teve uma educação matemática formal), mas criou a geometria fractal e foi um dos mais importantes matemáticos do século XX. 
Eu nunca decorei a tabuada (quando a professora tomava a tabuada eu tinha um método próprio para responder às perguntas). No entanto, acabei me especializando, dentro do campo da comunicação justamente na teoria da informação, na cibernética e teoria do caos, todas de base matemática.
Entender a lógica por trás de algo é muito mais importante do que decorar. Até mesmo um papagaio pode ser ensinado a recitar a tabuada.

terça-feira, setembro 13, 2016

Gazeta do Povo considera livro sobre a Grafipar um dos destaques da Bienal de Quadrinhos


Meu livro sobre a Grafipar, que resgata a história da antológica editora paranaense, foi considerado um dos destaques da Bienal de Quadrinhos pelo jornal Gazeta do Povo. Confira a matéria aqui.

Gazeta do Povo considera livro sobre a Grafipar como um dos destaques da Bienal de Quadrinhos


Meu livro sobre a Grafipar, que resgata a história da antológica editora paranaense, foi considerado um dos destaques da Bienal de Quadrinhos pelo jornal Gazeta do Povo. Confira a matéria aqui.

A escola sem partido, a ética e as convicções morais


A maioria das pessoas que defende o projeto Escola sem partido acredita que quem será afetado será aquele professor militante político, o cara que vai para a escola vestindo boina e camisa de Chê Guevara. Outros se baseiam apenas no nome da lei, um nome completamente enganoso, já que a lei não proíbe partidos de fazerem campanhas eleitorais dentro das escolas.
Na verdade, a coisa toda foi muito bem pensada: acharam um nome com o qual todo mundo concordasse para agradar um grupo de radicais, parecer fazer o bem e, ao mesmo tempo, estimular ao máximo denúncias contra professores.
Quase ninguém que defende o Escola sem partido leu o projeto, que no seu preâmbulo parece lindo, diz favorecer o debate na sala de aula, os vários pontos de vista etc...
Mas a coisa realmente complica é no trecho que define o que é proibido, o que é denunciável.
Como políticos são políticos, eles envolveram sua pílula num doce bonito e gostoso, mas o que era realmente importante estava no artigo 3:

"Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica BEM COMO A VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS OU A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES QUE POSSAM ESTAR EM CONFLITO COM AS CONVICÇÕES RELIGIOSAS OU MORAIS DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS PELOS ESTUDANTES"

Observem como  as palavras foram muito bem escolhidas para permitirem o máximo de denúncias. O texto poderia ter parado em doutrinação política e ideológica (e até aí eu concordo plenamente). Mas observe que depois vem a proibição de qualquer conteúdo ou atividade que possa estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais.
Observem como é evitada a palavra ética em prol da palavra moral.
A ética trata de princípios básicos, universais, de convivência humana. O que é ético, é sempre ético. A moral varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura e até de época para época. Não é à toa que a lei fala em convicção, o que destaca o valor individual da moral. 
Não faz muito tempo, o casamento entre uma mulher branca e um homem negro era considerado imoral (para algumas pessoas ainda é). A escravidão foi considera moral, embora não fosse ética. 
Em alguns momentos, ética e moral podem se encontrar, como por exemplo, na questão de não roubar outra pessoa. Mas na grande maioria das vezes, são coisas muito distintas. 
Um exemplo: uma professora que joga lixo no chão está sendo anti-ética. Seu comportamento pode ser imitado pelos alunos e jogar lixo no chão prejudica toda a comunidade. Mas dificilmente alguém diria que a atitude da professora foi imoral. 
Por outro lado, para muitas pessoas a tatuagem é considerada imoral, portanto um professor que tem tatuagens é imoral, enquanto que para outras pode ser algo absolutamente normal. Ao dizer que estão proibidas a "VEICULAÇÃO DE CONTEÚDOS OU A REALIZAÇÃO DE ATIVIDADES QUE POSSAM ESTAR EM CONFLITO COM AS CONVICÇÕES RELIGIOSAS OU MORAIS DOS PAIS OU RESPONSÁVEIS PELOS ESTUDANTES" a lei deixa para o pessoal e subjetivo a decisão sobre o que é aceitável ou não em sala de aula. 
Em outras palavras: a lei estimula todo tipo de denúncia. Pior: pela lei isso deverá ser afixado na frente de todas as portas de aula. Políticos são espertos: eles sabem que isso vai estimular ainda mais as denúncias num leque extremamente amplo de atividades ou conteúdos que possam estar contra a moralidade deste ou daquele indivíduo.

domingo, setembro 11, 2016

A tal ideologia de gênero...

Uma das principais justificativas para a criação da lei Escola sem partido é a tal ideologia de gênero. 

99,9% dos professores não sabe e não tem a menor intenção de saber o que é essa tal de ideologia de gênero. 
Mas o Brasil e especialmente os professores viraram reféns de dois grupos radicais, um a favor e um contra a ideologia de gênero, ambos apoiados por políticos que têm interesse em piorar a educação brasileira para facilitar a manipulação. 

E essa tal de ideologia de gênero tem sido usada para justificar todo tipo de absurdo, de tratar professor como bandido a aprovar uma lei generalista e denuncista que vai permitir demissões em massa de professores concursados (e que é tão manipuladora que permite partidos políticos fazerem campanha dentro das escolas).

Se esses dois grupelhos de radicais morresse não fariam a menor falta e os educadores receberiam a notícia com um suspiro de alívio porque, finalmente, se começaria a discutir os problemas reais da educação brasileira, como a total falta de estrutura das escolas, as turmas lotadas, professores ganhando menos que um salário mínimo, o déficit de mais de 170 mil professores etc.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Bienal de quadrinhos: Livros de Gian Danton em promoção


Estarei na mesa 48, na Bienal de quadrinhos, vendendo meus livros por preços exclusivos.
Confira abaixo as promoções:

UIVO DA GÓRGONA
De: 35 reais
Por 20 reais

COMO ESCREVER QUADRINHOS
De: 25 reais
Por: 20 reais

FAMÍLIA TITÃ
De: 30 reais
Por: 20 reais

FRANCISCO IWERTEN - BIOGRAFIA DE UMA LENDA
De: 20 reais
Por: 15 reais

GRAFIPAR, A EDITORA QUE SAIU DO EIXO
De: 40 reais
Por: 25 reais


Bienal de Quadrinhos de Curitiba - programação com Gian Danton


Blecaute e Uivo: uma comparação

O leitor Rodolfo Neto publicou em sua página no Facebook uma interessante resenha sobre O Uivo da Górgona, comparando-o com o livro Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva.
Confira abaixo:

Quando eu tinha meus 16 anos mais ou menos tive contato com um livro chamado “Blecaute” escrito pelo Marcelo Rubens Paiva, o livro conta a história de três amigos que, quando voltam de um acampamento, descobrem que a cidade de São Paulo simplesmente paralisou no tempo. Dali em diante eles precisam recomeçar as suas vidas e lidar com a desolação de serem as únicas pessoas no mundo inteiro. O livro todo me chamou atenção por ser uma ficção pós-apocalíptica que se passa no Brasil, tratando de espaços em que o leitor pode facilmente reconhecer.

Agora, fazendo minhas leituras do material que comprei no GorpaCon 2016, me deparo com o “Uivo da Górgona” escrito pelo Gian Danton. O livro apresenta um grupo de pessoas que precisa sobreviver em uma cidade que foi totalmente dominada por seres errantes e sem vontade própria. Mas, enquanto em “Blecaute” o clima é de total perda de sentido da vida, no livro do “Uivo...” existe uma urgência motivada pelo instinto de sobrevivência desde as primeiras páginas, o que faz com que o livro seja tenso – algumas mortes acontecem quando você menos espera – e ao mesmo tempo rápido já que tanto os personagens quanto o leitor aprendem a ficarem em alerta para os perigos que rondam a cidade. O que me chamou mais atenção no livro é que em vários momentos eu me peguei pensando que algumas daquelas situações não acontecem apenas em ambientes extremos, mas que, diante do conforto do dia a dia, nós escolhemos não dar muita atenção pra certas coisas. Seja uma coisa bacana quando uma personagem diz que, devido a necessidade, começou a prestar mais atenção no cheiro das coisas ou mesmo casos de violência familiar que nós decidimos simplesmente não pensar muito a respeito.
Tanto “Blecaute” quanto “O Uivo da Górgona” conseguem chamar atenção por pensarem num Brasil apocalíptico, algo que a maioria dos leitores não está acostumado em ver. Mas, particularmente, o que me chama atenção em ambos os livros é que no fim das contas é que é um livro sobre pessoas. Sobre perda, ilusão e autodescobrimento. No fim o apocalipse é apenas o pano de fundo para uma jornada de descobrimento e amadurecimento das personagens e do próprio leitor. Sendo uma leitura recomendada para todos aqueles que apreciam uma boa ficção pós-apocalíptica com altas doses de desolação e questionamento moral.

quarta-feira, agosto 31, 2016

Como vai funcionar o escola "sem partido"


Não é segredo para ninguém que políticos querem acabar com a educação pública e desviar os recursos para seus próprios bolsos. O sucateamento das escolas é um bom exemplo disso. A maioria das escolas não tem nem mesmo sabão nos banheiros. São salas de aula com goteiras, sem quadras, sem bibliotecas, sem laboratórios.
Mas existe um recurso obrigatório: o pagamento do salário dos professores. Não há como cortar isso.
O escola sem partido oferece uma solução satisfatória para isso. E o melhor: dando a entender que é algo positivo.

O plano é simples e está bem amparado por um projeto de lei extremamente amplo, que permite denunciar o professor por praticamente qualquer coisa que desagrade um aluno ou pai de aluno. O projeto inclui até a obrigação de cartazes na frente das salas de aula, estimulando os alunos a denunciarem seus professores. E, claro, se o professor denunciado for defendido pelos alunos, isso acaba sendo mais uma prova de que ele "doutrinou seus alunos". Ou seja: o projeto inteiro é feito para não permitir defesa.

Então:
1) Os pais são estimulados a denunciar professores.
2) O professor denunciado é demitido.
3) O diretor chama o pai e diz: "Olha, não temos professor para colocar no lugar dele e vamos juntar duas turmas".
4) O processo é repetido na mesma turma.
5) Quando já estão três ou quatro turmas reunidas numa única turma, o último professor é denunciado e demitido e é contratado um substituto temporário, com salário menor que um salário mínimo.


O melhor é que todos, inclusive os pais, ficam felizes. Genial, não?
E, para quem duvida que os concursos para professores temporários pagarão menos de um salário mínimo, melhor dar uma olhada aqui.

O projeto escola "sem partido"


Quem apoia o escola "sem partido"


sexta-feira, agosto 19, 2016

Como resolver de maneiras simples problemas complexos

Os salários dos professores estão entre os mais baixos entre os profissionais com a mesma qualificação. Isso tem provocado uma fuga de professores a ponto de muitas vezes alunos passarem meses inteiros sem aula por falta de professor. Além disso, a maioria das escolas não tem biblioteca ou laboratórios. Em algumas não há nem mesmo cadeiras para os alunos se sentarem. Em algumas escolas a situação de higiene é tão grave que há verdadeiras epidemias entre os alunos. Nas regiões mais quentes o calor dentro das salas de aulas é insuportável. Como podemos resolver todos esses problemas?

Simples, vamos aprovar uma lei para persegui professores